INFORMAÇÃO E SAÚDE


PANORAMA SOBRE A INFORMAÇÃO EM SAÚDE EM UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA: DO ENSINO, DOS USOS E DA PESQUISA

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Camila de Luca Zambonini

João Victor Bizinoto Caetano

Letícia Azevedo Januário

Vivian Soares Villalba

 

Introdução

 

O presente texto sintetiza quatro estudos desenvolvidos durante o ano de 2013 que diagnosticaram aspectos sobre o ensino, os usos e a pesquisa em informação em saúde em uma universidade pública brasileira. Os estudos que envolveram seres humanos (CAETANO, 2013; JANUÁRIO, 2013; e ZAMBONINI, 2013) seguiram uma abordagem qualitativa-exploratória, guiada pela saturação de respostas dos participantes e análise temática das falas (CRESWELL, 2012). Além disso, conforme preconiza as normas brasileiras e as boas práticas em pesquisa, estes estudos foram aprovados previamente por comitê de ética em pesquisas com seres humanos, por meio dos seguintes Certificados de Apresentação para Apreciação Ética: CAAE 17605313.0.0000.5440, CAAE 16633413.8.0000.5440 e CAAE 13286313.8.0000.5440. O estudo que envolveu apenas análise documental (VILLALBA, 2013) baseou sua coleta e análise de dados no modelo de pesquisa proposto por LOPES (1994).

 

Informação em saúde na graduação

 

Em estudo qualitativo-exploratório sobre a transição tecnológica do prontuário do paciente em suporte papel para o suporte eletrônico, que contou com a participação de 29 docentes de um curso de medicina de uma universidade pública brasileira, observou-se que mais da metade dos docentes entrevistados concordaram que o curso médico tem passado por mudanças em decorrência das tecnologias de comunicação e informação. Os participantes citaram diversos exemplos dessas mudanças como a incorporação do uso de exames de imagem de alta resolução como ferramenta para ensino; equipamentos de filmagem para ilustrar quadros clínicos como crises epilépticas; substituição de diapositivos por datashow durante a exposição de conteúdos em aulas; uso de plataformas eletrônicas para ensino como o Moodle e o Teleduc, nos quais são disponibilizados conteúdos para leitura e exercícios. Houve grande divergência entre os docentes entrevistados quanto às mudanças tecnológicas que seriam necessárias ao curso de graduação em medicina na atualidade. Alguns sugerem: a adoção de ferramentas como clickers para dinamizar as aulas e aferir o quanto o estudante conhece da matéria; utilização de grupos em redes sociais online para discutir assuntos referentes à graduação; curso sobre ética e sistemas de comunicação e informação; utilização de dados clínicos obtidos a partir de servidores eletrônicos do serviço de saúde para aprendizado médico, seja discutindo o caso com o professor, seja utilizando-se daqueles dados para solução de problemas (Problem Based Learning); e implantação de sistemas de informação em cidades satélites que fazem parte da área de serviço da faculdade que abriga o curso médico. Dentre as respostas referentes à pergunta de como são ensinados ao estudante de medicina os conteúdos relacionados ao prontuário do paciente, houve convergência de que não existe um curso formal sobre prontuário do paciente. Concordaram que tal aprendizado ocorre de maneira prática, ao longo do curso, aprendizado este que se dá principalmente a partir do terceiro ano. Quanto ao ensino dos conteúdos relacionados ao prontuário eletrônico do paciente, esse também é feito de maneira prática, porém iniciando-se mais tarde, por volta do quinto ano. Os entrevistados divergiram sobre a existência de um prontuário eletrônico do paciente que esteja disponível na faculdade e possa ser empregado no curso de medicina: enquanto alguns participantes disseram que existe um prontuário eletrônico na instituição, outros negaram sua existência. Em acréscimo, muitos docentes, por exemplo, não vislumbram diferenças no uso do prontuário do paciente em suporte papel ou em suporte eletrônico durante o ensino na graduação, bem como apresentaram dúvidas sobre a temática como aquelas relacionadas à segurança dos sistemas informatizados (CAETANO, 2013). Dessa forma, o estudo parece indicar que a produção e uso do prontuário do paciente, em suporte papel ou eletrônico, não são encarados pelos participantes no estudo como conteúdo prioritário no ensino médico, ficando a aquisição de conhecimentos sobre esta temática a mercê dos momentos de prática clínica que ocorrem ao longo do curso médico. Além disso, o próprio conhecimento dos docentes sobre o prontuário do paciente em suporte eletrônico ou em suporte papel apresenta indícios de insuficiência.

 

Informação em saúde na pós-graduação

 

Em estudo qualitativo e exploratório composto por 30 entrevistas com mestrandos e doutorandos de um programa de pós-graduação em patologia de uma universidade pública brasileira, observou-se que os entrevistados, embora conheçam algumas bases de dados bibliográficas eletrônicas, possuem dificuldade para encontrar informações para suas pesquisas por não empregarem descritores adequados em suas estratégias de busca. Observou-se também que os entrevistados que passaram por algum tipo de treinamento para o uso de fontes de informação bibliográfica expressam em suas falas maior sucesso durante o processo de busca informacional nas bases de dados. Dessa forma, entende-se que há uma necessidade de treinamento dos pós-graduandos para o uso das bases de dados bibliográficas, incluindo suas ferramentas de busca e o uso de terminologias adequadas para a recuperação da informação. Em relação ao uso do prontuário do paciente como fonte de informação para pesquisa, observou-se que os pós-graduandos participantes neste estudo possuem bastante dificuldade para encontrar as informações e dados necessários aos seus estudos, mas esta dificuldade parece resultar principalmente da forma de produção dos registros nos prontuários dos pacientes realizados pela equipe multiprofissional de saúde. Dentre as problemáticas citadas no uso do prontuário do paciente para pesquisa, em suporte papel e em suporte eletrônico, os participantes relatam: a falta de informação sobre o paciente, informação incompleta ou imprecisa sobre o paciente; uso de abreviações e falta de padronização no processo de preenchimento do prontuário do paciente. Disso decorre que as unidades de saúde que desenvolvem pesquisas e que promovem o ensino de graduação e/ou pós-graduação devem possuir uma política informacional específica para a produção de registros nos prontuários dos pacientes em suporte papel ou eletrônico. Também se faz necessário a oferta de treinamentos durante a graduação, a pós-graduação e durante a atuação profissional para todas as áreas de saúde sobre a produção de registros nos prontuários de pacientes que seja pautada pela qualidade informacional, independente do suporte tecnológico empregado. Adicionalmente, treinamentos sobre a metodologia de coleta de informações no prontuário do paciente para fins de pesquisa científica ou acadêmica devem ser propostos (ZAMBONINI, 2013).

 

Informação em saúde na prática clínica

 

Em estudo qualitativo-exploratório sobre o uso de fontes de informação para a tomada de decisão na prática clínica, tendo por participantes da pesquisa 52 médicos que atuam em um hospital universitário de grande porte de uma universidade pública brasileira, 51 médicos alegam ter dúvidas durante o processo de assistência ao paciente. Para a solução das dúvidas, 27 entrevistados consultam colegas; 23 consultam livros; 12 consultam artigos científicos; 8 consultam bases de dados; 7 consultam internet; 5 consultam exames; 4 consultam o histórico do paciente; e 3 consutam a base de dados UpToDate. Os entrevistados relatam falta e desatualização de recursos informacionais disponíveis para uso e a falta de recursos tecnológicos (como acesso à internet) para acessarem informação no momento de dúvida ou no momento da prática clínica no referido hospital. Durante o processo de decisão clínica, os entrevistados com mais anos de prática se apoiam principalmente na tradição de seus anos de atuação clínica, já os mais jovens se guiam pelas recomendações provenientes de seus tutores, ou docentes, ou médicos mais experientes. Ou seja, a tomada de decisão se baseia mais nos conhecimentos e experiências prévios que em evidências atuais que estão disponibilizadas em bases de evidências nacionais e/ou internacionais. Observou-se ainda que as ações dos entrevistados relacionadas à busca e ao uso da informação para a tomada de decisão clínica são aleatórias, improvisadas, e altamente dependentes de sua formação anterior, já que o hospital em questão não oferece treinamentos sobre uso de recursos informacionais ou de medicina baseada em evidências. Todos os 52 entrevistados desconhecem, por exemplo, que o hospital em questão pode ter acesso a mais de trinta bases de dados de evidências que são disponibilizadas pela universidade e pelo Ministério da Saúde. Para mudar esse quadro, sem dúvida, serão necessários investimentos em infraestrutura de acesso à internet e segurança de dados a fim de proteger potenciais invasões aos sistemas de informação do hospital via internet; educação continuada dos médicos em medicina baseada em evidências, bem como divulgação ampla dos recursos informacionais existentes, a fim de fazer jus às respectivas assinaturas em andamento de tais bases de evidência (JANUÁRIO, 2013).

 

A pesquisa sobre informação em saúde

 

Em estudo documental sobre 31 teses e dissertações que tinham em seu título, ou em seu resumo, ou em suas palavras-chave os termos “informação” e “saúde” ou “informações” e “saúde” e que estavam disponibilizadas na biblioteca digital de teses e dissertações de uma universidade pública brasileira, observou-se que a produção de teses e dissertações sobre informação em saúde está dispersa em 11 programas de pós-graduação e diversas linhas de pesquisa de diferentes faculdades. As teses e dissertações não apresentam conexão temática entre si, proximidade de referencial teórico ou metodológico, ou seja, não possuem continuidade de modo que o conhecimento gerado seja aperfeiçoado ao longo do tempo. Além disso, o número de teses e dissertações produzidas sobre informação em saúde na universidade estudada equivale a menos de 0,1% de sua produção total de teses de doutorado e dissertações de mestrado, fato que não supre minimamente as necessidades de pesquisa no contexto regional. Pelo exposto, as principais conclusões deste estudo são: a produção de pesquisas de mestrado e doutorado sobre informação em saúde deve ser incrementada quantitativamente e qualitativamente, preferencialmente, por meio da formalização de programas de pós-graduação e linhas de pesquisa sobre o assunto a fim de que a demanda regional e nacional por estudos sobre informação em saúde seja atendida de forma sistemática (VILLALBA, 2013).

 

Conclusão

 

Analisando o panorama sobre a informação em saúde em uma universidade pública brasileira, considerando dados sobre o ensino de graduação, de pós-graduação, dos usos da informação em saúde na prática clínica e as pesquisas realizadas sobre informação em saúde, entende-se que para que este campo se desenvolva é necessário que a instituição de ensino superior e as unidades de saúde a ela integradas tracem políticas formais sobre o assunto e que as agências regionais e nacionais de financiamento impulsionem o setor. Iniciativas individuais e pontuais não alterarão todas as culturas historicamente construídas e vigentes.

 

Referências

 

CAETANO, João Victor Bizinoto. A transição tecnológica do prontuário do paciente em suporte papel para o suporte eletrônico: percepção de docentes do curso de graduação em medicina. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo, 2013. Orientador: Maria Cristiane Barbosa Galvão. (Relatório de pesquisa, Processo FAPESP 12/23322-0)

 

CRESWELL, J W. Projeto de Pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Porto Alegre: Artmed; 2010.

 

JANUÁRIO, Letícia Azevedo. Demanda por informação para tomada de decisão no contexto hospitalar: estudo como foco na prática médica. Ribeirão Preto : Universidade de São Paulo, 2013. Orientador: Maria Cristiane Barbosa Galvão. (Relatório de pesquisa, Processo FAPESP 12/22257-0)

 

LOPES, M. I. Pesquisa em comunicação: formulação de um modelo metodológico. São Paulo: Loyola, 1994.

 

VILLALBA, Vivian Soares. Caracterização da pesquisa sobre informação em saúde produzida no contexto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto : Universidade de São Paulo, 2013. Orientador: Maria Cristiane Barbosa Galvão. (Relatório de pesquisa, Processo FAPESP 12/21896-0)

 

ZAMBONINI, Camila de Luca. Uso da informação por pós-graduandos do campo da patologia. Ribeirão Preto: Universidade de São Paulo, 2013. Orientador: Maria Cristiane Barbosa Galvão. (Relatório de pesquisa, Processo USP)

 

Como citar este texto

 

GALVAO, M.C.B. et al. Panorama sobre a informação em saúde em uma universidade pública brasileira: do ensino, dos usos e da pesquisa. 17 de julho de 2014. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2014. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=849


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.