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WOKE: SIGNIFICANDO OU RESSIGNIFICANDO

Ao longo dos milênios, as mudanças sociais em todas as esferas e diferentes níveis são inevitáveis, permanentes e controversas. Em todas elas, um só elemento em comum: o autoritarismo e a supremacia dos estratos majoritários, donos de patrimônios estratosféricos, posição social elevada e educação aprimorada em confronto com as minorias, cuja listagem, ao contrário do que aparenta, tende a crescer. Aí estão mulheres, negros, pardos, indígenas, quilombolas, imigrantes, pessoas de baixa renda, adeptos das religiões afrodescendentes, idosos, pessoas com deficiência (PCD) e a população LGBTQIA+. Tal sigla significa L, de lésbicas; G, de gays; B, de bissexuais; T, de transexuais; Q, de queer (termo alusivo a quem não se identifica e não se rotula em nenhum gênero); I, de intersexo; A, de assexuais ou assexuados; o + engloba as demais situações, como P, de pansexualidade = atração por pessoas, independentemente do gênero ou da orientação sexual do(a) outro(a).  

Mais do que nunca, a onda ora em expansão denominada de woke invade nosso dia a dia, nossas conversas, nossas redes sociais, nossa vida. Trata-se de termo em inglês equivalente ao passado do verbo wake – acordar, despertar, despontar, sair de certo estado de letargia ou de inércia. Difícil precisar exatamente quando surgiu, mas, passou a ser adotado em 1930, graças à atuação do renomado líder do movimento em prol dos direitos civis dos Estados Unidos da América, Martin Luther King, de 1955 até seu assassinato, em 1968, atingindo o auge em 2020, com o estrangulamento do norte-americano negro George Floyd por um policial branco à plena luz de um dia cinzento, o qual acirrou o movimento antirracista em diferentes continentes e países.  

               The moral myopia of woke culture

 

Fonte; Journal of Political Inquiry, 2024

Em contraposição, é fácil inferir onde surgiu: no ambiente acadêmico e elitista dos EUA, confirmando que essa nação atua como ponto de arranque e de eco para o mundo. Na busca via internet, o tema cresceu 1.000% nos últimos cinco anos, com o significativo percentual de 267% tão somente em 2023.

No entanto, ao contrário do que a denominação e seus adeptos parecem clamar – um mundo mais justo e equânime – paradoxalmente, a nova expressão traz consigo posições e denominações que nada têm de positivo. Ao mesmo tempo em que os wokianos sonham e lutam pelo respeito às classes minoritárias e à diversidade em qualquer acepção – sexualidade, religião,  ideologia política, etnia, etc. – a radicalização do movimento vem fortalecendo um universo onde está cada dia mais difícil viver ou sobreviver, reafirmando as palavras de Amanda Péchy, em matéria da edição do dia 16 de fevereiro de 2024 da revista informativa Veja (veículo de informação, ele mesmo execrado pela maioria dos amantes da odiosa cartilha do politicamente correto), quando afirma, sem delongas, que a cultura woke vem provocando mais mal do que bem ao homem contemporâneo.

Segundo Staci Zavattaro, professora de gestão pública da University of Central Florida, EUA, o woke vem se transmutando, a olho nu, em ativismo meramente simbólico e distante da realidade, haja vista que “remover as manchas (de todas as cores e formas) do tecido social requer, antes de tudo, cabeça aberta e equilíbrio [...]” (PÉCHY, 2024, p. 67), itens raros na atual sociedade. Cada vez mais, não sabemos como se portar. Desconhecemos as palavras permitidas e o medo do chamado cancelamento nos assombra no círculo das redes sociais. Isso acontece quando alguém, sobretudo os mais renomados, tece um comentário que fere os brios ou a galhardia de algum grupo, às vezes, por interpretação errônea, proposital ou não. A sentença do tribunal da internet não custa a chegar: a pessoa tem o nome ultrajado no mundo virtual, e, por conseguinte, sua produção alcança o repúdio público, afetando, muitas vezes, sua saúde mental

Como decorrência desses valores tão radicais, e, ao mesmo tempo, tão abomináveis, porque subjetivos, intolerantes e ilegítimos, há a inserção gradativa de novos vocábulos, alguns dos quais soam hilários. Ao começo de uma fala pública, não basta “companheiros, companheiras”, e, sim, as palavras todos, todas e todes, esta última adotada pelo atual Presidente da República e sua equipe, por se configurar como linguagem neutra, comum no contexto das pessoas não binárias, na acepção de quem não se identifica nem 100% como homem, nem 100% como mulher, o que a posiciona como expressão próxima de queer. É a crença insana de que não definir os indivíduos como homem ou mulher assegura inclusão e respeito. E há mais. Muito mais. Se há algum tempo, é de bom tom evitar expressões como judiar, denegrir, nega maluca e a coisa tá preta, há, agora, outras formas de expressar ideias, consideradas, na conjuntura wokiana, acintosas e agressivas.

Péchy menciona algumas delas. Exemplificando: (1) sai o termo mulher; entra “pessoa que menstrua”. Argumento: discernir quem nasceu com o sexo feminino das mulheres trans. Como nomear as mulheres que por conta da menopausa ou outras questões fisiológicas não mais menstruam?; (2) sai o termo viciado; entra “pessoa com transtorno de abuso de substâncias”. Argumento: não responsabilizar alguém pelo que figura como enfermidade. Onde fica a responsabilidade social de cada um ou o livre arbítrio?; (3) sai o termo seminal; entra “inovador”. Argumento: evitar qualquer ênfase ao sêmen masculino. O que muda de fato?; (4) sai o termo aborto; entra “encerrar a gravidez”. Argumento: minimizar o julgamento moral e rígido que cerca a expressão...

Além do mais, a adoção das chamadas palavras politicamente incorretas com todo seu exagero e desproporção parece tomar fôlego com a edição do “Guia de eliminação de palavras nocivas” de Rainho e Zak (2023), que propõe eliminar do dia a dia do povo norte-americano termos inadequados e inapropriados diante das mudanças comportamentais ora vigentes. Na mesma linha de ação, a Stanford University, instituição privada sediada em Palo Alto, Califórnia, EUA e bastante prestigiada em todo o mundo luta para banir palavras como imigrante e até americano, justificando que podem afrontar os não nascidos naquele país, mas que ali vivem.

Seguindo a trilha estadunidense, a Comissão de Igualdade Racial do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançou, também, em 2022, a Cartilha “Expressões racistas: por que evitá-las” visando eliminar do vocabulário do povo brasileiro mais de 40 vocábulos taxados como ofensivos aos negros. Dentre eles: criado-mudo; da cor do pecado; galinha de macumba; humor negro; inhaca; e a tal inveja branca.

Cartilha “Expressões racistas: por que evitá-las”

 

 

Fonte: Biblioteca Digital da Justiça Eleitoral, 2022

Lamentamos a inutilidade de tantos excessos, uma vez que o woke realmente vem acelerando a intolerância que dizia ser seu alvo de combate: afinal, a diversidade é per se inegociável e inevitável. Sentimos certa compaixão dos jovens ou não tão jovens que não podem mais paquerar temerosos de serem taxados de assediador. Nenhuma defesa em prol do cerco moral, psicológico, físico, sexual, virtual, social, profissional, stalking e do bullying, sejam eles de qualquer configuração, como cuidadosamente descritos na “Cartilha sobre as diversas formas de assédio” do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região – Pernambuco, biênio 2023 a 2025. É tão somente um silencioso pranto por nossa liberdade roubada de sorrir ou gargalhar; de elogiar ou flertar (termo em total desuso). Restringimos nosso círculo de amizades ou nossa rede de apoio e partimos, pouco a pouco, para um universo tristonho de solidão e de temor!

A prova está que há o despertar de alguns grupos mais lúcidos, que anunciam ondas anti-woke para restabelecimento do equilíbrio entre os diferentes grupos sociais. Não precisamos de cotas ou de “caixinhas” para segregar os seres humanos. Precisamos, sim, entender que o caminho mais acertado “[...] é não transformar o outro em inimigo, aceitar o diferente sem ódio e polarização – e não erguer na [...] luta contra a discriminação um outro muro intransponível” (PÉCHY, 2024, p. 6).

Fontes

PÉCHY, Amanda.  A beleza das diferenças. Os donos da verdade. Veja, São Paulo, ano 57, n. 7, p. 6, 62-67, 16 fev. 2024.

RAINHO, João Marcos; ZAK, Luiz. Palavras politicamente incorretas. Portal de Comunicação, [S. l.], 17 jan. 2023. Disponível em: https://portaldacomunicacao.com.br/2023/01/palavras-politicamente-incorretas. Acesso em: 27 abr. 2024. 

TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 6ª REGIÃO – PERNAMBUCO (TRT – 6a Região). Cartilha sobre as diversas formas de assédio. Recife, 2023/2025. Disponível em: https:// www.trt6.jus.br/portal/sites/default/files/documents/ cartilha_ assedio_compressed_1_1c.pdf. Acesso em: 29 abr. 2024. 

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL(TSE). Cartilha “Expressões racistas: por que evitá-las”. Brasília, 2022. Disponível em: 2022_tse_expressoes_racistas_evitalas.pdf. Acesso em: 1 maio 2024. 


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou seu pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca e Máster Internacional en Comunicación y Educación da Universidad Autónoma de Barcelona, ambos na Espanha. Sua experiência acadêmica inclui cursos em outros países, como Inglaterra, Cuba, México, França e Estados Unidos. Autora de livros e capítulos, artigos científicos em ciência da informação e comunicação, enveredou pela literatura como cronista, com os títulos: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”; “Amar, viver, escrever”; “Embarques e desembarques”; além de inúmeras participações em coletâneas literárias. Por longos anos, manteve vinculação com a Universidade Federal do Piauí e Universidade Federal da Paraíba. Membro da Academia de Literatura de Teresina e da União Brasileira de Escritores – Seção Piauí, mantém coluna semanal em jornal de Teresina; coluna bimestral no INFOHOME; e contribuições sistemáticas junto a páginas eletrônicas. Dentre as láureas: Prêmio Nacional Luiz Beltrão de Comunicação, Intercom; Prêmio do Programa Informação para Todos, Unesco; Título de Cidadã Teresinense, Câmara Municipal de Teresina; e Prêmio “Mérito Jornalístico”, Câmara Municipal de Teresina; Homenageada do SALIPI 2024. E-mail: gracatargino@hotmail.com