ALÉM DAS BIBLIOTECAS


CORA CORALINA E MARIA GRAMPINHO

Aninha e suas pedras

Não te deixes destruir…

Ajuntando novas pedras

e construindo novos poemas.

Recria tua vida, sempre, sempre.

Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.

Faz de tua vida mesquinha um poema.

E viverás no coração dos jovens

e na memória das gerações que hão de vir.

Esta fonte é para uso de todos os sedentos.

Toma a tua parte.

Vem a estas páginas

e não entraves seu uso

aos que têm sede.

Cora Coralina

Cora Coralina...

é um nome inserido como fortaleza no âmbito da literatura brasileira no quesito qualidade. Não foi uma escritora, poetisa e contista comum. Além de profunda conexão com sua terra natal, Goiás Velho (hoje, Patrimônio Cultural da Humanidade; antes, capital do Estado), Cora, nascida em 20 de agosto de 1889, manteve vínculo com suas raízes por toda a vida, numa trajetória que nos conduz à atmosfera histórica e cultural da cidade que se preserva até hoje: cenário bucólico, ruas de pedra e casarões coloniais serviram de inspiração para muitos de seus textos. Como decorrência, manteve-se distante dos modismos literários, produzindo uma obra poética que retrata o cotidiano do interior do país.

Embora reconhecida nacionalmente e mundialmente como Cora Coralina, seu nome de nascimento é Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas. Aos 14 anos, quando de seus primeiros escritos, à revelia dos pais, adotou o pseudônimo Cora Coralina, sob o argumento que este, sim, é um nome forte e expressivo.  Remete à expressão “coração vermelho”, em homenagem ao Rio Vermelho, afluente do Rio Araguaia, que nasce a 17 km de Goiás Velho, nos contrafortes da Serra Dourada. Como consta de vídeo que circula na Grande Rede “Cora Coralina fala sobre sua infância”. Descrevia-se como uma criança feia, cabelo ralo, fraca (caía com constância), burra, atrasada e desacreditada por familiares, que desconfiavam até mesmo de sua capacidade de se alfabetizar. Tudo mudou, quando a Mestra Silvina desvendou seu talento de forma decisiva...

Apesar de ter cursado somente as quatro séries iniciais, seus primeiros textos foram publicados em jornais da capital Goiânia e de outras cidades, a exemplo do semanário “Folha do Sul” do município goiano de Bela Vista. No entanto, na antologia “A poesia goiana no século 20”, o piauiense Assis Brasil [Francisco de Assis Almeida Brasil] sustenta que a mais antiga indicação da vida literária de Cora data de 1907, no semanário “A Rosa”, dirigido por ela própria e mais três companheiras, mas admite ser possível encontrar textos da autora em periódicos goianos antes desse ano.

Apesar de sua baixa autoestima na infância, Cora demonstrou genuíno interesse pela literatura, encontrando no pai um refúgio para lidar sem medo com letras e palavras. Adiante, 1910, em meio a murmurinhos, casou-se com o advogado Cantídio Tolentino de Figueiredo Bretas, Chefe de Polícia, na época, cargo equivalente ao de Secretário da Segurança, do Governo do Presidente Urbano Coelho de Gouvêa. Mudou-se, no ano seguinte, para São Paulo (SP), onde viveu por 45 anos e teve seis filhos, dois dos quais morreram ao nascer. De início, nas cidades de Avaré e Jaboticabal. 

Em 1924, a família mudou-se para a capital paulista, o que permitiu a Cora presenciar alguns fatos da história brasileira. Eis a Revolta do mesmo ano, em SP, conflito com características de guerra civil, deflagrado por militares com o fim de derrubar o Governo Federal de Artur Bernardes.  Em 1930, Cora acompanhou a chegada de Getúlio Vargas à esquina da rua Direita com a Praça do Patriarca, registrando-se a participação do filho Cantídio na Revolução Constitucionalista de 1932, quando ela se alistou como enfermeira, além de costurar uniformes.

Com a morte do marido, passou a vender livros para a Editora José Olympio e a atuar como colaboradora de “O Estado de S. Paulo”. Posteriormente, mudou-se para Penápolis, onde passou a produzir e vender linguiça caseira e banha de porco. Em seguida, em Andradina, chegou a escrever para o jornal da cidade. Tornou-se doceira, inovando a culinária goiana e buscando recursos para sustentar os filhos na viuvez. Era o momento de retornar definitivamente para Goiás.

Com ampla visão de mundo e muita esperança de mudar um pouquinho a realidade brasileira, candidatou-se a vereadora, aos 52 anos, em Andradina, cidade paulista. Sem lograr êxito, era o momento de colocar seus textos à prova: publicou seu primeiro livro “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”, aos 76 anos e não parou mais, escrevendo até o final de sua vida, aos 95 anos, vítima de pneumonia, no dia 10 de abril de 1985. Onze anos após sua primeira publicação, compôs “Meu livro de cordel” (poesia) e, em 1983, lançou “Vintém de cobre – meias confissões de Aninha” (também poesia) e no ano de 1985, pouco antes de sua morte, o livro de contos “Estórias da Casa Velha da Ponte”.

Ainda que um pouco tarde, a importância de Cora Coralina para a literatura brasileira veio ainda em vida, sobretudo quando do reconhecimento público do grande Carlos Drummond de Andrade. Além dos livros, em long play (LP), Cora declama algumas poesias e, pouco a pouco, vai ocupando espaço no mundo das Letras, com posse na Academia Feminina de Letras de Goiás e, ainda, na Academia Goiânia de Letras, além de muitas outras formas de homenagem, como o Prêmio Juca Pato, ano 1983, concedido pela União Brasileira de Escritores e o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Figura 1 – Cora Coralina em seu esplendor

 

Fonte: Momento Literário, 2024.

Sua casa em Goiás, à época, Vila Boa de Goyaz, construída em meados do século 18, ao longo do tempo, teve vários proprietários até ser adquirida pelo seu trisavô, o Sargento-Mor João José do Couto Guimarães. Após a morte de Cora Coralina, transformou-se no Museu Casa de Cora Coralina ou Casa Velha da Ponte, inaugurado em 1989 e aberto à visitação, com o fim de preservar a memória da escritora, uma vez que aí viveu e morreu desde sua chegada de SP. Às margens do Rio Vermelho, o Museu abriga objetos pessoais, livros, manuscritos, cartas, móveis, utensílios domésticos, fotografias e mil outros itens ali estão. Mas é, então, que entram duas figuras lendárias que lidaram com Cora até seus dias finais, até porque optou por morar sozinha, distante de filhos e netos.

O mais interessante é que tão somente no Museu, encontramos resquícios dos personagens. Eis o “Solteiro da Andarilha” e Maria Grampinho. O primeiro ia rua abaixo rua acima para repousar à noite no quintal da casa de Cora. Dizem que odiava plantas ornamentais e lutava pelo plantio de árvores frutíferas. O segundo refere-se a Maria Grampinho...,

assim chamada porque trazia consigo nos cabelos desalinhados centenas de grampos.   

 

Figura 2 – Maria Grampinho no imaginário popular

 

Fonte: Aquarela Heloisa Herkenhoff, 024.

Na realidade, a aura de mistério que cerca Maria Grampinho foi meu ponto de arranque para escrever sobre Cora Coralina. Isto porque, apesar do enaltecimento a essa mulher pela equipe da Casa Velha da Ponte, como bravos escudeiros que protegeram ou, no mínimo, foram bons companheiros de Cora em sua inevitável velhice, incrivelmente, consulta a 10 biografias da escritora não aponta qualquer menção nem ao homem-jardineiro nem a M. Grampinho, amiga de Cora e protagonista de um de seus mais belos poemas:

 

Coisas de Goiás: Maria

Maria. Das muitas que rolam pelo mundo.

Maria pobre. Não tem casa nem morada.

Vive como quer.

Tem seus mundos e suas vaidades. Suas trouxas e seus botões.

Seus haveres. Trouxa de pano na cabeça.

Pedaços, sobras, retalhada.

Centenas de botões, desusados, coloridos, madre – pérola, louça,

Vidro, plástico, variados, pregados em tiras pendentes.

Enfeitando. Mostruário.

Tem mais, uns caídos, bambinelas, enfeites, argolas, coisas dela.

Seus figurinos, figurações, arte decorativa, criação, inventos de Maria.

Maria Grampinho, diz a gente da cidade.

Maria sete saias, diz a gente impiedosa da cidade.

Maria. Companheira certa e compulsada.

Inquilina da Casa Velha da Ponte.

    Trecho retirado do livro “Vintém de cobre – meias confissões de Aninha”

 

Intrigada, fui em busca de informações sobre a mulher dos 100 grampos na cabeça: realidade ou ficção. Pura lenda? Não, Maria da Purificação realmente existiu e os vilaboenses não abrem mão de confirmar sua existência. Morou durante o final da década de 40, no porão da casa de Cora Coralina, dormindo ao lado de uma bica d’água. Andarilha descendente de escravos, negra, pobre e marginalizada possuía o hábito de juntar à roupa tudo o que encontrava: plásticos, retalhos e botões velhos, como o poema “Coisas de Goiás: Maria” retrata. Mulher simples, fazia suas próprias roupas. O apelido, obviamente, adveio do hábito da mulher não abrir mão dos grampos no cabelo e dos inúmeros botões pregados nas várias saias, além de carregar consigo uma trouxa pelas ruas da cidade, despertando curiosidade generalizada sobre o conteúdo do tal pacote. O mistério  atemorizava as crianças, cujos pais diziam que meninos levados da breca iam para a trouxa misteriosa. Eis o medo instalado.

Além do acolhimento de Cora, Maria Grampinho, na chamada “Cidade das Portas Abertas”, como Goiás Velho era então conhecida, também encontrava refúgio, abrigo e  agasalho no seio de outras famílias, o que não impedia brincadeiras cruéis por parte de crianças ou adolescentes ao vê-la percorrer sem rumo as ruas da cidade... Naquela época, as casas estavam sempre abertas para quem quisesse adentrar, compartilhar histórias, tomar um café,  devorar um biscoito ou falar da vida alheia. Foi assim que M. Grampinho ganhou fama: entrava solenemente nas casas em silêncio e aceitava o que lhe davam. Seu falecimento ocorreu após a morte de Cora Coralina, quando seu corpo foi encontrado sem vida na Casa Velha da Ponte.

Apesar de sua invisibilidade nos compêndios literários, nos dias atuais, pleno século 21, Maria Grampinho agradece a hospitalidade dos que a acolheram num dia que se faz distante. Na condição de boneca de vários tamanhos e variações é elemento que movimenta a economia da cidade, sempre inspirada na Maria Grampinho de carne e osso, que viveu em Goiás, ao que parece, até 1985. Há associações de mulheres que se reúnem para produzir as bonequinhas. Em média, são oito horas para confeccionar cada peça. Feita de malha e roupa de algodão, as marias grampinhos primam pelas cores fortes. Possuem, quase sempre, detalhes de fragmentos de poesia bordados à mão e botões aplicados. Há mais: enchimento com manta acrílica e cabelo de lã com pequenos grampos de metal.

Figura 3 – Maria Grampinho na economia local

 

Fonte: O Hoje.com, 2024
Ao perambular pelas ruas, Maria Grampinho afixava nos cabelos todos os grampos que encontrasse, da mesma forma que acrescentava às saias largas os botões que encontrava. Desde sempre, concorreu para expandir as tradições populares e festas populares, além de embelezar as ruas cobertas de pedras na primeira capital de Goiás. E o que mais me chama atenção é, hoje, Maria Grampinho servir de inspiração. Há peças teatrais cujo tema central é a trouxa de Maria, como “O que teria na trouxa de Maria?”, obra trabalhada pelo Grupo de Contação de Histórias sob a responsabilidade de Diane Valdez. A cantora, compositora, atriz e circense, Débora di Sá, formada em Canto pela UFG, apresenta belíssima produção de Felícia Fernandes “Maria Grampinho”. Trata-se de harmoniosa conjunção de música, teatro e circo destinada a qualquer faixa etária, uma vez que explora lindamente personagens, lendas e tradições da cidade de Goiás.

Indo além, Maria Beatriz Lima Herkenhoff, docente universitária e com mil títulos, num de seus textos pós-pandemia, assim afirma:

Penso como Cora Coralina

Minha casa sempre foi aberta para receber os amigos do meu filho, minhas sobrinhas (sobrinhos), afilhados, familiares e amigos.

Diante de minhas portas abertas, eu converso com Cora Coralina. Gostaria de ser tão generosa quanto ela, gostaria de receber uma andarilha.

Mas, sei que o fato de acolher os que amo, com generosidade, faz com que as paredes de minha casa fiquem iluminadas. E sei que deixo uma semente especial de confiança e otimismo naqueles que circulam por aqui. Também saio enriquecida com a experiência de cada um.

Com a pandemia não recebi mais ninguém. Por segurança, nem meu filho e nora, que moram longe, puderam vir.

Saudades imensas

Tive que viver o luto do vazio deixado por tantas ausências. Mas, como Maria Grampinho, fui agregando ao meu corpo tudo que encontrava pela frente: o cheiro de cada um, seu jeito de ser, de sorrir, sua energia de vida.

E todos levaram um pedacinho de mim. Então, espero com serenidade e gratidão o tempo em que poderão voltar.

Eis uma homenagem a mais uma heroína anônima. Há muitas marias grampinhos espalhadas mundo afora que, silenciosamente, zelam pelo outro às caladas da noite escura ou de céu de brigadeiro!

 

FONTES

CORA Coralina fala sobre sua infância. Disponível em: https://www.facebook.com/reel/1490399171894 386. Acesso em: 4 jul. 2024. 

ERA uma vez… “Maria Grampinho”. Revista Xapuri, Goiás Velho, ano 2, n. 114, 2022. Disponível em: https://xapuri.info/era-uma-vez-maria-grampinho. Acesso em: 3 jul. 2024. 

HERKENHOFF, Beatriz. Sobre Cora Coralina, sobre Maria Grampinho. Vitória do Espírito Santo: UFES, 2022. Disponível em:  https://revistanovafamilia.com.br/sobre-cora-coralina-sobre-maria-grampinho. Acesso em: 2 jul. 2024.  

SÁ, Débora di. Maria Grampinho”. Goiás: UFG, 2024. Disponível em:  https://centrocultural.ufg.br/n/ 155152-debora-di-sa-apresenta-maria-grampinho. Acesso em: 29 jun. 2024.  

VALDEZ, Diane. O que teria na trouxa de Maria? Goiânia: Escola Municipal Professora Silene de Andrade, 2014. (Relato das práticas pedagógicas e projetos desenvolvidos em nossa Escola). Disponível em:  https://escolasilenedeandrade.wordpress.com/tempo-integral/oficinas/contacao-de-historia/maria-grampinho. Acesso em: 2 jul. 2024.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com