EIS UM PAPA QUE NÃO BRINCOU DE SER DEUS! (*)
O ditado popular apregoa “o hábito faz o monge.” É uma forma de dizer que não devemos julgar as pessoas a partir de sua aparência. É preciso conviver – viver em comum – nem que seja, paradoxalmente, a distância, por meio da observação de seus atos no decorrer de dias, meses, décadas e anos para emitir algum parecer. Todos têm um “causo” a contar sobre alguém que engana com discurso farto ou com exibicionismo – que atende, agora, pelo nome de perfil – que ronda as redes sociais. Homens e mulheres, jovens ou não, vendem uma “cara” que não é a sua, embora possa ocorrer que assim se vejam no espelho distorcido da vaidade, reflexo da escuridão d’alma.
Tudo isto somente para dizer que, apesar do policiamento contínuo para acreditar nas pessoas pelo que são no dia a dia, o Papa Francisco, o antigo cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio, nascido no bairro de Flores, Buenos Aires, nos encantou desde o primeiro momento. Não apenas por suas vestes simples, seu crucifixo de ferro, suas acomodações sem luxo e esplendor e seu trono sem ostentação. Seu despojamento, devidamente comprovado no decorrer da vida religiosa na vizinha Argentina, se fortaleceu durante todo o período em que ocupou o cargo de sucessor de São Pedro na chefia da Igreja Católica, em atos genuínos e contínuos de humildade, durante os 12 anos de Pontificado, que se estendeu até março de 2025. Francisco morreu aos 88 anos na segunda-feira (21 de abril), quando se recuperava de um quadro de pneumonia após internação por cerca de 40 dias.
Sempre se percebeu em Francisco a decisão férrea de estar sempre ao lado das pessoas humildes, dos servos e não dos donos do poder. Eis a lembrança de um Papa que abraça as pessoas, pede orações, acaricia crianças longe das câmaras de tevê, dá boa noite às multidões, e, sobretudo, temos um Papa que sorri um doce sorriso de amor e de acolhimento. Sua aparência dócil e afável sempre remeteu à possibilidade da renovação efetiva da Igreja: combate à corrupção, à pedofilia e ao luxo desvairado. Seu carisma indescritível trouxe de volta à Igreja “ovelhas” desgarradas ou, simplesmente, arredias. Não são mais expectativas reais de que o Pontificado do Papa Francisco renderia “bons frutos.” É um fato comprovado e vivenciado por muitos povos e nações. Apaziguar o povo cansado da guerra da sobrevivência diária. Trazer esperança a corações desolados. Seu distanciamento da retórica ou da eloquência foi a constatação mor de que a verdadeira sabedoria está na simplicidade. É a certeza de que palavras rebuscadas e inacessíveis às plateias funcionam, muitas vezes, como engrenagem de enganação. E isso se dá em instâncias variadas: dos senados às salas de aula; das mesas fartas de restaurantes de luxo a botecos, onde surgem os ruis barbosas perdidos na vida ou da vida.
Não precisa ser adepto de qualquer religião ou seita. Não precisa ser ateu ou agnóstico para perceber que o primeiro Papa da América Latina carregou consigo uma aura de encantamento. Ele mostrou, a cada momento, como é difícil, e, ao mesmo tempo, grandioso ser simples. Gestos humanos. Olhares de ternura. Olhadelas especiais aos bebês, às crianças e aos velhos. A simplicidade de aceitar o chimarrão de alguém da multidão. A naturalidade com que trocava, vez por outra, seu solidéu por outro sem saber de onde vinha. A doçura com que desobedecia aos seguranças exaustos durante agendas predestinadas a multidões.
Papa Francisco e seu eterno sorriso
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| Fonte: Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), Brasil, 2025. |
Alguém me disse assim: “ele é fofo”. Desde então, após pensar e pensar, só consigo defini-lo como “um fofo” e ponto final! Eis uma lembrança que estará comigo. Não sei em que sentido o Papa Francisco pode ser interpretado e lembrado como fofo..., mas é fofo, sim. Urso de pelúcia. Papai. Papai Noel. Vovô de contos de fada, que coloca os netos no colo e narra lindas histórias de cirandas e rodeios, onde fadas convivem com bruxas multicoloridas e de bom coração. Francisco foi um Papa tão gente, nosso Francisco! Eu sorri como há muito não fazia: diante de um cardeal velhinho, ele, com um sorriso que ocupava todo o rosto e com olhos brilhantes disse ao interlocutor: “Bom vê-lo! Pensava que já morrera!” Ao pé da letra, uma gafe. Com generosidade, uma fala humana, espontânea e generosa – ele celebrava a vida do velhinho que poderia estar morto.
Reforçamos a crença inabalável de que todas as religiões são dignas de respeito e aceitação. A religiosidade está presente em qualquer povo. Há religiões monoteístas ou politeístas. Catolicismo. Evangelicalismo. Budismo. Hinduísmo. Islamismo. Espiritismo. Há de tudo. Listagem à disposição de qualquer internauta no endereço http://pt.wikipedia.org/wiki/ Lista_de_religi%C3%B5es surpreende. Basta consultá-la para saber que não pode haver uma única crença ou um único credo. Os deuses ou o Deus é sempre um anjo de amor, generosidade, reverência, veneração e acatamento às diferenças.
Mudam as crenças. As pessoas permanecem iguais. Iguais em sua doce ou amarga solidão. Em seu abandono. Em sua busca de libertação. Em sua opressão. Em sua crença de um mundo melhor. Em seus fanatismos. Em sua irreverência. Em seu sonho de vida eterna. Em seu sonho de amor terreno. Em sua extrema violência. Em sua força de destruição. Nada disso desdiz a sapiência dos que acumulam conhecimentos ao longo da vida e sabe gerenciá-los para o bem, de forma oportuna e sábia: eis afinal uma frase adequada para definir Francisco!
Confessou (não escondeu) os pecados da Igreja em tom de penitente. Pedia a muitos para que orassem por ele em tom de pecador. Ao tuitar, postava comentários, informações e fotos de suas viagens como mandatário do Vaticano, adotava inovações do mundo moderno, como homem atualizado que foi, mas sem se deixar envolver pela magia das tecnologias. Lembrava que há ídolos de papel (os “amigos” das redes sociais constituem bom exemplo) e reforçava que não são eles que importam. Todos nós possuímos um passado (nossas raízes). Todos nós vivemos um presente (seja qual for). Todos nós precisamos estar prontos para enfrentar o futuro com o coração pleno de fé num Deus de amor.
Reiterando que o ser humano é irreversivelmente igual em seus sentimentos, suas alegrias, dores e imperfeições, ousamos sonhar com uma Igreja verdadeiramente para os pobres e aflitos! Sonhar para que o sucessor de Papa Francisco adote a imagem simples e perfeita de um Cristo humano e falho, como ele o fez. Sabemos que sua luta para confrontar as questões terrenas, os erros, as falhas e os pecados que pairam no Vaticano foi uma guerra de muitas batalhas – reforma da Cúria, Código Interno, Banco do Vaticano, etc., mas há muito a comemorar! Eis um Papa que não brincou de ser Deus! Eis um Papa que confirma o dito popular “o hábito faz o monge”, sim, Senhor!
(*) Texto fundamentado em capítulo do livro “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”.
