ALÉM DAS BIBLIOTECAS


ANTONIO CICERO: UM ADEUS COM GOSTO DE ATÉ LOGO

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é,
velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro do que pássaros sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: para guardá-lo.

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Antonio Cicero

Antonio Cicero Correia Lima, ou simplesmente, Antonio Cicero, compositor, poeta, crítico literário, letrista, filósofo e escritor carioca, nascido em 6 de outubro de 1945, além de Membro da Academia Brasileira de Letras, eleito em 10 de agosto de 2017, como sucessor do político brasileiro Eduardo Portella, e empossado em 16 de março de 2018, partiu aos céus no dia 23 de outubro último, aos 79 anos. Face à sua relevância na literatura brasileira, sua morte teve significativa repercussão no país e, em especial, no Estado do Piauí, por ser filho de piauienses, Amélia Correia Lima e Ewaldo Correia Lima. Seu pai foi um dos fundadores do Instituto Superior de Estudos Brasileiros e também, adiante, diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, durante o Governo Juscelino Kubitschek. Em 1960, assumiu cargo executivo no então recém-criado Banco Interamericano de Desenvolvimento e seguiu com a família para Washington, D.C., onde Cicero cursou o então secundário.

De volta ao Brasil, o intelectual ingressou na graduação de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e, depois, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1969, por conta da Ditadura Militar, terminou seus estudos em Londres. Em 1976, aderiu à pós-graduação na Georgetown University, o que lhe favoreceu conhecimento do grego e do latim, e, portanto, a leitura dos originais de clássicos, como Homero, poeta da Grécia Antiga, a quem se atribui a autoria dos poemas épicos “Ilíada” e “Odisseia”; Píndaro, poeta grego e autor de “Epinícios” ou “Odes triunfais”;  Horácio, filósofo e um dos maiores poetas da Roma Antiga; Ovídio, poeta romano e, ao lado de Virgílio e Horácio, categorizado como um dos três poetas canônicos da literatura latina.

Ícone da música nacional por autoria e colaboração como letrista, algumas das canções de Antonio Cicero foram compostas com Marina Lima, sua irmã mais nova, e por ela cantadas, a exemplo de “Fullgás”, “Charme do mundo”, “Pra começar”, “Virgem”, “Acontecimentos”, além de poemas musicados, como “Canção da alma caiada”, interpretada com sucesso estrondoso por Zizi Possi; e “Inverno” e “Maresia”, ambos imortalizados na voz de Adriana Calcanhotto. Cicero foi, ainda, autor de “À francesa”, com Claudio Zoli e de “O último romântico”, 1984, com Lulu Santos e Sérgio Souza.

Foto 1 – Antonio Cicero e Marina Lima: conexão que se eterniza

 

Fonte: Notícias ao Minuto Brasil, 2024.

No campo de sua poesia, percebe-se forte influência de clássicos, tanto ingleses como   norte-americanos, resultado de sua formação e de profícuas parcerias com autores contemporâneos, como o baiano Waly Salomão, João Bosco e Orlando Morais. Com o primeiro deles, graças ao patrocínio do Banco Nacional, concebeu o Projeto “Banco Nacional de Ideias”, através do qual, em 1993 e nos dois anos subsequentes, promoveu ciclos de discussão com nomes de relevância nacional e mundial, tais como os brasileiros João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Caetano Veloso e Darcy Ribeiro, além do estadunidense John Ashbery, do escritor santa-lucense Derek Walcott e do filósofo e antropólogo judeu-checo Ernest Gellner. Como um dos frutos da iniciativa, Cicero organizou com Waly Salomão, o livro “O relativismo enquanto visão do mundo”, coletânea das conferências do referido Projeto, ano 1994.

Na realidade, ensaios, críticas e poemas de Antonio Cicero mantêm primoroso equilíbrio entre o lírico e o filosófico, haja vista que atuou como docente em universidades de Filosofia e Lógica no Rio, durante boa parte de sua vida. Entre seus poemas mais conhecidos está “Guardar”, de coletânea homônima, vencedora na categoria estreante, em 1996, do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira. Editada, à época, em Lisboa, Portugal, pelas Quasi Edições, hoje, o poema marca presença maciça nas redes sociais na voz da atriz Fernanda Montenegro e do jornalista Pedro Bial, além de interpretado por numerosos anônimos. Em 2001, “Guardar” foi inserido na antologia “Os cem melhores poemas brasileiros do século”, organizada por Ítalo Moriconi, curador literário, poeta e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Indo além, em 2002, Cicero lançou o livro de poemas “A cidade e os livros”. Nesse mesmo ano, com outros artistas, como Gabriel o Pensador, Chico Buarque, Ronaldo Bastos e Fernando Brant, fez parte de uma coletânea de quatro CDs, numa digna homenagem ao escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade. Entre 2001 e 2002, participou, junto com figuras do potencial de José Saramago, Hermeto Pascoal e Wim Wenders do documentário “Janela da alma”, de João Jardim e Walter Carvalho, no qual 19 pessoas com diferentes graus de deficiência visual discorrem como se vêem, como vêem os outros e como percebem o mundo.

Em 2010, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, editou o “Livro de sombras: pintura, cinema e poesia”, ao tempo em que, no ano de 2012, trouxe a público o livro de poemas “Porventura”; o ensaio filosófico “Poesia e filosofia” e, na condição de organizador, o livro de ensaios estéticos “Forma e sentido contemporâneo: poesia”. No mesmo ano, é a vez da publicação organizada por Arthur Nogueira: “Antonio Cicero por Antonio Cicero”, contendo algumas das muitas entrevistas do grande acadêmico da ABL.

Com morte por suicídio assistido, ao lado de seu parceiro Marcelo Fies, após diagnóstico de Alzheimer, em Zurique, Suíça, nação onde a prática é legalizada, em trecho de carta deixada aos amigos, o poeta diz: “Como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo”. Desde já, a Companhia das Letras anunciou a intenção de editar seu último livro de ensaios, “O eterno agora”, no ano que se avizinha, 2025. Isto porque, dentre suas múltiplas atividades, Antonio C. foi, também, colunista da Folha de S. Paulo”, entre 2007 e 2010, além de deixar obras ensaísticas, como Finalidades sem fim”, 2005, indicado ao Prêmio Jabuti, iniciativa da Câmara Brasileira do Livro.

Na realidade, escrever é se perder nas entrelinhas e nas palavras que se entortam, se desentortam, se entrecruzam e por aí vai. Juro: o intuito deste artigo ou qualquer denominação que vocês queiram dar, não era exaltar a obra de Antonio Cicero Correia Lima, até porque não chegamos nem perto pela abrangência de sua vasta produção: ele foi um intelectual atuante e para lá de fecundo. Minha intenção primeira era chamar atenção para como desvirtuamos os temas que fazem parte de nossa vida, sobretudo, quando nos incomodam.

No Piauí, em especial, em Teresina, vários grupos literários anunciaram e lamentaram a partida de Antonio Cicero, com poesias, textos a ele dirigidos, et cetera., com a ressalva de que, em 2023, ele foi homenageado em caminhada literária promovida pela Academia Teresinense de Letras, na capital piauiense. No entanto, é visível a intenção de evitar a menção ao suicídio assistido e à polêmica que desperta. Há menções a questões religiosas e éticas, com o pretexto de que a discussão do tema poderia servir de gatilho para estimular a incidência do suicídio. São literatos que desconhecem a expansão do suicídio mundo afora e jogam para baixo do tapete o verdadeiro sentido da vida. Vida, além de questões biológicas ou orgânicas. Vida como sinônimo de participação, prazer, vitalidade, força, ânimo, alegria, poder de decisão e de expressão de opiniões. Vida como tristezas, desenganos e dores da alma ou do corpo, mas, invariavelmente, como esperança de horas menos duras e dias menos lacrimosos. Vida como antônimo a tudo o que é negado a um doente em fase terminal ou em estado vegetativo. 

Por isto, os que defendem a distanásia, ou seja, a morte lenta e com muito sofrimento do ente querido, não exercitam o amor. É o reverso da moeda: perpetram, quase sempre de forma inconsciente, o egoísmo, sentimento genuinamente humano, que implica na subordinação do interesse de outrem ao nosso próprio interesse. É pensar na própria dor, quando da partida do outro. É negar o direito do outro de partir em paz, como o fez Antonio Cicero, quando em carta dirigida aos amigos e companheiros, afirma: “Encontro-me [...] prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer [...] Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia [...] Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade”.

Foto 2 – Antonio Cicero e seu até logo

Fonte: O Globo, 2024

Eu, por minha vez, com simplicidade e responsabilidade, afirmo: não sou defensora de certezas absolutas. Elas nos impedem de ver além do horizonte de nossas convicções acirradas as possibilidades mil de crescer como gente diante da diversidade de ideias e pensamentos dos demais. No entanto, perante a eutanásia, não tenho dúvidas. Se o desligamento dos aparelhos mantém o ser humano em vida vegetativa desperta polêmicas entre os meios religiosos, jurídicos, médicos, e na sociedade de diferentes nações, em minha percepção, a eutanásia é a prova inconteste de amor ao outro. Desde sua etimologia, há fortes indícios de tal intenção, haja vista que o termo eutanásia advém do grego, resultando da combinação das palavras eu e thánatos, significando “boa morte” ou “morte sem dor”. Logo, é a busca de proporcionar a esse outro uma morte serena, sem sofrimento ou insuportável agonia. Vá em paz, Antonio Cicero! Você fica conosco através de seu legado. Não é um adeus, mas um até logo!


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com