SONHOS
Dayane Bruna da Silva Ferreira
Primeiro, das primeiras coisas, peço licença a Deus, orixás, minhas guias e toda a minha ancestralidade. E saúdo Natureza mãe e a minha natureza como mãe do Acauã e da Zaira.
E saúdo a todos do Infohome.
Para abrir este momento de leitura e escrita ou escrita e leitura, trago aqui o que sinto a partir de um poema ao estar e viver esta página/memória:
APAGAMENTOS
eu já não sei o que sonhar
sem ver caminhos a seguir
sem o mapa do céu ao astral chegar
e rastros na terra a caminhar
no rio
apenas pedras e pequenos peixe pulantes
que até o mar ofegante
sai do sangue das veias a sonhar
lembra
que sonhar não sei mais
perdi memórias e lembranças
depois de ter tido nas entranhas
Acauã e Zaira a me puxar
no futuro
não vejo sonhos
não vejo na própria vida
e também nem na própria morte
a ansiedade e o êxtase de sonhar
uma criança e um idoso que não sonha traz tristeza
quando sobre a mesa
não se vem a sobremesa
a deliciar
ainda sobre o sonho
não fui ensinada a sonhar
sentir o arrepio do corpo
o frescor no seu rosto
o sossego na cabeça de quem sabe sonhar
pesadelos são adereços
carnavalescos
que se derretem na alegria
do sapatear ao sambar de quem sonha
Sonhos eu não os conheço
por mesmo que virada do avesso
eu não sei te identificar
No meu nome, não sei escrever quais sonhos
veem em seguida
porque nesta e em outras vidas
Eu sou o próprio Sonho e assim
venho me apresentar para você
se sonhar.
(Dayane Bruna)
Diante da releitura do escrito deste meu poema que foi inspirado em Leão (2017) e a autora Bei (2017), eu estava me revendo no reflexo dos vidros das salas de estudo de uma biblioteca na escola, ela refletia a mim bandeirolas coloridas e umas dez prateleiras ao fundo com livros das novas aquisições de literatura sobre o Nordeste, Festas Juninas, Cultura – tudo que envolve o significado deste mês de junho para uma boa parte da população brasileira –, e envolvida com os estudantes que davam o significado de estar num dos lugares que proporcionou tudo aquilo que sonhei e imaginei e que por muitas vezes não sonhei e nem imaginei.
Biblioteca.
Lembro que, quando criança, sem incluir o “Era”, pois “Sou”, eu fingia ser professora nas brincadeiras de escolinha, com livros usados e com as sobras dos cadernos e coleção de lápis que ficavam dos anos passados. Mergulhava-me nos desenhos animados para cantar, dançar, falar sozinha, discutir minhas questões e argumentar regras que venciam o meu dia a dia e criar brincadeiras onde as impossibilidades não existiam.
Na biblioteca em uma das escolas que eu estudei, tive a liberdade de sonhar e imaginar, me apaixonando pela Literatura brasileira, me afogando de poesias e biografias, me derramando nas Artes, discutia Filosofia e Sociologia, decorava as tabelas periódicas de Química, protestava com a Geografia, História e Política, matava minhas curiosidades da vida com a Biologia, viajava com a Física e me esbaldava com a Educação física após horas de estudo de Matemática, enquanto fazia amizade com a tia da biblioteca.
Em alguns estudos, aprendi que “uma das principais funções das bibliotecas escolares é fomentar a curiosidade intelectual dos estudantes” e a “a biblioteca busca mediar a informação, os alunos possuem um conhecimento que foi adquirido no seu convívio social e familiar e os professores e bibliotecários possuem a bagagem de conhecimento informativo adquirido no seu processo de estudo e pesquisa”; e com elas fui entendendo na prática e teoria sobre mediar na biblioteca na escola vivendo junto aos estudantes e com os professores (Campelo, 2012; Lanzi, 2013).
O primeiro contato que eu tive com este pluriverso que é a biblioteca foi na escola, depois aos 11 anos nas bibliotecas das Universidades, públicas e particulares. Fui passeando vendo o quão o mundo era grande e cheio de quebras cabeças que precisavam de pequenos encaixes e também de um embaralho para refazer o que não foi feito: descobrir Apagamentos da memória. (Kilomba, 2019).
Na biblioteconomia me encontrei em dois eixos ou aspectos, como bem queiram tratar, a Literatura e a Política, em eventos espalhados por Teresina onde estava envolvida de tantas manifestações culturais e políticas; muita coisa que eu lia na biblioteca da escola e fui ver no mundo, de verdade.
O meu primeiro estágio e trabalho foi em biblioteca escolar e continuei a imaginar e sonhar até encontrar a minha identidade a partir da memória ancestral, que estava nos desafios impostos pelos Apagamentos (Kilomba, 2019).
A literatura infanto juvenil fez muito sucesso na minha imaginação: Mafalda, Magali, Luluzinha, Monteiro Lobato, Clarice, Florbela Espanca, Raquel de Queiroz, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Torquato Neto, Ariano Suassuna, o hiperfoco em Jurassic Park, nos Super heróis da Marvel e na minha escola preferida que era a dos X-Mens e agora estar como bibliotecária a organizar tudo que envolvia a biblioteca, viciada em 025.5 e 800 (Dewey, 2003) e comprometida com a imaginação das crianças.
Mas, ainda sentia que faltava algo. Mesmo, me identificando com todos estes e ainda com a Pocahontas e Mogli.
Foi então que aprendi com a Evaristo (2020) sobre a narrativa do escrever sobre mim a partir das narrativas de escrivências de mulheres negras, que traz a memória de um povo que eu não conhecia por nome, nem em livros, nem nas histórias, mas sempre esteve presente na família, no meu fazer, e na espiritualidade que os povos afros e indígenas nos fazem enxergar na leitura da oralidade, do livro e do mundo, qual seria o meu lugar.
Anzaldua (2000) reforça bem sobre mulheres que escrevem:
Escrevam com seus olhos como pintoras, com seus ouvidos como músicas, com seus pés como dançarinas. Vocês são as profetisas com penas e tochas. Escrevam com suas línguas de fogo. Não deixem que a caneta lhes afugente de vocês mesmas. Não deixem a tinta coagular em suas canetas. Não deixem o censor apagar as centelhas, nem mordaças abafar suas vozes. Ponham suas tripas no papel.
Diante a isso, escrevi, ao conhecer minha minha mãe de santo de terreiro de matriz africana, Mãe Dalva, que me levou aos caminhos de ler Hampâtê Bâ (2003) que me fez entender que quando um ancestral morre leva todas as memórias de um povo com ele, que ancestralidade embasa a vida de uma comunidade e a forma como ela vive, fazendo-me perceber sobre a inclusão e sensibilidade de perceber o que seria comunidade também, em uma biblioteca na escola.
Na biblioteca da escola e da universidade aprendi a mediar com a oralidade, pois segundo os autores Bortolin e Almeida Junior (2014) que discutem sobre mediação oral afirma quem é necessário a bibliotecária ter o cuidado e a ética em mediar a oralidade ancestral dos antepassados.
Dessa maneira, aproxima-se muito com o cuidado em oralizar a tradição dos povos indígenas, afro e quilombolas (Cardoso, 2015), pois foi na natureza onde aprendi a essência de sonhar a mediação, pois “tem povos que vivem a experiência do sonho como uma orientação para suas escolhas no cotidiano” (Krenak, 2019).
Aprendi sobre pesquisa na biblioteconomia, mas a sua concretude se alimentou dos orixás, da energia do ori, do batuque dos tambores, do aroma de ervas e flores, do som dos animais, e dos cantos das caboclas e benzimentos, pois estas têm sido uma das bibliotecas que me dão o embasamento de sonhar (Dalva, 2024).
A escrita se permeia entre e com esses lugares, pessoas, histórias e memórias, na prática, uma força biológica que move os dedos usando instrumentos, para o pensamento e a imaginação que se tem: registrar.
Vários sãos os movimentos realizados na magia da língua, oralidade, escrita, leitura e bibliotecas.
Então, levo esse texto como um sonho se realizando na ancestralidade do passado, presente e futuro para todas as crianças que não têm biblioteca em suas escolas a continuar a sonhar até conhecer uma biblioteca e uma pessoa bibliotecária que possam guiar até onde menos imaginarem.
Referências
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 8, n. 1, p. 229–236, 2000.
BÂ, Amadou Hampâté. Amkoullel, o menino fula. São Paulo: Palas Athena, 2003.
BEI, Aline. O peso do pássaro morto. São Paulo: Nós, 2017.
BORTOLIN, Sueli; ALMEIDA JÚNIOR, Oswaldo Francisco de. Oralidade e a ética na mediação da literatura. Informação & Informação, Londrina, v. 19, n. 2, p. 171-190, maio/ago. 2014. DOI: 10.5433/1981-8920.2014v19n2p171.
CAMPELLO, Bernadete. Biblioteca escolar: conhecimentos que sustentam a prática. Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
CARDOSO, Francilene do Carmo. O negro na biblioteca: mediação da informação para construção da identidade negra. Curitiba: CRV, 2015. 104 p.
DALVA (Mãe). Entrevista concedida a Dayane Bruna da Silva Ferreira. Juazeiro do Norte, 2024. In: FERREIRA, Dayane Bruna da Silva. Estrela Dalva da Umbanda: a representação da memória do terreiro. 2024. Dissertação (Mestrado em Biblioteconomia) – Universidade Federal do Cariri, Juazeiro do Norte, 2024.
DEWEY, Melvil. Classificação decimal de Dewey. 21. ed. Brasília: Thesaurus, 2003.
EVARISTO, Conceição. Escrevivência: a escrita de nós: reflexões sobre a escrita de mulheres negras. Rio de Janeiro: Pallas, 2020.
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
LANZI, Lucirene Andréa Catini; VIDOTTI, Silvana Aparecida Borsetti Gregorio; FERNEDA, Edberto. A biblioteca escolar e a geração nativos digitais: construindo novas relações. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2013.
LEÃO, Ryane. Tudo nela brilha e queima. São Paulo: Planeta, 2017.