A FUNÇÃO SOCIAL DA POPULARIZAÇÃO E DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA
Andreza Pereira Batista
A ciência brasileira vem enfrentando diversas questões de ordem orçamentária e de prestígio ao longo dos últimos anos. Notoriamente, não há dúvidas quanto à necessidade da ciência para a sociedade, pois ela é um dos elementos centrais para propiciar o desenvolvimento social. O que está em foco é que ser pesquisador é visto, por vezes, como uma subatividade, que antecede a profissão real e o ingresso no mundo do trabalho (que, em diversos casos, desvalorizam a experiência acadêmica do candidato). Por vezes, tal preparo converge para a realidade de muitos, mas não de todos, especialmente quando contemplamos as pós-graduações a nível de mestrado e doutorado. Assim, o cenário que visualizamos é de indivíduos que dedicam suas energias para desenvolver as mais diversas áreas de conhecimento e a própria conjuntura social. Nesse contexto, divulgar e popularizar a ciência torna-se ainda mais necessário para disseminar o que é realizado pelas comunidades científicas.
A divulgação da ciência compreende a disposição dos conhecimentos produzidos nas academias para o público geral, traduzindo-os de forma compreensível e proporcionando a participação popular mediante o uso de diferentes mídias. Os discursos da ciência, outrora privativos dos acadêmicos, se tornam democráticos neste tipo de ação. Para Oliveira (2007, não paginado), o “sucesso da divulgação científica depende de que os atores sociais consigam vestir-se e despir-se de papéis, adequando seu comportamento discursivo à situação comunicativa que vivem em um dado momento”. A adequação da linguagem se torna condição sine qua non da viabilidade do entendimento do discurso especializado.
Já a popularização científica se coloca ainda mais ao dispor das massas, pois, ao buscar sua participação na construção coletiva dos saberes, propõe possibilitar a integração dos sujeitos na ciência e estimular sua consciência cidadã. Isto posto, compreendemos que a “Popularização é o ato ou ação de popularizar: tornar popular, difundir algo entre o povo” (GERMANO; KULESZA, 2007, p. 19). Muito além que só mostrar os resultados dos estudos, explica os métodos técnicos que levaram a determinado resultado, como Sagan (2006) já apontava na obra O mundo assombrado pelos demônios, de modo a fazer emergir ferramentas e competências interpretativas na população em geral ao se deparar com o que é posto pelos especialistas.
Autores como Caribé (2015) e Motta-Roth (2009) direcionam, ainda, para a necessidade de perceber o público-alvo, ou audiência de massa, pois é a partir dele que os níveis da linguagem e transmissão do saber serão efetivados. Além disso, o interesse público, nesse contexto, passa a incorporar o desenvolvimento das pesquisas. Aqui, encontramos fatores em que a participação social é primordial no processo de construção coletiva do conhecimento, ainda que os responsáveis por sua concepção sejam os acadêmicos.
Estabelecidas as definições teóricas básicas dos temas aqui propostos, retornamos à reflexão que abre esse texto. Devemos persistir na pesquisa brasileira, na divulgação dos estudos, na popularização da ciência? Continuamos empenhando esforços em prol de um país que, por vezes, menospreza a ciência ao cortar investimentos e banalizar questionamentos legítimos de toda uma comunidade? Não há respostas definitivas para tais questionamentos, nem ao menos é objetivo desta reflexão respondê-las, pois a cada vez que reflito sobre tais temas, não consigo chegar a uma opinião definitiva (por vezes, entendemos que nem sempre é necessário responder). Nesse ínterim, ao colocarmos em evidência a saúde mental do pesquisador, nos deparamos com uma comunidade cada vez mais adoecida não somente por todo este contexto, mas também pelas "regras do jogo" acadêmico, que, muitas vezes, prezam a produção em detrimento do bem-estar do indivíduo. A respeito de como as comunidades acadêmicas funcionam internamente, compreendemos que elas denotam reflexões próprias que não cabem neste momento e neste texto.
No entanto, há de se convir que, se as comunidades acadêmicas persistem, existem razões que nos impulsionam a relutar em desistir. Empiricamente, imaginamos que a satisfação pessoal do pesquisador em ter seus estudos publicados e acreditar que eles fazem diferença para a ciência em algum nível por vezes basta, mesmo que, em um contexto social amplo e além dos muros das instituições de pesquisa, muitos não reconheçam o mérito de suas ações. Claro que nem toda pesquisa tem aplicação prática na sociedade, haja vista a pluralidade do que é estudado por milhares de cientistas brasileiros, especialmente ao levar em consideração as ciências sociais e humanas. Buscamos o saber para conhecer.
Indo um pouco mais além nessa reflexão, aqueles que optam por se envolver no mundo da divulgação e popularização da ciência, se deparam com sensações múltiplas, especialmente em saber que faz alguma diferença. Quantos sonhos enterramos ao privar uma pessoa de identificar-se com uma área de conhecimento? Quantos pesquisadores perdemos por eles sequer acreditarem que atuar como pesquisador poderia ser uma possibilidade para eles? E é nessa dinâmica que a satisfação emerge, que recarregamos a força de vontade de mostrar e apresentar o que é feito pela ciência, que nos voltamos para a sociedade que nos direciona para nossos estudos.
Vale ressaltar que não significa que a valorização e o reconhecimento do pesquisador pelas conjunturas sociais devam ser deixados de lado, mas que ela pode ser encontrada também em visualizar que o conhecimento produzido chegou às diversas camadas sociais. Ainda somos uma sociedade que pouco sabe o que as universidades e os institutos de pesquisa fazem, de modo que não conhecer tais ações afasta a defesa de áreas essenciais para o desenvolvimento humano. E conhecer anda de mãos dadas com popularizar e divulgar a ciência.
Popularizar e divulgar a ciência é essencial. Disponibilizar o conhecimento na dinâmica social e a serviço das pessoas é necessário para que possamos evoluir como indivíduos e como sociedade. Acreditamos que, em meio a todo o cenário que retratei ao longo da narrativa, é necessário trazer ainda mais pesquisadores em prol da disseminação dos conhecimentos, apresentá-los a este mundo que é popularizar e divulgar a ciência. Pode haver resistência da parte da comunidade, mas é preciso criar mecanismos para que a divulgação e a popularização sejam efetivadas. Compreendemos que a partir da convergência dos pesquisadores em prol de divulgar o saber científico nos possibilitaria constituir uma sociedade em que o conhecimento especializado é um bem entendível pelas diversas culturas humanas, pela audiência de massa. Pode ser delírio e auto enganação? Talvez, mas precisamos ter a tendência a acreditar que sem tais elementos acabamos por perder a esperança em dias melhores.
Referências
CARIBÉ, R. de C. do V. Comunicação científica: reflexões sobre o conceito. Informação & Sociedade: Estudos, João Pessoa, v. 25, n. 3, p.89-104, 2015. Disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/ies/article/view/23109. Acesso em: 01 out. 2022.
GERMANO, M. G.; KULESZA, W. A. Popularização da ciência: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Florianópolis, v. 24, n. 1, p. 7-25, 2008. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/1546. Acesso em: 08 mar. 2022.
MOTTA-ROTH, D. Popularização da ciência como prática social e discursiva. Coleção
HiperS@beres, Santa Maria, v. 1, p. 130-195, 2009. Disponível em:
http://w3.ufsm.br/hipersaberes/volumeI/textos/t9.pdf. Acesso em: 01 out. 2022.
OLIVEIRA, J. M. de. Ciência e divulgação científica: reflexões sobre o processo de produção e socialização do saber. Caligrama, São Paulo, v. 3, n. 1, não paginado, abr. 2007.
Disponível em: https://www.revistas.usp.br/caligrama/article/view/64898. Acesso em: 01 out. 2022.
SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 509 p.
Andreza Pereira Batista - Bibliotecária, Mestranda em Ciência da Informação e Integrante do CMAI