MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E TECNOLOGIA SOCIAL: UM CENÁRIO DE EMPODERAMENTO FEMININO
Luana Bispo
As reflexões presentes neste texto provêm das inquietações que impulsionaram minha pesquisa de doutorado (em andamento) no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI), vinculado à Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Esta pesquisa pretende compreender o papel de potência da mediação da informação na Tecnologia Social em projetos liderados por mulheres para mulheres, em que a informação em estado do compartilhamento firma contribuições importantes no processo de emancipação das mulheres, conforme Henriette Gomes (2017).
A tecnologia social, também chamada de tecnologia apropriada, tem se consolidado nas últimas duas décadas como uma abordagem alternativa e transformadora dos contextos sociais e econômicos, proporcionando qualidade de vida. Compreendida como técnica, produto, metodologia e/ou processo de natureza autogestionária e de baixo custo, a tecnologia social emerge da busca por soluções sustentáveis para problemas concretos vivenciados por comunidades historicamente marginalizadas (Dagnino, 2004). Seu desenvolvimento está enraizado na escuta ativa, na valorização dos saberes locais e na construção coletiva de propostas que promovam impactos sociais e econômicos significativos para o território em que se inserem.
Diferente da lógica verticalizada e tecnocrática, a qual frequentemente marca as inovações oriundas dos centros hegemônicos de conhecimento, a tecnologia social aposta na horizontalidade das relações, na partilha de saberes e no protagonismo social das pessoas diretamente envolvidas nos processos. Trata-se de uma prática que reconhece as pessoas das periferias urbanas e rurais não como meros receptores de soluções, mas como agentes ativos, capazes de criar, adaptar e gerir tecnologias conforme suas realidades, necessidades e potências. Ao romper com a lógica da imposição e da dependência, a tecnologia social inaugura um caminho ético e político de produção de conhecimento situado, colaborativo e comprometido com a justiça social. A Tecnologia Social “viabiliza a interação entre os conhecimentos populares e científicos, o que corrobora para a coletividade e democratização do saber” (Archanjo Junior; Gehlen, 2020, p. 347).
De modo geral, essa perspectiva refere-se ao estímulo e ao uso do saber por grupos sociais que frequentemente permanecem afastados do conhecimento científico dominante e acabam perdendo as oportunidades relacionadas à valorização e manutenção de seus saberes tradicionais. Tal situação repercute diretamente na sustentabilidade econômica e nos aspectos socioculturais das populações pertencentes a essas comunidades (Souza et al., 2023).
As características da tecnologia social estabelecem uma profunda afinidade com o caráter dialógico da mediação da informação. Ambas se fundamentam em processos de escuta ativa, troca horizontal de saberes e compromisso com a transformação social. A mediação da informação, ao se constituir como um espaço de interlocução sensível e crítica, busca não apenas resolver conflitos informacionais, mas também instaurar novas formas de questionamento e reflexão. Destaca-se que tanto a pessoa mediadora quanto a pessoa mediada são instigadas ao exercício do pensamento crítico, à construção compartilhada de novos conhecimentos e à ressignificação de suas próprias experiências. Trata-se de uma concepção de mediação da informação centrada na pessoa, que reconhece e valoriza seus saberes prévios como base para o diálogo.
Nessa perspectiva, a mediação busca potencializar as capacidades individuais e coletivas, contribuindo para a resolução, parcial ou total de necessidades informacionais específicas. Essa abordagem encontra respaldo nos estudos de Oswaldo de Almeida Júnior (2015) e Henriette Gomes (2017), que enfatizam o caráter participativo, emancipador e transformador da mediação da informação.
Quando articulada à lógica da tecnologia social, essa mediação adquire ainda mais potência, pois se ancora em práticas coletivas que reconhecem pessoas como protagonistas de suas trajetórias. A informação, nesse contexto, deixa de ser um insumo técnico ou neutro e passa a operar como ferramenta de conscientização e ação. Ao ser apropriada criticamente pelas pessoas, ela fortalece a autonomia, promove a participação e contribui para o desenvolvimento de práticas emancipadoras enraizadas nas realidades locais.
Recentemente, em levantamento realizado na base de dados Transforma, vinculada ao Prêmio de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, em que é possível encontrar projetos de tecnologia social desenvolvidos nas cinco regiões brasileiras, somados a 16 iniciativas de projetos em países da América Latina, foi possível identificar uma participação expressiva de mulheres como mediadoras e protagonistas das ações desenvolvidas.
Dos 770 projetos cadastrados, 465 contam com pelo menos uma mulher na equipe de coordenação, o que evidencia sua presença ativa na formulação e condução dessas iniciativas. Além disso, 358 projetos são coordenados somente por mulheres; dentre eles, 52 apresentam uma dupla dimensão: são coordenados por mulheres e direcionados para o público feminino. Esses dados revelam não apenas a inserção das mulheres nas tecnologias sociais, mas também sua centralidade na mediação de saberes, na mobilização comunitária e na construção de alternativas sustentáveis, solidárias e territorializadas a partir de suas próprias experiências e necessidades.
Ao contrário das tecnologias derivadas da chamada “hard science” – em que, segundo o Censo da Educação Superior realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apenas 26% das estudantes ingressantes em cursos da área STEM em 2022 eram mulheres, enquanto 74% eram homens (INEP, 2023) –, a Tecnologia Social se configura como um espaço mais democrático e inclusivo, favorecendo a participação e a atuação feminina.
Ao não depender dos circuitos tradicionais do mercado tecnológico, muitas vezes dominados por grandes empresas e sustentados por visões estereotipadas de força, racionalidade técnica e superioridade intelectual, a Tecnologia Social rompe com os filtros estruturais que, por séculos, relegaram as mulheres a funções consideradas secundárias. Esse modelo contra-hegemônico desestabiliza a bio-lógica do poder, do ser e do saber (Quijano, 2000), pela qual o corpo das mulheres foi historicamente subordinado e desvalorizado nos campos da ciência e da técnica.
Nesse cenário, as mulheres hoje à frente de projetos de tecnologia social não apenas coordenam ações, mas atuam como mediadoras da informação, ação essencial que articula saberes, mobiliza potências e promove transformações concretas nos territórios. Por meio dessa mediação, elas despertam habilidades e fortalecem a autoestima de outras mulheres, abrindo caminhos para inserções no mundo do trabalho, ancoradas em práticas locais, no uso criativo de recursos disponíveis no cotidiano e no resgate de saberes tradicionais. Esses saberes, muitas vezes transmitidos de geração em geração, estão profundamente enraizados nas experiências de vida, nas tarefas diárias e na capacidade de improvisar, resistir e reinventar.
Dessa forma, a mediação da informação presente nos processos de construção e implementação da Tecnologia Social potencializa a circulação e o uso da informação por meio de ações democráticas e inclusivas. Esse movimento fortalece a Tecnologia Social não apenas como ferramenta técnica, mas também como um campo político e pedagógico de empoderamento e transformação social, protagonizado por mulheres que elaboram alternativas enraizadas em suas realidades e memórias coletivas.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José. (org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: Abecin, 2015. p. 9-32.
ARCHANJO JUNIOR, Miguel Guilhermino; GEHLEN, Simone. A Tecnologia social e sua contribuição para a educação em ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 20, n. único, p. 345-374, 2020. DOI: https://doi.org/10.28976/1984-2686rbpec2020u345374.
DAGNINO, Renato. Tecnologia social e seus desafios. In: LASTRES, Helena Maria Martins; ALBAGLI, Sarita (orgs). Tecnologia social: contribuições conceituais e metodológicas [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2014. p. 19–34. ISBN 978-85-7879-327-2. Disponível em: http://books.scielo.org. Acesso em: 20 jun. 2024.
FUNDAÇÃO BANCO DO BRASIL. Base de dados de Tecnologia Social Transforma. Disponível em: https://transforma.fbb.org.br/. Acesso em: 24 jan. 2024.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e protagonismo social: relações com vida ativa e ação comunicativa à luz de Hannah Arendt e Jürgen Habermas. In: GOMES, Henrriette Ferreira; NOVO, Hildenise Ferreira (Org.). Informação e protagonismo social. Salvador: EDUFBA, 2017. p. 27-44.
INEP- INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS. Censo da Educação Superior 2023. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/censo-da-educacao-superior/resultados. Acesso em: 20 Jun. 2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y Clasificación Social. Journal of World Systems Research, [S. l.], v.?6, n.?2, p.?342-388, 2000.
SOUZA, Susimara Rosa de; ANDREOLA, Jocélia Felícia; SOUZA, João Carlos de Pellegrim de, DA MOTA, Flávio Freitas; NUNES, Nei Antônio. Pesquisa teórica sobre tecnologia social: um olhar sobre a produção científica no Brasil. Revista Gestão e Secretariado (GeSec), São Paulo, SP, v. 14, n. 12, 2023, p. 22147-22161.
Mini-currículo
Graduada em História e Biblioteconomia. Mestre em História pelo PPGH-UFPB. Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPB. Pesquisa sobre mediação da informação, tecnologia social, gênero e decolonialidade.