MEDO É...
Algumas vezes, há quem me pergunte a partir de que ou de quem encontro inspirações para meus escritos. Titubeio sempre. Um tema é certo e eterno – da própria vida. Paro um pouco e penso – dos livros que leio ou releio, das amizades que me acariciam, da beleza da natureza, do simbolismo de uma folha que pede para ser eternizada em meio a poemas repletos de amor. Desta vez, em visita à belíssima Villa Hügel, Essen (Alemanha) deparei com uma assertiva em letras gigantescas e num imenso mural, onde se lia uma verdade poucas vezes ditas ou revistas “Fear has two meanings – forget everything and run or face everything and rise” (O medo tem dois significados: esquecer tudo e correr ou enfrentar tudo e se levantar).
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| Fonte: Freepik, https://br.freepik.com/fotos/figura-solitaria. |
Muito cedo, propensão do meu jeito de ser, entendi que a maior forma de enfrentar o medo é dissimular sua existência. Assim, sobrevivi a muitas dificuldades quando muito jovem (quase criança), enfrentei o tudo de que se fala e me levantei trôpega quase cambaleante de um alcoolismo simbólico. Foi assim, que vendi para familiares, amigos e companheiros uma fortaleza que não era minha, olhando rente e firme nos olhos dos abutres, indiferente ao seu imenso poder de voo, ao seu bico forte e à sua ânsia incontrolável de se nutrir dos mais frágeis – enfrentei tudo, levantei e segui.
Hoje, num muro qualquer que me isola do mundo, tenho ideia de meu acerto: não esqueci nem enigmas nem dei as costas as muitas dores que salpicam a vida de qualquer um. Enfrentei cara a cara obstáculos e estorvos, oposições e objeções, apuros e apertos. E eis o extremo paradoxo: foi esta força que comercializei sem tê-la, que me cobra, agora, neste momento da própria existência uma solidão translúcida e cruel: esquecer tudo e correr. Volto a mim num passe de mágica. Fui a maior culpada e a maior vilã. Transformei cada dia de minha história num círculo de muito amor, em que cabiam filhos, irmãos, companheiro de 19 anos com quatro filhos, e, sobretudo, meus alunos e minha vocação de docente. Aulas e mais trabalhadas como se cada uma delas fora a última; trabalhos exaustivos de orientação; bancas; revisões; orientações; palestras; publicações técnico-científicas, etecetera, etecetera. Quando os reitores e colegas – definiram por meios cruéis e pérfidos – que eu já ocupara lugar demais, fiquei sem chão. Ruí. Não havia mais tempo para esquecer ou tirar do coração o foco de ajudar a formar “meus eternos meninos”.
Meus alunos seguem, como natural, sua vida cheia de expectativas e beleza. Meu círculo de amizade, sempre ou quase sempre restrito à academia, quebrou-se. Meu telefone quase nunca toca mais, num silêncio sepulcral que fala sem parar da solidão (que chato!). Os telefonemas são dos pouquíssimos amigos leais ou de solicitações para serviços de revisão, de orientação e algo mais. Não culpo ninguém. A dor é minha. A solidão, idem.
Depois do enfrentamento e de uma vida turbinada no trabalho reconhecido por raras instâncias, mas inesperadas e isentas de valores políticos ou de interesses escusos, a certeza de que a chave do cadeado joguei fora ou a perdi na imensidão do oceano sem fim. E lá estou eu: com medo de não ter mais tempo de volver aos meus exercícios físicos, à tapeçaria, à pintura em porcelana (atividades que encheram minha vida ao lado de minhas leituras e meus escritos) e, sobretudo, ao desejo de ser amada ou, no mínimo, querida! Não amaldiçoo minhas opções de vida, mas não canso de pensar se teria pela frente dias menos despovoados se houvesse guardado espaço maior para mim e não para os outros!
