CARTA PARA UMA LEITORA
Pamela Oliveira Assis
Eu nunca pensei sobre a sua trajetória como leitora, muito menos registrar em palavras esses encontros e desencontros. Tenho nas mãos o desafio de entender você como leitora e, para isso, vou voltar alguns anos.
Na década de 1990, quando tudo começou, lembro que você foi super incentivada, mesmo tendo pais que não eram leitores. Engraçado, não é? Mas sua mãe, que também foi professora, não poderia valorizar outra coisa além da educação. Ela sempre acreditou que esse era o caminho e uma dessas etapas, a leitura. Por isso, ler para você antes de dormir era um ritual sagrado, mesmo que você pedisse para repetir a mesma história várias vezes. E, de tanto repetir, você aprendeu cada palavrinha daquela história, mesmo sem ainda saber ler. Inclusive, você usou esse aprendizado para impressionar uma amiga da sua mãe. Quando essa amiga chegou, você logo perguntou: “Quer que eu leia pra você?”, a moça, que achou graça do convite de uma criança de 3 anos, disse: “sim!” Com toda desenvoltura que sua altura permitia, você leu com confiança da mesma forma que sua mãe fazia e, por um momento, a moça realmente acreditou que você já tinha aprendido a ler. O que te denunciou foi a sua gargalhada no final, quando percebeu que tinha conseguido enganá-la direitinho.
A escola que você estudou, ainda pequena, não possuía biblioteca. Então, sua mãe continuou o papel de incentivar a leitura de livros na hora de dormir e com os textos dos próprios livros didáticos. A curiosidade e o brilho pela história estavam em seus olhos, por mais curto que fosse o texto.
Infelizmente quando você cresceu e aprendeu a ler com mais segurança, as histórias na hora de dormir deixaram de existir, e aí veio o primeiro desencontro com a leitura. Os livros para você já eram mais caros e a falta de biblioteca na escola provavelmente colaboraram para essa quebra do processo da sua formação como leitora. Só que você, inquieta, curiosa e inconformada, como sempre foi, não aceitou a realidade de ausência da leitura, que te levava para tão longe por meio do que os autores diziam.
Você cresceu, a escola mudou e essa, sim, tinha biblioteca. Uma biblioteca gradeada e trancada, parecia mais um depósito. Todos os dias você passava por lá, na esperança de encontrar alguém que liberasse a sua entrada. Essas idas duraram quase um ano, até que finalmente abriram aquele espaço para limpeza e funcionamento! No dia seguinte, assim que tocou o sinal do intervalo, você finalmente entrou na biblioteca e se reencontrou com a leitura. Esse momento foi tão marcante que, mesmo só conseguindo pegar um livro (a biblioteca fechou novamente logo depois), você nunca esqueceu aquela história de dois jovens que enfrentavam bandidos para inocentar uma pessoa que tinha sido falsamente acusada. Sua memória não é muito boa, não guarda nomes de livros ou autores, mas as histórias te marcam e uma fala frequente desde sempre é: “Tem um livro que eu não lembro o nome, mas que é muito legal e fala sobre ....” e assim começa a sua tagarelice momentânea e puramente motivada por ser algo que você gosta.
Já adolescente, a escola nova tinha uma biblioteca aberta e funcionando, porém com livros bem antigos e que não te interessavam. Com isso, a sua curiosidade te levou para internet e você encontrou vários livros para baixar, muito legais e alimentavam todos seus vícios do momento: vampiros e anjos. Agora ficou a dúvida: o download desses livros era realmente liberado? Acho que nunca saberemos, mas por via das dúvidas vou guardar seu segredo. Apesar desse detalhe, o que importava era a sua alegria lendo. Era o momento de paz, depois que fazia todas as suas atividades, sentar e ler aqueles livros cheios de fantasia e reviravolta, era sonhar sem sair do lugar. Você se tornava uma guerreira, uma vampira, a mocinha em perigo, ia assumindo o lugar dos personagens até que a realidade a chamava de volta. O conforto que os livros te traziam, fizeram você crescer e amadurecer, mas sem endurecer e perder esse brilho que a leitura te deu e te dá.
Chegando nos dias atuais, na vida adulta, os encontros e desencontros ocorrem com mais frequência. Eu sei que o tempo é corrido e você se divide entre várias demandas, a saudade dos tempos mais tranquilos, sem tantas obrigações, às vezes aperta mais forte. Com a faculdade, você percebeu que a sua leitura passou a ser mais objetiva. É uma leitura que procura algo em específico, acha e fecha o livro. Essa percepção te incomodou. Aquela menina que buscou, de formas diferentes, um novo livro para ler, provavelmente não ia gostar do que essa sua versão atual está fazendo. Você não sabe quando foi que a leitura deixou de significar um momento de leveza e sonho. Você percebeu que perdeu o prazer na leitura literária, a vida adulta te venceu nessa. Mas eu acredito que quando essa ficha caiu, você ganhou a batalha seguinte.
Tudo bem, não vamos condenar a sua versão adulta, afinal ela te apresentou novos prazeres com a leitura. Um deles foi a leitura da literatura científica. Com esse novo tipo de leitura você descobriu que o conhecimento às vezes faz a gente “passar um nervoso danado”. A sua cara de indignação quando o autor escreve algo que você não concorda é impagável, ainda mais porque, muitas vezes, mesmo não concordando, você tem que continuar a leitura para cumprir suas obrigações. A sua inquietação por discordar de alguém, também te motiva a escrever, eu já observei. Você precisa confrontar aquelas ideias de alguma forma e para isso, devolve para quem deseja ler, uma outra perspectiva sobre o assunto.
Nem só de discordância você vive durante essas leituras, tenho certeza. Nelas você também encontra prazer. Será que é o mesmo causado pela leitura literária? Não sei, para responder essa questão você vai ter de observar melhor o quê esses textos te causam – além da “revolta”, óbvio. Porém, se eu tivesse de pensar em algum sentimento, diria que você sente felicidade em encontrar alguém que compartilha da mesma percepção que a sua e, além disso, te faz enxergar além, apresenta novidades sobre o assunto e desperta aquela velha sensação de “Por que eu não percebi isso antes?” A resposta para esta pergunta que sempre salta em sua cabeça, talvez não seja tão simples, mas arrisco dizer que não dá para você perceber tudo ao seu redor, alma curiosa. Deixe que outras pessoas também te apresentem as curiosidades e percepções delas, sem se cobrar por não ter visto aquilo antes.
O segundo prazer com a leitura que a sua versão adulta te trouxe foi ler para alguém. Durante a sua graduação, você nunca pensou que atuaria em uma biblioteca escolar, mas a vida não vai te propor apenas aquilo que gosta. Sua resistência em trabalhar nesse ambiente talvez já fosse um pressentimento do quanto seria desafiador. Encarar a realidade permeada de pessoas que não entendem a importância de uma biblioteca e da leitura dói. Seu desgosto foi maior ao perceber que além de não entenderem a importância, eles não queriam ouvir o que você tinha a dizer sobre aquele ambiente. “As crianças precisam ler mais” era uma frase que você ouvia com frequência, “E isso é tão simples ou rápido como vocês pensam e desejam?” Era a resposta que ecoava em sua mente todas as vezes. O prazer com a leitura não é construído da noite para o dia ou em um estalar de dedos, é algo que leva tempo. Bom, tempo não era algo que você tinha, mas sabiamente decidiu ignorar esse detalhe e começou a ler para as crianças na tentativa de que, mesmo não despertando o prazer instantâneo sobre a leitura, poderia proporcionar para elas um momento de leveza e distração. Pronto, você tinha encontrado um objetivo.
Em um ano você percebeu que cumpriu a sua missão e o brilho nos seus olhos não negava a alegria que sentia por isso. Ao invés de frases vazias de significado e carregadas de cobrança, como as que ouvia antes, passou a ter nos seus dias “Hoje tem aula de biblioteca?”, “Que dia vamos terminar aquele livro?”, “Eu quero aquele livro do lobo bonzinho”, “Você pode ler essa história para mim?” Você se tornou a leitora deles, era a sua voz que dava vida aos personagens, era para a “aula de biblioteca” que eles iam correndo, sabendo que além de ouvir alguém contar uma história para eles, teriam ainda alguma brincadeira ou desafio para cumprir. Você ensinou para eles na “aula de biblioteca” que aquele ambiente era deles e para eles. E eles te ensinaram o quão prazeroso é ver o sorriso e o brilho nos olhos durante uma leitura. Essa sensação você já tinha sentido enquanto lia, mas ver isso no outro foi o presente que sua versão adulta te deu.
E agora para finalizar o meu desafio que foi retomar a sua trajetória de leitora e olhar para quem é você durante essa ação, te devolvo também um desafio: procura aí dentro de você, no meio da correria e objetividade da vida adulta, a versão que amava ler por prazer e lazer. Traz de volta, reencontra na leitura um ponto de paz e leveza, não só de conhecimento. Você sabe a potência que a leitura tem na sua vida, você acredita nisso. Olha só, ela te levou para a universidade, te deu um norte de pesquisa e te mostrou outras perspectivas nos olhos das crianças, essa missão está cumprida. Agora, cumpre a missão da menininha que sonhava com uma biblioteca em casa, cheia de livros que já leu, os que quer ler e, talvez, aqueles que leia e nem goste. Traz de volta a sua versão que, fantasiada nos personagens, enfrentava o mundo e via a magia da leitura, foi nessa base que a versão atual foi criada e acredito que é para esta base que você deve voltar, pelo menos a sua versão leitora.
Eu acredito que você está nesse caminho, vi que comprou aquele primeiro e único livro lido na biblioteca da escola. Depois de muitos anos e com uma ajudinha da internet conseguiu encontrar o título, não é? Era O grande desafio do Pedro Bandeira. Você sabe que não é uma leitura para a sua versão atual, fez isso pensando na menina que um dia já observou os livros por uma grade, fez também pela que baixou livros da internet, você fez isso pela sua versão anterior. Uma versão que se fantasia de sonhos e encontra na leitura refúgio e conforto.
E só para encerrar e deixar claro, caso ainda não tenha ficado, eu tenho orgulho da leitora que você se tornou.
Pamela Oliveira Assis - Doutoranda em Ciência da Informação do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Orientanda da Profa. Dra. Raquel do Rosário Santos. E-mail: pamela.oliveiira@outlook.com