ALÉM DAS BIBLIOTECAS


MISTERIOSA ESCULTURA E O IMAGINÁRIO

Vivenciamos uma época histórica marcada por insanidades humanas; corrupção em todas as esferas públicas; dissolução ou desvalorização do núcleo familiar; artefatos tecnológicos, ênfase para a inteligência artificial, trazendo consigo grandes benefícios e malefícios; onda elevada de feminicídios em diferentes países; insegurança pública nas ruas e vielas de grandes e diminutas cidades. Em oposição, há, ainda, muita coisa boa acontecendo. Isto porque, quem aprendeu a esperançar e a viver num mundo onde o amor salpica aqui e ali, sabe que todos nós, crentes ou ateus, ainda podemos segurar, com mãos lisinhas ou enrugadas, sonhos, devaneios e a beleza que emergem na criatividade que paira na chamada classificação das “Sete Artes Clássicas”, instituída nos anos 20 (século 20) pelo italiano Ricciotto Canudo, a qual, com a evolução tecnológica e midiática, comporta, na atualidade, 11 tipos de arte: literatura; cinema;  música; dança;  teatro; pintura; escultura; arquitetura; fotografia; jogos eletrônicos; arte digital.

Banski: “Patriotismo cego

Banksy: Nova estátua aparece em Londres nesta quarta - 30/04/2026 -  Ilustrada - Folha

Fonte:

Folha / Uol

Impossível sobreviver sem enlouquecer no mundo real. Acreditamos que a humanidade não mais suporta a realidade “nua e crua”. Precisamos do imaginário. Precisamos de Banksy. Eis o pseudônimo de um artista de rua e ativista político famoso tanto em seu território natal (Bristol, Inglaterra) quanto no mundo afora. Nascido na década de 70, tornou-se uma lenda – após décadas de mistério para manter total anonimato. Mais ou menos recentemente, a Agência Reuters divulgou reportagem vinculando Banksy a um grafiteiro britânico de Bristol, Robin Gunningham. Supõe, ainda que, em 2008, ele alterou seu nome legal para David Jones para manter a obscuridade. Aliás, dizem que seu anonimato pode ser estratégia de marketing, mas sua identidade prossegue como alvo de constantes indagações.

Eis a arte subversiva, provocativa, satírica, e, por vezes, chocante, mas, sempre, de cunho social. Os temas vão das disparidades sociais entre povos e dentre as nações para contemplar com furor, os descalabros do capitalismo, das guerras e dos males do século 21 em geral, incluindo a desconstrução da autoridade. Suas esculturas, frequentemente, clamam por pacifismo. Apresentam policiais, ratos, crianças e adolescentes, ícones da cultura pop, tudo, quase sempre, com pinceladas de humor negro e de imagens subversivas ou de belezas que transcendem o olhar do grande público.

Banksy dá um tapa na cara da sociedade ao exercitar sua crença de que qualquer que seja uma das 11 categorias e outras mais, a arte nunca é propriedade da elite. Há registro de intervenções suas em recantos de intensa tensão política, a exemplo da sofrida Palestina, e, também, em museus famosos, onde as telas banksyanas brincam clandestinamente. Porém, há críticos ou desafetos que dizem que ele acusa, com fervor, o sistema financeiro, mas permite que originais de sua autoria apareçam em leilões milionários, como no caso da escultura criada como obra de arte de rua, em 2002. “Menina com o balão”. Apesar da repercussão internacional, por sua singeleza, foi destruída, em 2018, em leilão na casa de leilões londrina Sotheby's, logo após ser arrematada, por um triturador camuflado na moldura.

"Menina com o balão" de Banksy, 2002

Fonte: Reddit

Adiante, no dia 29 de abril de 2026, na calada da noite, com sua quietude ou silêncio avassalador, sem aviso prévio ou qualquer autorização, Banksy sobrepôs a estátua de um homem de terno, peito estufado, marchando até quase despencar do pedestal com uma bandeira cobrindo seu rosto, em plena Waterloo Place, Saint James’s, local utilizado, com frequência, para celebrar o imperialismo e o domínio militar inglês do século 19. Aí está o coração pulsante do imperialismo britânico, onde estão memoriais, como a da Guerra da Crimeia e estátuas de “imortais, como a de Eduardo VII e Florence Nightingale.

Se o grande escultor possui histórico de crítica aguçada ao poder colonial, a escultura em discussão e que pode ser visualizada em @banksy, já está sendo intitulada por alguns veículos midiáticos londrinos e/ou mundiais, como “Patriotismo cego”. Comporta n interpretações: rosto coberto que denuncia cegueira absoluta; simbologia da bandeira para impor a ceguidade do homem; um dos pés perdidos no ar, denunciando falta de rumo; impossibilidade de vislumbrar qualquer sinal de expressão ou sentimento...

Desde o amanhecer do dia seguinte, a escultura tem atraído multidões e ocasionado debates de diferentes naturezas, com destaque para séria crítica social, até porque o Partido Trabalhista perdeu cerca de número expressivo de 1.500 cadeiras no país. É possível que as discussões acirradas sobretudo, após dois ou três dias, quando Banksy reconheceu, nas redes sociais, o trabalho como de sua autoria, tenham influenciado a decisão do Conselho da Cidade de Westminster. Apesar de ter surgido “do nada”, sem autorização e entre monumentos históricos, o Conselho não removerá “Patriotismo cego” das ruas.

Aliás, vale a pena conhecer qualquer um dos museus da Rede Banksy Museum. Por sua decisão de anonimato, inexiste museu oficial ou autorizado pelo próprio artista. No entanto, existem duas redes principais de espaços expositivos e museus de arte contemporânea que prestigiam Banksy. A primeira, iniciativa de Hazis Vardar, apresenta reproduções em tamanho real de murais e estênceis famosos espalhados no mundo. O uso de estêncil permite uma aplicação rápida nos muros, ajudando-o a evitar a polícia em cidades e nações, como Nova York (Estados Unidos da América); Paris (França); Bruxelas (Bélgica); Barcelona (Espanha); Praga (República Tcheca); Cracóvia (Polônia); Milão (Itália). A segunda rede refere-se a museus e galerias com obras originais de coleções privadas, a exemplo de Moco Museum (Amsterdã, Holanda) e de Bristol Museum & Art Gallery (Bristol). Dentre exposições itinerantes, há as que se integram a museus ao redor do mundo, como a Genius or Vandal (Alfândega do Porto, Portugal).

Por fim, sem qualquer imposição ideológica, acreditamos que “Patriotismo cego” representa, sim, por meio da escultura como arte maior, um homem em marcha à extensão inexistente de sua base, sob a orientação de uma bandeira que embota seu olhar. Reafirmamos, pois, que a misteriosa escultura exposta em local nobre, em plena madrugada londrina representa, sim, uma metáfora para todos os que aderem a uma forma sórdida e burra de patriotismo cego, engolindo ou digerindo ideologias e posições calamitosas de nações sem discernir a realidade e o impacto das decisões de mandatários e governantes de reputação e governança discutível...

Observação: tentem conhecer a obra de Banksy, se forem a Londres ou nas páginas eletrônicas! Maravilha! Por favor!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com