GOIÁS VELHO: BELEZA E RELIGIOSIDADE
Mulher da Vida
Minha irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades
e carrega a carga pesada
dos mais torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à toa.
Mulher da vida,
Minha irmã.
Cora Coralina
Eita, Brasil grandão e lindão! Encanto que se estende da nascente do Rio Ailã (norte) ao Arroio Chuí, ao sul. Face ao litoral brasileiro divinamente belo, é comum atrelar o turismo brasileiro às nossas praias, esquecendo que a região Centro-Oeste (CO), constituída por Goiás (GO), Mato Grosso (MT), Mato Grosso do Sul (MS) e o Distrito Federal (DF) é, também, de exuberância ímpar, repleta de grutas, lagos, cânions, cachoeiras e muitas outras belezas naturais e históricas que valem a pena conhecer e dizer sim a um Brasil de riquezas mil. Por exemplo, Brasília – DF constitui autêntico e original paraíso arquitetônico. Adiante, Bonito (MS), com seu Rio de Prata de águas cristalinas e peixinhos multicoloridos disputa com sítios arqueológicos e mirantes incríveis, além de trilhas em mata fechada, cachoeiras e grutas do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, no MT. Em GO, está o Parque Estadual Terra Ronca, uma das mais extensas concentrações de cavernas da América Latina.
As águas transparentes da Praia da Figueira (MS) desenham uma lagoa gigante (60 mil m²), com areia macia e mil peixinhos de tamanhos variados. A cidade de Cáceres (MT), às margens do Rio Paraguai, é o ponto de arranque para quem deseja desvendar a imensidão do pantanal brasileiro, com o adendo de que, dentre mil outras atrações da região CO, eis o paraíso das águas naturalmente quentes do Rio Quente, sem contar as atrações inesquecíveis do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, situado em GO, entre os municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Teresina de Goiás, Nova Roma e São João d'Aliança.
Todo este preâmbulo tão somente para narrar nossa passagem por um território inolvidável – o município de Goiás Velho (como se costuma chamar) – muito próximo de outra cidade mágica, Pirenópolis, reduto de turistas em grupos ruidosos por suas ruas engalanadas. Goiás Velho, por sua vez, exala religiosidade ímpar. Atrai turistas por sua beleza natural, pela doce vagareza que retoma as praças como locais de encontro entre sua gente, que percorre a passos lentos as ruas estreitas ou que goza da tranquilidade das conversas às calçadas defronte de antigos e grandiosos casarões. No que se refere à gastronomia, não deixa de fora o arroz com pequi (fruta rara em certas épocas do ano), o empadão goiano, a pamonha, o bolo de arroz, além de variedade expressiva de sucos, licores, frutas cristalizadas e compotas, com a presença do alfenim, mistura de polvilho e açúcar, com gosto e cheiro de infância.
Seus produtos artesanais remetem à cultura indígena, africana e europeia, com peças de cerâmica, argila, palha e pinturas que utilizam como matéria-prima, com certa frequência, a areia. Isto porque, no caso de Goiás Velho, na Serra Dourada que enlaça a cidade, existem mais de 500 tonalidades de areia.
Goiás Velho – panorama
Para ideia mais precisa, entre a Serra Dourada e os morros Canta Galo e Dom Francisco, lá está Goiás Velho. Fundada em 1727, às margens do Rio Vermelho (nasce a 17 km da Cidade de Goiás, nos contrafortes da Serra Dourada), como Arraial de Santana, logo adiante, em 1736, é elevada à condição de vila – Villa Boa de Goyaz. Em 1744, acede à condição de Capital da Capitania Geral de Goyaz e, mais tarde, 1815, à Capital da Província de Goyaz. Por sua importância no entorno, em 1818, alcança o status de cidade e prossegue como sede da Província. Com a instalação da República no país passa à Capital do Estado homônimo até 1937.
Foto 1 – Reminiscências do Rio Vermelho
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Fonte: Arquivo pessoal, 2024.
Face à sua história secular, em 2001, é reconhecida como Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Goiás Velho permite ao viageiro atento (e não ao turista) imaginar a história da ocupação do interior do país em meio ao cerrado, cuja vegetação de árvores baixas e retorcidas, dotadas de casca grossa, suberosas e espaçadas deixam antever, por baixo, denso tapete de gramíneas.
Afinal, há muito a ser visto em Goiás Velho. Basta aguçar o olhar e abrir o coração. O Coreto, como em muitas cidades do interior brasileiro das cinco regiões, ocupa lugar de destaque. Há o Palácio Conde dos Arcos, antiga sede do Governo do Estado, em homenagem ao primeiro governador da então Capitania de Goiás, Dom Marcos de Noronha ou “Conde dos Arcos”. Em 1778, o Chafariz de Cauda ou Chafariz de Cauda da Boa Morte foi construído a fim de compartir o abastecimento d’água da cidade com o então existente Chafariz da Carioca. A expressão “De Cauda” decorre do fato de o aqueduto que o abastece se assemelhar, na parte posterior, a uma gigantesca cauda. No caso da “Boa Morte”, o nome advém da vizinhança com a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, de arquitetura barroca e que, nos dias de hoje, sedia o Museu de Arte Sacra da Boa Morte.
Os painéis de Maximino Cerezo Barredo na Catedral de Sant’Anna, ao lado da obra de dois outros artistas relevantes no cenário brasileiro e internacional (Cândido Portinari, neorrealista do Modernismo brasileiro; e Cláudio Pastro, maior artista sacro brasileiro da atualidade), permitem entender os caminhos da arte religiosa na fase pós-guerra. Indo além, destaque para os santos esculpidos pelo escultor e dourador José Joaquim da Veiga Valle no Museu de Arte Sacra da Boa Morte, como os populares exemplares de Santo Antônio e São José de Botas, este último, Padroeiro dos desbravadores e bandeirantes. Em contraste, os tristes resquícios da vergonhosa história da escravidão no Brasil e das bandeiras paulistas estão expostos no Museu das Bandeiras. Chamam atenção, ainda, a Igreja de Santa Bárbara, a mais distante em relação ao Centro Histórico, construída entre 1775 e 1780, com blocos de pedra-sabão e adobe. Sua escadaria de 102 degraus favorece aos devotos uma bela visão da cidade e da Igreja Nossa Senhora D’Abadia, edificada por Salvador dos Santos Batista, em 1790, com esmolas do povo. Situada na Rua da Abadia, constitui modelo excepcional de construção religiosa da época, com meros 17 metros de extensão.
Porém, a bem da verdade, a cidade gira em torno da figura de Cora Coralina, presente não apenas no Museu Casa de Cora Coralina, onde é possível desvendar a existência da mais ilustre cidadã vilaboense com seus bravos e anônimos companheiros – “Solteiro da Andarilha” e Maria Grampinho. Cora revolucionou não só a literatura nacional, mas hábitos e costumes da velha cidade, com atitudes anos-luz à frente de sua geração, com seus poemas de beleza sem fim e seus doces, que movimentam até hoje a venda de muitas iguarias comercializadas em bares e restaurantes ou no Parque da Carioca, Balneários Santo Antônio e Sucuri, poços Rico, Sota e do Bispo ou em qualquer lar, sem contar a riqueza do Mercado Municipal.
Mais interessante ainda é o fato de que Cora Coralina, há tanto tempo nos céus, deu origem ao que se chama “O único caminho de poesias do mundo”. Estamos nos referindo à trilha de 300 km de extensão, que atravessa as cidades históricas de Corumbá de Goiás, Pirenópolis, São Francisco de Goiás, Jaraguá, Cidade de Goiás, Cocalzinho de Goiás, Itaguari e Itaberaí. Iniciado em 2013, interliga municípios, povoados e fazendas e o que mais aparecer pela frente, divulgando a obra de Cora e desbravando antigos trilhos, o que atrai caminhantes e ciclistas.
Foto 2 – Cora Coralina na janela em êxtase diante da beleza de sua cidade
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Fonte: Arquivo pessoal, 2024.
Goiás Velho e religiosidade ímpar
Nossa opção por discorrer sobre Goiás Velho e não sobre Pirenópolis, cidade que atrai turistas e devotos, resultou de sua religiosidade singular e ousaríamos dizer, um tiquinho exacerbada. Mantém, na prática, três Semanas Santas (SS). A SS propriamente dita é antecedida pela Semana de Passos e Semana das Dores. As três exaltam a Paixão de Cristo, mas cada uma tem suas particularidades. Duas semanas antes da SS oficial, ocorre a Festa do Senhor Bom Jesus dos Passos (ou Senhor dos Passos), promovida pela Irmandande dos Passos por três dias – sábado à segunda-feira – atraindo beatos de todo o Estado e de vários lugares próximos ou distantes. São ritos e orações unindo uma série de Igrejas, como a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a Igreja de São Francisco de Paula e a Catedral de Sant’Anna, em meio a cantos e cânticos, com ênfase para os Motetos dos Passos. Moteto ou motete figura como composição de caráter religioso ou profano, a várias vozes (a capela ou com acompanhamento instrumental) e cada uma com ritmo e texto próprios. Aos cantos e cânticos, unem-se missas e comunhão, além de procisssões de diferentes naturezas.
No caso da Semana das Dores, são cantados os Motetos das Dores, similares aos anteriores. O Tríduo das Dores se dá na Catedral de Sant’Anna e na Sexta-Feira das Dores, exatamente uma semana antes da Paixão, ocorre a prestigiada Procissão de Nossa Senhora das Dores, com exuberante imagem da Virgem esculpida por Veiga Valle. Porém, como não poderia deixar de ser, o ponto máximo é a SS propriamente dita que se inicia com o Domingo de Ramos e segue até o Domingo Santo. Nesse ínterim, se dá a Procissão do Fogaréu, na chamada Quarta-Feira das Trevas: simboliza a prisão de Jesus Cristo. À meia-noite, diante da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte / Museu de Arte Sacra da Boa Morte, figuras encapuzadas – cerca de 40 farricocos em quatro alas – com túnicas e capuzes cônicos coloridos com babados sobre os ombros simulam a perseguição ao Cristo para executarem sua prisão.
Foto 3 – Farricocos durante a procissão do Fogaréu, Goiás Velho
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Fonte: www.tyba.com.br, 2024.
Trata-se de tradição mantida desde 1965 pela Organização Vilaboense de Artes e Tradições (OVAT), que completa 59 anos de atividades ininterruptas com o intuito de manter a Procissão do Fogaréu como verdadeiro ícone da representação de Goiás Velho e de sua religiosidade. Aliás, hoje, os farricocos estão em fotos de quase todos os turistas, viajantes e viageiros que passam por aquelas bandas abençoadas deste país grandão e lindão, uma vez que estão eles em praças e recantos da cidade!


