ALÉM DAS BIBLIOTECAS


ARQUIPÉLAGO DE AÇORES: TERRA E MAR NUMA FUSÃO DE AMOR

1       Arquipélago de Açores: dados gerais

Os Açores, belíssimo Arquipélago de Portugal, 2.325km², 244.780 habitantes e a uma distância média de 1.600km do país continental, são sinônimo de quietude e festa! Misto que se prolonga por suas nove Ilhas perdidas em meio ao Oceano Atlântico e distribuídas em três grupos distintos: (1) Grupo Ocidental – Corvo (a menor e a menos povoada, com apenas 400 açorianos, mas com paisagens fascinantes e cujo ponto central é a Caldeira do Corvo, enorme cratera vulcânica) e Flores, que dizem ser a mais bela entre as belas; (2) Grupo Central – Faial, Pico (segunda maior Ilha em extensão), Graciosa, São Jorge e Terceira, com a ressalva de que estas três últimas são conhecidas como “as Ilhas do triângulo”; (3) Grupo Oriental – Santa Maria e São Miguel, esta última a maior dentre elas e a mais povoada.

Impossível conhecê-las uma a uma em pouco espaço de tempo por suas particularidades e atrações únicas que cada uma guarda consigo a sete chaves. É preciso tempo para desnudá-las tanto pela distância de uma a outra – embora todas as Ilhas açorianas estejam ligadas por via aérea, através da operadora regional, sob a responsabilidade da Azores Airlines / voo regular direto da SATA Internacional ou por via marítima –, sem contar que os Açores, salvo a Ilha de Santa Maria, guarda os mistérios de 26 vulcões adormecidos, oito deles  submarinos. Apesar de a maioria não dar sinal de vida há séculos, lá estão, o que exige monitoramento por organismos nacionais e internacionais, uma vez que as estruturas vulcânicas podem entrar em erupção a qualquer momento.

Ao longo de quase 20 dias, sem um minuto de descanso e nenhum cansaço, visitamos São Miguel, Faial, Pico, São Jorge e Terceira, sempre pensando em compartilhar a experiência inusitada. É um local misterioso. Transmutámo-nos para descobrir cada detalhe, admirar cada esquina, vivenciar cada tom azulado. É um chamamento da cor do céu para trazer no regresso um conjunto de histórias das Ilhas exuberantes e cheias de charme. Não é à toa que o premiado escritor espanhol, Enrique Vila-Matas, em epígrafe contida no livroCéu nublado com boas abertas”, do lisbonense Nuno Costa Santos, afirma que “os Açores são azuis”, devido à colônia numerosa do açor, pássaro similar ao milhafre, ave de rapina europeia.

Mesmo antes da descoberta pelos portugueses, há outras teorias, como a passagem dos genoveses ao largo dos Açores. Extasiados diante do tom azulado, estes se sentiram inebriados e lhes chamaram de Isole Azzure. Meros detalhes. A verdade prevalece: é um lugar místico e irrepreensível, presente no verbo pouco comum dentre nós, açorar, que significa despertar, sentir intenso desejo e/ou provocar tentações. Habitado, a princípio, por portugueses, em torno do ano de 1432, advindos, sobretudo, da Estremadura, do Algarve, do Alentejo e do Minho, em seguida, receberam holandeses, franceses, espanhóis e africanos.

Foto 1 – A beleza do açor


Fonte: https://ornitologiajisohde.blogspot.com/2014/01/acor-do-norte-accipiter-gentilis.html

Política e administrativamente, os Açores, entre a Europa e as Américas e bem em cima de três placas tectônicas, constituem a Região Autônoma dos Açores, ao lado do Arquipélago da Madeira. Os Açores mantêm capitais locadas em Ponta Delgada (sede administrativa), Horta (Poder Legislativo) e Angra do Heroísmo (Poder Eclesiástico). Como resultado “natural”, em termos demográficos, a população não é distribuída de forma equitativa nas diferentes Ilhas, com variações negativas para as Ilhas Graciosa, Flores e Santa Maria, pois há tendência de concentração dos habitantes onde se localizam as funções administrativas.

As regiões autônomas constam da Constituição Portuguesa, ano 1976, com estatuto político-administrativo especial reservado aos Açores e à Madeira, em decorrência de suas condições geográficas e socioeconômicas específicas. A autonomia regional não afeta a integridade da soberania do Estado. Compete às regiões autônomas legislar todas as matérias não integrantes da reserva dos órgãos de soberania e que constem do elenco de competências contido em seus Estatutos Político e Administrativo. Os órgãos de Governo próprio de cada região são a Assembleia Legislativa e o Governo Regional. A primeira, eleita por sufrágio universal direto, mantém Poder Legislativo a que compete fiscalizar os atos do Governo Regional, cujas atribuições são de Ordem Executiva.

O Presidente do Governo Regional é nomeado pelo Representante da República, que leva em conta os resultados eleitorais, assumindo a organização interna do órgão. Logo, o representante da República é pessoa designada para falar em nome do chefe do Estado em cada região autônoma, nomeada pelo presidente da República, após consulta ao Conselho de Estado. É de sua competência assinar e mandar publicar os decretos da Assembleia e do Governo Regional, exercendo o direito de veto, se for o caso, que pode ser ultrapassado por votação qualificada da Assembleia Legislativa. O mandato do Representante da República tem a duração do mandato do Presidente da República.

Deixando de lado as questões administrativas, sem dúvida, todas as Ilhas dos Açores têm como verdadeiro protagonista a natureza. São vistas inimagináveis que conjugam montanhas, rochas retorcidas, túneis de lava, parques e reservas naturais, cursos d’água e cachoeiras, lagos vulcânicos e crateras, moinhos d’água antigos ou remodelados e vegetação exuberante, onde girassóis de beleza ímpar parecem nos cumprimentar, ao lado do frescor de plantas e flores de beleza estonteante, como hortênsias, camélias ou azáleas, acácias e as criptomérias, árvores de maior porte que vêm conquistando valor comercial. Há espécies, como louro, urze, cedro, vidália (arbusto endêmico que alcança dois metros de altura com ramos sem pelos, folhas simples e inteiras, com lindas flores brancas ou rosadas e frutos com numerosas sementes), sem esquecer a floresta Laurissilva. Trata-se da única floresta endêmica do Arquipélago e que se caracteriza como úmida subtropical, composta por árvores da família das laureáceas e endêmica da Macaronésia, designação que nomeia os vários grupos de Ilhas ou Arquipélagos no Atlântico Norte, próximo à Europa e à África.

No que diz respeito à fauna, além do milhafre, há o pombo-torcaz, o cagarro (pardela-de-bico-amarelo) e o morcego-dos-açores, único mamífero terrestre endêmico do Arquipélago. O mar também é elemento essencial. Há a areia vulcânica de cor mais escura. O pôr do sol. A vida como ela é ou deveria ser. E se é mais recomendável viajar aos Açores nos meses de verão (maio / junho  a setembro / outubro), quando o clima é ameno e as chuvas menos frequentes, visitar as Ilhas fora da época alta possui vantagens, sobretudo, no quesito valores. Embora o custo de vida em Açores seja bastante acessível aos viageiros (aqueles que buscam a descoberta dos lugares e da gente, e não o consumo desenfreado), nas demais estações, tudo sofre redução de preço, além de benesses próprias da época baixa: hortênsias no auge da beleza; na primavera, mergulhos nas nascentes d’água quente; no outono, clima ameno e, no inverno, avistar o Pico branco de neve.

No Arquipélago, nunca faz muito frio nem muito calor. A temperatura mantém valores médios entre o mínimo de 13,6ºC contra o máximo de 22ºC, durante o ano, com temperatura média de 16ºC, no inverno; e 20,5ºC, no verão, com picos de temperaturas máximas entre 24ºC e 25ºC. Verdade que as Ilhas podem ser visitadas com relativa frequência por tempestades tropicais intensas, mas distantes de serem taxadas de furacões.

2       Ilha de São Miguel: mente sã; corpo são

Enquanto dormem, os vulcões dos Açores abrigam lagoas que se formam a partir do acúmulo d’água da chuva por centenas e/ou milhares de anos, como a Lagoa do fogo, uma das maiores lagoas do Arquipélago e a segunda maior da Ilha de São Miguel. Parece repousar tranquilamente na cratera de um gigante dorminhoco. Classificada, desde 1974, como reserva natural, integra a chamada Rede Natura 2000, por se impor como zona especial de conservação. Um vulcão regiamente esculpido pelas águas do mar há há quatro mil anos, chamado de "Anel de princesa" dá ideia de que a água do mar encheu a cratera de tons de azul. cratera vulcânica e perfeitamente redonda emerge parcialmente do Oceano Atlântico, cheia d’água cristalina e de peixes multicoloridos.

A maior de todas as Ilhas, inicialmente associada à Santa Maria, a partir de 1474, seguiu seu próprio caminho. Hoje, constitui verdadeiro paraíso de lagoas, cujo verde consegue manter uma infinidade de tons. Dizem que comporta as quatro estações num mesmo dia. E é verdade: um paraíso para as aves e para quem se dispõe a nadar ou aproveitar serenos banhos de sol. Eis o Ilhéu de Vila Franca, na costa sul da Ilha de São Miguel, concelho (circunscrição administrativa de categoria inferior ao distrito do qual é divisão) da Vila Franca do Campo. Falando de azul e verde ou verde e azul, em São Miguel, há uma lagoa verde e outra azul. Reza a lenda que as lindas lagoas nasceram das lágrimas de um pastor de olhos azuis e de uma princesa de olhos verdes. Os amados choravam um amor proibido. Lendas sempre nos encantam, mas, no caso, nada a ver com o romance proibido: a distinção de profundidade explica a variação das cores. 

Foto 2 – Lagoa das Furnas: maravilha do vulcanismo açoriano 


Fonte: Arquivo pessoal, 2024.

No Vale de Furnas, pequena vila no fundo de uma cratera gigante com estranha piscina, percebe-se muito ferro concentrado no local, e, então, a água torna-se alaranjada como se fora barrenta. Alcança 40ºC e, de imediato, proporciona sensação de relaxamento. Os banhos em águas termais são ricos em titânio, sílica e alumínio, sais minerais que rejuvenescem e mais do que isto, prometem a cura. Afinal, os banhos nas piscinas que mesclam água doce aquecida por vulcões com a água do mar – piscina natural de água quente à beira mar –, ao que parece, são indicados para uma série de enfermidades, como osteoporose, reumatismo e doenças inflamatórias. Os especialistas afirmam que a água vinda de baixo da terra pode chegar a 62ºC e ao fundir com a água do mar, a temperatura varia, a depender da maré: se baixa, a água fica bem quente; se mais alta, a água fica menos quente. Indo além, as pedras de basalto colhidas à beira-mar são uma dádiva dos deuses para relaxar músculos e afugentar dores. Ainda do chão, os açorianos extraem a lama termal, eterna esperança para doenças, como psoríase, redução de manchas na pele, combate à odiosa flacidez e às inevitáveis rugas de expressão.

3      Ilha de Faial e vulcão à espreita

A Ilha do Faial está separada da Ilha do Pico somente por estreito braço de mar com 8,3km de largura, conhecido como Canal do Faial. Com a forma aproximada de um pentágono irregular, com 21km de comprimento no sentido Leste-Oeste e largura máxima de 14km, corresponde a uma área de 172,43km², abrigando 14.356 habitantes, a maioria dos quais vive na cidade onde está o Parlamento Açoriano e sede do único concelho da Ilha, qual seja, Horta.

Faial conta com o Aeroporto da Horta, com voos regulares para as demais Ilhas do Arquipélago ou para o exterior, além de manter o Porto da Horta como entreposto nas ligações marítimas e aéreas (hidroaviões) e por cabo submarino no Atlântico Norte, assegurando sua relevância como porto comercial e local de escala de iates nas travessias entre os continentes americano e o europeu. A Ilha nos traz uma paisagem eternamente cinza. Primeiro, as águas ferveram no mar; depois, a terra sofreu abalos medonhos.

Foto 3 – Vulcão dos Capelinhos continua à espreita


Fonte: Arquivo pessoal, 2024.

O Vulcão de Capelinhos sacudiu a Ilha numa só noite de destruição e horror por conta de 450 terremotos. Após um mês da data trágica, parte de um farol permaneceu coberta por cinzas e até os dias atuais, um andar inteiro está a mais ou menos três metros de profundidade. Em 1958, adormeceu suavemente, deixando atrás de si um rastro de paisagem cinzenta e fúnebre. Durante um ano, os habitantes da Ilha testemunharam um fenômeno incrível: lavas e cinzas cuspidas do vulcão ampliaram o tamanho da Ilha em 2,4km2. Boa parte já seguiu a caminho do mar e o próprio Capelinhos sumiu no fundo do mar, mas, não duvidem: ele prossegue vivo, quem sabe à espreita. A este respeito, Salomé Couto Meneses, Coordenadora Executiva do Geoparque Açores, ao discorrer sobre suas duas grandes paixões – o lugar onde nasceu (Açores) e a geologia –, ciência que elegeu como profissão diante do fascínio da imprevisibilidade das Ilhas, assegura que quando um vulcão não mantém qualquer tipo de atividade nos últimos 250 mil anos, é considerado extinto. Por isso, em sua visão, Capelinhos é só uma criança adormecida.

Paradoxalmente, Faial, a caçula das Ilhas, é conhecida como “Ilha Azul”, a partir da descrição de Raul Brandão em “Ilhas desconhecidas: notas e paisagens”, obra editada em Lisboa, ano 1926. Segundo a enciclopédia Wikipedia, na sequência de cores que Brandão atribuiu a cada uma das Ilhas, assinalou Faial como a “Ilha Azul” face à profusão de hortênsias (ou novelos) que floresciam ao longo das estradas, quando do verão de 1924. Andar a esmo pelos cantos e recantos do Faial é vivenciar o glamour da Caldeira e outros vestígios vulcânicos, mas, em especial, encantar-se com os horizontes de mar e terra, as perspectivas nem tão distantes das Ilhas do Pico e São Jorge, mas, sobretudo, com a beleza inarrável das muitas e muitas flores, que se estendem por seus prédios históricos que guardam segredos mil, como a Igreja Matriz da Horta, o Miradouro de Nossa Senhora da Conceição, a Igreja de São Salvador e a Igreja Nossa Senhora das Angústias, além das Muralhas de São Sebastião.   

Foto 4 – Igreja Matriz da Horta e seus segredos


Fonte: Arquivo pessoal, 2024

4 Ilha do Pico: universo cheio de fartos sorrisos de pedra

O ponto mais alto de Portugal, cerca com 2.351 metros de altitude, fica, exatamente, na Ilha do Pico que, como antes citada, é a segunda maior dos Açores. Grutas, lagoas, piscinas naturais e a íngreme escalada à montanha dá de presente aos corajosos uma vista para lá de fabulosa. Mas, o cuidado é vital. A questão não é a altura, e, sim, o nível de inclinação da montanha e o terreno perigosamente escorregadio e coalhado de pedras soltas. É possível e desafiador a entrada na cratera imensa a imponentes 2.350 metros de altitude. No meio dela, eis o Piquinho, o mais jovem vulcão do Pico.

Foto 5 – Subida íngreme à Ilha do Pico


Fonte: Arquivo pessoal, 2024

Lajes do Pico, Madalena e São Roque do Pico são três belas vilas seculares com seus quase 20 mil cidadãos, desde o início de seu povoamento, por volta do ano de 1480. Agricultores conservam convívio agradável com pescadores, de modo que é possível usufruir atividades de diferentes naturezas, como o cuidado com as baleias e os cachelotes (famosos por predarem as lulas como guloseimas), o nado ao lado de golfinhos, a observação de aves, a beleza de mergulhos de tirar o fôlego, a magia de passeios a cavalo e a pesca desportiva.

Composta por solos vulcânicos, suas muitas vinhas produzem o famoso vinho Verdelho acompanhado com o conhecido queijo da Ilha do Pico. Dentre os edifícios históricos, destaque para o Museu dos Baleeiros, a Vila das Lajes, o Museu do Vinho, com os famosos dragoeiros, zona demarcada do Verdelho e paisagem declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, além do Mistério de São João (paragem) e Mistério da Silveira (passagem), com numerosas Igrejas que aparecem aqui e ali  e deixam antever a religiosidade de sua gente. De qualquer forma, há sempre quem consiga descrever o que não cabe em nosso peito: “Visitar o Pico é conhecer um pequeno mundo de segredo. O contraste entre as escarpas nuas de um antigo vulcão e as extasiantes aldeias floridas debruçadas sobre o mar, [os moinhos de vento], os declives suaves da montanha e o extenso planalto com pequenas lagoas são de uma beleza incomparável” (CERTIFICADO Açores pela natureza, 2016).

Foto 6 – Beleza dos moinhos de vento


Fonte: Arquivo pessoal, 2024.

Como é inevitável ocorrer, as pessoas sempre perguntam: o que mais lhe chamou atenção na Ilha do Pico? Sem pestanejar, respondo: os sorrisos de pedra! Como assim? E eu prossigo: Helena Amaral, que vive por lá há mais de 27 anos lançou, sem qualquer ajuda governamental, o “Projeto sorrisos de pedra”, 2015, gerenciado pela Associação MiratecArts. Com material proveniente de lavas de vulcão, Helena devolve à natureza esculturas de rostos de mulheres que sorriem sem pudor. O “Roteiro dos sorrisos de pedra” avança por todo o território da ilha-montanha. Com a última montagem em nova rotunda em São Roque do Pico, alcança o total de 100 peças espalhadas até agora por, aproximadamente, 40 pontos, que vão desde o aeroporto (linda mensagem de boas-vindas aos que chegam ou aos que partem) a jardins, escolas, praças, parques florestais, miradouros, grutas e à Casa da Montanha ao Lajido, local de apoio para escalada ao Pico.

O mais surpreendente: nenhum interesse comercial, a não ser a certeza de que é preciso expandir o enorme potencial do sorriso na face humana. Para a artista, é no rosto, no olhar, no sorriso de cada um de nós que as emoções explodem, desenham e gravam as rugas de alegrias e tristezas da vida. Sorrir é comunicar sentimentos íntimos e privados, é partilhar silêncios e olhares que só o rosto revela.

5       Ilha de São Jorge: Torre da Igreja da Urzelina

Sobre a gastronomia, nenhum susto em qualquer Ilha! A comida açoriana é rica, diversificada, mas simples, muito próxima da comida portuguesa, e por que não dizer, da brasileira. Destaque para as sopas do Espírito Santo quando das Festas do Divino, também celebradas em território brasileiro, acompanhadas de arroz doce ou de queijos, como os de São Jorge, além de vinhos brancos e velhas aguardentes da região. Os pratos privilegiam a carne de vaca, caldeiradas de peixe ou peixe assado, além de marisco à vontade, o pão de milho e os torresmos com inhame.

Localizada no centro do Arquipélago, visita à Ilha de São Jorge, a quarta maior Ilha, permite avistar sempre uma outra lá adiante – Faial, Pico, Graciosa e Terceira. As trilhas são convidativas ou passeios de barco ao longo da costa da Ilha, idem. Vale a pena, porém, somente permanecer numa de suas fajãs para sentir a brisa do mar revolto ou calmo, ler ou meditar. É tudo de bom! Dentre as 74 fajãs (para quem não sabe, eu própria não sabia), fajã é um termo que nomeia pequenas planícies à beira-mar, formadas graças ao desabamento de terras ou lavas) da Ilha de São Jorge, destaque para a Fajã da Caldeira do Santo Cristo, com ligação direta entre mar e laguna, graças à ação do homem, o que permite o cultivo da amêijoa, designação de diversos moluscos bivalves.

A Fajã dos Cubres fica a mais ou menos 3km da Fajã da Caldeira do Santo Cristo, de onde partem percursos pedestres que oferecem vistas do litoral norte da Ilha. A bem da verdade, as fajãs existem em quase todas as Ilhas da Macaronésia, mas são mais comuns em São Jorge, cujas vilas-sedes dos seus dois Concelhos, Velas e Calheta, localizam-se em fajãs. A Fajã do Ouvidor; a Fajã da Ribeira da Areia; a Fajã d’Além; a Fajã das Almas; a Fajã de Vasco Martins e a Fajã de João Dias, todas no Concelho das Velas. Este Patrimônio natural e único em sua singularidade, em 2016, foi classificado pela Unesco como Reserva da Biosfera, passando, então, a integrar a Rede Mundial, com vista à promoção do Arquipélago numa demonstração de relação equilibrada entre homem e natureza. Por outro lado, os miradouros que se veem pelo caminho não passam despercebidos, a exemplo da Vigia da Baleia, Reserva Natura 2000, além dos belos parques florestais, tais como o Parque das Macelas e o Parque Florestal das Sete Fontes.

Único cuidado: não despertar o dragão adormecido. Dizem, e eu finjo acreditar, que, exatamente no dia 23 de abril, quando em várias nações se celebra o dia de livros e flores, “num reino encantado, o rei era para lá de bondoso. Todos viviam felizes, até que um dragão malvado chegou à cidade. De início, devorou os animais. Começou, então, o sacrifício das pessoas, mediante sorteio de uma a uma, a cada dia, até que chegou a hora da Princesa, filha única do rei. No momento em que seria sacrificada, São Jorge surgiu montado num cavalo branco, belo e garboso. Com uma espada de gume cortante, bravamente matou o dragão, cujo sangue, onde tocava, fazia nascer um roseiral de rosas vermelhas”. 

Igrejas e catedrais nos levam à reflexão! O artesanato é um primor, como as famosas colchas de ponto alto, cuja tecelagem, também conhecida por “fio puxado” ou “laça puxada”, encontradas na Ilha de São Jorge, obedece ao milenar processo de fiação e de tinturaria com base em corantes naturais advindos de plantas locais. Datam do século 16. Confeccionadas em teares de madeira, artesanalmente, por meio de técnicas ancestrais, atingem seu ápice no século 20 e prosseguem despertando sentimentos mil para os amantes da arte. E há muito mais a ser visto: a Torre da Igreja da Urzelina, cujas escoadas lávicas originam-se da erupção de 1808; o Edifício dos Paços do Concelho, século 17 e exemplar estonteante da arquitetura barroca açoriana; o Museu de Arte Sacra que fica na Igreja Matriz das Velas; a Igreja da Freguesia das Manadas e muito mais...

Foto 7 – Torre da Igreja da Urzelina


Fonte: arquivo pessoal, 2024.

6       Ilha da Terceira: festas, gastronomia e patrimônio

Como as demais, a Ilha da Terceira guarda paisagens de tirar o fôlego. Por lá, é comum a flora endêmica e paisagens onde o viageiro entra em transe com a natureza em meio a povoações circundadas pelo profundo Atlântico. Sem dúvida, ela exerceu papel importante como porto de escala para as embarcações advindas da América e da Índia carregadas de especiarias, ouro e prata.

Seus últimos 100 anos assistiram a profundas mudanças, graças ao novo porto da Praia da Vitória, à instalação do aeroporto e ao significativo avanço agrícola e industrial. Ademais, a Ilha da Terceira nos remete ao Nordeste brasileiro, com suas típicas festas são-joaninas, embora sejam expressivas outras comemorações, como as festas do Divino Espírito Santo, as touradas à corda, que consistem na maior manifestação de caráter popular, em particular na Ilha da Terceira. Seu elemento central é o touro bravo, idolatrado por sua gente.

Ramo Grande, zona plana da parte nordeste da Ilha da Terceira abrange as freguesias de Santa Cruz da Praia, Lajes, Fontinhas, São Brás, Vila Nova e Agualva. Não para por aí. No meio de tanta festa nas ruas de Angra, Cidade Patrimonial Mundial, não faltam petiscos de dar água na boca, como a morcela, as lapas e a alcatra de carne e peixe, tudo acompanhado pelo antes citado vinho Verdelho. Aliás, o Museu do Vinho é imperdível por suas particularidades e há, ainda, a estonteante beleza da Praia da Vitória.

Foto 8 – Hoje há tanta coisa boa!!!


Fonte: Arquivo pessoal, 2024.

Dentre os pontos turísticos, destaque para o Vulcão da Serra do Cume, a Ponta dos Mistérios, e a Gruta da Algar do Carvão. No Centro Histórico de Angra do Heroísmo, Património Mundial da Unesco, estão a Igreja do Santíssimo Salvador, o Castelo São Filipe, São João Batista do Monte Brasil e o Hospital da Boa Nova.

7       Por fim...

Causa certo estranhamento o Arquipélago de Açores não ser um ponto turístico de excelência! Dentre as viagens em que me lancei ao deus-dará, Açores ocupa lugar especial. Natureza. Caminhos de mar com Ilhas perdidas no azul celeste a 1,6 mil km do continente europeu. Água que tem poder ou sabor de cura. O vinho nasce da lava negra. As montanhas perdem-se em meio ao Oceano Atlântico. Flora extasiante. Caminhos bordados de flores. Fauna gentil e bela. Gente cortês e hospitaleira. Custo de vida bastante razoável para quem sobrevive de reais. Universidade pública, a Universidade dos Açores (UaC), criada em 1976, possui estrutura tripolar, com sede em Ponta Delgada e campi na Angra do Heroísmo (Ilha da Terceira) e em Horta (Ilha do Faial). Alguém um dia escreveu:

Solitários no meio do Atlântico. Guiados pela ousadia e pela coragem. À mercê dos humores do vento. Foi assim que os grandes navegadores descobriram terras como o Arquipélago de Açores, um conjunto de Ilhas perdido entre a Europa e as Américas. Um dos segredos mais bem guardados do Atlântico.

Antes de tudo era água. Milhões e milhões de anos de mar e apenas mar. Até que um dia os vulcões emergiram das profundezas numa luta violenta entre a água e o fogo.  Foi quando nasceram as filhas da lava. Nove Ilhas e quase dois mil vulcões em cima de três placas tectônicas. Uma terra em movimento, que ora recua engolida pelas forças das águas, ora avança ardente na direção do mar (AÇORES com nove ilhas..., 2016).

Fontes

AÇORES com nove ilhas e quase dois mil vulcões, brotou no meio do oceano. Globo Repórter. G1. Ed. de 14 out. 2016. Disponível em: https://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2016/10/acores-com-9-ilhas-e-quase-2-mil-vulcoes-brotou-no-meio-do-oceano.html. Acessível em: 21 ago. 2024.

AÇORES: Ilha a Ilha. 4. ed. Ponta Delgada: Açor, 2015. 87 p. il.

BRANDÃO, R. As Ilhas desconhecidas: notas e paisagens. Lisboa: [s.n.], 1926.

CERTIFICADO Açores pela natureza. Pico. Horta: Direção Regional de Turismo dos Açores, 2016.

PORTUGAL. Webinarum oceano em transformação: nove Ilhas. Disponível em: https://estudo em casa apoia.dge.mec.pt/recurso/webinar-um-oceano-em-transformacao-9-ilhas-1-geoparque. Acessível em: 21 ago. 2024.

SANTOS, N. C. Céu nublado com boas abertas. Lisboa: Quetzal, 2016. 255 p. 


   244 Leituras


Saiba Mais





Próximo Ítem

author image
VIMOS PAPAI NOEL - VIMOS A AURORA BOREAL
Outubro/2024

Ítem Anterior

author image
GOIÁS VELHO: BELEZA E RELIGIOSIDADE
Agosto/2024



author image
MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com