INFORMAÇÃO E SAÚDE


CONTAÇÕES DE HISTÓRIAS PRESENCIAIS NO PERÍODO PÓS-PANDÊMICO

Maria Cristiane Barbosa Galvão

Luciana Maíra Erismann Canepa

Elizandra Cristina de Oliveira

Pablo Rodrigues Alves

Júlia da Silva Fraga

Pamela Heloisy Rodrigues

Isabela Dallasta Calandrin

 

Introdução

O projeto Biblioteca Viva, desenvolvido na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, visa apresentar ao público, especialmente às crianças e adolescentes com condições de saúde crônicas, possibilidades de acesso à informação que aperfeiçoem suas percepções informacionais e tragam boas emoções, sentimentos e incrementem seu bem-estar, por meio da contação de histórias.

Historicamente, o projeto se desenvolve no ambulatório e enfermarias do HC-Criança, localizado dentro do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, fazendo contação de história individual para cada paciente (criança e adolescente) ou acompanhante que deseje ouvir histórias. Em nosso projeto, optamos pela contação individual porque cada paciente ou acompanhante tem uma rotina própria de assistência em saúde. Logo, a contação individual respeita os horários e compromissos do paciente e permite que os demais cuidados não sejam atrapalhados, interrompidos ou atrasados.

Outra característica importante em nosso processo de contação é que cada história tem no máximo 4 minutos de duração e cada contador de história apresenta para o potencial ouvinte um “cardápio” com 9 histórias e, então, o ouvinte pode escolher a história de sua preferência. Assim, cada contador tem um conjunto de histórias específico e quando o ouvinte se depara com um novo contador de histórias terá oportunidade de ouvir um novo conteúdo. Esse processo de disponibilizar “cardápios” com histórias tem o objetivo de manter a interação com o ouvinte e de lhe dar a oportunidade de tomar decisões sobre o que deseja ou não ouvir. Para o contador de história, os “cardápios” geram emoção, pois não sabe,m qual história será escolhida pelo ouvinte.  Tais aspectos evocam, dessa forma, dimensões lúdicas diversas no processo de contação.

Durante a pandemia de COVID-19, por razão das medidas sanitárias de distanciamento social, as atividades do projeto migraram do ambiente físico para o ambiente virtual e as contações de histórias passaram a ser realizadas no canal do Youtube Biblioteca Viva, disponível em: https://www.youtube.com/c/BibliotecaVivaDaUSP. Assim, a pandemia gerou uma situação unidirecional de contação de histórias: estávamos lá contando as histórias, mas não tínhamos o contato e o feedback emocional das crianças e adolescentes que nos acompanham.

Agora, em setembro de 2022, já com a vacinação alcançando parcelas expressivas da população brasileira em todas as faixas etárias, começamos a adentrar um potencial período de pós-pandemia, motivo pelo qual retomamos nossas atividades para o ambiente físico dos ambulatórios e enfermarias do HC-Criança. O retorno nos fez pensar novamente em como contar as histórias de forma presencial, demandou treinamento, ensaios, revisão de materiais, de histórias, de comportamentos que foram abandonados na pandemia e, sobretudo, gerou muita ansiedade e preocupação se conseguiríamos retomar a contação de história presencial.

Por todas essas razões, julgamos importante registrar neste texto as primeiras percepções que tivemos sobre esse novo momento do projeto onde estamos realizando a transição do virtual para o presencial novamente. Para tanto, empregamos uma narrativa jornalística de caráter qualitativo e baseada em depoimentos de seis integrantes do projeto Biblioteca Viva, sendo cinco graduandos do curso de Terapia Ocupacional e uma graduanda do curso de Fisioterapia. Tais depoimentos foram coletados, entre 28 e 30 de setembro, cerca de 10 dias após o início das atividades presenciais, no qual 138 crianças já haviam sido atendidas individualmente.

Depoimentos

Os depoimentos desenvolvidos pelos integrantes do projeto Biblioteca Viva revelam sua percepção genuína e, por essa razão, foram mantidos na íntegra. É importante destacar que todos manifestaram concordância para publicação de seus depoimentos, bem como com a citação de seus nomes e perfis acadêmicos.

Luciana Maíra Erismann Canepa, graduanda de Terapia Ocupacional

“A contação de histórias começa com a preparação, com a pesquisa e aprendizado das histórias, com o encanto pelos personagens e a diversão de passear pelos diferentes enredos. É preciso pegar fôlego e olhar nos olhos de quem nos escuta e levá-los para passear. A rotina é sempre a mesma: chegamos às 8h da manhã, o ambulatório está cheio, adultos e crianças que levantaram cedo para estar no hospital. Alguns brincam, outros jogam no celular, outros dormem, todos esperam. A rotina é sempre a mesma, mas cada encontro é único. Acompanhantes e crianças ficam curiosos para ouvir o que vamos contar. Às vezes os acompanhantes querem ouvir mais do que as crianças, ou as crianças querem mais contar do que ouvir histórias. Assim, a história se torna mais do que uma simples narrativa, é um encontro que envolve cuidado, atenção e carinho. Um dia, uma criança pediu para ouvir cinco histórias, uma atrás da outra. Outro dia, um pai com um sorriso melancólico disse que gostava muito de histórias, mas entre o trabalho e a rotina no hospital não encontrava tempo para contar histórias para o seu filho. Ele ouviu a história do lobo com a cauda amarela com atenção e curiosidade. E outro dia uma mãe disse que não queria ouvir histórias, mesmo sua filha dizendo que queria. A rotina é sempre a mesma, mas nunca se sabe como a manhã vai decorrer. Sempre saio de lá encantada com cada encontro e cada troca, existe uma qualidade que não é possível quantificar. Vale muito mais do que 10.”

Elizandra Cristina de Oliveira, graduanda de Terapia Ocupacional

“Por ser o meu segundo ano como bolsista do Projeto Biblioteca Viva, acredito ser muito difícil comparar minha experiência com o projeto virtual e a experiência presencial, já que, apesar de saber das visualizações dos vídeos publicados no YouTube, não era possível ter um contato direto com as crianças e adolescentes. Nesse sentido, ressalto que no meu ponto de vista e pelos comentários dos ouvintes, percebo que o projeto é muito mais que contar histórias, é a interação com as crianças, o contato com seus cuidados, a oportunidade de talvez trazer um acalento para aquela criança que está prestes a ser atendida no ambulatório ou que está sozinha na enfermaria e até um acolhimento para seus cuidadores, que demonstraram na maioria das vezes satisfação de ver as crianças interagindo com os participantes do projeto e a contação de história.”

Pablo Rodrigues Alves, graduando de Terapia Ocupacional

“A priori, antes de começar o projeto presencialmente eu já tinha conhecimento sobre o que se tratava, por pesquisar e escutar sobre o projeto em anos anteriores à minha participação. Sobretudo, acho importante ressaltar que entusiasmo, felicidade e alívio são as palavras chaves que definem o sentimento que é participar desse projeto, que tem tamanho impacto tanto na vida dos voluntários e bolsistas quanto na população atendida. Ao longo das histórias contadas, ouvi feedbacks positivos dos responsáveis pelas crianças e foi de tamanha importância. Ouvi também das crianças que elas gostaram da contação de histórias e pude ver no rosto delas que o anseio por mais histórias falava mais alto. Isso foi extremamente reconfortante e me dá energia para voltar mais vezes e continuar fazendo parte do projeto Biblioteca Viva.”

Júlia da Silva Fraga, graduanda de Fisioterapia

“O projeto Biblioteca Viva me abriu diversos pensamentos e conceitos que não saberia e não teria a oportunidade de aprender se não tivesse entrado. Nos primeiros dias me senti receosa por estar tendo que conversar e contar histórias para crianças e isso era algo que eu não havia feito e nem pensado, ainda mais no início da graduação; mas os dias de treinamento, as escolhas de cada história, as conversas com a equipe do projeto me fizeram perceber que era ali que eu gostaria de estar. Além do mais, estar ali com a espontaneidade das crianças está sendo um aprendizado incrível, pois não tem valor que se pague ao ouvir que a criança quer escutar mais uma história e que isso fez o dia dela feliz. O que mais me surpreendeu foram as reações dos acompanhantes e pais que, nos dias de hoje, não possuem muito tempo de ler para seus filhos. Esses relatos me fazem recordar da minha infância, que minha mãe trabalhava o dia todo e não tinha tempo de ler para mim, mas sempre me dava um livro para ler quando tinha oportunidade. Por isso, sei que esse projeto pode me surpreender cada dia mais.”

Pamela Heloisy Rodrigues, graduanda de Terapia Ocupacional

“As palavras conseguem se interiorizar no cerne do ser humano, carregando consigo uma imensidão de conhecimentos, aprendizagens e, sobretudo, emoções. Cada palavra contida nas histórias contadas para as crianças carrega tudo isso e até dão mais cores às vidas delas, pois as paredes de um hospital são muito frias, sendo essa a realidade da maioria delas, e em diversos casos são carregadas de sentimentos tristes e até desesperança, o que de fato abala a pequena vida. Poder levar cada uma dessas palavras, marcar cada coração, o preencher de cores e de esperança é sem dúvidas algo imensurável. Com as histórias estamos mudando e marcando vidas.”

Isabela Dallasta Calandrin, graduanda de Terapia Ocupacional

“Retornar ao projeto Biblioteca Viva de maneira presencial está sendo uma experiência muito gratificante. Cada integrante do projeto possui a sua própria lista de histórias pré-definidas, assim, é necessária uma preparação para nos lembrarmos de como podemos contá-las às crianças e adolescentes no momento em que eles escolhem qual história desejam ouvir. Quando iniciamos a contação da história, toda a atenção é voltada para nós. Também nos ocorreu de crianças pedirem para contarmos histórias que não estavam na lista, como A Branca de Neve. Nesse momento, a criatividade é aflorada e as lembranças de quando éramos crianças e escutávamos essas histórias vem à tona. Assim, percebo que participar deste projeto não agrega valores apenas aos ouvintes das histórias, mas também em nós, alunos e contadores que vamos aprendendo um pouco mais com cada criança”.

Conclusão

Considerando os depoimentos apresentados, existe um consenso entre os participantes de que o projeto Biblioteca Viva na modalidade presencial é mais que uma proposta de contação de histórias, pois permite várias trocas emocionais entre os contadores e seus ouvintes. Outro consenso importante é de que a contação de histórias para as crianças acaba envolvendo seus cuidadores, que querem também participar como ouvintes ou se sentem tocados pela história contada. Finalmente, os graduandos relatam que, embora exista todo um planejamento de atividades no projeto, cada dia de contação de histórias é um novo dia e muitas emoções são novas e inesperadas. Tais relatos expressam, sem dúvida, a importância das trocas emocionais e comunicacionais existentes durante as contações de história presenciais que, nem de longe, acontecem no contexto virtual. Embora a contação de histórias no ambiente virtual permita um alcance para além dos muros do HC-Criança, a contação de histórias presencial possui uma qualidade e intensidade maior.

Como citar este texto

GALVAO, M.C.B. et al. Contações de histórias presenciais no período pós-pandêmico. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Marília: OFAJ, 2022. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1415 


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MARIA CRISTIANE BARBOSA GALVÃO

Professora na Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Sua experiência inclui estudos na Université de Montréal (Canadá), atuação na Universidad de Malaga (Espanha) e McGill University (Canadá). Doutora em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília, mestre em Ciência da Comunicação e bacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade de São Paulo.