CMAI – COMPETÊNCIA E MEDIAÇÃO EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


  • O objetivo do grupo CMAI se concentra em aprofundar percepções teóricas e práticas da Ciência da Informação, Biblioteconomia e áreas correlatas, que dialoguem com as temáticas oriundas da sociedade contemporânea. As repercussões do grupo estão focadas em um sistema aberto de retroalimentação constante, no qual reflexões se interrelacionam com as práticas, direcionadas para a consolidação da comunidade científica e profissionais mais atuantes, criativos, motivados, inovadores e protagonistas. O grupo reúne pesquisadores, alunos e profissionais interessados em investigar objetos de estudo que dialogam com as teorias basilares do CMAI, quais sejam: Competência em Informação e Midiática; Comunicação e Divulgação Científica; Mediação, visando propor diagnósticos, reflexões, ações e modelos que atendam as demandas sociais.

A FUNÇÃO SOCIAL DA POPULARIZAÇÃO E DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA

Andreza Pereira Batista

A ciência brasileira vem enfrentando diversas questões de ordem orçamentária e de prestígio ao longo dos últimos anos. Notoriamente, não há dúvidas quanto à necessidade da ciência para a sociedade, pois ela é um dos elementos centrais para propiciar o desenvolvimento social. O que está em foco é que ser pesquisador é visto, por vezes, como uma subatividade, que antecede a profissão real e o ingresso no mundo do trabalho (que, em diversos casos, desvalorizam a experiência acadêmica do candidato). Por vezes, tal preparo converge para a realidade de muitos, mas não de todos, especialmente quando contemplamos as pós-graduações a nível de mestrado e doutorado. Assim, o cenário que visualizamos é de indivíduos que dedicam suas energias para desenvolver as mais diversas áreas de conhecimento e a própria conjuntura social. Nesse contexto, divulgar e popularizar a ciência torna-se ainda mais necessário para disseminar o que é realizado pelas comunidades científicas.

A divulgação da ciência compreende a disposição dos conhecimentos produzidos nas academias para o público geral, traduzindo-os de forma compreensível e proporcionando a participação popular mediante o uso de diferentes mídias. Os discursos da ciência, outrora privativos dos acadêmicos, se tornam democráticos neste tipo de ação. Para Oliveira (2007, não paginado), o “sucesso da divulgação científica depende de que os atores sociais consigam vestir-se e despir-se de papéis, adequando seu comportamento discursivo à situação comunicativa que vivem em um dado momento”. A adequação da linguagem se torna condição sine qua non da viabilidade do entendimento do discurso especializado.

Já a popularização científica se coloca ainda mais ao dispor das massas, pois, ao buscar sua participação na construção coletiva dos saberes, propõe possibilitar a integração dos sujeitos na ciência e estimular sua consciência cidadã. Isto posto, compreendemos que a “Popularização é o ato ou ação de popularizar: tornar popular, difundir algo entre o povo” (GERMANO; KULESZA, 2007, p. 19). Muito além que só mostrar os resultados dos estudos, explica os métodos técnicos que levaram a determinado resultado, como Sagan (2006) já apontava na obra O mundo assombrado pelos demônios, de modo a fazer emergir ferramentas e competências interpretativas na população em geral ao se deparar com o que é posto pelos especialistas.

Autores como Caribé (2015) e Motta-Roth (2009) direcionam, ainda, para a necessidade de perceber o público-alvo, ou audiência de massa, pois é a partir dele que os níveis da linguagem e transmissão do saber serão efetivados. Além disso, o interesse público, nesse contexto, passa a incorporar o desenvolvimento das pesquisas. Aqui, encontramos fatores em que a participação social é primordial no processo de construção coletiva do conhecimento, ainda que os responsáveis por sua concepção sejam os acadêmicos.

Estabelecidas as definições teóricas básicas dos temas aqui propostos, retornamos à reflexão que abre esse texto. Devemos persistir na pesquisa brasileira, na divulgação dos estudos, na popularização da ciência? Continuamos empenhando esforços em prol de um país que, por vezes, menospreza a ciência ao cortar investimentos e banalizar questionamentos legítimos de toda uma comunidade? Não há respostas definitivas para tais questionamentos, nem ao menos é objetivo desta reflexão respondê-las, pois a cada vez que reflito sobre tais temas, não consigo chegar a uma opinião definitiva (por vezes, entendemos que nem sempre é necessário responder). Nesse ínterim, ao colocarmos em evidência a saúde mental do pesquisador, nos deparamos com uma comunidade cada vez mais adoecida não somente por todo este contexto, mas também pelas "regras do jogo" acadêmico, que, muitas vezes, prezam a produção em detrimento do bem-estar do indivíduo. A respeito de como as comunidades acadêmicas funcionam internamente, compreendemos que elas denotam reflexões próprias que não cabem neste momento e neste texto.

No entanto, há de se convir que, se as comunidades acadêmicas persistem, existem razões que nos impulsionam a relutar em desistir. Empiricamente, imaginamos que a satisfação pessoal do pesquisador em ter seus estudos publicados e acreditar que eles fazem diferença para a ciência em algum nível por vezes basta, mesmo que, em um contexto social amplo e além dos muros das instituições de pesquisa, muitos não reconheçam o mérito de suas ações. Claro que nem toda pesquisa tem aplicação prática na sociedade, haja vista a pluralidade do que é estudado por milhares de cientistas brasileiros, especialmente ao levar em consideração as ciências sociais e humanas. Buscamos o saber para conhecer.

Indo um pouco mais além nessa reflexão, aqueles que optam por se envolver no mundo da divulgação e popularização da ciência, se deparam com sensações múltiplas, especialmente em saber que faz alguma diferença. Quantos sonhos enterramos ao privar uma pessoa de identificar-se com uma área de conhecimento? Quantos pesquisadores perdemos por eles sequer acreditarem que atuar como pesquisador poderia ser uma possibilidade para eles? E é nessa dinâmica que a satisfação emerge, que recarregamos a força de vontade de mostrar e apresentar o que é feito pela ciência, que nos voltamos para a sociedade que nos direciona para nossos estudos.

Vale ressaltar que não significa que a valorização e o reconhecimento do pesquisador pelas conjunturas sociais devam ser deixados de lado, mas que ela pode ser encontrada também em visualizar que o conhecimento produzido chegou às diversas camadas sociais. Ainda somos uma sociedade que pouco sabe o que as universidades e os institutos de pesquisa fazem, de modo que não conhecer tais ações afasta a defesa de áreas essenciais para o desenvolvimento humano. E conhecer anda de mãos dadas com popularizar e divulgar a ciência.

Popularizar e divulgar a ciência é essencial. Disponibilizar o conhecimento na dinâmica social e a serviço das pessoas é necessário para que possamos evoluir como indivíduos e como sociedade. Acreditamos que, em meio a todo o cenário que retratei ao longo da narrativa, é necessário trazer ainda mais pesquisadores em prol da disseminação dos conhecimentos, apresentá-los a este mundo que é popularizar e divulgar a ciência. Pode haver resistência da parte da comunidade, mas é preciso criar mecanismos para que a divulgação e a popularização sejam efetivadas. Compreendemos que a partir da convergência dos pesquisadores em prol de divulgar o saber científico nos possibilitaria constituir uma sociedade em que o conhecimento especializado é um bem entendível pelas diversas culturas humanas, pela audiência de massa. Pode ser delírio e auto enganação? Talvez, mas precisamos ter a tendência a acreditar que sem tais elementos acabamos por perder a esperança em dias melhores.

Referências

CARIBÉ, R. de C. do V. Comunicação científica: reflexões sobre o conceito. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 25, n. 3, p.89-104, 2015. Disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/23109. Acesso em: 01 out. 2022.

GERMANO, M. G.; KULESZA, W. A. Popularização da ciência: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Florianópolis, v. 24, n. 1, p. 7-25, 2008. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/1546. Acesso em: 08 mar. 2022.

MOTTA-ROTH, D. Popularização da ciência como prática social e discursiva. Coleção 
HiperS@beres, Santa Maria, v. 1, p. 130-195, 2009. Disponível em: 
http://w3.ufsm.br/hipersaberes/volumeI/textos/t9.pdf. Acesso em: 01 out. 2022.

OLIVEIRA, J. M. de. Ciência e divulgação científica: reflexões sobre o processo de produção e socialização do saber. Caligrama, São Paulo, v. 3, n. 1, não paginado, abr. 2007. 
Disponível em: https://www.revistas.usp.br/caligrama/article/view/64898. Acesso em: 01 out. 2022.

SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 509 p.
 

Andreza Pereira Batista - Bibliotecária, Mestranda em Ciência da Informação e Integrante do CMAI


   842 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
PERIÓDICOS CIENTÍFICOS BRASILEIROS E A REVISÃO POR PARES ABERTA
Janeiro/2023

Ítem Anterior

author image
SHIYALI RAMAMRITA RANGANATHAN E AS FACETAS DA DOCUMENTAÇÃO AUDIOVISUAL NA PODOSFERA
Novembro/2022



author image
CMAI – COMPETÊNCIA E MEDIAÇÃO EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO

O objetivo do grupo CMAI se concentra em aprofundar percepções teóricas e práticas da Ciência da Informação, Biblioteconomia e áreas correlatas, que dialoguem com as temáticas oriundas da sociedade contemporânea. As repercussões do grupo estão focadas em um sistema aberto de retroalimentação constante, no qual reflexões se interrelacionam com as práticas, direcionadas para a consolidação da comunidade científica e profissionais mais atuantes, criativos, motivados, inovadores e protagonistas. O grupo reúne pesquisadores, alunos e profissionais interessados em investigar objetos de estudo que dialogam com as teorias basilares do CMAI, quais sejam: Competência em Informação e Midiática; Comunicação e Divulgação Científica; Mediação, visando propor diagnósticos, reflexões, ações e modelos que atendam as demandas sociais.