ALÉM DAS BIBLIOTECAS


ESTOU DE VOLTA EM MEMÓRIA FINITA!

Ao lado de minha companheira, a soberba insônia, não consigo dormir. Cansada da monotonia das horas que se esticam, tento ler. As linhas passam sob meus olhos, indecifráveis. Milhões de dedos magros em mãos calejadas orquestram de encontro às calçadas e ao asfalto uma música melancólica que somente eu escuto n’alma. Afinal, a chuva não para. Não tenho sono e estou tão só...

Maria das Graças Targino

Sim, estou de volta! Revigorada e inteira. Esperem! Para ser verdadeira, como costumo ser, reforçando palavras de Ana Martins Marques, no belíssimo poema “Tenho quebrado copos”, lembro que tenho quebrado copos, por inércia e por paixão. Para isso, parece, deram-me mãos. Tenho depois encontrado cacos por aí afora que não recolhi. Mas o que importa é que, “enquanto esgoto o estoque de copos, não tenho quebrado minhas próprias mãos”, o que me permite continuar a viver, a sonhar, a acender luzes ou faróis e, sobretudo, a construir novos castelos de areia e de puros devaneios, com estas mãos envelhecidas e encarquilhadas.

 Ser professor – experiência doce e amorosa; ser gente – delícia sem fim

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2025

Reúno, em no livro "Memória finita" um punhado de novas crônicas feitas de imagens, representações, atos e ideias. Relembro, então, um fato curioso. Um amigo querido me contou que passara um transtorno recente causado por falha da editora de um de seus livros de crônicas – o título simplesmente “enganchou” na Casa Editorial. Sem saída, como vendera antecipadamente alguns exemplares, teve que substituir o título pago em sistema de pré-venda por um romance. E, sonoramente, ele diz: “é claro que as pessoas saíram ganhando. Pagaram um livro de crônicas e receberam um romance”. Implicitamente, colocava os dois gêneros literários numa balança imaginária e dera ao romance um peso maior do que o das crônicas. Ledo engano!  Como admitem os próprios teóricos, a exemplo do português Vítor Manuel de Aguiar e Silva, autor de um dos mais completos compêndios sobre o tema Teoria da Literatura, os gêneros literários constituem item polêmico e nunca consensual. Desde a época do filósofo grego Platão, anos antes de Cristo (429-347 a.C.), ele e seus seguidores, em meio à teoria das ideias e à preocupação com os tópicos éticos, enfrentaram a duras penas a categorização dos escritos. Até os dias de hoje, as dúvidas persistem. Discute-se, nas academias de Letras e nos circuitos acadêmicos, mundo afora, a concepção estrita do termo – crônica. Não há respostas prontas. Não há respostas unívocas.  Não há certezas.

No entanto, é evidente que inexiste superioridade entre os gêneros literários. O que vale, em qualquer instância, é a qualidade dos escritos, sem contar o fato de que as crônicas possuem representantes reconhecidos na Literatura nacional, a exemplo de Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende, os quais também transitam em outros segmentos literários. Sabino, romancista, contista e novelista. Paulo Mendes, poeta e crítico literário. Otto, contista, novelista, romancista. O mesmo ocorre com João do Rio, Lima Barreto, Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Rubem Braga. Outros nomes são Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, José de Alencar, José Lins do Rego, Lygia Fagundes Telles, Mário Prata, Martha Medeiros, Olavo Bilac, Rachel de Queiroz, Rubem Alves, Luís Fernando Veríssimo e assim segue...

As crônicas permitem olhares acertados ou enviesados sobre a linha tortuosa das cidades e do viver. Eis o registro bem ou mal-humorado do cotidiano. O delicioso livro de Carlos Drummond de Andrade, “De notícias e não notícias faz-se a crônica” reforça, desde o título, a concepção de crônica: as notícias, simbolizando o real; as não notícias, o imaginário do cronista. É a crônica como texto jornalístico não muito longo, dentro da perspectiva dos literatos de que é ela mais Comunicação do que Literatura, o que nem pacifica nem soluciona a questão, até porque o Jornalismo Literário põe em evidência a conjunção do Jornalismo com a Literatura, não importam as diferentes denominações que ele vem recebendo ao longo das décadas: Literatura não ficcional, Literatura da realidade, Jornalismo em profundidade, Jornalismo diversional, reportagem-ensaio e Jornalismo de autor.

No entanto, dentre tantas variações do Jornalismo Literário e posições da crônica como texto, reconheço que minhas crônicas têm, quase sempre, um tom confessional. Não são necessariamente autobiográficas. São autorreferenciais. Explico: minha existência constitui referência ou é assim utilizada para tratar de temas os mais díspares. Não estou no centro da discussão. Mas, parto de meus acertos e de meus erros para compreender mil situações vivenciadas pelo outro. Poucos autores buscam inspiração em suas vidas pessoais e / ou em detalhes belos ou sórdidos de sua intimidade sem subterfúgios, como Lya Luft e Danuza Leão o fazem. A primeira, por exemplo, trouxe à tona, sua separação marital e, depois, a morte do amado, para tratar das recomposições d´alma impostas ao homem em sua trajetória. A segunda, no livro “Quase tudo”, confessou a coragem de fazer amor com um desconhecido, a quem vislumbra num café perdido de Paris, aos quase 65 anos.

De forma similar, minhas crônicas publicadas, a princípio, em jornal local de Teresina – Piauí, em material editado pelo Grupo Prelúdio e em alguns endereços eletrônicos, como o Infohome, Londrina – Paraná, e, agora, aqui editadas para um público maior, “me entregam” Falo da desconstrução dos acometidos pelo Mal de Alzheimer.  Falo do Povo Yanomami e da crise humanitária por eles vivenciada. Falo das linhas tortas que podem existir em meio aos mil festejos do belo Natal. Falo do confinamento ou do retraimento social severo que atinge, em diferentes países, o hikikomori. Falo do sorriso terno do saudoso Papa Francisco. Falo das expectativas que cercam o Papa Leão XIV. Falo da beleza das rosas tunisianas. Falo do amor intransponível dos elefantes. Falo da Barbielândia. Falo da dor nada minimalista das vítimas do Transtorno de Acumulação. Falo das contradições que rondam conflitos religiosos. Falo de guerra e de paz. Falo dos palestinos. Falo de luz e de escuridão. Falo, sobretudo, de sentimentos. Falo de alegrias e de dores. Falo com quem já amou ou ama desvairadamente ou contidamente. Falo para quem já se perdeu nas ruas obscuras do medo e do vício. Falo para quem se encontrou, se reergueu, e continuou...

Escrevo e me sinto viva para compreender o outro e exercitar a complacência em relação ao outro. Escrevo e me desnudo sem temor e sem pudor...

NOTA: 

Caso se interessem em comprar o livro “Memória finita”, 368 páginas, ilustrado com fotos coloridas e em preto e branco, excelente trabalho gráfico, enviem mensagem para o e-mail gracatargino@hotmail.com ou o WhatsApp 55 86 98832-1077. O livro contém prefácio do jornalista e escritor Zózimo Tavares; contracapa do escritor e biógrafo Eneas Barros; orelhas do docente e pesquisador Oswaldo Francisco de Almeida Junior e de Celso Japiassu, escritor (Porto – Portugal).


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com