GP - INFORMAÇÃO: MEDIAÇÃO, CULTURA, LEITURA E SOCIEDADE


  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

A MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO E OS IMPACTOS DA ATUAÇÃO DO MEDIADOR DURANTE O PROCESSO ELEITORAL

Simone Ma. Gonçalves de Oliveira Ulian

A parte mais difícil de um texto é o seu início? Talvez, são tantos temas, tantos debates que precisam ser iniciados, reiniciados, fortalecidos e até esquecidos, que nem sempre conseguimos determinar um rumo para seguir ou desistir. País em plena campanha para o segundo turno das eleições para o cargo de Presidente da República e o povo discutindo sobre escolher o candidato representante de deus (em letra minúscula porque nem se sabe de qual estão falando) ou aquele que tem pacto com o capiroto. Mas não estamos em 2026 e o Brasil não é um Estado Democrático de Direito? Pelo menos esse é o ano que consta no calendário que tenho acesso e é essa e a classificação do nosso país de acordo com o artigo 1° da Constituição Federal de 1988 que, diga-se de passagem, foi uma Constituição Federal promulgada em um Estado dito laico e após ditadura militar que perdurou por longos e sombrios anos em nossa nação.

Não se trata de um texto político e, também, não é proposto tratar, aqui, da importância da informação na formação da consciência política do povo brasileiro. Desde que iniciei meus estudos na seara da Ciência da Informação, passei a concebê-la como uma ciência onipresente, capaz de influenciar, incorporar e ser incorporada por todos os demais ramos do saber científico e, ainda, fazer parte do cotidiano da população brasileira por meio da atuação dos mediadores da informação – mesmo que eles não saibam que o são.

Neste momento de dualidade política, percebe-se que vale mais a atuação do mediador do que da própria informação que está sendo mediada. Se destaca a informação cujo mediador atue com melhor performance, não importando a veracidade ou a legitimidade de tal informação. Tratar sobre a Competência em Informação – CoInfo – do cidadão, neste cenário, também, não desvendará o que está diante dos nossos olhos.

Elizete Vitorino e Daniela Piantola se debruçaram em analisar a CoInfo sob a perspectiva de suas dimensões – técnica, ética, estética e política. Para as pesquisadoras, a dimensão técnica é a capacidade de lidar e reconstruir os conteúdos, se relaciona ao trabalho, como um meio ou instrumento pra alcançar determinados fins; a dimensão estética se destaca quando há a capacidade do ser humano compreender a realidade de forma consciente, diz respeito ao desenvolvimento da intelectualidade que nos leva à dimensão ética, esta percebida quando o indivíduo se orienta para o bem comum, para o coletivo; já a dimensão política diz respeito ao compromisso político, ou seja, à participação na construção coletiva da sociedade e ao exercício de direitos e deveres; essa dimensão ganha sentido num espaço democrático (Vitorino e Piantola, 2020). Como determinar o estágio de desenvolvimento da CoInfo quando a escolha do voto ocorre com base em preceitos religiosos em um processo eleitoral de um Estado Democrático de Direito? Impossível desenvolver essa reflexão fora de uma amostra estatística e sem a aplicação de conceitos e métodos científicos e, talvez, mesmo assim não se obterá uma resposta assertiva, apenas meras suposições.

Quanto à mediação da informação, esta também pode ser projetada sob a perspectiva de suas dimensões que, segundo Henriette Gomes, são classificadas como as dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política. Seguindo a ordem, a dimensão dialógica se realiza no diálogo, no contato com a informação e entre os envolvidos no processo mediador, a dimensão estética se concretiza na satisfação e no prazer propiciados pela apropriação da informação que resulta na dimensão formativa do processo que manifesta o caráter pedagógico da mediação da informação. Nesta etapa os participantes, em especial o usuário, reconstrói seu conhecimento se utilizando das informações apropriadas durante a comunicação com o mediador, e permite o exercício do contraditório e da reflexão, delineando ressignificações, novas interpretações e novos conhecimentos, o que favorece a superação de conflitos cognitivos e a consolidação da apropriação da informação. Já o alcance da dimensão ética se mostra como fundamental para o alcance da dimensão política do processo da mediação da informação, momento em que os sujeitos da ação passam a se enxergar como agentes políticos, indo além do autoconhecimento já que passa a compreender não apenas a si mesmos, mas a coletividade na qual estão inseridos, há uma transmutação do bem estar individual para o bem estar coletivo. Nesta instância ocorre a compreensão da condição social não apenas dos sujeitos envolvidos no processo; a ação supera seus próprios limites de modo que os integrantes passam a perceber os outros que não fazem parte da mediação e se solidariza, por meio do sentimento de pertença, com seus anseios e necessidades.

Contudo, o alcance da dimensão política ocorre somente por meio da realização de um processo consciente de mediação da informação, o que depende inteiramente do papel desempenhado pelo mediador deste processo, e é neste ponto que pauto esta reflexão.

Ao iniciar o processo da mediação da informação, a escolha dos meios e das formas de divulgação ficam à cargo do mediador, bem como a escolha da própria informação que será mediada. Aqui reside a importância da dimensão ética do processo. Deverá o mediador realizar a ação de interferência levando em consideração questões que garantam a transparência, a veracidade e a legitimidade da informação. Nesta etapa existe uma linha tênue entre a simples interferência para permitir a melhor eficácia do processo mediador e a manipulação (criação de fake news e desinformação) da informação que atuará diretamente no alcance das dimensões formativa e política da mediação da informação.

Em um primeiro momento é possível admitir que as dimensões da mediação da informação são alcançadas de acordo com o desenvolvimento da CoInfo no mediador, no entanto, após uma análise mais profunda, percebe-se que a dimensão da mediação pode ser determinada pelo interesse do próprio mediador, principalmente se este já alcançou a dimensão política da CoInfo. A criação e divulgação de fake news e a desinformação podem ser conscientes e propositais, inclusive fazendo parte da programação do próprio processo mediador da informação, objetivando a estagnação do usuário – ou dos cidadãos, no caso do pleito eleitoral – numa esfera de alienação social e política, preso na falsa consciência de classe ou, até mesmo, em um estado de não consciência de classe.

Além, é importante enfatizar que o processo de mediação da informação nem sempre é realizado por apenas um mediador. Em um momento de campanha eleitoral, a informação é divulgada nacionalmente por meio da atuação de vários mediadores que, ao mesmo tempo, atuam como usuários e mediadores em um único processo. Como usuários são manipulados pela intenção política intrínseca ao processo e, como mediadores, reproduzem a mesma ideologia. Trata-se de um processo que se desenvolve por meio de cadeias de comando sem que haja a mediação da informação em todas as suas dimensões.

Concordo que a discussão mereça maior engajamento e desenvolvimento científico, mas o objetivo deste texto é levantar a importância da atenção ao mediador da informação e sua relevância nos rumos políticos do país. O sujeito mediador não atua apenas localmente, principalmente com o desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação. O alcance da atuação, e da intenção, de um único mediador pode se dar em nível mundial. É necessário que a Ciência da Informação se conscientize de sua relevância no desenvolvimento social, político e econômico da humanidade, sempre pautando sua atuação na busca da emancipação política do ser humano, na racionalização e na concretização de um Estado verdadeiramente Democrático de Direito. Pesquisadores da Ciência da Informação, uni-vos!

Referências bibliográficas

GOMES, H. F. Mediação da informação e suas dimensões dialógica, estética, formativa, ética e política: um fundamento da Ciência da Informação em favor do protagonismo social. Informação & Sociedade, [S. l.], v. 30, n. 4, p. 1–23, 2020. DOI: 10.22478/ufpb.1809-4783.2020v30n4.57047. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/article/view/57047. Acesso em: 04 set. 2026.

Vitorino, Elizete Vieira. Competência em informação [recurso eletrônico]: conceito, contexto histórico e olhares para a ciência da informação / Elizete Vieira Vitorino, Daniela Piantola. – Florianópolis : Editora da UFSC, 2020. 205 p. Disponível em Competência em informação: conceito, contexto histórico e olhares para a Ciência da Informação (ufsc.br)

Simone Ma. Gonçalves de Oliveira Ulian - Professora da Universidade Federal de Rondônia – Campus Professor Francisco Gonçalves Quiles – Cacoal, RO; Doutora em Ciência da Informação pela UNESP – Universidade Estadual Paulista – Campus de Marília, SP. ; Mestre em Direito pela Fundação Eurípedes de Marília, Advogada, Bacharela em Direito pela UNIMAR – Universidade de Marília, Bacharela em Ciências Sociais e Licenciada em Sociologia pela UNESP – Universidade Estadual Paulista – Campus de Marília, SP. - simonemaria@unir.br


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