A UNIVERSIDADE LIVRE FEMINISTA E O PROTAGONISMO SOCIAL DAS MULHERES NO CONTEXTO DIGITAL
Joelma Oliveira
O presente texto traz um relato de experiência do desenvolvimento da pesquisa da tese intitulada A Universidade Livre Feminista: Uma Abordagem em Favor do Protagonismo Social das Mulheres Pautada nas Dimensões da Mediação Consciente da Informação, a qual analisou a mediação da informação, efetivada pela Universidade Livre Feminista (ULF). No percurso de sua realização, observou-se a estratégia da mediação como eficaz para promover o protagonismo social das mulheres.
A pesquisa explorou como a mediação da informação impacta as percepções sobre os direitos das mulheres e a relação com as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) das mulheres participantes do processo formativo da ULF. Ao focar nas diferentes dimensões dessa mediação, defendidas pela professora Henriette Gomes (2014; 2017; 2018, 2022), o estudo buscou compreender como a ULF contribui para o empoderamento e engajamento social das mulheres por meio da informação.
A Universidade Livre Feminista nasceu em 2009 como um projeto, uma estratégia de formação e promoção de atividades educativas do movimento feminista, na modalidade à distância, vislumbrando a utilização das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação. Ao longo do tempo, o projeto passou por mudanças em sua estrutura e gestão.
Em 2023, sob a nova configuração de gestão liderada pelo Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), optou-se por renomeá-la como Universidade Livre Feminista Antirracista (ULFA). Essa mudança reflete o avanço do compromisso da instituição com a luta contra o racismo. Na figura 1, a seguir, a página inicial da ULF após a atualização.
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Figura 1 – Página inicial do site atual (2024)
Na sua estrutura inicial, no que diz respeito às tomadas de decisão, a Universidade era orientada pela Coletiva Dinamizadora, cuja função era coordenar politicamente as atividades. Esta coletiva era formada por representantes de três organizações que apoiavam a ULF (Centro Feminista de Estudos e Assessoria – CFEMEA, SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia e Cunhã Coletivo Feminista) e pelas integrantes da Secretaria Executiva, com a possibilidade de ser ampliada com a inclusão de feministas da Rede de Colaboradoras, promovendo assim uma renovação contínua.
A Rede de Colaboradoras era formada por um coletivo de feministas atuantes em diversas áreas – educadoras, artistas, trabalhadoras de ONGs, professoras universitárias, ativistas de movimentos, comunicadoras, entre outras – que apoiavam o funcionamento da Universidade Livre Feminista em diversos processo de reflexão e desenvolvimento de ações. Para assegurar a implementação das ações diárias, a Secretaria Executiva era responsável pela gestão operacional dos processos, fazendo parte tanto da Coletiva Dinamizadora quanto da Rede de Colaboradoras.
Nos últimos anos, as organizações feministas têm enfrentado desafios crescentes de sustentabilidade política e financeira, o que tem impactado suas atividades e a dinâmica das organizações da Coletiva. Em 2021, a Cunhã decidiu se desvincular da Coletiva Dinamizadora e focar em seu fortalecimento organizacional, contribuindo com a ULF por meio da Rede de Colaboradoras. No final de 2022, o SOS Corpo também se retirou da experiência.
A inclusão do termo “antirracista” no nome reflete a essência das ações, metodologia e valores da Universidade ao longo de sua trajetória, que sempre adotou uma perspectiva feminista, antirracista e anticapitalista em suas práticas. Todavia optamos por usar, neste texto, o nome Universidade Livre Feminista, em consideração ao período em que foi realizada a presente pesquisa e sua coleta de dados.
A Universidade Livre Feminista desempenha um papel crucial na promoção do empoderamento e protagonismo social das mulheres, utilizando as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) como ferramentas essenciais para alcançar seus objetivos. A internet e as plataformas digitais permitem que a universidade amplie seu alcance, levando conhecimento e experiências a mulheres de diferentes regiões do Brasil, muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos e de espaços tradicionais de ensino.
Por meio de cursos on-line, fóruns e espaços interativos, a Universidade Livre Feminista (1) cria um ambiente de aprendizado acessível e colaborativo. Essas tecnologias facilitam a mediação de informações, promovendo a troca de saberes e a construção de uma rede de apoio entre mulheres. Ao capacitá-las com conhecimentos sobre direitos, igualdade de gênero, feminismo e outras temáticas relevantes, a universidade não apenas amplia as possibilidades de empoderamento individual, mas também fortalece a coletividade. A figura 2, mostra a divulgação dos cursos e outras atividades no site da ULF.
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Figura 2 – Divulgação dos cursos e atividades no site antes da mudança
A importância das TDIC para o projeto reside na capacidade de superar barreiras geográficas e sociais, conectando mulheres de diversas realidades e promovendo a inclusão digital. O uso estratégico dessas tecnologias possibilita a construção de uma comunidade virtual ativa, onde mulheres podem se reconhecer como protagonistas de suas próprias histórias, transformando suas realidades por meio da conscientização e do engajamento social.
Dessa forma, as tecnologias digitais tornam-se instrumentos de transformação social, permitindo que a Universidade Livre Feminista realize sua missão de mediar a informação de forma consciente, promovendo o protagonismo social das mulheres e ampliando suas vozes no cenário público.
Por meio da abordagem dos conceitos de informação, mediação da informação e protagonismo social das mulheres, o estudo traz o argumento da presença das cinco dimensões da mediação da informação – dialógica, formativa, ética, estética e política – no processo formativo efetivado pela ULF, dialogando com as consequências das dinâmicas das opressões sofridas pelas mulheres ao longo da História, enquanto sujeitos de interações, mas também de subordinação às estruturas capitalista, machista e racista.
Segundo o professor Oswaldo Almeida Júnior,
Mediação é toda ação de interferência – realizada pelo profissional da informação – direta ou indireta; consciente ou inconsciente; singular ou plural; individual ou coletiva; que propicia a apropriação de informação que satisfaça, plena ou parcialmente, uma necessidade informacional (Almeida Júnior, 2015, p. 25).
Nesse sentido, entendemos que a mediação da informação impulsiona o protagonismo social das mulheres, assim a pesquisa abordou as dimensões da mediação consciente – formativa, dialógica, política, ética e estética. Isso permitiu compreender as extensões alcançadas pela Universidade Livre Feminista por meio dos cursos oferecidos, reforçando que sua atuação promove uma mediação da informação pautada nas dimensões dialógica, formativa, estética, ética e política (Gomes, 2014; 2019; 2020).
Para auxiliar no alcance do objetivo geral da pesquisa, que foi analisar a mediação da informação delineada pela Universidade Livre Feminista como uma estratégia que favorece o protagonismo social das mulheres, por meio das suas diferentes dimensões, nos objetivos específicos buscou-se: descrever o processo de mediação consciente da informação delineado pela Universidade Livre Feminista, desenvolvido por meio das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação; apresentar os conteúdos do processo formativo da Universidade Livre Feminista em articulação com as dimensões da mediação; e verificar como as mulheres participantes das formações se apropriam das informações mediadas pela Universidade Livre Feminista, colaborando para o alcance do protagonismo social.
Nesse caminho, a pesquisa permitiu verificar o protagonismo social das mulheres ao destacar a importância da mediação da informação como um elemento essencial para a construção de um espaço de empoderamento e politização, por meio da apropriação da informação. A capacitação e a utilização de recursos para lidar com a informação na perspectiva do empoderamento das mulheres, como ressalta Ellen Aquino (2015), tornam-se imprescindíveis.
A existência de informação e o emprego de tecnologias de informação e comunicação não são suficientes para garantir acesso à informação relevante para o empoderamento da mulher. As evidências sugerem que, para facilitar esse acesso, é necessário capacitar recursos humanos para lidar com informação, isto é, habilitá-los a acessar e usar informação (Aquino, 2015, p. 211).
Destaca-se que no presente texto são apresentados alguns aspectos da tese. A análise das práticas desenvolvidas pela ULF demonstra como a mediação consciente da informação não apenas facilita o acesso ao conhecimento, mas também cria oportunidades para que as mulheres se tornem agentes ativas na transformação social. Ao explorar as diferentes dimensões dessa mediação – social, cultural, e tecnológica – a pesquisa evidencia como a comunicação estabelecida por meio das TDICs pode fortalecer a participação das mulheres em debates sobre direitos, políticas públicas e outros aspectos cruciais para o fortalecimento e equidade de gênero.
As dimensões da informação – dialógica, formativa, ética, estética e política (Gomes, 2014; 2019; 2020) se manifestam na prática da ULF de maneiras interconectadas, cada uma contribuindo para a construção de um espaço de aprendizado e empoderamento que promove o protagonismo social das mulheres. Importante ressaltar que nem todas as dimensões foram alcançadas ao mesmo tempo e em todas as ações.
A Universidade Livre Feminista valoriza a troca de experiências e saberes, onde as vozes das mulheres são ouvidas e respeitadas. Esse ambiente de diálogo fortalece a construção coletiva do conhecimento, permitindo que as mulheres se reconheçam como agentes de transformação em suas comunidades e na sociedade em geral, favorecendo o alcance da dimensão dialógica. A ULF propicia um espaço de aprendizagem contínua, onde as mulheres são capacitadas com informações e habilidades que as ajudam a entender e combater as estruturas de opressão.
A dimensão formativa é essencial para o fortalecimento da autonomia e do protagonismo das mulheres na luta por direitos e equidade. A dimensão ética permeia todas as atividades da Universidade Livre Feminista, orientando a construção de um ambiente seguro e respeitoso, onde as diferenças são valorizadas e o respeito aos direitos humanos é primordial. A prática ética se reflete na promoção da justiça social e na defesa dos direitos das mulheres, garantindo que as atividades e interações na universidade estejam alinhadas com princípios de equidade e dignidade.
A dimensão estética se expressa na valorização das manifestações culturais e artísticas como formas legítimas de conhecimento e resistência. A Universidade Livre Feminista incorpora a arte, a cultura e a criatividade em suas práticas, reconhecendo a importância dessas expressões na construção de identidades e na luta contra a opressão.
A dimensão política é central na prática da Universidade Livre Feminista, pois a instituição atua como um espaço de articulação e mobilização para a transformação social. Promove a conscientização crítica sobre as estruturas de poder que perpetuam a desigualdade de gênero e incentiva a ação coletiva para o enfrentamento dessas injustiças. A prática política se reflete na defesa dos direitos das mulheres, em articulação com em movimentos sociais e na influência de políticas públicas que visam à equidade de gênero.
Essas dimensões estão presentes na ULF, criando um ambiente rico e multifacetado que não só educa, mas também empodera e mobiliza mulheres para atuarem como protagonistas na construção de uma sociedade mais justa e equitativa. No estudo, defendemos que a mediação da informação é um alicerce fundamental, capaz de orientar a interconexão entre as diferentes dimensões da mediação, tratando a informação como um fenômeno inerentemente social.
Em resumo, a tese sublinha que a mediação da informação, a apropriação da informação e a comunicação são pilares fundamentais para oportunizar o protagonismo social das mulheres, pois permitem a criação de redes de apoio, a disseminação de saberes críticos e o fortalecimento de uma consciência coletiva que desafia as estruturas opressoras e promove a emancipação das mulheres.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. 278p.p.9-32.
AQUINO, Ellen Larissa de Carvalho. Da participação ao ativismo: as tecnologias da informação e comunicação aliadas ao feminismo. 2015. 112 f. TCC em Tecnologias da Informação e Comunicação, Universidade Federal de Santa Catarina Araranguá, 2015.
GOMES, Henriette Ferreira; CÔRTES, Gisele Rocha. Mediação consciente da informação e protagonismo social das mulheres: as práticas informacionais das teorias críticas feministas. In: ALVES, Edvaldo Carvalho et al. (org.). Práticas informacionais: reflexões teóricas e experiências de pesquisa. João Pessoa: Editora UFPB, 2020.
GOMES, Henriette Ferreira; NOVO, Hildenise Ferreira (org.) Informação e protagonismo social. Salvador: EDUFBA, 2017.
GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Inf. & Soc.:Est., João Pessoa, v. 30, n. 4, p. 1-23, out.-dez. 2020.
JESUS, Ingrid Paixão de; GOMES, Henriette Ferreira. Dimensões da mediação da informação e suas contribuições para a formação do mediador da leitura: aproximações teóricas e empíricas. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação, v. 26, p. 1-24, 2021.Disponível em: https://brapci.inf.br/index.php/res/v/165937. Acesso em: 14 ago. 2024.
Breve currículo
Joelma da Silva Oliveira - Doutora em Ciência da Informação (PPGCI/UFPB). Mestra em Comunicação (UFPB). Graduada em Comunicação Social - Jornalismo e Relações Públicas (UFPB). Especialista em Direitos Humanos (UFPB). Assessora de Comunicação das organizações não-governamentais Casa Pequeno Davi e Rede Margaridas Pró-Crianças e Adolescentes - Paraíba. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Mediação da Informação, Representação e Marcadores Sociais da Diferença (Geminas).
NOTAS
[1] Acesse a Universidade Livre Feminista por meio do link https://www.feminismo.org.br/.

