Introdução
A Índia é a quinta maior economia do mundo, com projeções para se tornar a terceira economia nos próximos anos, consolidando-se como um polo global de tecnologia, inovação e empreendedorismo. No campo científico, o país possui uma rica história de laureados com o Prêmio Nobel em diversas áreas do conhecimento, refletindo sua tradição educacional, cultural e científica. Além disso, sua diversidade linguística e religiosa promove um ambiente de tolerância e pluralismo, enquanto seu patrimônio cultural abriga monumentos icônicos como o Taj Mahal.
Considerando este cenário ímpar, este texto visa apresentar algumas impressões sobre os bibliotecários e as bibliotecas indianas, sobretudo baseada nas palestras apresentadas na National Conference on Management of Modern Libraries (NACML), ocorrida nos dias 21 e 22 de fevereiro de 2025 na Manipal Academy of Higher Education (MAHE), em Manipal, na Índia, sendo o evento organizado pela Kasturba Medical College Health Sciences Library e pelo Department of Library and Information Science, ambos da MAHE.
Assim, o texto versará sobre as discussões ocorridas no evento, incluindo o uso da inteligência artificial, a internet das coisas, a computação em nuvem, a realidade virtual e aumentada, as redes sociais, o avanço do movimento de acesso aberto, a necessidade de atualização dos espaços físicos das bibliotecas, bem como as novas competências profissionais para os bibliotecários requeridas neste contexto tecnológico.
Inteligência artificial
A inteligência artificial tem sido amplamente debatida como uma tecnologia capaz de auxiliar em tarefas como o reconhecimento de padrões, a tomada de decisões, a análise de grandes volumes de dados, a personalização de recomendações e a automação de processos. No contexto das bibliotecas e dos serviços informacionais, essas ferramentas podem otimizar a organização e recuperação de dados, aprimorar os sistemas de busca, tornar o acesso aos acervos digitais mais intuitivo e eficiente, auxiliar a automação da catalogação, propor recomendação de leituras personalizadas para cada usuário, prover o atendimento virtual via chatbots, bem como podem auxiliar na identificação de conteúdo duvidoso e, em alguma medida, promover o uso de fontes confiáveis (Kalbande et al. 2024; Senthilkumar; Jagajeevan; Sangeetha, 2024).
No campo educacional e científico, a inteligência artificial vem impactando diretamente os professores, os alunos e os pesquisadores, oferecendo suporte na escrita acadêmica, revisão gramatical, facilitando a escrita multilíngue, a tradução, a detecção de plágio e a personalização do ensino por meio de plataformas adaptativas. No entanto, o uso da inteligência artificial exige uma perspectiva crítica, como o desenvolvimento de habilidades para interpretar os resultados gerados e compreender seus limites e vieses, bem como impõe novos desafios éticos e cognitivos para a sociedade (Lopez, 2024).
No caso dos palestrantes da NACML, o destaque se deu no uso da inteligência artificial nas atividades de referência da biblioteca por meio de chatbots, na análise dos dados de acesso gerados pela biblioteca para observar, por exemplo, tendências de uso e necessidades informacionais de usuários da informação e na personalização dos serviços digitais da biblioteca. Muitos palestrantes da NACML se detiveram na dimensão educacional da inteligência artificial, entendendo a biblioteca como espaço para a necessária educação de alunos, professores, cientistas e editores para o uso da inteligência artificial de forma adequada, respeitando a integridade em pesquisa, os direitos autorais e também foram apresentados experimentos para o desenvolvimento de revisões sistemáticas da literatura por meio da inteligência artificial.
Não foram discutidas na NACML os orçamentos necessários para a implementação de inteligências artificiais em biblioteca indianas, nem sobre a infraestrutura digital das instituições informacionais e educacionais, embora, na literatura, essas discussões tenham sido destacadas como pontos de preocupação (Kalbande et al. 2024; Lopez et al., 2024).
Internet das coisas
O uso da internet das coisas em bibliotecas tem se voltado para a automação de processos como autoatendimento, identificação, rápida localização e rastreamento do acervo, controle inteligente do espaço físico, incluindo sensores de alarmes de incêndio, luzes, entrada e saída de pessoas, controle da temperatura do ambiente, gerenciamento do consumo de energia e água, bem como vigilância dos ambientes garantindo a segurança das pessoas e acervo (Sinha; Brar, 2024).
Neste escopo, uma de suas aplicações destacadas pelos palestrantes da NACML é a prateleira inteligente, sistema automatizado que utiliza sensores e radiofrequência para monitorar, organizar e gerenciar os livros. Essas prateleiras permitem o rastreamento em tempo real, facilitando a localização dos exemplares, a atualização automática de saída e retorno de obras e até a recomendação de títulos com base no histórico do usuário. Todavia, os conferencistas não abordaram os custos envolvidos e se as bibliotecas indianas possuem financiamento específico para esta implantação, como abordados por Sinha e Brar (2024).
Redes sociais digitais e o marketing digital
No contexto das bibliotecas, as redes sociais digitais como o Facebook, o Instagram, o X (Twitter), o LinkedIn, o TikTok e o YouTube têm sido amplamente utilizadas para ampliar o acesso à informação, divulgar serviços e fortalecer a interação com os usuários. Elas permitem a promoção de eventos, divulgação de treinamentos e horários de funcionamento, o compartilhamento de fontes confiáveis, ajudando o público a explorar melhor os recursos informacionais disponíveis. Além disso, essas plataformas são ferramentas estratégicas para o letramento informacional, contribuindo para a capacitação dos usuários em pesquisa e no combate à desinformação. A interatividade proporcionada por essas plataformas também amplia a visibilidade da biblioteca, especialmente pelos mais jovens, que estão habituados a consumir e compartilhar informações digitalmente. Dessa forma, as redes sociais não apenas modernizam a comunicação das bibliotecas, tornando-a mais instantânea, mas também reforçam seu papel como centros dinâmicos de conhecimento e inovação (Acharya, 2022).
De forma geral, os palestrantes da NACML ressaltaram a importância das bibliotecas e dos bibliotecários estarem presentes nas redes sociais digitais, disseminando conteúdos criveis, bem como divulgando suas atividades e serviços. Também observaram que o custo para estar presentes nas redes sociais é relativamente baixo, visto que qualquer pessoa pode fazer e manter um perfil nas diferentes plataformas. Obviamente, deve ser dada uma atenção especial ao conteúdo e à linguagem visual apropriados para cada uma dessas plataformas e seus respectivos públicos.
Computação em nuvem e cibersegurança
A computação em nuvem é uma tecnologia que permite o acesso sob demanda e em qualquer lugar a um conjunto compartilhado de recursos que podem ser rapidamente provisionados e liberados com o mínimo de esforço de gerenciamento ou interação com o provedor de serviços (Krishnamurthy; Arali, 2019). Para as bibliotecas, isso significa que acervos digitais podem ser acessados de qualquer lugar, garantindo maior disponibilidade da informação e redução de custos com infraestrutura física. Além disso, a computação em nuvem facilita a colaboração entre bibliotecas, permitindo o compartilhamento de recursos e a criação de catálogos coletivos acessíveis remotamente. Essa abordagem colaborativa não apenas amplia o acesso dos usuários a uma variedade mais ampla de materiais, mas também promove a eficiência na gestão de coleções e serviços. Krishnamurthy e Arali (2019) esclarecem que a computação em nuvem permite: a disponibilidade de serviços a preços acessíveis, reduzindo os custos de tecnologia da informação e comunicação das bibliotecas; a capacidade de armazenamento ilimitada para guardar grandes volumes de informações; a facilidade de backup e recuperação de dados; a integração automática de software; o acesso remoto a informações de qualquer lugar com conexão à internet; a implantação rápida de sistemas e serviços; a possibilidade de escalabilidade conforme a demanda dos usuários; o desenvolvimento de novos tipos de aplicações e serviços interativos; torna mais fácil para as bibliotecas dimensionarem seus serviços de acordo com a demanda dos usuários; e possibilita o desenvolvimento de novos serviços que são interativos por natureza.
Os palestrantes da NACML abordaram a computação em nuvem na perspectiva da segurança e privacidade de dados em bibliotecas, havendo aprofundamento na discussão sobre cibersegurança e quais seriam as competências e conhecimentos de computação que o professional bibliotecário precisa ter para atuar nesse contexto.
Realidade virtual e realidade aumentada
A realidade virtual cria ambientes imersivos e simulados digitalmente, enquanto a realidade aumentada sobrepõe elementos digitais ao mundo físico. Essas tecnologias podem ser usadas nas bibliotecas de múltiplas formas. Por exemplo, disponibilizando visitas virtuais à biblioteca, criando experiências interativas de aprendizado e acesso a documentos históricos de forma tridimensional, podendo ser combinadas com a contação de histórias para que as crianças possam visualizar os personagens e os cenários das histórias.
Discutiu-se na NACML a importância de se trazer essas tecnologias para o ambiente da biblioteca, sobretudo para criar ambientes informacionais adequados às novas gerações e suas formas de relação com o mundo. Esta atualização se faz necessária nas bibliotecas a fim de que seu ambiente seja atrativo e acolhedor. Alguns palestrantes exaltaram que, da mesma forma que fazem compras e se divertem usando seus telefones celulares, as pessoas querem experimentar os serviços informacionais de uma forma mais interativa e tecnológica. Disso resulta a necessária revisão da arquitetura da biblioteca e a integração de tecnologias interativas como a realidade virtual e a realidade aumentada.
Por outro lado, os conferencistas também ressaltaram que os espaços da biblioteca devem ter ambientes para relaxamento e meditação, onde as pessoas possam fugir do cotidiano digital e se conectar consigo mesmas. No quesito arquitetura, chama a atenção o cuidado com os espaços das bibliotecas na Índia. A Figura 1, ao final do presente texto, traz algumas fotos da Kasturba Medical College Health Sciences Library da MAHE, que colaborou na organização da NACML.
Open Access e a democratização do conhecimento
A Índia vem trabalhando no programa One Nation One Subscription (ONOS), que tem como objetivo democratizar o acesso a conteúdos acadêmicos e científicos para estudantes, professores e pesquisadores em todo o país. A iniciativa busca fornecer assinaturas nacionais para periódicos eletrônicos e bases de dados de aproximadamente 30 dos principais editores internacionais, abrangendo diversas áreas do conhecimento, como ciências, tecnologia, engenharia, medicina, ciências sociais e humanas. Com um orçamento de 6.000 crores (aproximadamente R$ 3,6 bilhões) para o período de 2025 a 2027, estima-se que cerca de 18 milhões de estudantes, professores e pesquisadores de aproximadamente 6.400 instituições serão beneficiados pelo ONOS. Essas instituições incluem universidades, faculdades e organizações de pesquisa e desenvolvimento do Governo indiano. O ONOS pretende fortalecer a infraestrutura de pesquisa na Índia, promover a inovação e garantir que estudantes e pesquisadores, independentemente de sua localização, tenham oportunidades iguais de acesso ao conhecimento (Índia, s.d.).
Além de discutirem o ONOS, propriamente dito, o evento foi marcado pela presença de grandes editores científicos internacionais que apresentaram as possibilidades de acordo para que os autores e pesquisadores universitários paguem taxas menores para publicar seus artigos.
O cibertecário e a ciberteca
Vários palestrantes da NACML usaram e reiteraram os termos cibertecário e ciberteca para se referirem a atuação dos bibliotecários e das bibliotecas do mundo digital. Um dos pontos mais enfatizados durante o evento foi a necessidade de atualização profissional. Como foi dito por um palestrante: “ninguém quer mais dirigir um carro antigo quando há veículos ultramodernos no mercado; da mesma forma, ninguém quer frequentar uma biblioteca que não reflete a era digital”. O profissional bibliotecário precisa dominar novas ferramentas e linguagens digitais, garantindo que as bibliotecas sejam relevantes e atraentes para as novas gerações. Em um mundo onde a sobrecarga de informações pode dificultar a busca por fontes confiáveis, bibliotecários são mediadores digitais, ensinando técnicas de pesquisa, gerenciadores de referências bibliográficas, aplicativos antiplágio e formas inteligentes de usar a inteligência artificial.
Conclusão
Este texto abordou algumas discussões sobre bibliotecas e bibliotecários no mundo digital no contexto da Índia. Embora muitas questões trazidas aqui sejam pertinentes ao cenário brasileiro, espera-se que o leitor se sinta inspirado para estudar a ciência produzida na Índia contemporânea, assim como, no passado, muitos cientistas, pesquisadores e estudantes brasileiros se debruçaram no estudo de Ranganhatam (Vicentini, 1972). Uma reflexão relevante é que também, na Índia, as tecnologias não são entendidas como substitutas do livro, seja em formato físico ou digital, mas como instrumentos que ampliam e potencializam a função informacional da biblioteca. Nesse contexto, visita realizada à Kasturba Medical College Health Sciences Library (Figura 1) evidencia investimento substancial na manutenção do acervo físico, bem como a parceria com grandes editoras internacionais.
Figura 1 Kasturba Medical College Health Sciences Library, Manipal, Índia.
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| Fonte: Acervo pessoal |
Referências
ACHARYA, Shubhasmita. Role of social media towards the use institutional library in central universities of North-East India. International Journal of Library Science and Research, v. 12, n. 1, p. 49–60, jun. 2022.
ÍNDIA. Cabinet approves One Nation One Subscription (ONOS). (s.d., s.l).Disponível em: https://pib.gov.in/PressReleasePage.aspx?PRID=2077097. Acesso em: 2 mar. 2025
KALBANDE, Dattatraya et al. Exploring the integration of artificial intelligence in academic libraries: a study on librarians’ perspectives in India. Open Information Science, v. 8, n. 1, p. 20240006, 2024.
KRISHNAMURTHY, C.; ARALI, Soubhagya S. Cloud computing in academic libraries: issues and challenges. In: National Conference on Library in the Life of the User, 9., 2019, Karnataka. Anais [...]. Karnataka: Karnataka State College Librarians Association, 2019. p. 36-42.
LOPEZ, Sandeep et al. Artificial intelligence challenges and role for sustainable education in India: problems and prospects. Library Progress International, v. 44, n. 3, p. 18261-18271, 2024.
SENTHILKUMAR, K. R.; JAGAJEEVAN, R.; SANGEETHA, S. Impact of AI on library and information science in higher institutions in India: A comprehensive analysis of technological integration and educational implications. In: AI-Assisted Library Reconstruction. IGI Global, 2024. p. 21-33.
SHAHZAD, Khurram; KHAN, Shakeel Ahmad. Effects of e-learning technologies on university librarians and libraries: a systematic literature review. The Electronic Library, v. 41, n. 4, p. 528-554, 2023.
SINHA, Priyanka; BRAR, Khushpreet Singh. Awareness and perception of students toward execution of internet of things in library services: A study of Indian Institute Technologies of Northern India. Open Information Science, v. 8, n. 1, p. 20220167, 2024.
VICENTINI, A. L. C. Ranganathan, filósofo da classificação cientista da biblioteconomia. Ciência da Informação, v. 1, n. 2, 1972.
Como citar este texto:
Galvão, M.C.B. et al. Perspectivas da Índia sobre bibliotecas e bibliotecários no mundo digital. In: Almeida Junior, O.F. Infohome [Internet]. Londrina: OFAJ, 2025. Disponível em: http://www.ofaj.com.br/colunas_conteudo.php?cod=1581