VIDA DE GLAMOUR E MORTE SOLITÁRIA
Segundo as autoridades norte-americanas, Eugene Allen Hackman, 95 anos, faleceu cerca de uma semana após a morte de sua esposa pianista, Betsy Arakawa, 64 anos e um dos cães do casal, a cadela Zinna. Para quem não lembra, Hackman, ex-fuzileiro naval, renomado ator e reconhecido por seus papeis como policial, presidente, herói ou assassino, com sua voz grave, fez parte de mais de 80 filmes, como também, de programas na tevê e de palcos de teatros, durante sua longa e glamourosa carreira, que começou na década de 60, século 20. Foi ele premiado com dois Oscars. Antes, fora indicado com papel de destaque, como o irmão do ladrão de bancos Clyde Barrow, em “Bonnie e Clyde”, de 1967. Mas, de fato, o primeiro Oscar, como melhor ator na interpretação de Jimmy Popeye Doyle veio no filme de suspense policial estadunidense “Operação França”, ainda em 1971, sob direção de William Friedkin. O segundo, como melhor ator coadjuvante como Little Bill Daggett no faroeste “Os Imperdoáveis”, de Clint Eastwood, 1992. Mais adiante, chamou atenção como Lex Luthor, 1978, em “Superman – O Filme”. Em 2001, interpretou Royal Tenenbaum em “Os Excêntricos Tenenbaums”, datando de 2004 seu último papel como M. Cole, em “Bem-vindo a Mooseport”.
Fama e glamour do casal Hackman e Arakawa
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| Fonte: Rolling Stone Brasil, 2025 |
Hackman e Arakawa foram encontrados mortos por um zelador do condomínio tão somente em 26 de fevereiro deste ano (2025) em cômodos separados de sua mansão em Santa Fé, capital do Estado do Novo México e sede do condado de Santa Fé, onde viviam desde os anos 80, onde participavam da comunidade local, em especial, do segmento artístico e do que se vincula à gastronomia. Após as primeiras especulações sobre a causa mortis indicar vazamento de gás, as autópsias confirmaram mortes naturais: o ator por insuficiência cardíaca, agravada pelo Alzheimer; a pianista face à hantavirose, doença rara transmitida por excrementos de roedores.
As autópsias apontam que Arakawa faleceu no dia 11 de fevereiro e Hackman, quase uma semana após, dia 17, por conta do estágio avançado do Alzheimer, que o impossibilitou de sobreviver, de se alimentar, de se medicar, uma vez que se trata de uma enfermidade que esvazia a memória e deixa o ser humano como um invólucro – uma caixa oca, sem lembranças e sem resquícios. Quem conviveu de perto com portadores do Alzheimer conhece de perto o processo de fuga de uma pessoa que não mais existe como tal – as memórias se vão, os entes queridos, os bons e maus momentos de vida. É uma tela em branco, que não comporta mais tinta, mais nada.
O casal, apesar de ter vivido num universo de glamour e glória morreram sós. E aqui está o surpreendente: nenhum dos três filhos de Hackman telefonou ou buscou qualquer outra forma de contato com Hackman ou com sua esposa durante um período relativamente longo: mais ou menos 15 dias. Este dado aparentemente simples revela a solidão da velhice, ou se quiserem, as desavenças familiares, a morte em vida, em meio ao magnetismo e ao charme. Quando será que o telefone do rancho de Santa Fé começou a emudecer por horas infinitas? Quando será que as visitas passaram a rarear? Quando será que Hackman e Arakawa principiaram seu processo de invisibilidade? São perguntas sem respostas, uma vez que, se a fama é risonha e meio escandalosa, o esquecimento é silencioso, traiçoeiro e lúgubre!
Talvez, o começo do fim do casal Hackman e Arakawa
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| Fonte: Marin International Journal, 2025 |
Em testamento revelado um mês após sua morte, a fortuna de US$ 80 milhões do ator destinava-se a Betsy Arakawa, agora, morta. O documento, ano 2005, indica a pianista como sucessora do Fundo Fiduciário de Hackman, cuja vontade determinava, ainda, que seus bens fossem para instituições filantrópicas e tratamento médico do casal. Não há menção aos filhos da união anterior com Faye Maltese – Christopher Allen, 65 anos; Leslie Anne, 58; Elizabeth Jean, 62 anos. A batalha judicial parece mostrar sua cara ambiciosa... Afinal, o mistério que paira em torno da relação do ator com os filhos pode ser decisivo para a contestação da vontade explícita do ator. Raramente, ele falava sobre os filhos. Numa das poucas entrevistas sobre o tema, admitiu não ter contato com o primogênito desde a infância, mas acrescentou que, com as duas filhas, nos últimos anos, a aproximação dera alguns passos.
Nada disso importa. Nosso intuito é discutir a desafeição que pode rondar a velhice, a partir de expressões que tentam esconder dores, solidão, falta de acolhimento por parte da família e da sociedade em geral, como se vê em reações explícitas ou implícitas, quando se tem um ancião numa sala de aula; num entretenimento, como agora no sempre discutível BBB2025, quando as mais velhas são tratadas com “carinho” construído, ou, são elas mesmas incapazes de cumprir provas, às vezes, simples. Julgamos uma chacota para esconder a crueza da velhice este monte de cognomes espalhados por aí: melhor idade; terceira idade; sênior; longevo, et cetera. Muitos cidadãos, talvez, tenham na ponta da língua palavras que não expressam para seguir a linha do “politicamente correto”, como: centenário, matusalém, octogenário, acabado, corroído, desgastado, deteriorado, gasto, usado... Enfim, as palavras mais adequadas (porque verdadeiras) são: velho (a) ou idoso (a) ou ancião (anciã).
No nosso caso, confesso sem pudor que, à medida que os dias se vão, mais cacos de mim ficam no meio do caminho. Estão tão esfacelados que, por vezes, penso que não sou mais única, mas feita de cacos ou de retalhos. Sou muitos cacos num só alguém. Sou ninguém em muitos cacos. De modo que peço, a quem por acaso descobrir o glamour de ser velho, avisa aí, por favor!

