GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA EM MEDIAÇÃO E COMUNICAÇÃO DA INFORMAÇÃO (GEPEMCI)


  • O Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação (GEPEMCI), vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ao seu Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI), foi criado e certificado pelo CNPq no ano de 2006, sob a liderança das Profas. Henriette Ferreira Gomes e Raquel do Rosário Santos.

    Suas pesquisas focalizam a mediação e comunicação da informação; a mediação implícita e explícita; a mediação consciente; os dispositivos de mediação da informação; as ambiências informacionais; a mediação da leitura e da escrita; mediação e memória social; o papel, a atuação e a formação do mediador da informação; as mediações para o desenvolvimento de competência crítica em informação; mediação e cultura informacional; as novas relações entre sujeito e informação para o acesso, uso e apropriação da informação.

TESSITURAS DA PRODUÇÃO DE UMA DISSERTAÇÃO SOBRE AS ATIVIDADES DE MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO NO ÂMBITO DO ARQUIVO DA FUNDAÇÃO CASA DE JOSÉ AMÉRICO

Andréa Medeiros de Sousa Maia

Essa fase da minha vida em que exerci o papel de mestranda surgiu da minha inquietação ao atuar como arquivista na Fundação Casa de José Américo, ao analisar a relevância do arquivo permanente desta Instituição, que possui documentos de valor memorialístico, cultural, social e histórico e em cujo ambiente são desenvolvidas atividades que possibilitam o acesso a esses documentos e seu uso. Ao ser convidada para escrever um artigo junto com as professoras Ana Claudia Medeiros de Sousa e Raquel do Rosário Santos, intitulado Mediação da cultura e da informação na Fundação Casa de José Américo que tratou sobre as ações realizadas na Fundação Casa de José Américo, categorizando-as à luz do conceito de mediação da informação, cunhado por Almeida Júnior, e identificando os indícios de mediação cultural que favorecem o fortalecimento identitário e memorialístico do povo paraibano, meu olhar para a dinâmica de ações mediadoras se tornou mais evidente, assim como a necessidade de ampliar uma reflexão sobre as atividades de mediação da informação para o fortalecimento de práticas informacionais.

Esse caminho me levou a uma aproximação cada vez maior com o tema ‘mediação da informação’, desejando realizar leituras sobre o tema e participar de reuniões do Projeto de Extensão Lapidar e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação (GEPEMCI), ambos da Universidade Federal da Bahia. Descortinar o tema da mediação da informação também impactou em meu desejo por buscar atuar de maneira consciente como arquivista, reverberando na participação e aprovação no processo de seleção do Curso de Mestrado em Ciência da Informação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Ao iniciar as aulas no mestrado tive a oportunidade de conhecer o tema práticas informacionais, por meio de um componente curricular ministrado por meu orientador Prof. Dr. Edvaldo Carvalho Alves. Somado com essa vivência o olhar que tive na produção do trabalho de conclusão de curso, na ocasião, na Graduação em Biblioteconomia na UFPB, cujo tema tratado foi ‘usuários da informação’, transpareceu o real objetivo das atividades mediadoras que sempre será apoiar os sujeitos no desenvolvimento de suas demandas sociais, por meio do acesso à informação.

A articulação dessas experiências, com base no encontro com o conceito defendido por Almeida Júnior (2015), me fez reconhecer que a mediação da informação se manifesta em todas as atividades desenvolvidas pelos agentes mediadores da informação que atuam no arquivo, que possibilitam aos sujeitos, por meio de seu agir, o acesso e a apropriação da informação. Portanto, o arquivo, como dispositivo informacional, que interfere na produção do conhecimento, necessita estar devidamente organizado e estruturado para alcançar seus objetivos de atender aos diversos sujeitos, na singularidade de suas ações que permeiam a administração, para assessorar as tomadas de decisões, como também contribuir para a construção da história e da memória de um povo.

Dessa maneira, as discussões teóricas e empíricas sobre mediação da informação e práticas informacionais, se entrelaçaram aos estudos sobre a dinâmica e o apoio do Arquivo da Fundação Casa de José Américo (FCJA) na atuação sociocultural dos sujeitos informacionais, e me conduziram para produção da dissertação sob orientação do Prof. Dr. Edvaldo Carvalho Alves e coorientação da Profa. Dra. Raquel do Rosário Santos, trabalho que teve a seguinte questão norteadora: como as atividades de mediação da informação realizadas pelos mediadores da informação, no âmbito do Arquivo da Fundação Casa de José Américo, favorecem o acesso e a apropriação da informação pelos sujeitos informacionais e considerando as dinâmicas socioculturais desses sujeitos? A partir desse questionamento, defini como objetivo geral da minha dissertação: analisar como as atividades de mediação da informação realizadas pelos profissionais vinculados ao Arquivo da Fundação Casa de José Américo favorecem o acesso e a apropriação da informação pelos sujeitos informacionais e representam as dinâmicas socioculturais desses sujeitos.

Por meio da trajetória investigativa do referido estudo, foi possível identificar que todos os sujeitos informacionais reconheciam que as atividades de mediação da informação realizadas pelos agentes mediadores vinculados ao Arquivo da Fundação Casa de José Américo favoreciam o acesso à informação, o que possibilitou suprir suas demandas informacionais. Os dados coletados durante o processo de produção da dissertação indicaram, ainda, que, dos dezesseis sujeitos informacionais participantes da pesquisa, treze consideravam que o Arquivo tinha uma relação com sua dinâmica cultural, profissional ou acadêmica e treze disseram que encontraram, no Arquivo da FCJA, algum elemento que representava aspectos de sua cultura. Essa constatação pôde ser exemplificada quando os sujeitos informacionais perceberam, por meio das atividades mediadoras, informações relacionadas à Paraíba, como: música popular, literatura, política e acontecimentos históricos da Paraíba.

Quanto à identificação das atividades de mediação da informação desenvolvidas no âmbito do Arquivo da Fundação Casa de José Américo, por meio da aplicação do questionário com os agentes mediadores que atuavam no referido Arquivo, constatou-se que esses agentes mediadores desenvolviam atividades que se configuravam como mediação direta da informação, a saber: visita guiada, visita técnica, atendimento ao pesquisador, realização de eventos, como, por exemplo, seminários, encontros, palestras, exposições, atendimento ao público presencial ou através das redes sociais e mediação da leitura, assim como atividades de mediação indireta da informação, como higienização, classificação, notação, descrição, digitalização, acondicionamento, elaboração de plano de classificação, instrumentos de pesquisa, quadro de arranjo e do plano de preservação de documentos, gestão do ambiente e dos colaboradores e planejamento e acompanhamento das atividades realizadas no Arquivo por cada agente mediador.

Descobri por meio da pesquisa a inter-relação dessas atividades de mediação direta e indireta da informação, a fim de favorecer o acesso à informação por parte dos sujeitos e apoiá-los no processo de apropriação da informação. Essa afirmação se justifica porque, na visita técnica para turmas do Curso de Arquivologia, os agentes mediadores apresentavam técnicas arquivísticas, como higienização, classificação e acondicionamento de documentos, as quais possibilitavam que os sujeitos informacionais que participavam da ação direta reconhecessem e praticassem atividades indiretas de mediação da informação. Essas ações, de maneira integrada, possibilitavam que os sujeitos fizessem uma associação das atividades de mediação direta e indireta da informação e como elas se complementavam e contribuiam para que eles pudessem ter acesso à informação.

Além da aplicação de questionários, a pesquisa também utilizou a técnica de observação direta, essa experiência foi marcante, pois atividades que para mim eram recorrentes foram observadas, registradas e posteriormente analisadas com outro olhar, de pesquisadora. Essa ação possibilitou constatar que o desenvolvimento das atividades de mediação direta e indireta da informação ocorriam tanto de maneira individual quanto coletiva, segundo a categorização apresentada por Almeida Júnior (2015). Essa constatação pôde ser evidenciada quando, em atividades de mediação direta da informação, também ocorriam o atendimento ao pesquisador, o que se classifica como atividade individual, quanto uma visita técnica de uma turma universitária, categorizada como atividade de mediação coletiva da informação.

Ainda posso relatar a percepção que tive ao observar que antes de iniciar suas pesquisas, os sujeitos informacionais eram convidados para uma visita guiada, durante a qual era apresentado todo o ambiente do Arquivo, e eles eram orientados quanto ao cuidado e ao manuseio dos documentos. A partir de então, o agente mediador o auxiliava em seus estudos, e os sujeitos informacionais percebiam a importância do documento e do Arquivo, porque tinham acesso a um repertório informacional para além do seu objeto de pesquisa. Posso dizer que essa prática favorece que o sujeito, ao construir seu trabalho, vivencie esse processo de maneira consciente das etapas, o que é um indício de que as atividades mediadoras apoiam, para além do acesso, a apropriação da informação. Também posso destacar que os sujeitos podem (re)conhecer o arquivo, em toda sua dimensão, para além do ambiente de guarda dos documentos que desejam ter acesso.

Como tinha dito anteriormente, o sujeito informacional é a razão da existência do arquivo e das atividades mediadoras, é por ele que os agentes mediadores desenvolvem suas ações, portanto, considero de extrema importância olhar de maneira singular para esses sujeitos. Essa visão norteou a busca em minha dissertação de verificar, segundo a percepção dos profissionais da informação vinculados ao Arquivo da FCJA, se as atividades de mediação da informação consideravam a dinâmica e o contexto socioculturais dos sujeitos informacionais que utilizavam o Arquivo - os resultados demonstraram que, dos quinze agentes mediadores participantes da pesquisa, oito afirmaram que consideravam a dinâmica e o contexto sociocultural dos sujeitos no desenvolvimento das atividades de mediação da informação que aconteciam no Arquivo, e sete, que não consideravam esses aspectos.

Constatei também que considerar os aspectos socioculturais, de maneira individual e coletiva, dos sujeitos informacionais no planejamento e no desenvolvimento das atividades realizadas no Arquivo fortaleciam os vínculos entre o sujeito e o Arquivo e contribuiam para que eles se sentissem representados neste dispositivo informacional. Assim, por meio deste resultado, observei a necessidade dos agentes mediadores, especialmente os que ocupam cargos de gestão, refletirem o fundamento da mediação da informação e considerarem os aspectos socioculturais dos sujeitos informacionais no planejamento e desenvolvimento das atividades realizadas no arquivo.

Na trajetória investigativa percebemos a necessidade de interagir com os sujeitos informacionais que utilizavam os serviços e produtos do Arquivo. Tive algumas dificuldades, por exemplo, não tínhamos um registro do Arquivo com os contatos das pessoas que frequentavam e participavam das atividades mediadoras desse ambiente. Portanto, o arquivo deve sempre buscar uma comunicação com seu público, manter um contato para além do encontro presencial, o período da pandemia nos mostrou essa carência.

Vencemos esse desafio, ficou o aprendizado sobre a importância da comunicação com os sujeitos informacionais e ter o registro de seus contatos, e pude atingir o terceiro objetivo específico da minha pesquisa - identificar o nível de interferência entre as práticas informacionais dos sujeitos e as atividades de mediação da informação realizadas pelos agentes mediadores que atuam no Arquivo da FCJA - por meio da aplicação do questionário junto aos sujeitos informacionais. Dos dezesseis sujeitos informacionais participantes da pesquisa, dez foram ao Arquivo motivados por demandas acadêmicas e pessoais; e seis tiveram suas motivações relacionadas à busca da informação impulsionada por fatores relacionados ao trabalho.

A dissertação contribuiu para minha formação como pesquisadora, mas também como sujeito no mundo, pude desenvolver habilidades de observação, de compreensão do outro, de paciência na escuta e de segurança na fala. Como arquivista aprendi e hoje desenvolvo meu agir pautado no aprendizado que alcancei, mais consciente, mais cuidadosa e, certamente, com mais desejo de transformar minhas ações e meu espaço de atuação, para contribuir com a emancipação dos sujeitos. Reitero a relevância de uma atuação consciente por parte dos mediadores da informação no desenvolvimento de suas atividades, que, além de possibilitar o processo dialógico que embasa as atividades de mediação da informação e de favorecer o compartilhamento do conhecimento, podem apoiar o processo de um agir protagonista por parte dos sujeitos. As atividades mediadoras podem potencializar o fortalecimento identitário, o sentimento de pertencimento dos sujeitos informacionais e, especialmente, (re)significar o ambiente informacional que cumpre seu papel social na transformação dos sujeitos, por meio do acesso e da apropriação da informação.

 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA JÚNIOR, O. F. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, S.; SANTOS NETO, J. A.; SILVA, R. J. (org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015.

MAIA, Andréa Medeiros de Sousa. As atividades de mediação da informação no âmbito do Arquivo da Fundação Casa de José Américo.  Orientador: Prof. Dr. Edvaldo Carvalho Alves,  coorientadora: Profa. Raquel do Rosário Santos. 2023. 134 f. Dissertação (Mestrado em Ciência da Informação) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/27313. Acesso em: 29 abr. 2024.

 

Andréa Medeiros de Sousa Maia - Mestra do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPB. E-mail: andreamedeirosbib@gmail.com. Orientador: Prof. Dr. Edvaldo Carvalho Alves.  Coorientadora: Profa. Raquel do Rosário Santos. Arquivista da Fundação Casa de José Américo. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação da Universidade Federal da Bahia.

 


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