GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA EM MEDIAÇÃO E COMUNICAÇÃO DA INFORMAÇÃO (GEPEMCI)


  • O Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação (GEPEMCI), vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ao seu Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI), foi criado e certificado pelo CNPq no ano de 2006, sob a liderança das Profas. Henriette Ferreira Gomes e Raquel do Rosário Santos.

    Suas pesquisas focalizam a mediação e comunicação da informação; a mediação implícita e explícita; a mediação consciente; os dispositivos de mediação da informação; as ambiências informacionais; a mediação da leitura e da escrita; mediação e memória social; o papel, a atuação e a formação do mediador da informação; as mediações para o desenvolvimento de competência crítica em informação; mediação e cultura informacional; as novas relações entre sujeito e informação para o acesso, uso e apropriação da informação.

EXERCÍCIO DA PRÁXIS E MEDIAÇÃO CONSCIENTE DA INFORMAÇÃO

Henriette Ferreira Gomes

A compreensão sobre o que representa o exercício da práxis precisa ser alargada entre os pesquisadores e mediadores da informação, de maneira que se possa ampliar a potência das nossas reflexões, assim como a realização dos atos de mediação.

Práxis é uma palavra grega, cujo significado é ação. No Século XIX, Karl Marx abordou a práxis a partir de um olhar filosófico, que desnudou o caráter relacional entre ação e reflexão crítica. A práxis consiste em uma ação ligada ao agir reflexivo do sujeito. Ao tempo em que ela ocorre no plano da experiência situada em um contexto específico e tem autoria(s) singular(es), sempre está articulada ao agir do coletivo, isso porque ela sempre estará situada no âmbito da lógica e da estrutura social estabelecida pelo sistema capitalista (o sistema hegemônico no nosso tempo). Contudo seu diferencial consiste em ser uma ação que se pretende transformadora e capaz de interferir e revolucionar as relações sociais e institucionais nessa estrutura social vigente.

Marx (2011, 2013) defende que a formação das ideias ocorre a partir da práxis, por ele denominada de práxis material para alertar que as transformações sociais não ocorrem por meio do mero exercício da crítica intelectual. Ele considera a práxis material porque ela se dá a partir da experiência concreta. Por outro lado, Marx (2011, 2013) também assevera que a mera experiência é insuficiente sem a reflexão crítica, e que esta, por sua vez, também não efetiva transformações sem a experiência que dá materialidade ao que foi refletido no plano intelectual.

Em sua obra O 18 Brumário de Louis Bonaparte, Marx (2011) afirma que os homens constroem sua própria história, sendo a práxis uma produção humana que altera o meio e envolve todos os elementos constitutivos da sociedade, na medida em que ela representa um exercício reflexivo, que implica em agir e refletir a ação à luz das teorias explicativas dos fenômenos sociais e naturais.

Nesse sentido, Marx (2011) propôs uma nova concepção de práxis como uma ação de autotransformação, ação esta que se dá sob a influência da herança cultural e do contexto ao qual os sujeitos da práxis estão ligados, razão pela qual a teoria tem o atributo de tornar a reflexão mais potente em identificar as contradições da experiência, em mover a crítica que estabelece o contraditório, que expande e aprofunda o pensar sobre a experiência que se estabelece na ação. Essa articulação fundante do atributo do pensar criticamente advindo da práxis (interação teoria-ação), faz com que toda ação seja capaz de gerar reflexão e toda reflexão possa gerar novas ações transformadoras da realidade.

A reflexão (teoria) no exercício da práxis é fundamental. A ação (a experiência construída, o fazer) é sempre situada no tempo e no contexto e, por tal razão, para sustentar a transformação é dependente do exercício da crítica (reflexão teórica). Nesse sentido, Dardot e Laval (2017, p. 462), em concordância com as perspectivas marxianas, lembram que

Os homens, embora ‘façam’ sua história, fazem-na sempre em circunstâncias e condições que eles não escolheram, que eles ‘encontram sempre já ai’, porque foram herdadas das gerações anteriores. Por esse lado, o ‘fazer’ dos homens é sempre condicionado pelos resultados da atividade daqueles que os precederam.

Na concepção de Marx a ação sem a práxis não se caracteriza como emancipadora e instituinte de transformações. A ação precisa se dar em processo de cooperação e interação, sendo projetada e analisada à luz das reflexões teóricas e filosóficas, tratando tanto do modus operandi da ação quanto dos princípios filosóficos que deveriam orientá-la. Somente assim emerge a práxis, cuja potência é verdadeiramente libertadora. Do contrário, como alertam Dardot e Laval (2017), as ações podem produzir sujeitos alienados.

Por outro lado, o ser humano carrega a virtude de uma busca permanente de superar suas lacunas materiais, emocionais e intelectuais, o que tende a movê-lo em direção da ação transformadora de si e do mundo. Há sempre uma busca de superação as incompletudes. Nesse sentido, Freire (1996) compreende que a interação ativa entre o sujeito, um ponto de partida (o ato e suas condições) e um objetivo, impulsionam a práxis emancipadora capaz de sua autotransformação e da transformação da realidade.

Em sua obra Conscientização, Freire (2001) nos lembra que somente o ser humano pode tomar distância para refletir sobre si e sobre o mundo. Diz Freire (2001, p. 29-30):

Somente o homem pode distanciar-se do objeto para admirá-lo. Objetivando ou admirando – admirar se toma aqui no sentido filosófico – os homens são capazes de agir conscientemente sobre a realidade objetivada. É precisamente isto, a práxis humana, a unidade indissolúvel entre minha ação e minha reflexão sobre o mundo.

No entanto, Freire (2001) também pondera que o ser humano, apesar dessa característica, não constrói consciência na mera aproximação com a realidade. Sua ação imediata é movida pelos seus desejos e necessidades, assim como pelos objetivos imediatos dos seus grupos sociais, representando uma posição no mundo, um mover-se ingênuo e não crítico, que repercute em uma tomada de posição também ingênua e não consciente. Além disso, Freire também ressalta que a

[...] a tomada de consciência não é ainda a conscientização, porque esta consiste no desenvolvimento crítico da tomada de consciência. A conscientização implica, pois, que ultrapassemos a esfera espontânea de apreensão da realidade, para chegarmos a uma esfera crítica na qual o homem assume uma posição epistemológica. [...] A conscientização não pode existir fora da práxis, ou melhor, sem o ato ação-reflexão. Esta unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens. (FREIRE, 2001, p. 29-30).

O processo de conscientização se manterá vivo e em permanente desenvolvimento no interior do exercício da práxis emancipadora e instituinte de transformações sociais e dos próprios sujeitos.

A práxis emancipadora gera as condições de serem tecidas as bases sustentadoras de transformações do instituído, das concepções de mundo, de transformações das percepções que segregam, discriminam, oprimem, silenciam, apagam e excluem o diferente.

A práxis emancipadora ou instituinte consiste em ação consciente de que o realizado foi tecido por condutas resultantes de uma herança cultural, que nossos atos compõem um posicionamento herdado e refletem as condições sociais do nosso tempo. Essa consciência gera as condições de cooperação, interação e emancipação no exercício da crítica.

Como defendem Dardot e Laval (2017, p. 466) somente a práxis instituinte pode contribuir com o processo de subjetivação capaz de sustentar a transformação dos sujeitos sociais e da própria sociedade.

Desse modo, ressalta-se que o exercício da práxis, que defendemos como ação fundamental à categoria da mediação consciente da informação proposta por Almeida Junior (2015), representa um exercício de permanente reflexão acerca dos tensionamentos que emergem das forças do instituído (ações, instituições e conhecimentos) e do instituinte (exercício da crítica e do debate impulsionador da transformação) que interagem na ação realizada. Esse tensionamento se torna visível e possível no encontro problematizador com a informação que, por seu lado, representa o foco central a partir do qual se realizará o exercício da práxis, cuja potência orientativa dos próprios atos de mediação é inexorável.

Nesse sentido, defendemos que o exercício da práxis é imprescindível ao alcance das dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política, tornando efetiva a mediação da informação. O alcance das suas cinco dimensões faz da mediação da informação um contributo ao processo de apropriação da informação e de desenvolvimento do protagonismo social. (GOMES, 2020).

Em síntese, estas reflexões sustentam nossa assertiva de que o exercício da práxis, na condição de uma práxis emancipadora e instituinte de transformações, é fundamental para o desenvolvimento e consolidação da mediação consciente da informação, entendida aqui como uma categoria de atos mediadores que, a partir do fundamento da mediação da informação, se torna dispositivo central a apropriação da informação que potencializa o protagonismo social.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JUNIOR, Oswaldo F. de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José (Orgs.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. p. 9-32.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2017.

FREIRE, Paulo. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Centauro, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GOMES, Henriette Ferreira. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade (UFPB. ONLINE), v. 30, n. 4, p. 1-.23, 2020

MARX, Karl. O capital. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013. Livro 1.

MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.


Henriette Ferreira Gomes - Profa. Titular do ICI e PPGCI/UFBA; Líder do GEPEMCI; Membro Titular da Academia de Ciência da Bahia - E-mail: henriettefgomes@gmail.com


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