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QUEM RECEBEU O PRESENTE DE PROMETEU?

Tayssa Nobre Lobo

Entre as histórias que regem a mitologia grega e seu apelo para nós enquanto sociedade do conhecimento, o mito de Prometeu tem a minha mais sincera atenção, e isto porque a sua mensagem vem arraigada do pressuposto de que ele levou o fogo como um presente para a humanidade em prol de sua sobrevivência frente às adversidades do mundo. Seu compadecimento, senso de justiça, empatia ou qualquer outro sentimento que o tenha levado a esta ação, acarretou em acontecimentos em cadeia até os dias de hoje, afinal, podemos tirar muitas lições desse tipo de história. Além disso, é interessante pensar que um homem — na verdade, um ser etéreo, um titã — poderia fazer tal movimento.

A história de Prometeu, que vê a humanidade abandonada de dons em detrimento dos outros animais que habitavam a Terra, revela uma visão de futuro apurada sobre os outros, mas também traz um toque de sentimentalismo à sua jornada enquanto mártir. O simbolismo de sua ação retrata de maneira metafórica o que se entende como o compartilhamento do conhecimento, pois seria essa uma das representações do fogo prometido por este titã. Durante essa jornada, o conhecimento, expressado como dádiva, presente e símbolo de transformação e evolução, acabou por marcar a história da humanidade entre o que deixamos de ser um dia e o que criamos a partir disso. Nesse intervalo, há uma diferença entre o que aguardava os nossos ancestrais em uma noite sem luz e a segurança do uso de uma ferramenta de escape, de luta e sobrevivência: o fogo.

Com isso, o movimento do mundo nos levou a diversos tipos de fogo em sociedade; e nós, estudantes e pesquisadores de nossos devidos campos de atuação, estamos inclusos nisso em algum nível. Da sutileza do mito à literatura, o interessante dessa relação é que não sou eu quem dispõe do pioneirismo desse pensamento, pois foi na obra de Mary Shelley, em “Frankenstein ou O Prometeu Moderno?”, que podemos ver o desenvolvimento da vida pela ciência e suas consequências em um tom sombrio, cruel e crítico. Isto porque Victor Frankenstein, protagonista do livro, desafiou o limite entre imitar o poder dos deuses e ditar as regras da humanidade, sendo assim penalizado. Enquanto o titã Prometeu, por ser imortal, foi delegado a todos os dias ter seu fígado devorado por uma águia, Victor sofreu a perda de seus entes por sua criatura e teve na morte a sua sentença. Ambos, de certo modo, foram punidos pela desculpa de ajudar a humanidade, independentemente de suas intenções em primeiro momento. Seja por um titã na Grécia Antiga ou por um cientista do século XVIII/XIX no caso demonstrado, a mensagem que se tem é de que o retorno daquele que leva o fogo ao seu povo, antes voltado a apenas uma determinada classe, é agridoce.

Então, camarada cientista, se muitas vezes nos colocamos — e somos colocados — como aqueles que estão na eterna busca por compartilhar o conhecimento de alguma maneira, para quem se destinam os nossos presentes? E ainda, qual será a nossa sentença? Estas são questões que, vez ou outra, me vêm à cabeça quando penso sobre pesquisa, conhecimento e sociedade, e refletir sobre isso por meio de analogias sempre dá espaço para chegar a alguns bons questionamentos, embora muitas vezes sejam incompletos. Ora, assim como no caso de Prometeu, muitas vezes sentimos a inquietude de não saber se as pessoas fora do âmbito acadêmico estão de fato a par do que está sendo feito na ciência brasileira. Muitos de nós, inclusive, passamos por momentos de inquietude e insegurança, com receio de não saber projetar o conhecimento adquirido com o restante do mundo e, às vezes, por não conseguir ver o próprio mundo projetado dentro da prática científica.

Bom, essa dinâmica, muitas vezes, nos leva a pensar que o conhecimento é um troféu a ser alcançado para ser devidamente compartilhado, talvez até como se a sua oferta ao mundo, feita por nós, representasse o caro presente de Prometeu à humanidade, fato que pode estar distante da realidade. Dito isso, por mais que dentro da comunidade científica alguns de nós estejam focados nisso, não temos muita certeza sobre o que fazer exatamente para que essa prática seja possível. Na verdade, até mesmo podemos pensar e organizar algo, mas certas coisas não dependem somente de nós enquanto sujeitos, não é? O que pode ser um pouco frustrante, mas também até acalentador quando refletimos que nosso trabalho é e deve ser feito em grupo (não estamos sozinhos nesse processo).

Portanto, assim como Prometeu — e até mesmo Victor Frankenstein —, temos certas semelhanças em querer contribuir com a sociedade por meio do nosso conhecimento adquirido, e isso é uma parte significativa do trabalho científico. Contudo, como até mesmo eles sofreram suas sentenças por tais escolhas, nós temos em nosso cotidiano os percalços que caracterizam a jornada do pesquisador. Das coisas mais simples do dia a dia até lidar com cortes de gastos, da pessoa que se encontra no mais alto escalão de instituições renomadas até quem entrou há pouco tempo na pesquisa científica, nossa sentença faz relação com uma realidade que ainda não abraça o cientista.

Nosso trabalho é envolto em um caminho metodológico que não chega a todos por diversos motivos, mas que encontra, em seu percurso, resultados que buscam beneficiar a maior parte das pessoas a quem se destina, seja o próprio pesquisador ou outras pessoas que não estão propriamente nesse meio. Então, por mais que pensemos que há um presente a ser entregue nessa relação, sendo ele o conhecimento, é importante dizer que essa dinâmica não é unilateral. Por isso, quando me refiro a quem recebeu o presente de Prometeu, eu digo que ele vem de nós para os outros, mas também vem dos outros para nós. Todos nós estamos aptos a receber esse presente e passá-lo adiante como símbolo do que foi aprendido. Diante de tudo isso, a questão que iniciou essa reflexão me leva a acreditar que a guarda desse presente é, na verdade, compartilhada. E, assim, apesar de tudo que foi dito até aqui, a jornada contemporânea sobre o mito de Prometeu nos permite pensar que seu ensinamento não é somente sobre a entrega do fogo à humanidade, mas sobre a possibilidade de fazer esse movimento de criação de conhecimento em conjunto.

Tayssa Nobre Lobo - Doutoranda em Ciência da Informação pela Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Mestra em Ciência da Informação e bacharela em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Ceará. Email para contato: nobre.lobo@unesp.br"


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