ALÉM DAS BIBLIOTECAS


A FILHA PERDIDA

A expressão – filha perdida – nos remete, de imediato, a uma série de interpretações. A mais usual é a impressão de que alguma criança se perdeu na multidão, numa praia, num shopping, etc. Depois, a sensação de uma filha que deixa a vida familiar pelo universo sombrio de drogas, tráfico ou prostituição.

 

 

 

No entanto, o filme "A filha perdida", lançado via Netflix com o título original "The lost daughter", ano 2021, em coesão entre EUA e Grécia, trata, durante 121 minutos, sob direção e roteiro da norte-americana atriz e diretora de cinema Margolit Ruth Gyllenhall, da questão da condição feminina e, sobretudo, da maternidade com suas dolorosas desconexões que podem advir ao longo do convívio mãe / filha. Maggie Gyllenhaal, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme "Crazy heart" e duas vezes ao Globo de Ouro por "Secretary" e "Sherrybaby", conquistou um Globo de Ouro, 2014, com a minissérie "The honourable woman". 

Salvo engano, em nossa percepção, o distanciamento se dá mais com filhas do que com filhos. São duas mulheres que, às vezes, de forma totalmente inconsciente, enfrentam sentimentos nocivos. Dentre eles, a competição. A mãe ressente-se do brilho da filha em sua ascensão por beleza, juventude, profissão, trabalho, posição familiar, status… Subjacente à concorrência e à inveja, emerge uma relação de amor e ódio, culpa, negação, raiva e julgamento, a qual conquista espaço, com frequentes demonstrações de falta de respeito e de críticas destrutivas em meio à chantagem emocional. Atenção, pode ocorrer o inverso: há filhas que não acham justo a mãe sobreviver à idade madura ainda produtiva e com brilho próprio.

O drama psicológico “A filha perdida” é uma adaptação brilhante do livro homônimo de Elena Ferrante, cognome de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida a sete chaves. As poucas entrevistas concedidas, sempre por escrito, se dão através de editoras. Decerto, o processo de adaptação do texto literário para o cinema é extremamente complexo, uma vez que são duas linguagens singulares, e, então, com traços únicos, como descrito por uma série de teóricos que transitam na esfera literatura e cinema, a exemplo de Bordwell e Thompson (2013); Hutcheon (2013); Ikeda (2012) e Stam (2008). Porém, como Pires (2020, p. 10) alerta, “os pontos de contato entre os códigos literário e o cinematográfico cultivam relações de sentido mútuo entre as duas artes, apesar das especificidades das suas distintas linguagens”.

Os pontos de interseção entre os códigos literário e cinematográfico mantêm relações de sentido mútuo entre as duas artes, apesar das especificidades de suas distintas linguagens. Como sistema estético, pautado em pluralidade de significações, o cinema impõe-se como arte legítima e singular, não obstante os autores, que usam indistintamente as expressões adaptação fílmica e adaptação cinematográfica, em oposição a quem descreve possível diferença entre as duas expressões. No registro escrito de Elena Ferrante, lembranças e devaneios passados enredam-se em meio à narrativa simples e evocativa que se desenrola no presente da trama. No filme, lembranças e devaneios passados são menos excessivos e a narrativa apresenta maior concretude.

No caso, a britânica Olivia Colman, cujo drama “The crown” lhe rendeu o Oscar de melhor atriz, em 2019, além de outras premiações, protagoniza Leda Caruso, 48 anos, divorciada. Professora universitária de literatura italiana e de literatura comparada, recolhe-se em férias da vida acadêmica, numa pequena ilha na Grécia, Kyopoli, em busca de sossego e paz. Deixa para trás as duas filhas adultas, Bianca, 25 anos e Martha, 23 anos. Traz consigo malas de livros. Instala-se num pequeno apartamento (aluguel por temporada), onde mantém primeiros contatos com o zelador Lyle (Ed Harris) e o faz-tudo do resort Will (Paul Mescal), com os quais mantém relacionamento que mescla indiferença, animosidade e cumplicidade.

A sonhada paz vai embora com a chegada de uma barulhenta e “estranha” família. Após um primeiro atrito por espaço na areia e a aproximação de uma das mulheres, dentre todos os membros do clã, chama atenção de Leda um jovem casal: a mulher Nina, interpretada por Dakota Johnson e por Jessie Buckley quando ainda mais jovenzinha; o marido meio esquisitão, Toni (Oliver Jackson-Cohen) e a filhota Elena, oito anos, sempre agarrada à sua bonequinha Neni, na qual desconta sua raiva a cada briga dos pais.  

Elena perde-se na ilha e mobiliza todos em sua busca, incluindo Leda, deixando bem claro o recurso fotográfico (de Hélène Louvart) do close-up, enquadramento em primeiro plano, que prioriza apenas um ou mais detalhes. A montagem, sob encargo de Affonso Gonçalves, é quase claustrofóbica, quer dizer, possibilita captar cada olhar de soslaio, cada gesto e cada postura dos atores. A trilha sonora parece acertada. Acompanha, com precisão, o ritmo das ações. São 17 canções, 16 das quais do compositor britânico Dickon Hinchliffe, cujo som pop dos anos 60 e 70 contrasta com a austeridade da protagonista Leda. Estão elas reunidas na página https://www.blankcityfilm.com/br/movies/2021/the-lost-daughter, permitindo fácil acesso.

 

 

FONTE:

https://vigilianerd.com.br/a-filha-perdida-e-sobre-maternidade-e-feminismo

Quando Leda confessa sua “travessura” e devolve Neni à Nina, esta a agride com objeto perfurante exatamente no ventre. Enquanto o livro de E. Ferrante, traz, ao final, momentos de telefonema (real ou simbólico) entre a professora e as filhas, com fortes e últimas palavras da mãe: “estou morta, mas estou bem”, a adaptação fílmica suscita uma série de questionamentos ao fim da trama: jogada inerte à beira-mar, Leda está morta Quem é a filha perdida? O que simboliza a boneca em “A filha perdida?

Aqui, volto eu ao passado: quando criança e adolescente, ao escutar a canção de David Nasser e de Herivelto Martins, intitulada “Mamãe”, pensava no sacrifício da mãe-mártir. Afinal, segundo as palavras da linda canção, “Ela (a mamãe) é a dona de tudo. Ela é a rainha do lar. Ela vale mais para mim que o céu, que a terra, que o mar. Ela é a palavra mais linda que um dia o poeta escreveu. Ela é o tesouro que o pobre das mãos do Senhor recebeu. Mamãe, mamãe, mamãe, tu és a razão dos meus dias. Tu és feita de amor e de esperança [...] Eu cresci, o caminho perdi. Volto a ti e me sinto criança [...] Eu te lembro o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo. Se eu pudesse, eu queria, outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo.”

Imaginaria desde então minha incapacidade de dar conta de tantas incumbências. De fato, na contemporaneidade, em vez da mãe elevada à condição de mulher maravilha, “dona de tudo” e maior do que o céu, a terra e o mar, há muitos textos escritos e eletrônicos que discutem os desacertos na inter-relação mãe x filhas ou filhos, inclusive a depressão pós-parto. Eis a fêmea assoberbada diante da responsabilidade de ser deusa e não indivíduo, com carências, afetos e desafetos. É a mulher como vítima de um ardil, que lhe impõe abdicar de sua existência para assumir, em tom confessional e de dolorosa renúncia, mil deveres, incluindo a devoção irrestrita e em tempo integral ao lar (cama e mesa) e, quase sempre, a responsabilidade do destino de cada filho, mesmo quando este se mostra indiferente ao aterrorizante “chinelo na mão”. Logo, o clichê de “A filha perdida” aplica-se a qualquer um de nós que sofre para amar incondicionalmente os filhos sem tanto sofrimento! “A filha perdida” representa todas nós, mães ou mulheres que lutam por seus direitos!

Fontes:

BORDWELL, D.; THOMPSON, K. A arte do cinema. São Paulo: EDUSP, 2013. 765 p.

HUTCHEON, L. Uma teoria da adaptação.  2. ed. Florianópolis: EDUFSC, 2013.

IKEDA, M. Cinema e literatura: um exemplo de como os modos de produção fílmica podem influenciar as questões da adaptação. Revista Fronteiras. Estudos Midiáticos, São Leopoldo, v. 14, n. 1. p. 3-12, jan. / abr. 2012.

NETFLIX. A filha perdida. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81478910. Acesso em: 6 fev. 2022.

PIRES, S. S. A hora e a vez de Augusto Matraga: do universo rosiano à adaptação fílmica de Vinícius Coimbra. 131 f. 2020. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Estadual do Piauí, Teresina, 2020.

STAM, R. Introdução. In: STAM, R. A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação. Belo Horizonte: EDUFMG, 2008.


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MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

Vivo em Teresina, mas nasci em João Pessoa num dia que se faz longínquo: 20 de abril de 1948. Bibliotecária, docente, pesquisadora, jornalista, tenho muitas e muitas paixões: ler, escrever, ministrar aulas, fazer tapeçaria, caminhar e viajar. Caminhar e viajar me dão a dimensão de que não se pode parar enquanto ainda há vida! Mas há outras paixões: meus filhos, meus netos, meus poucos mas verdadeiros amigos. Ao longo da vida, fui feliz e infeliz. Sorri e chorei. Mas, sobretudo, vivi. Afinal, estou sempre lendo ou escrevendo alguma coisa. São nas palavras que escrevo que encontro a coragem para enfrentar as minhas inquietudes e os meus sonhos...Meus dois últimos livros de crônica: “Palavra de honra: palavra de graça”; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos.”