GEMINAS - GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM MEDIAÇÃO E REPRESENTAÇÃO DA INFORMAÇÃO E OS MARCADORES SOCIAIS DA DIFERENÇA


  • O Grupo foi criado em 22/05/2020 e propõe-se a dinamizar estudos e pesquisas que focalizam a mediação, a representação e a apropriação da informação, em interface com os marcadores sociais da diferença. Objetiva-se, por meio do compartilhamento de saberes, contribuir para intersecção de estudos entre a mediação, a representação e a apropriação da informação na perspectiva do protagonismo social e o respeito à alteridade.

TECENDO PROTAGONISMOS: AS VOZES DAS MULHERES NA REDE COLABORATIVA DA UNIVERSIDADE LIVRE FEMINISTA

Joelma da Silva Oliveira

No presente texto, apresentamos um recorte do resultado da pesquisa de doutorado intitulada Universidade Livre Feminista: uma abordagem em favor do protagonismo social das mulheres pautada nas dimensões da mediação consciente da informação, cujo foco foi a mediação consciente da informação como elemento crucial na promoção do protagonismo social das mulheres.

A investigação se concentrou nas ações articuladas em rede pela Universidade Livre Feminista (ULF), formada por três organizações comprometidas com a luta feminista, antirracista e anticapitalista: o Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), organização não governamental, feminista e antirracista, de caráter público e sem fins lucrativos, com 25 anos de atuação; a Cunhã Coletivo Feminista, organização social sem fins lucrativos, com sede em João Pessoa (PB), que atua desde 1990 na promoção da igualdade de gênero, dos direitos humanos, do feminismo, da justiça social e da democracia; e o SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia, organização da sociedade civil, autônoma e sem fins lucrativos, fundada em 1981 e sediada em Recife (PE).

O levantamento documental no acervo online da Universidade Livre Feminista, além da pesquisa de campo para a qual utilizamos como instrumento o questionário com as mulheres participantes das formações, mais especificamente dos cursos promovidos pela Universidade Livre Feminista: Curso Feminismo com quem tá chegando; Curso Trilhas Feministas na Gestão Pública, Curso Navegando Juntas pelos desafios da Internet.

O uso das tecnologias no dia a dia ainda representa um desafio para muitas mulheres. Isso se deve a diversos fatores que historicamente favorecem os homens no acesso e no uso dessas ferramentas, tanto no ambiente de trabalho quanto no lazer. Como destaca Sophia Branco (2020, p.13), “entre os desafios encontrados no nosso caminho estão as profundas desigualdades que atravessam a vida das mulheres e o seu acesso às tecnologias”. Os ambientes formativos destinados às mulheres promovem, notadamente, impactos que reforçam a lógica tradicional que orienta o acesso à informação. Aspectos que buscamos reforçar com a discussão no presente texto, na perspectiva do estudo da mediação consciente da informação e sua conexão com o protagonismo social das mulheres.

Infelizmente, as questões econômicas ainda definem a apropriação de quem faz uso das ferramentas tecnológicas. Mesmo com a popularização do acesso à Internet, não são todas as pessoas que têm a possibilidade de tomar parte desse movimento (Mayer, 2017, p.13). E as mulheres, assim como grupos mais vulnerabilizados historicamente pelos regimes de poder, sofrem com a dificuldade ao acesso às tecnologias, e consequentemente pela falta de informações. Porque são as mulheres que, “[...] como outros grupos sociais marginalizados, são afetadas pela falta de informação de forma desproporcional” (Paes, 2016, p.7). A Universidade Livre Feminista (ULF) é uma plataforma de formação política construída de forma coletiva e colaborativa, com origem em 2009. Desde então, tem se consolidado como um espaço inovador de reflexão, troca de experiências e construção de saberes feministas, fundamentado em práticas pedagógicas libertárias, críticas e transformadoras voltadas para as mulheres.

Por meio de cursos, eventos e diversas atividades formativas, a ULF promove o compartilhamento e a mediação da informação, estimulando práticas que fortalecem o empoderamento individual e coletivo das mulheres. Um exemplo desse compromisso é o evento Prosa Feminista, ilustrado no card de divulgação na Figura 1, que integra a programação da plataforma e reforça sua missão de fomentar a ação política das mulheres a partir da educação feminista.

 

Fonte: Dados da pesquisa (2023)

A atuação da ULF está pautada no fazer coletivo e colaborativo, com a intenção de congregar, catalisar e fomentar ações educativas, culturais, artísticas; de produção de conhecimento e compartilhamento de saberes acadêmicos, populares e ancestrais, numa perspectiva contracultural feminista, antirracista e anticapitalista, apresentando-se como mediadora de conteúdos informacionais com vista à cidadania das mulheres (Gomes, Côrtes, 2020).

Percebemos ser de extrema importância entender e compreender a ULF e de como ela é ativa no protagonismo social das mulheres, juntamente com a informação lançando luz às vozes das mulheres. Nesta perspectiva, abordamos o conceito de mediação consciente da informação de autoria da pesquisadora Henriette Gomes (2014), considerando que as dimensões apresentadas trazem aspectos a serem aprofundados de modo que se possa fazer avançar no aspecto teórico que sustente novas experiências do fazer informacional, sobretudo, “[...] no âmbito da ação mediadora do acesso, uso e apropriação a informação, voltada à formação do protagonismo social” (Gomes, 2014, p.48). Para direcionar as discussões aqui propostas, faremos uso da definição fundamentada por Almeida Júnior (2015), que indica que a mediação da informação é

[...] toda ação de interferência – realizada em um processo, por um profissional da informação e na ambiência de equipamentos informacionais –, direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; visando a apropriação de informação que satisfaça, parcialmente e de maneira momentânea, uma necessidade informacional, gerando conflitos e novas necessidades informacionais (ALMEIDA JÚNIOR, 2015, p.25).

É possível inferir, a partir do conceito cunhado pelo autor, que a mediação da informação faz parte de um processo que insere um(a) mediador(a) que irá facilitar a busca, o acesso, a disseminação, favorecendo a apropriação dos sujeitos pela informação. Ou seja, há inevitavelmente a ação de um/a agente mediador(a). Sendo assim, a mediação da informação tem como objetivo favorecer os seus processos de interação e desenvolvimento pessoal e/ou coletivo, além de problematizar a naturalização de desigualdades, a exemplo do racismo e do sexismo. A Universidade Livre Feminista favorece o processo de apropriação da informação para o protagonismo social das mulheres, entendendo a apropriação da informação como um “[...] sustentáculo no processo de conscientização, de domínio, de domínio do conhecimento e de exercício da crítica, elementos essenciais à constituição do sujeito protagonista” (Gomes, 2019, p. 16).

Em decorrência da estrutura patriarcal, racista e classista, gerações e gerações de mulheres convivem com diversas formas de desigualdades, acentuadas pelo machismo, pela misoginia, pelo capitalismo e pelo racismo – fatores que geram exclusão e contrastes que se acentuam dependendo dos marcadores sociais da diferença especialmente gênero, raça e classe pela indissociabilidade (Côrtes, 2024). 

O empoderamento das mulheres envolve o processo da conquista da autonomia, da autodeterminação. Ou seja, o empoderamento traz inquietações em favor da libertação social de todo um grupo, a partir de um processo amplo e em diversas frentes de atuação, incluindo a emancipação intelectual (Sardenberg, 2006). As entrevistas realizadas, na tese, revelam a potência transformadora do processo formativo. Uma das interlocutoras destaca que a vivência contribuiu diretamente para o fortalecimento do protagonismo social das mulheres. Esse depoimento evidencia que o espaço de formação vai além da transmissão de conhecimento: ele empodera, mobiliza e provoca mudanças subjetivas. Trata-se de uma experiência que reforça a ação coletiva e a afirmação das mulheres como sujeitas políticas em seus territórios e lutas cotidianas.

[...] porque as mulheres queriam se colocar, as outras mulheres queriam se colocar, queriam ser, compartilhar as suas dores, enfim, as suas formas de sobreviver num momento tão difícil [...] então, assim, foram muitas coisas, mas eu reconheço que tudo isso colaborou muito para o protagonismo das mulheres (Carolina).

 

Assim, a plena efetivação do direito à informação é um elemento chave para o combate à discriminação, e consequentemente a outras formas de violências e violações de direitos. “O acesso à informação possibilita que as mulheres tomem decisões mais informadas e eficazes relacionadas aos seus direitos, em áreas como educação, saúde, trabalho, direitos sexuais e reprodutivos” (Paes, 2016, p.6-7). São dimensões fundamentais que explicitam o compromisso da Universidade Livre Feminista na sua atuação, sobretudo na práxis educativa, cujos desdobramentos por meio dos cursos online, nas jornadas de formação, nas ações de ativismo e da arte podem ser percebidos e transformados em ação política, especialmente no enfrentamento às violações e violências impostas às mulheres.  As entrevistas realizadas com as mulheres participantes dos cursos da Universidade Livre Feminista revelaram experiências potentes e inspiradoras, trazendo à tona vivências marcadas pelo protagonismo social e pela busca por direitos. Além disso, os materiais enviados se mostraram valiosos, contribuindo significativamente para um aprendizado rico, diversificado e conectado às realidades dessas mulheres.

Os cursos ajudaram muito no empoderamento das mulheres. [...] Foi uma gama de conhecimento enorme. Com certeza só empoderou. Tanto em relação a esse (curso de audiodescrição), como caminhar no mundo digital seguro. E teve outros, ajudou bastante. O conteúdo foi muito legal e eu acho que precisa ter outros cursos, até mais avançados, com Instagram, com mídia social, que hoje em dia está muito em voga (Audre)

 

O potencial de transformação, capaz de promover o protagonismo social, ocorre nas instituições que realizam a mediação da informação para mulheres, oportunizando a apropriação da informação capaz de gerar um processo que, de fato, proporcione mudanças na vida das mulheres, favorecendo o seu protagonismo social.  O presente texto tem como objetivo convidar as pessoas leitoras a conhecer a Universidade Livre Feminista e conclui que a mediação da informação favorece o processo de empoderamento das mulheres e contribui para sua participação ativa na sociedade. O empoderamento individual ou pessoal reflete no empoderamento comunitário, que envolve a capacitação de grupos ou indivíduos, promovendo o engajamento por meio da apropriação da informação e da produção de novos conhecimentos.

 

REFERÊNCIAS

 

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José (org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: Abecin, 2015. p. 9-32.

BRANCO, Sophia. Nas rodas e nas redes: uso da internet por mulheres de movimentos populares. Brasília: Cfemea, 2020.

CÔRTES, Gisele Rocha. A categoria analítica gênero e movimentos feministas: diálogos na Ciência da Informação. Revista Conhecimento Em Ação, v. 9, 2024. p. 1-37. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/view/64409/41614. Acesso em: 12 maio 2025.

GOMES, Henriette Ferreira. A dimensão dialógica, estética, formativa e ética da mediação da informação. Informação & Informação, Londrina, v. 19, n. 2, p. 46-59, maio/ago. 2014. Disponível em: http://www.uel.br/revistas/uel/. Acesso em: 12 maio 2025.

GOMES, Henriette Ferreira. Protagonismo social e mediação da informação. Logeion:

Filosofia da Informação, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 10-21, 2019. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/informacao/article/view/19994. Acesso em: 10 maio 2025.

GOMES, Henriette Ferreira; CÔRTES, Gisele Rocha. Mediação consciente da informação e protagonismo social das mulheres: as práticas informacionais das teorias críticas feministas. In: ALVES, Edvaldo Carvalho et al. (org.). Práticas informacionais: reflexões teóricas e experiências de pesquisa. João Pessoa: Editora UFPB, 2020. Disponível em: https://www.editora.ufpb.br/sistema/press5/index.php/UFPB/catalog/view/769/863/6761. Acesso em: 10 jun. 2025.

MAYER, Claudia. Ciberfeminismo: tecnologia e empoderamento. União da Vitória: Monstro dos Mares, 2017.

PAES, Bárbara. Acesso à informação e direito das mulheres [livro eletrônico] / Bárbara Paes. São Paulo: Artigo 19 Brasil, 2016. 2MB, PDF.

SARDENBERG, Cecília M.B. Conceituando "empoderamento" na perspectiva feminista. I Seminário Internacional: Trilhas do Empoderamento de Mulheres – Projeto TEMPO. NEIM/UFBA, Salvador, Bahia, de 5-10 de junho de 2006.

Breve currículo

Joelma da Silva Oliveira - Doutora em Ciência da Informação (PPGCI/UFPB). Mestra em Comunicação (UFPB). Graduada em Comunicação Social - Jornalismo e Relações Públicas (UFPB). Especialista em Direitos Humanos (UFPB). Assessora de Comunicação das organizações não-governamentais Casa Pequeno Davi e Rede Margaridas Pró-Crianças e Adolescentes - Paraíba. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação da Informação, Representação e Marcadores Sociais da Diferença (Geminas)


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