ALÉM DAS BIBLIOTECAS


BIBLIOTHECA ALEXANDRINA: GRANDE DECEPÇÃO

Difícil algum dos meus leitores desconhecer minha formação como bibliotecária. Apesar de há algum tempo, ter enveredado pela docência e literatura, e, sobretudo, pelo jornalismo, livros sempre estiveram ao meu redor e sempre fizeram parte da história de minha vida. Bibliotecas, idem. Decerto, não é à toa que o bom Deus me deu como mãe uma professora-educadora, na acepção mais fiel do termo, quando se pensa em educador, como alguém, que tem em mente não apenas conteúdo, mas, essencialmente, sua conduta como modelo de integridade, honradez e lealdade ao outro. A ela, coube a doce tarefa de alfabetizar seus quatro filhos. E o bom Deus fez mais: me deu um pai poeta-jornalista-boêmio-amante das letras, dos livros e das bibliotecas. Partiu cedo aos céus, sempre cercado de sonhos e de livros. Não sei o que fez quando chegou por lá... Talvez, tenha se esbaldado a poetar, a amar...

Bibliotheca Alexandrina: fachada divina

Fonte: Acervo pessoal Dra. Silvana Lemos Gomes, 2026.

Assim foi minha infância. Assim foi minha adolescência. E, agora, após visita ao Egito, no momento em que começo a escrever sobre a Biblioteca de Alexandria – uma biblioteca-referência para a humanidade, independentemente da nacionalidade e da formação dos cidadãos – reconheço, como nunca, que ela fez parte de minha graduação em Biblioteconomia e Documentação e de quaisquer outros cursos ou programas da área e de áreas afins. Corro para consultar meus primeiros textos técnicos sobre o conceito de biblioteca. Isto porque, formação de conceitos e bibliotecas são dois temas que sempre me extasiaram, o que é visível, quando retorno aos meus 30 e poucos anos e retomo minha dissertação de mestrado, cujo foco, àquela época, já foi a conceituação da biblioteca como instituição social que se transmuta ao longo do tempo graças à formação contínua do conceito que formamos em relação a fatos, fenômenos, objetos, instituições, etc. Assim, também não é à toa que – formação de conceitos – integra o campo da psicologia da aprendizagem...

A Biblioteca de Alexandria começou como Biblioteca do Mouseion (instituição de pesquisa dedicada às musas), na Alexandria, quando do Egito Ptolomaico, século III a.C., por iniciativa de Ptolomeu I, sucessor de Alexandre, o Grande. Desde sua fundação, se impôs como o maior centro de circulação de informações e de conhecimentos da Antiguidade, atuando nos moldes de uma instituição de ensino e de pesquisa, e por que não? De extensão, ao dar vazão a iniciativas mil extramuros, haja vista que abriga, em suas instalações, naquela época, muito mais do que escritos. Havia laboratórios, observatórios e jardins botânicos. A Biblioteca de Alexandria inspira a criação de universidades e até hoje, na minha lembrança e de muitos amantes da biblioteca-instituição, é ela o símbolo mais significativo da incessante busca pelo avanço da ciência em prol do ser humano.

Doa a quem doer – o livro em destaque

                   Fonte: Acervo pessoal Dra. Silvana Lemos Gomes, 2026.

Para conseguir o intento de coletar o conhecimento do mundo num só local, mediante coleta de cópias dos livros que passavam, naquela época, por Alexandria, os governantes de então, através de medida legal, obrigavam os navios a deixarem seus pergaminhos para cópia. Foi assim que a história da Biblioteca de Alexandria, durante cerca de 600 a 900 anos ou por sete séculos, esteve caracterizada por sua grandeza, não restrita tão somente à coleção gigantesca de centenas de milhares (40.000 a 700.000) de rolos de papiro e pergaminhos, mas por sua atuação voltada à formação integral dos indivíduos. Seu acervo incorpora, além de conhecimentos bíblicos, obras de filosofia, literatura, ciência e história acerca de diversas culturas de povos e países, como Grécia, Pérsia, Mesopotâmia e o próprio Egito, com a presença contumaz, em suas dependências, de filósofos, matemáticos, astrônomos e intelectuais de distintas áreas do saber, a exemplo de Euclides de Alexandria, matemático e “Pai da Geometria”; e Arquimedes de Siracusa, que se tornou próximo de matemáticos e astrônomos, como Eratóstenes de Cirene, bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria.

O declínio da Biblioteca de Alexandria chegou, não de supetão. Veio passo a passo. Algumas perdas memoráveis ocasionadas por incêndios, a exemplo de um deles, associado a Júlio César em defesa da Cleópatra, quando da Guerra Civil Romana, 48 a.C. A destruição final se dá entre os séculos III e IV d.C., com a ruína do Império Romano e de conflitos posteriores, e, talvez, até mesmo com o envolvimento de ordens religiosas, atribuindo-se aos árabes a aniquilamento final. De qualquer forma, o lento desaparecimento de tanto conhecimento acumulado expõe a fragilidade abominável da cultura e da história.

Por fim, depois de um longo tempo, no dia 16 de outubro de 2002 (século XXI), o Governo do Egito inaugurou a Bibliotheca Alexandrina, próxima ao local histórico da antiga Biblioteca, na orla de Alexandria, em termos teóricos, para honrar o legado da instituição arrasada. No entanto, em visita à cidade e à Bibliotheca, início de 2026, confesso meu espanto e desencanto. Se é verdade que contém a maior coleção digital de manuscritos históricos do mundo, o que é provável, pelo investimento maciço em inovações tecnológicas de ponta, “de cara”, é perceptível que Alexandrina é “para turista ver” e ponto final.

Onde está a população?

Fonte: Acervo pessoal Dra. Silvana Lemos Gomes, 2026.

Surpreendentemente, do grupo no qual eu estava inserida, duas proibições esdrúxulas: uma criança de seis anos foi proibida de entrar na Biblioteca; uma jovem menina de 14 anos, idem. Susto total. Susto não grato. Como pode uma biblioteca pública não manter seção infantil? Como vetar o acesso a crianças e adolescentes, quando a história educacional de qualquer povo atesta de “A a Z” que leitura e escrita são habilidades que têm seu ponto alto nessas etapas da vida?

Fachada divina x instalações luxuosas x salas de leitura equipadas por computadores, tudo é de primeira grandeza. Lojas – mais de uma – para turistas. Lanchonetes à vontade. Mas o importante – serviços à comunidade parecem não existir. Assemelha-se ao chamado “elefante branco”, cuja origem traz de volta o antigo Reino de Sião, hoje, Tailândia. Os elefantes brancos eram sagrados. Os monarcas costumavam presentear os desafetos com um deles. Literalmente inúteis por sua pecha de sagrado, os animais exigiam manutenção cara, e, muitas vezes, arruinavam financeiramente o novo dono. Na atualidade, “elefante branco” nomeia obras públicas monumentais, propostas frustradas, ou presentes indesejados...

E, assim, a Bibliotheca Alexandrina ocupa espaço e gasta elevada soma de recursos do povo para estar em pé. É como se retomasse, não a função mor da Biblioteca de Alexandria, mas vestisse a natureza das bibliotecas antigas, quase sempre, anexadas a templos ou palácios e consideradas continuação dos mesmos, sendo revestidas de eminente caráter sagrado. Como decorrência, eram acessíveis às classes privilegiadas / detentoras do poder, a quem competia sua administração.

Not just a library

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2026.

São as mudanças sociais constantes e contínuas que alteram substancialmente as funções da biblioteca. A sociedade é determinante para a natureza da biblioteca que se tem, não importam circunstâncias temporais e espaciais. Isto reforça a relevância da biblioteca no avanço de um povo, ao mesmo tempo em que comprova a impossibilidade de se desvincular a história da biblioteca e da civilização. Ao relegar as transformações da sociedade contemporânea, endeusando ciência e tecnologia em detrimento da qualidade de vida dos cidadãos, a Bibliotheca Alexandrina revela as políticas públicas vigentes e contribui para o incremento do analfabetismo no Egito e para que significativa parcela da população continue no ostracismo. Afinal, segundo o Jornal do Brasil, o índice de analfabetos em território egípcio chega a 29,2%, com maior concentração nas áreas rurais.

Assim, em meio a tantas conjecturas, restam lembranças de uma biblioteca magnífica e inspiradora de gerações, agora, substituída por outra, localizada na Corniche da cidade de Alexandria, em rua costeira voltada para o mar Mediterrâneo, com aviso enganoso, que diz: “not just a library” [além de uma biblioteca], o que anuncia possíveis potencialidades. No entanto, a impressão que fica é a de que sua missão é adornar a cidade e incrementar a indústria do turismo... E só...


   14 Leituras


Saiba Mais





Sem Próximos Ítens

Ítem Anterior

author image
VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DOS NÚBIOS?
Abril/2026



author image
MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com