ALÉM DAS BIBLIOTECAS


SORRISOS POR ENTRE VÉUS

Na sociedade de hoje, a diversidade de gêneros “mostra a cara”, o que traz consigo o quase infinito direito de os seres humanos (homens e mulheres) serem o que desejam ser e seguirem sua orientação sexual sem nenhuma culpa ou culpa minimizada. Estão eles ou estamos nós distribuídos em diferentes segmentos, a exemplo da população LGBTQIA+: L, de lésbicas; G, de gays; B, de bissexuais; T, de transexuais; Q, de queer; I, de intersexo; A, de assexuais ou assexuados; + das demais situações, como P, pansexualidade = atração por pessoas, independentemente do gênero ou da orientação do outro. Neste contexto temporal ou espacial, visitar uma nação de origem árabe ou muçulmana, suscita uma série de inquietações.

Mulheres egípcias em sorriso entreaberto

Fonte: https://www.pexels.com/pt-br/procurar/mulheresegipcias

Estamos nos referindo ao Egito, de onde retornamos há poucos dias. Eis o mais populoso país do mundo árabe. Apesar de situado no continente africano e manter, com orgulho, uma história milenar de civilizações próprias, está profundamente integrado à cultura árabe desde sempre, ou seja, a partir da conquista islâmica. O árabe é sua língua oficial. O Islã, sua religião oficial. Professada dentre 90% da população, os adeptos de Alá convivem com minoria cristã e pequena comunidade judaica. No entanto, a bem da verdade, o termo – islamismo – instintivamente, desperta aflição calada ou gritada, quando lembramos das mulheres muçulmanas.

Há mulheres sujeitas à pena de morte por apedrejamento em rincões onde interpretações da Lei da Sharia (sistema jurídico do Islã) são aplicadas como parte do sistema legal, em especial, quando do adultério e da homossexualidade. Trata-se de séria violação dos direitos humanos condenada por significativa parcela da comunidade internacional. Mesmo assim, práticas de extrema violência contra a mulher ainda persistem a todo vapor e em diferentes níveis, no Afeganistão, no Irã, na Arábia Saudita, em Mali, na Síria, no Sudão e no pequeno sultanato islâmico Brunei.

A bem da verdade, no Egito, a taxa oficial de feminicídio é de difícil mensuração por conta da ausência de dados governamentais confiáveis. Segundo a Edraak Foundation for Development and Equality, organização egípcia sem fins lucrativos voltada para a promoção dos direitos do gênero feminino, há registro de 363 e 364 mulheres e meninas assassinadas, respectivamente, em 2024 e 2023, índices bem abaixo do Brasil, que computou 1.492 feminicídios em 2024. Diante da inconsistência de dados estatísticos naquelas bandas, celebramos o fato de que a mulher egípcia, salvo exceções que devem existir, não está sujeita a apedrejamento, caso desobedeça ao chefe da família, tampouco a açoites ou a chibatadas, mesmo quando o coração bate mais forte por alguém que não exerce a função de “senhor do lar”.

Sim, o divórcio existe no Egito. Pode se dar por iniciativa de ambos os sexos, mas, como esperado, a legislação favorece o homem com processo bem mais simples em contraposição à mulher, cujas opções são mais restritas e bem mais onerosas. De qualquer forma, é um alívio saber que, num país árabe, seres humanos têm a chance de recomeçar e vivenciar a felicidade numa segunda união. E mais, as mulheres podem, agora, trabalhar, aqui e acolá, seguindo uma série de limitações. Podem conduzir o veículo da família, ainda que não seja uma prática tão habitual. Podem frequentar escolas e universidades. Podem sair às compras sem companhia de alguém do sexo masculino. Podem...

O aparente companheirismo entre os dois gêneros

 

 

Fonte: Acervo pessoal: Dra. Silvana Lemos Gomes

Seu poder sobrevive em meio a uma série de preconceitos, barreiras e entraves. Dentre eles, a proibição ao aborto funciona como artifício para condenar a mulher egípcia a estagnar diante da vida. Como o islamismo proíbe qualquer forma de controle de natalidade, ter uma “penca” de filhos – o que é comum em território egípcio até os dias de hoje – simboliza a escravidão da mulher de forma inexorável ao lar. Precisa cuidar do marido. Dos filhos. Da família. Da casa. Das compras. Precisa esquecer profissão e habilidades. Precisa abdicar dos sonhos para manter em ordem a família. A frase que carrego tatuada em minha pele envelhecida há muitos e muitos anos – my body / my rules (meu corpo / minhas regras) – não tem o menor significado para a mulher egípcia.

Verdade que as egípcias não usam burcas, tais como o fazem as mulheres afegãs e outras que estão em regiões do Paquistão ou em áreas tribais ou sob regimes conservadores, como é o caso do Irã e da Arábia Saudita. No lugar das burcas, tipo específico de véu que cobre todo o corpo e o rosto, com uma única tela para os olhos, quase sempre em negro, o que impõe à mulher o aspecto de ave agoureira, para a mulher egípcia, lá estão os véus. E é por trás dos véus, que simbolizam domínio e controle dos cabelos “pecaminosos”, que ela exercita o que é seu por direito conquistado e inexorável. Afinal, algo lhes pertence e é intocável: o sonho e o sorriso.  

Por entre véus, em cores claras ou escuras, numa só cor ou numa mescla de cores, a mulher exercita o doce poder de sonhar e de sorrir. Os sonhos estão sempre a seu alcance. Não há nenhum instrumento que impeça a mulher de viver devaneios e doces fantasias. E elas sorriem: sorrisos genuínos; sorrisos doces; sorrisos amargos; sorrisos tristes; sorrisos meramente sociais; sorrisos discretos; sorrisos tímidos; sorrisos falsos; sorrisos contrafeitos; sorrisos que expressam compaixão; sorrisos que disfarçam o medo de eventuais algozes, sorrisos de desprezo; sorrisos de submissão; sorrisos de exaustão; sorrisos de renúncia... Sorrisos... Não importa...

De uma forma ou de outra, os sorrisos representam, sempre, uma doce vingança contra quem tenta controlar emoções, intenções e estado de espírito das mulheres-meninas-adolescentes-maduras-anciãs. Quer dizer, há outras formas de aborto. É quando o homem cego ou a sociedade conivente mata os sonhos das mulheres que almejam, ao lado do homem, uma família mais coesa em seus direitos e deveres, onde quer que estejam: no Brasil em crise eterna, nos Estados Unidos arrotando a salvação do mundo, na Venezuela destruída ou no deserto do Saara que ainda comporta sorrisos e sonhos, nem que sejam velados...


   57 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
A MESTRA QUE VENDIA LIVROS
Fevereiro/2026

Ítem Anterior

author image
SIBIU: A CIDADE DE OLHINHOS TRAVESSOS E CARINHOSOS - SIBIU NÃO É XIBIU, NÃO, SENHOR
Dezembro/2025



author image
MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com