GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISA EM MEDIAÇÃO E COMUNICAÇÃO DA INFORMAÇÃO (GEPEMCI)


  • O Grupo de Estudos e Pesquisa em Mediação e Comunicação da Informação (GEPEMCI), vinculado à Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ao seu Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI), foi criado e certificado pelo CNPq no ano de 2006, sob a liderança das Profas. Henriette Ferreira Gomes e Raquel do Rosário Santos.

    Suas pesquisas focalizam a mediação e comunicação da informação; a mediação implícita e explícita; a mediação consciente; os dispositivos de mediação da informação; as ambiências informacionais; a mediação da leitura e da escrita; mediação e memória social; o papel, a atuação e a formação do mediador da informação; as mediações para o desenvolvimento de competência crítica em informação; mediação e cultura informacional; as novas relações entre sujeito e informação para o acesso, uso e apropriação da informação.

MEDIADOR DA INFORMAÇÃO COMO INTELECTUAL ORGÂNICO: UMA PERSPECTIVA GRAMSCIANA

Henriette Ferreira Gomes

A mediação da informação, mais do que ações que interferem no encontro dos sujeitos com a informação, representa um fundamento a orientar essas ações e a colocar em destaque a razão de ser do trabalho com o fenômeno informação.

Se partirmos da proposição de Gomes (2016, 2019a, 2019b, 2020) que conceitua a informação como um fenômeno social que consiste em conhecimento em estado de compartilhamento, torna-se evidente a intencionalidade primeira de colocar em comum o conhecimento que se está expressando por meio da articulação das diversas linguagens. E essa intencionalidade implica em não neutralidade.

A informação não é neutra, carrega traços ideológicos, culturais e identitários, e resulta da intencionalidade de compartilhar o conhecimento. Essa intencionalidade convoca o desenvolvimento de atos mediadores para o compartilhamento desejado, atos voltados ao encontro dos sujeitos sociais com a informação.

Tais atos consistem em ações mediadoras que envolvem todo o espectro dos trabalhos com a informação. Essas ações interferem no encontro entre a informação e os sujeitos que a buscam ou que poderiam buscá-la. Nesse sentido é que Almeida Júnior (2015) categoriza esses atos como ações de mediação explícita (direta) ou implícita (indireta), permitindo a caracterização de todas as atividades informacionais como atos de mediação da informação.

Um ato ou ação promotora do encontro com a informação, quando orientada pelo princípio (fundamento) da mediação da informação, adquire maior potência interferente e se torna mais apta a favorecer o processo de apropriação da informação pelos sujeitos que experimentam o encontro com essa informação.

O fundamento da mediação da informação convoca os profissionais que desenvolvem atividades informacionais à tomada de consciência quanto a sua responsabilidade social de promoção do encontro problematizador com a informação. Para tanto, o fundamento também indica a necessária abertura desse profissional para se manter em movimento permanente de conscientização acerca do seu papel social. Como assinalou Freire (2005, 2008), a tomada de consciência representa o ponto inicial de uma trajetória constante do exercício da crítica e autocrítica, necessário à permanência do processo de conscientização dos sujeitos, que seguirão mantendo uma conduta de reflexão em torno da sua existência no mundo. Nesse sentido, o exercício da práxis é essencial ao desenvolvimento de atos de mediação com consciência, a ponto de o mediador da informação passar a assumir o lócus ideológico do seu fazer.

Se há uma intencionalidade que move a geração do conhecimento e a sua colocação em comum por meio da articulação das linguagens, geradora da informação (conhecimento em estado de compartilhamento), há uma tomada de posição que acompanha a informação desde o seu nascimento. Essa intencionalidade move os fluxos informacionais e as demandas pelo encontro da informação pelos sujeitos. Dessa maneira, o trabalho promotor do encontro com ela tem mais uma intencionalidade, que é a de proporcionar as condições necessárias à apropriação da informação pelos sujeitos desse encontro.

O processo de apropriação requer a problematização acerca do conteúdo informacional acessado, assim, orientados pelo fundamento da mediação da informação, os mediadores devem assegurar o espaço problematizador nesse encontro. Isso implica em realizar ações de mediação implícita (indireta) para transformar o ambiente informacional no qual atuam em um dispositivo informacional dialógico, como concebido por Pieruccini (2004, 2007), e as ações de mediação explícita (direta) que, a partir da dialogia instalada no dispositivo (ambiente informacional), fortaleçam a sua perspectiva de fórum, tomando como referência a proposição de Perrotti (2015, 2016, 2017).

Essa conduta do mediador da informação o coloca na condição de profissional/intelectual orgânico, categoria concebida por Antônio Gramsci a partir do pensamento marxiano. Para Gramsci (1978a), Marx compreendia o materialismo como uma ciência-ação, nesse sentido Gramsci considera relevante a filosofia da práxis, onde a crítica ativa é um compromisso a ser assumido pelo intelectual para com a sociedade. Esse compromisso deve ser permeado pela consciência do mediador da informação de que não há neutralidade em quaisquer das suas atividades, que sempre estarão comprometidas com algum ethos.

Para Gramsci (1978b), a práxis é uma ação que representa uma luta que se dá no cotidiano da sociedade. O exercício da práxis pelo intelectual orgânico se dá em interação com a sociedade, não consistindo em uma prática burocrática. O intelectual orgânico é aquele que atua com consciência crítica acerca da realidade, inclusive quanto ao fato de que a instância social na qual realiza suas produções e ações profissionais e especializadas integram as estruturas sociais e do Estado.

Além disso, o intelectual orgânico não se compromete apenas com a reflexão crítica sobre suas ações, mas se compromete em fazer com que suas ações alcancem potência para o processo de transformação da realidade social. Avalia criticamente seu trabalho, sua atuação, seus limites profissionais e pessoais, buscando identificar as contradições que ainda enfrenta, alargando sua tomada de consciência e avançando no seu processo de conscientização, como recomenda Freire (2005, 2008).

Dessa maneira, o exercício da práxis proporcionará condições para o redimensionamento das práticas do intelectual orgânico, orientado pela busca da superação dos limites e dos possíveis reducionismos que tenham limitado a efetividade da mediação realizada, tornando existente na sua realidade outra categoria de mediação da informação concebida por Almeida Júnior (2015): a de mediação consciente. A mediação consciente é aquela realizada pelo mediador que compreende que o conhecimento e a cultura não são estáticos, que há uma fluidez que impõe a eles o devir. Essa consciência coloca o mediador da informação na condição de agente político, aberto a se rever e a rever suas práticas, aberto a refletir criticamente sobre o ambiente informacional e sobre as demandas que se manifestam no movimento de busca e não busca da informação.

Para Gramsci (1997) os intelectuais orgânicos não são guardiões da palavra e do pensamento, não são os guardiões do conhecimento e da cultura. Eles são agentes sociais inseridos e atuantes em contextos sociais, movidos pelas relações e interesses manifestos socialmente. Para Gramsci (1997, 2007) a cultura consiste na vida social, onde os profissionais orgânicos realizam e avaliam suas atividades em uma perspectiva crítica, com a intencionalidade de contribuir com as transformações sociais.

Portanto, o mediador da informação como intelectual orgânico não representa uma categoria que se acredita neutra e alheia à realidade social, mas sim um sujeito social, imerso no andamento dos jogos ideológicos, atuando no sentido de que suas atividades passem a contribuir com o movimento de transformação social. Se um mediador da informação se compromete com práticas de modo acrítico e se mantem na zona de conforto reprodutora de práticas conservadoras, se caracteriza como um intelectual/profissional conservador e superado. Ao contrário disso, o mediador da informação que busca se transformar em intelectual orgânico, passa a se conduzir e a conduzir suas atividades pelo exercício da crítica acerca delas, como também sobre a superestrutura à qual elas estão vinculadas.

 

Referências

ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José (Orgs.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: ABECIN, 2015. p. 9-32.

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Henriette Ferreira Gomes - Profa. Titular do Instituto de Ciência da Informação e do PPGCI/UFBA - Doutora em Educação - Líder do GEPEMCI - Acadêmica Titular da Academia de Ciências da Bahia


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