MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO CONTEXTO MUSEOLÓGICO: A ATUAÇÃO DO MUSEU BRASILEIRO DA CANNABIS NA PROMOÇÃO DA CONSCIENTIZAÇÃO E INCLUSÃO SOCIAL
VITOR HUGO TEIXEIRA
Museus são espaços institucionalizados de memória que se relacionam com a sociedade por meio da exposição de bens culturais, os quais, por sua vez, originam o patrimônio cultural (Loureiro, 2003). Nessa perspectiva, o Museu Brasileiro da Cannabis, inaugurado em 2023 no Centro da capital João Pessoa, é pioneiro no Brasil ao se dedicar à preservação e à educação sobre a história, os usos e os impactos dessa planta (Museu…, 2025, online)
Ao fomentar um aprofundamento da compreensão sobre as vantagens e os desafios que envolvem a planta, o museu – que é uma iniciativa da Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) – transcende a ideia de exposição: atuando como um espaço de ação e aprendizagem sobre aplicações medicinais, industriais e culturais, o equipamento também luta contra os preconceitos históricos ligados a ela (Museu…, 2025, online).
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| Foto: O pesquisador Vitor Hugo Teixeira durante visita ao Museu Brasileiro da Cannabis, em João Pessoa (2025). Fonte: Acervo pessoal. |
Ao reunir uma vasta coleção de artefatos, documentos e informações, o Museu da Cannabis não apenas preserva a memória histórica, mas também promove uma necessária discussão sobre políticas públicas, saúde e direitos civis. Com sua função educativa, o dispositivo se estabelece como um ponto de referência essencial para a discussão acerca da legalização e da regulamentação da cannabis no Brasil: “Ele se apresenta como um símbolo de resistência e inclusão, fomentando uma sociedade mais esclarecida e consciente”. (Museu…, 2025, online).
Assim, dado que “[...] a informação caracteriza-se como subsidiária do pensar e das ações instituintes de novos conhecimentos e saberes” (Gomes, 2020, p. 9) e que a mediação da informação é a “[...] ação central que coloca a informação em favor do desenvolvimento do protagonismo” (Gomes, 2019, p. 11), tal cenário atesta a influência dos museus na formação de uma sociedade mais participativa, enquanto lugares onde os bens culturais móveis são preservados, investigados, apresentados e apreciados pelas pessoas a partir de um olhar renovado, alicerçado na sua missão de democratizar o acesso à cultura (Gouveia Júnior, 2014).
Considerando-se, então, a função singular do museu enquanto comunicador e produtor de discursos (Castro, 2007), o Museu Brasileiro da Cannabis vem para interferir positivamente nessa realidade. Para se ter uma ideia, a eficácia do uso medicinal da cannabis já foi cientificamente comprovada no tratamento de diversas patologias, tais como epilepsia, doença de Parkinson e esclerose múltipla (Brucki et. al, 2015; Aguiar et. al, 2023). Além disso, produtos derivados da planta, produzidos pela Abrace, são utilizados por pessoas com autismo, fibromialgia, Alzheimer, câncer, diabetes, ansiedade, depressão, hidrocefalia, esquizofrenia, artrite, entre outras (Museu…, 2025).
Museus dedicados à cannabis fazem sucesso mundo afora: o maior museu do mundo sobre essa temática fica em Barcelona, na Espanha, com cerca de 12 mil artefatos. Já o museu mais antigo sobre a cannabis existe desde 1985 e fica em Amsterdã, capital da Holanda. Nos Estados Unidos, por sua vez – onde diversos estados já legalizaram o consumo da Cannabis –, a erva virou uma verdadeira atração turística, com museus operando em Las Vegas e em Nova York. Já na América do Sul, o primeiro museu canábico funciona desde 2016, em Montevidéu, no centro da capital uruguaia (Cannabis Medicinal, 2023, online).
Voltando ao Brasil, conforme registro histórico do Ministério das Relações Exteriores, foi em 1549, por intermédio dos negros e negras escravizados/as, que as primeiras sementes de maconha chegaram. Desde então, a erva foi amplamente utilizada por essa população, enquanto a população branca começou a fazer uso somente a partir dos anos 1960 (Museu…, 2025, online). Desse modo, conhecer o histórico de criminalização da cultura e das religiões de origem afro-brasileira é ter cada vez mais evidente que a perseguição à cannabis, operada pelo Estado, sempre consistiu, na verdade, numa repressão à população negra e periférica.
Portanto, uma vez que incorpora segmentos da população historicamente marginalizados, a iniciativa da criação do Museu Brasileiro da Cannabis contribui para a democratização do acesso a esse tipo de ambiente informacional e cultural. Isso, por sua vez, coaduna com a necessidade de considerar os marcadores sociais da diferença – categorias como gênero, raça, etnia, classe social, sexualidade, idade, deficiências, entre outras, que são atribuídas a indivíduos ou grupos e influenciam a forma como eles são percebidos e tratados na sociedade. Nesse sentido, Santos et. al (2023, p. 64) declaram que:
Os marcadores sociais da diferença permeiam as relações em sociedade de forma histórica e estrutural, inclusive nas unidades de informação, cujas políticas institucionais são pautadas numa dominação exercida pelo colonialismo e capitalismo modernos, que violenta e invisibiliza os sujeitos informacionais que não atendem aos critérios instituídos como “normais”. No entanto, nos limites da atuação do(a) profissional da informação, ações mediadoras exercidas de forma consciente contribuem para a criação de um espaço de acolhimento às diversas diferenças, no qual a apropriação da informação seja possível e, de fato, transformadora, a partir do protagonismo social.
O trabalho das pessoas comprometidas com a mediação da informação inclui, conforme aponta Marco Prado (2020), um compromisso de acolhimento voltado ao desenvolvimento de oportunidades para que os valores de empatia e respeito às diversidades se manifestem, propiciando e direcionando os processos de recuperação e assimilação da informação. Logo, há que se considerar os pressupostos de João Arlindo Santos Neto e Oswaldo Almeida Júnior (2017), de que a ação mediadora inclui aspectos ideológicos – o que refuta a concepção de neutralidade.
Pesquisar sobre a mediação da informação em consonância com os marcadores sociais no Sul global possibilita a compreensão de que o lugar da universidade é o da investigação e da crítica, e não o da institucionalidade. Portanto, valorizando o privilégio que é ocupar esse espaço, impera-se assumir uma posição política frente ao fazer científico (informação verbal) (1). Ademais, uma vez que “narrativas implicam em poder e dominação" (Santos, 2015, p. 60), defende-se que a mediação consciente não seja tarefa apenas de quem atua nos equipamentos informacionais, mas de todas as pessoas que, a partir de suas vivências, criam e recriam esses espaços.
Com o primeiro Museu Brasileiro da Cannabis, a Parahyba ajuda o Brasil a despertar.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Andrey Fabiano Lourenço et. al. Long-Term Treatment with Cannabidiol-Enriched Cannabis Extract Induces Synaptic Changes in the Adolescent Rat Hippocampus. International Journals of Molecular Science, v. 24, n. 14, p. 11775, 2023. Disponível em: https://www.mdpi.com/1422-0067/24/14/11775. Acesso em: 13 mar. 2025.
BRUCKI, Sonia Maria Dozzi, et. al. Cannabinoids in neurology–Brazilian Academy of Neurology. Arquivos de neuro-psiquiatria, v. 73, p. 371-374, 2015. Disponível em: https://www.scielo.br/j/anp/a/cBJ9YQppCC54HwNtJQJrbMg/. Acesso em: 20 fev. 2025.
Cannabis Medicinal. Museu Brasileiro da Cannabis é inaugurado na Paraíba. 2025. Disponível em: https://cannabismedicinal.com.br/museu-brasileiro-da-cannabis-sera-inaugurado-na-paraiba/. Acesso em: 03 mar. 2025.
CASTRO, Ana Lúcia Siaines. Memórias clandestinas e sua museificação. Rio de Janeiro: Revan, 2007.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade: Estudos, v. 30, n. 4, p.1–23, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/57047. Acesso em: 02 mar. 202.
GOUVEIA JÚNIOR, Mário. O novo museu e a sociedade da informação. Perspectivas em Ciência da Informação, v. 19, n. 4, 2014. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/36247. Acesso em: 18 fev. 2025.
LOUREIRO, José Mauro Matheus. Museu de ciência, divulgação científica e hegemonia. Ciência da Informação, v. 32, n. 1, 2003. Disponível em: https://brapci.inf.br/v/22202. Acesso em: 17 fev. 2025.
Museu Brasileiro da Cannabis. 2025. Disponível em: https://www.instagram.com/mbcparaiba/. Acesso em: 15 fev. 2025.
Museu Brasileiro da Cannabis. Bem-vindo ao primeiro museu da Cannabis do Brasil. 2025. Disponível em: https://museubrasileirodacannabis.com.br/. Acesso em: 15 fev. 2025.
Museu Brasileiro da Cannabis. Pioneirismo negro no uso da cannabis medicinal. João Pessoa-PB. 22 nov. 2024. Instagram. Disponível em: https://www.instagram.com/reel/Crb8IkfuRmy/?igsh=ZnhpanV5a3poZmth. Acesso em: 22 fev. 2025.
PRADO, Marcos Aparecido Rodrigues. O acolhimento como princípio da mediação da informação. Revista Folha de Rosto, v. 6, n. 3, p. 5-13, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufca.edu.br/ojs/index.php/folhaderosto/article/view/398. Acesso em: 05 mar. 2025.
SANTOS, Andréa Karinne Albuquerque, et. al. Marcadores sociais da diferença no contexto da mediação da informação e das práticas informacionais. InCID: Revista de Ciência da Informação e Documentação, Ribeirão Preto, Brasil, v. 14, n. 2, p. 48–68, 2023. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/incid/article/view/206360. Acesso em: 03 mar. 2025.
SANTOS, Myrian Sepulveda. Por uma sociologia dos museus. Revista Cadernos do Ceom, v. 27, n. 41, p. 47-70, 2015. Disponível em: https://bell.unochapeco.edu.br/revistas/index.php/rcc/article/view/2597. Acesso em: 17 fev. 2025.
SANTOS NETO, João Arlindo; ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco. O caráter implícito da mediação da informação. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 27, n. 2, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/29249. Acesso em: 03 mar. 2025.
Notas
1 - Fala da Profa. Dra. Natália Duque Cardona, durante o exame de qualificação de mestrado deste pesquisador na Universidade Federal da Paraíba, em 29 de setembro de 2023.
Vitor Hugo Teixeira é doutorando e mestre em Ciência da Informação no Programa de Pós Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), na linha de pesquisa de Memória, Mediação e Apropriação da Informação. É Arquivista pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Atua como Coordenador de Comunicação do Fórum Nacional das Associações de Arquivologia do Brasil (FNArq) e da Associação de Arquivistas da Paraíba (AAPB). É membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação e Representação da Informação e os Marcadores Sociais da Diferença (GeMinas) e do Grupo de Estudos Arquivísticos (GEArq). Seus principais temas de interesse são: Ciência da Informação e Arquivologia, com ênfase em Políticas Arquivísticas e suas relações com: Mediação; Apropriação; Protagonismo Social; Interseccionalidade; Associativismo; Competência/Letramento; Democratização; Emancipação; Memória e Patrimônio; Cognição, Metacognição e Sociocognição. Contato: vitorhugot88@gmail.com.
