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GUIA DO ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO (COMO NÃO SE TORNAR UMA SERIEMA)

Igor Mendes da Silva

Durante meus anos de graduação no curso de biblioteconomia, na Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), um dos câmpus da Universidade Estadual Paulista (UNESP) localizado no interior paulista, mais precisamente em Marília, mergulhei no universo folclórico presente na comunidade acadêmica. Talvez tenham sido as más companhias, talvez as boas, talvez o hábito de ser um fumante compulsivo que me levava à cantinas com café barato para acompanhar o vício, um local tradicionalmente habitado pelas criaturas denominadas de ‘esconde-atrás’.

Incapazes de serem percebidas por olhos comuns. Diziam que apenas Júlia, a aluna gótica do quarto ano de sociologia, era capaz de enxergá-los, estabeleceram alguma relação com o pentagrama que ela tinha tatuado entre o ventre e a virilha, ou as lentes brancas nos olhos que concebiam a ela essa visão. Uma espécie de maldição, embora tenha minhas dúvidas a respeito disso.

Os ‘esconde-atrás’ receberam esse nome, pois sempre aparecem nas costas das mais diversas formas bióticas em momentos inesperados, como se estivessem ali só esperando uma oportunidade para agir. Com frases prontas como “me arruma um cigarro aí”, “tem um isqueiro para emprestar?” ou até mesmo “falta só trinta centavos para inteirar um café, bora dividir um?”, embora fossem criaturas pidonas, tinham um bom coração, e eram excelentes contadores de estórias.

Foi com elas que aprendi sobre a lei cujo nome ou numeração ninguém conhece, mas que predizia a possibilidade de dispensa automática em aulas quando o professor se atrasa por mais de 20 minutos. Também foi por elas que ouvi sobre o livro perdido da seção de literatura inglesa da biblioteca, desaparecido há tanto tempo, que ninguém mais se lembra quem o perdeu. Porém, dentre tantos ensinamentos, o mais importante para nós nesse contexto, foi aprender sobre a possibilidade de se tornar uma seriema.

Para aqueles que não estão familiarizados com uma seriema aqui encontra-se uma breve descrição: Do tupi sariama, ave de pescoço e pernas compridas, garras afiadas adaptadas para a caça de cascavéis; embora possua asas, prefere caminhar entre os mortais.

 Figura. I. ex-aluno Jorge, jubilado em 2017 no curso de pedagogia (retrato).

A teoria, a priori vista por alguns como absurda, possuí arcabouço ‘científico’, muitas seriemas são avistadas pelo câmpus, se mesclando a fauna acadêmica, e até mesmo Francesco, o bibliotecário com olhos italianos por trás dos óculos quadrados de grau e cabelo escuros, o mais antigo entre os bibliotecários (ainda que fosse o único) confirmava tal acontecimento. Pierre, dono da cantina Colher de Prata, dizia ter visto pessoalmente a transfiguração de uma aluna em seriema; mesmo sendo cego de nascença, suas palavras transbordavam veracidade. Os gêmeos Alves (embora tenham o mesmo sobrenome e sejam idênticos, não são irmãos de verdade), doutorandos em teoria da conspiração ovinista, negavam veementemente a existência do tamanduá capim-limão, mas ficavam em silêncio e trocavam olhares desconfiados quando o assunto era a transmutação de alunos em seriemas.

O rito para tal feito, embora indesejado, era demasiadamente complexo, o aluno precisa ser jubilado, ou seja, ser desligado de modo compulsório por exceder o tempo hábil para a conclusão do curso no qual é matriculado. Reafirmo a complexidade, pois jubilar exige um esforço muito maior do que estudar e se formar. Makoto, a estudante de intercâmbio, nascida no Japão, com vasta experiência em jubilação em outras universidades latinas, não conseguiu tal feito aqui, e ela se esforçou muito para isso.

Após compreender esse processo que nem mesmo o grande alquimista francês Nicolas Flamel (c. 1330-1418) foi capaz de desvendar (transformar metal em ouro é fácil, Flamel) decidi transcrever o pouco que aprendi na esperança de constituir subsídios para a redução de danos no que concerne a possibilidade — real — de ser transformado em seriema ao frequentar universidades públicas brasileiras.

 Figura. II. ex-aluna Laura, jubilada em 2021 no curso de relações internacionais (próxima às escadarias — ala oeste — do prédio central de aulas do câmpus).

1. (de modo não tão original, eu sei), não entre em pânico! O mercado de trabalho no Brasil não está em sua melhor fase, talvez se tornar uma seriema não seja algo tão ruim assim; 2. Você, caro leitor desocupado, provavelmente deveria estar lendo algum texto aleatório para alguma disciplina que odeia, mas caso seja adepto (assim como eu) da arte de fugir das responsabilidades, prossiga; 3. Não se relacione com pessoas que acreditam em signos (não possui nenhuma ligação, mas poderá ser útil no decorrer de sua vida); 4. Organize seu tempo, seriemas são conhecidas por sua prática para com o caos; 5. Evite o consumo de álcool e narcóticos, principalmente em dias que antecedem datas importantes (provas, seminários, mesas redondas, missas, campeonatos de dama ou truco, partidas de frescobol, visitas técnicas e afins); 7. Mesmo que seu curso não esteja relacionado às ciências exatas, retome conceitos básicos de matemática, são úteis para elaboração de projetos, análise de dados e em planilhas (às vezes me arrependo das aulas de aritmética da prof.ª Miranda, que enforquei durante o ensino médio); 8. Não finja estar doente para faltar às aulas, fique doente de verdade (nem é tão difícil assim, corrimãos estão por aí prontos para serem lambidos) e consiga um atestado médico não falsificado; 9. Nunca dê comida para jaguatiricas, elas se alimentam de dedos mindinhos (já viu alguma seriema que tinha o dedo mindinho? Coincidência?), de repente corre até o risco de se tornar presidente do Brasil, parece uma péssima ideia não?; 10. Fique atento com prazos, a dama burocracia não perdoará nenhuma história triste que você tenha para contar; 11. Nunca se apaixone por uma mulher chamada Ana, que tenha um terrier escocês chamado Sr. Epaminondas (conheci uma seriema que cometeu esse erro); 12. Aprenda uma segunda língua (língua brasileira de sinais), ou algum idioma estrangeiro, pode ser útil durante o processo de formação (ou comece a treinar previamente o canto da seriema); 13. Nunca coma tiramisu nos arredores do câmpus, as seriemas podem pedir um pedaço, gerando assim um sentimento de afinidade, fazendo com que elas te acompanhem por toda parte; 14. Beba água (mas não muita, sair toda hora para ir ao banheiro pode ser visto como coisa de seriema).

Em linhas gerais, o processo de formação acadêmica de um estudante universitário, tem altos e baixos, como em todos os âmbitos da sociedade. E precisamos aprender a conviver com isso. Muito se discute sobre currículo e produções acadêmicas, saúde mental em universidades, futuro e pós-formação, o papel sociocultural de organismos brasileiros para educação e pesquisa, porém nos esquecemos por vezes daquilo que realmente importa, no que concerne a vivência em centros universitários, em muitos casos, aquilo que nos move é apenas uma vontade, a vontade de não se tornar uma seriema.

 

REFERÊNCIAS

BRITANNICA. Flamel, Nicolas. In: Encyclopædia Britannica. 11. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 1911. v. 10.

NAVARRO, E. A. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil. São Paulo: Global, 2013.

Igor Mendes da Silva - Bacharel em Biblioteconomia, Universidade Estadual Paulista; Mestre em Ciência da Informação, Universidade Estadual Paulista; Doutorando em Ciência da Informação, Universidade Estadual Paulista; igor.m.silva@unesp.br


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