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  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

COMO (DES)APRENDER?

Tayssa Nobre Lobo

 

Por um bom tempo, refleti sobre como poderia trazer algum tema interessante para esta página, aquele tipo de assunto que levantaria uma boa questão de pesquisa e, quem sabe, poderia se tornar parte de um trabalho acadêmico. Esse pensamento de produção quase industrial me levou a um lugar de incertezas e, depois de me debruçar sobre determinadas temáticas ao longo dos meus estudos, percebi que às vezes é importante sair desse formato paper e falar sobre as coisas que fazem parte não só desse processo de estudo, mas também do que não se fala em voz alta.

Na beleza desse não saber, essa perspectiva se tornou um lugar mais confortável de tratar sobre as coisas da vida e me fez chegar à conclusão de que não há nada que eu conheça melhor do que a minha vontade de saber sobre as coisas que eu ainda não sei. E, também, a liberdade em aprender com isso. Assim, esse texto vem como um manifesto da minha necessidade em compartilhar reflexões de autoconhecimento e deixar em aberto, cada vez mais, uma possível construção do que eu quero expressar sobre a minha relação com o aprendizado.

Por isso, pensei em três pontos principais que podem - ou não - contribuir com um pensamento mais reflexivo e também percepções minhas sobre como tenho visto e lidado com o meu processo de aprendizado, bem como dos outros que vejo ao meu redor. Não há uma regra nisso, mas com certeza deve haver um fio condutor, principalmente quando nós, enquanto estudantes, chegamos ao lugar de que nunca vamos de fato compreender o mundo em sua totalidade. Então:

1. As portas se abrem na medida da aprovação: falo do eterno pensamento da validação externa que a gente “aprende a aprender” desde cedo, afinal de contas, o reconhecimento traz benefícios até mesmo para o nosso crescimento intelectual, muito embora também nos coloque em uma linha tênue entre a excelência e a percepção da ignorância. Isso, para mim, está muito ligado a forma como somos educados desde cedo e sobre como o aprendizado vem para nós, pessoas de classes sociais mais baixas, como uma maneira de ascender. Fico me perguntando quantas inteligências foram invisibilizadas pela máquina social do aprendizado formal até uma pessoa alcançar o patamar do reconhecimento. Quando somos validados, seja por qual via for, ela abre espaço para a porta que desejamos, seja de forma consciente ou inconsciente, e então sentimos que, de fato, aprendemos algo. No entanto, quando percebemos que passar em uma prova, mesmo que nos leve a um lugar de vitória, não diz tanto sobre o quanto de conhecimento temos de algo, mas sim sobre recursos, critérios e fatores muito mais diversos, essa validação reforça o autoquestionamento e à sensação de insuficiência. Às vezes, deter o conhecimento como posse é prender-se ao fato de que, em algum momento, podemos alcançar o direito à escritura de um determinado assunto, mas quando pensamos que o aprendizado é uma prática livre, esse direito não é detido como um documento lavrado em cartório, ele está sempre aberto ao novo e sua validação não se prende somente a aprovação intelectual formal.

2. A aprovação vai de encontro ao outro: quando nos encontramos em uma situação na qual nosso conhecimento é colocado à prova (figurativamente ou não) alguns postulados são derrubados. Ora, até a mais sábia das pessoas que já pisou nesse mundo criou uma lembrança eterna da própria ignorância, por que haveríamos de contestar? Quando eu me vejo na iminência de perder uma base de aprendizado que já foi construída internamente isso parece um parto. E na verdade é. E dói. A dor de admitir a ignorância também traz a liberdade de ver o outro e entender um pouco melhor sobre determinados assuntos. Esse parto metafísico, filosófico, social, cultural, seja ele qual for, não exige validação externa, mas necessita da nossa permissão para entrar em nossas mentes. Isto porque a construção da nossa realidade muitas vezes diz sobre o universo próprio de pensamentos, reflexões e vivências de mundo que temos ao longo da vida que está atravessada por diferentes relações com outros seres humanos. Não há, portanto, como fugir do outro na tentativa de visualizar a si mesmo nesse universo - e principalmente na busca pelo conhecimento, que é o que chamamos normalmente de aprendizado. Isso me leva ao terceiro e último ponto desta reflexão.

3. Nem sempre estamos prontos para aprender: a sensação de sair de uma aula, palestra ou conversa sem entender praticamente nada do que foi dito é uma boa maneira de ressignificar as habilidades de sorrir e acenar. Me lembro até hoje da primeira palestra que vi enquanto caloura do curso de Biblioteconomia: era uma apresentação de pesquisa sobre arquivos públicos e boas práticas de governança. A sensação que tive nesse dia, assim como em outros da minha vida acadêmica, era a de que eu não iria entender sobre aquilo nunca. Eu não estava preparada nem me sentia de tal forma para aquiescer com aquele conhecimento, o que não significa que eu parei de pensar sobre o assunto por muitos dias e, um bom tempo depois, tive minha lembrança revisitada por uma aula que me fez aprender aquele assunto. Acho que o que eu quero dizer com isso é que às vezes nós só precisamos esperar um pouco e ter paciência para compreender que nem sempre vamos estar no lugar e hora corretas para abrir o cadeado de conhecimento. Além do mais, se o cadeado representa o que se quer aprender, então posso até dizer que o processo de encontrar a chave certa - para cada um de nós - é o tal do aprendizado.

Sendo assim, finalizo aqui minhas reflexões sobre as agruras do aprendizado. Dentre os tópicos que estabeleci, essas pequenas lições revelam um pouco sobre a minha própria vontade em vencer a maquinaria que envolve deter o conhecimento como posse e tratá-lo como parte do todo que é o universo da vida de cada um. Também, esse texto inaugura meu pequeno passo em retratar sobre informação, conhecimento e vida como coisas inseparáveis.


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