GP - INFORMAÇÃO: MEDIAÇÃO, CULTURA, LEITURA E SOCIEDADE


  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

BIBLIOTECÁRIA, DEFENSORA DE DIREITOS E MEDIADORA DA INFORMAÇÃO: UMA RELAÇÃO POSSÍVEL.

Orledys María de Jesús López Caldera

Sou mulher, venezuelana, migrante e bibliotecária. Levo comigo não apenas a bagagem de livros e saberes técnicos, mas também experiências, lutas, memórias e sonhos.

Ao longo do meu percurso, compreendi que ser bibliotecária, defensora dos direitos humanos e mediadora da informação não são papéis separados. São dimensões interligadas que se complementam entre si. Defendo que a leitura é o mais poderoso ponto de encontro entre essas dimensões. Em especial a leitura do mundo proposta por Paulo Freire. A partir disso, quero explorar outros pontos que também entrelaçam essas três dimensões do meu ser e fazer.

A leitura como prática libertadora:  leitura do mundo, das ações, das palavras, do sentir.

Antes mesmo da leitura das palavras, está a leitura da realidade: das injustiças, das desigualdades, das ausências e das potências. A leitura do mundo nos convoca à ação. E a informação, neste contexto, não é neutra: é direito e também resistência.

Tanto na biblioteconomia social quanto na educação popular a leitura e a informação são vistas como ferramentas de autonomia e de reconstrução de identidades, que contribuem para a liberdade.

No âmbito dos direitos humanos, ter acesso a informação possibilita o exercício de outros direitos como saúde, alimentação, educação, trabalho etc. Já quando estudamos a teoria da mediação da informação, não é apenas o acesso o que permite ou facilita a emancipação e sim a apropriação da informação.

Nessa perspectiva, se faz necessária a possibilidade de repensar, problematizar o contexto e gerar novos conflitos como uma possibilidade para se libertar de estruturas de pensamentos, da manipulação e criar novas respostas a dúvidas ou problemáticas.

Como mulher migrante em exercício das minhas dimensões acadêmicas, profissionais e cidadãs pratico diariamente a promoção da leitura como sinônimo de autonomia, identidade e pertencimento, quer dizer, entendo a leitura como instrumento de emancipação, especialmente para populações marginalizadas e silenciadas.

A informação como direito humano: a Declaração Universal dos Direitos Humanos no seu artigo 19 garante o direito de buscar, receber e difundir informações.

Como defensora dos direitos humanos, acredito profundamente no acesso à informação como um direito fundamental e uma ponte para a efetivação dos outros direitos.

Na atuação bibliotecária enquanto mediadora de informação estou sempre exercendo uma forma de ativismo, assim todas minhas ações são de interferência e, mais que focar exclusivamente na garantia do direito ao acesso à informação, essas ações oportunizam as possibilidades de apropriação da informação para o fortalecimento do protagonismo social em grupos vulneráveis, populações periféricas, migrantes, mulheres etc.

Acredito que como mediadora de informação minhas ações de interferência perpassam espaços tradicionais conhecidos como unidades de informação, assim a ambiência poder ser o lar, as comunidades frequentadas e as pessoas com quem dialogo, é sempre espaço informacional onde uma atuação apegada ao caráter social da informação pode ser uma ferramenta de justiça social, inclusão e construção de memória. Assim, a biblioteca, ou qualquer ambiência informacional, torna-se, então, um território de luta por justiça social e dignidade.

Biblioteconomia social como campo de resistência e de ação: numa sociedade marcada por desigualdades informacionais, o trabalho da bibliotecária deve estar alinhado com a justiça social. Assim, centrar o olhar da área mais ao seu caráter social do que a meros tecnicismos para instrumentalizar e estabelecer a organização dos acervos é uma ação urgente e necessária.

O foco da ação bibliotecária (de todas as áreas) deve se centrar nas pessoas.

Nesse sentido, é preciso problematizar constantemente o fazer com perguntas como: Os serviços oferecidos atendem às necessidades de informação locais? O perfil dos usuários é estudado para facilitar sua interação, interesse e aproveitamento dos acervos? As ações mediadoras promovem o pensamento crítico e facilitam a possibilidade da apropriação da informação?

Constantemente estou me perguntando qual é o papel das bibliotecas e dos mediadores da informação-leitura na defesa dos direitos humanos? Ou quais são os caminhos para pensar e exercer a mediação como uma prática de cuidado e resistência?

A ideia é que a prática biblioteconômica lute contra a denominada conduta “neutra” passando a ser agitadora e promotora do pensamento crítico, desses conflitos informacionais que levam os cidadãos a querer saber mais, a questionar mais e exigir mais para efetivar seus direitos de justiça e vida digna a partir da apropriação informação.

Interculturalidade e o direito à memória:  Como migrante e bibliotecária represento diversos saberes, memórias de território, afeto e cultura que não quero sejam silenciadas ou apagadas.

Como migrante sofri uma crise de identidade no meu primeiro ano morando no Brasil, era tudo distinto, minha vida, minha fala, a comida, os costumes, a música.

Eu precisei me reconhecer nesta nova cultura e me apropriar de elementos novos, mas também poder conectar essas novidades com minha origem. Com mais potência do que nunca comecei a olhar a vida com olhos de turista, curiosa, maravilhada e grata, sempre com a mente aberta.

Hoje posso ser e me sentir uma biblioteca viva, cujo acervo se mistura com as experiências vividas no meu lugar de origem e as experiências vividas no lugar que habito fisicamente. Mas também existe esse terceiro lugar da memória onde posso ressignificar, preservar e valorizar essa diversidade do que já fui, do que agora sou e do que ainda posso ser. Isso, também, é uma forma de defender os direitos culturais e identitários, na prática como bibliotecária viva, que documenta, analisa, preserva, ressignifica e vive memórias de cultura e narrativas diversas que podem convergir, resistir e reexistir.

A Mediação como ato político e prática de consciência diária: Compreender o conceito da mediação de informação, me entender e assumir como mediadora da informação foi uma virada de chave.

Foi uma virada de chave compreender que não se trata só de transmitir ou compartilhar informações, e sim de deixar portas abertas para que as pessoas interessadas consigam se apropriar dessas informações. 

Foi uma virada de chave procurar que as pessoas não aceitem de forma passiva qualquer informação, e sim que saibam assumir seu direito e dever cidadão de perguntar, duvidar, falar e refazer suas próprias ideias do mundo após problematizar seus contextos e se apropriar da informação.

Foi uma virada de chave defender que a leitura do mundo vai além de decifrar símbolos, signos, palavras e se fundamenta no sentir, em compreender e atuar. A leitura do mundo se fundamenta em reconhecer nossa origem, compreender processos sociais e culturais para decifrar e reconstruir memórias, entrelaçar culturas, identidades e territórios.

Foi uma virada de chave assumir a responsabilidade social sobre minhas falas, posicionamentos e os resultados da minha prática como bibliotecária e defensora de direitos humanos que se entende como mediadora da informação em todas as esferas da vida. 

A mediação da informação, conceito proposto por Oswaldo Francisco de Almeida Júnior (2015), não é apenas uma teoria, é uma prática de vida, e mais do que uma função ou ação do profissional da informação.

Mediar informação é olhar para cada pessoa como um ser singular, com histórias, necessidades e desejos específicos. Por isso, a mediação é construção de pontes entre saberes, entre memórias, entre direitos. Mediar informação também é um ato político, é cuidado, escuta e acolhimento.

Sou bibliotecária. Sou mediadora. Sou defensora. E sou, acima de tudo, ponte para problematizar e estimular o pensamento crítico. Ponte entre mundos, saberes e pessoas. Porque acredito que a apropriação da informação tem a potência para transformar a vida como o faz a educação. Porque acredito que toda pessoa tem o direito de ler o mundo para transformá-lo e de reescrevê-lo à sua maneira.

 

Referências

ALMEIDA JÚNIOR. Francisco de. Mediação da informação: um conceito atualizado. In: BORTOLIN, Sueli; SANTOS NETO, João Arlindo dos; SILVA, Rovilson José da (org.). Mediação oral da informação e da leitura. Londrina: Abecin, 2015. p. 9-32.

FREIRE, P. A importância do ato de ler. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1982.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - ONU. Assembleia Geral da ONU. (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos (217 [III] A). Paris. Disponível em: http://www.un.org/en/universal-declaration-human-rights/. Acesso em: 8 mai.2025.

 

ORLEDYS MARÍA DE JESÚS LÓPEZ CALDERA – Participante do Grupo de Pesquisa: Informação: mediação, cultura, leitura e sociedade. Doutoranda em Ciência da Informação no PPGCI/Unesp - Marília e Bolsista CAPES. Mestre em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Possui graduação em Bibliotecología pela Universidad Central de Venezuela (UCV). Diploma validado como Bacharel em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Ativista de Direitos Humanos, é pesquisadora em Ciências Sociais e Ciência da Informação, já atuou como professora universitária e diretora de uma rede de bibliotecas universitárias na Venezuela. Com mais de 20 anos exercendo funções na Gestão de Unidades de Informação.


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