MEU NORDESTE: FLASHES DE LEMBRANÇAS COLORIDAS E AMORES SABOROSOS
Se tu quiseres
Eu invento um vento
Pra ventar o amor,
Uma chuva bem chovida
Pra plantar pé de fulô
Xico Bezerra
O cheiro de terra molhada após uma branda ou zangada chuva de verão, em meio a trovoadas e relampejos. Como o compositor, poeta e letrista nascido em Crato, Ceará, Xico Bizerra, cuja vida se entrelaça com a música e com a cultura nordestina, quero loucamente inventar um vento mais forte para ventar o amor. Quero uma chuva bem chovida para apaziguar o calor e aquecer levemente meu coração doído e moído de saudade. Revisito o Nordeste (NE) em minha vida ou revisito minha vida no Nordeste!? Nordestina da gema, sim, senhor! Nascida em João Pessoa – Paraíba. Criada em Recife – Pernambuco até os 20 anos. Daí por diante, Piauí. A princípio, Piripiri. Dois anos depois, a capital Teresina. Nos intervalos de vida profissional ou pessoal, visita amiudada às demais regiões brasileiras, ênfase para o NE, que integra o maior número de unidades federativas – nove Estados do Brasil –, sem que isto signifique ser ela a maior em extensão territorial, e, sim, a segunda região mais populosa do país, com cerca de 54.644.582 habitantes, aquém tão somente do Sudeste.
Similaridades e singularidades
Seus Estados – Alagoas (AL, capital Maceió); Bahia (BA, Salvador); Ceará (CE, Fortaleza); Maranhão (MA, São Luís); Paraíba (PB, João Pessoa); Pernambuco (PE, Recife); Piauí (PI, Teresina); Rio Grande do Norte (RN, Natal); e Sergipe (SE, Aracaju) somam uma área de, aproximadamente, cerca de 1,5 milhão de km² ou 18% do território brasileiro. Apesar de possuir traços em comum, tais como o fato de ser a região de colonização mais antiga do país, ocupada pelos portugueses desde os anos 1500 e similaridade em relação ao clima, uma vez que, devido à presença de solos rasos e pobres, além da proximidade com a Linha do Equador, muitos Estados estão no semiárido, o que faz com que alguns rios sequem por completo e cidades inteiras fiquem sem chuva durante seis ou mais meses, o Nordeste mantém extraordinária singularidade em seus nove Estados. Estes conservam tradições ímpares, que incluem folclore, lendas, cantigas de ninar, linguajar, artesanato, gastronomia, vestuário, festividades, crenças e santuários religiosos para lá de suntuosos e grandiosos.
Aliás, aqui urge mencionar Irmã Dulce ou Santa Dulce dos Pobres ou Anjo Bom da Bahia [Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes], cuja vida corresponde a permanentes obras de caridade e assistência aos pobres e necessitados, de tal forma que é a única Santa da Igreja Católica oriunda do NE, ao lado de outros santos não canônicos, como Padre Ibiapina; Dom Vital; São Longuinho; Frei Damião; Padre Cícero ou, simplesmente, Padim Ciço. Sobre este último, o interesse que desperta na região é intenso. Morto há mais de 90 anos, é, ainda, com frequência, invocado em rezas e promessas pelos nordestinos, com o epíteto de Santo. Em vida, foi banido pela própria Igreja Católica, por sua proximidade com o cangaço, na figura do lendário Lampião, e, talvez, por sua inserção no universo político, como primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, CE. No entanto, depois de muitas controvérsias, em agosto de 2022, o Vaticano autorizou o início de seu processo de canonização, que está em está em fase diocesana, quando comissões constituídas analisam vida, escritos, qualidades, virtudes, documentos et cetera.
Visão da região Nordeste
![]() |
| Fonte: https://brasilescola.uol.com.br/brasil/regiao-nordeste.htm |
Enfim, o Nordeste é diversidade e uniformidade. É uma riqueza só e para lá de inigualável, que mescla herança cultural de povos, como afrodescendentes, negros genuínos, quilombolas, europeus e portugueses. O frevo [Dev. de frever, por ferver] expressa desde sua origem um ritmo quente e veloz que luta bravamente em terras pernambucanas para sobreviver ao lado de ritmos carnavalescos que voam de Norte a Sul do Brasil, a exemplo dos trios elétricos da Bahia ou, ainda, para enfrentar o xote, forró o e o baião. O Bumba Meu Boi disputa espaço e origem entre Maranhão e Piauí. A capoeira, mistura de dança com luta, marco do povo baiano, simboliza o período em que os escravos africanos lutavam contra os senhores em busca de liberdade e de dignidade. Hoje é um evento praticado em todo o mundo, o que atesta sua força, como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.
O litoral nordestino é sua marca registrada para lembrar que precisamos muito pouco para ser feliz: areia branca, céu e mar azul, vento esvoaçando nossos cabelos e calor do sol, na medida certa, para aquecer a alma. Em AL, dentre uma imensidão de belas praias, eis Maragogi; Praia do Francês; Pajuçara. Segundo categorização do canal de notícias norte-americano Cable News Network (CNN), dentre as oito praias mais belas de nosso Brasil, três estão na BA: Caraíva, em Porto Seguro, ocupa o terceiro lugar seguida pelas praias de Taipus de Fora, em Maraú e Porto da Barra, na capital Salvador. O CE tem praias para dar e vender, a exemplo de Jericoacoara; Canoa Quebrada; Praia do Futuro; Praia das Fontes.
No MA, me encontro e me desencontro sempre que visito Alcântara, município da região metropolitana da capital São Luís. Integra o litoral em forma de rias na faixa que corresponde ao chamado golfão maranhense, com relevo formado por planícies fluviais e fluviomarinhas, em meio a áreas planas e baixas, com altitudes predominantes entre cinco e 15 metros, recortadas por canais de circulação de águas salobras. Alcântara incorpora as Ilhas Cajual; Livramento; Guarás; Pacas. A primeira consiste em importante sítio arqueológico, com presença de fósseis de espécies que também habitaram a África, o que fortalece o indício de que África e América do Sul já foram, em tempos longínquos, um único continente. A PB, por sua vez, desafia as convenções mais rígidas e atrai muita gente à praia naturista de Tambaba, onde é vedado o uso de roupas, mas que antes de qualquer coisa, atrai por sua paisagem paradisíaca. Piscinas naturais contrastam com falésias coloridas, ou seja, com terras e rochas altas e íngremes à beira-mar, resultantes da erosão marinha, e que se assemelha a uma moldura para o cenário primitivo e belo.
Em PE, eis o arquipélago de Fernando de Noronha; Praia dos Carneiros; Porto de Galinhas. No PI, destaque para as praias do Coqueiro e Atalaia, em Luís Correia; Pedra do Sal, em Parnaíba; e Barra Grande, em Cajueiro da Praia, verdadeiro paraíso ecológico para quem busca lembranças fugidias que aceleram o coração e nos fazem contar as estrelas preciosas perdidas no céu. A Praia de Ponta Negra é verdadeiro cartão-postal de Natal, RN. Em SE, as praias do Saco; de Aruana e Crôa do Goré, esta última, inesquecível banco de areia maravilhoso, com águas quentes e cristalinas...
Linguajar, gastronomia e literatura
No linguajar, dicionários estaduais e locais espocam aqui e acolá. De forma bem mais informal, há mil lorotas nas redes sociais, em vídeos curtos ou “marromeno”. Para você entender expressões, como “marminino”, “marroia”, “marréclaro” – precisa conhecer pelo menos um nordestino, “marrapais”! E o mais interessante, é que as distinções ocorrem de lugar para lugar!
Quanto à gastronomia, sem esquecer os mais de três milhões de cidadãos que enfrentam grave insegurança alimentar, ousamos afirmar que, no Brasil, em termos gerais, comemos bem, em termos de variedade. São flashes de lembranças coloridas e de pratos suculentos que remetem a amores para lá de saborosos. Ao lado dos frutos do mar, eis o vatapá, a moqueca, o acarajé, o caruru, o mugunzá, a paçoca, a canjica, a rapadura, a buchada de bode, o bolo de rolo, a maria-isabel (arroz e carne-seca), o rubacão, e literalmente, centenas de outras comidas típicas da região, com variações, basicamente, em cada Estado, marréclaro!
A literatura extrapola a riqueza do cordel, que enche e recheia as feiras livres Nordeste afora. Faz jus a grandes poetas, cronistas e romancistas. Eis o alagoano Graciliano Ramos, com a obra “Vidas secas”, descrevendo, em preto e cinza, o descaso social e a exploração humana que afetam a história de vida de retirantes do sertão. O baiano dos baianos, Jorge Amado, o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, teatro e tevê, possui produções que atravessam e varam gerações, como “Dona Flor e seus dois maridos”, “Gabriela, cravo e canela”, dentre muitas outras. O cearense Patativa do Assaré, decerto, ocupa o posto de maior representante da poesia popular nacional, cujo poema icônico se imortalizou na música e na voz de Luiz Gonzaga: em “A triste partida”, na qual a realidade dos migrantes nordestinos é retratada com pincéis coloridos.
O maranhense Ferreira Gullar, escritor, tradutor e ensaísta, deixou um legado de amor e de dor, de encontro e desencontro como em “Homem comum”, quando diz: “Sou um homem comum de carne e de memória, de osso e esquecimento. Ando a pé, de ônibus, de táxi, de avião e a vida sopra dentro de mim [...] feito a chama de um maçarico e pode subitamente cessar [...]” O paraibano Augusto dos Anjos foi um dos poetas preferidos de meu pai. Por isto, não obstante a tristeza quase doentia e o tom cáustico de seus versos muito influenciou meus primeiros escritos. E o que dizer do pernambucano Ariano Suassuna que se eternizou de ponta a ponta do Brasil, mesmo sem ter ido a Disneylândia – chiste memorável que conta com humor!!!
O parnaibano Assis Brasil deixou um acervo memorável, com destaque para “Beira-rio beira-vida”, romance no qual narra a vida de cidadãos em situação de vulnerabilidade, quase sempre, população ribeirinha às margens do oponente rio Parnaíba, trazendo à tona a tristeza oculta na prostituição da região do cais entre os anos 30 e 40 do século 20. Dentre a literatura potiguar, entre muitos, a ênfase vai para Homero Homem, o mais lido de todos os ficcionistas norte-rio-grandenses. Em Sergipe, evidência para o historiador da literatura brasileira, Sílvio Romero.
O tempo voa e nos leva juntos
Juntar os cacos de lembranças do Nordeste que me viu criança, jovem, mulher e velha, é brincar com doces recordações de um tempo que voa veloz. Ousado, levou consigo minhas tranças de menina sapeca, e, muito pior, minhas infindáveis brincadeiras: esconde-esconde, pular corda, amarelinha, batata quente, pião, queimada, pega-pega, as adoráveis bolinhas de sabão, passar anel, empinar pipa no céu de brigadeiro, que me fazia sonhar e suspirar pelo garoto-galã da rua, sempre coalhada de ditos e risos, à tardinha, quando as comadres se punham a conversar fiado (não existia as tais fake news, era fuxico, mesmo, sim, senhor) e a vigiar nossas travessuras.
A maior parte das brincadeiras exigia o exercício contínuo de “pé-para-quem-te-quer”, quando corríamos descalços por calçadas e quintais indiferentes aos gritos dos adultos para nos cuidar, não tropeçar, não chorar! Esqueciam eles de lembrar quão pouco precisamos para ser feliz quando deixamos viver dentro de nós a criança lépida que pede a avó-estrela para nos acalentar nas noites escuras!
Infância e lembranças
![]() |
| Fonte: https://radio.ufpa.br |
Dentre as muitas recordações que me fazem pensar nesta região onde vivi, fui feliz e infeliz, fui criança e mulher, estão as idas semestrais à fazenda de meus pais no município de Conceição de Piancó, PB. Eis um capítulo à parte em minha vida! Tomar leite no curral com o caneco estirado para o vaqueiro escoar aquele líquido espumante me fez odiar o leite para sempre! Cruz credo! Mas a magia prevalece! A colheita de algodão, nunca esqueci! As redes estendidas na varanda da casa grande. O carinho contagiante de meu pai ao contar seu rebanho por nomes doces e afetuosos. Minha irmã a tocar seu acordeão vermelho nas festas beneficentes que minha mãe organizava. Eu a balançar na rede, com ímpeto quase feroz, meu irmão mais novo (um dos grandes amores de minha vida) para que dormisse logo... Sair com a bicicleta de meu irmão mais velho às escondidas e enfrentar sua fúria ao chegar! E a história de meu primeiro amor? Ele nem sonhava quão forte batia meu coração quando o via em brincadeiras com outros garotos. Ensaiei uma carta cheia de palavras tortas e truncadas, entregue em gesto veloz e certeiro. Carta sem resposta como tantas outras invenções de minha vida meio sem rumo, mas com prumo!

