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  • Grupo de Pesquisa - Informação: Mediação, Cultura, Leitura e Sociedade - Textos elaborados por membros do Grupo, visando a divulgação de pesquisas específicas realizadas no seio do GP e a disseminação de discussões e reflexões desencadeadas pelos integrantes do grupo.

EU SOU O MARTINHO LUTERO

Thamiris Iara Sousa Silva

Gosto de trazer para os textos de minha autoria publicados aqui no Infohome cenas do meu cotidiano em que vejo os temas que estudo no meu doutorado em Ciência da Informação acontecendo naturalmente. No texto de hoje não será diferente.

Certo dia estava em uma chamada de vídeo com a minha mãe e contando para ela sobre a minha apresentação na Reunião da Linha 3 – Gestão, mediação e uso da informação do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI-Unesp), realizada em agosto de 2024. É de praxe que os novos ingressantes apresentem seus projetos de pesquisa, é um momento de troca entre discentes e docentes, na qual são feitas contribuições para os projetos que num futuro se tornarão dissertações e teses.

Apesar de não ter acessado à educação superior, minha mãe sempre foi engajada na minha formação, desde a graduação era assim, ela pergunta sobre as disciplinas, os artigos, as apresentações e gosta de saber o que estou pesquisando, por isso contei para ela sobre a apresentação do meu projeto de tese.

Expliquei para ela que a avaliação dos professores sobre meu projeto foi muito positiva, o que me deixou aliviada já que eu tinha um certo receio de como o projeto seria recebido, uma vez que se trata de uma proposta que eu mesma considero ousada.

O tema do meu projeto de tese é: a mediação da informação como paradigma para a Biblioteconomia. Ao dizer o título do meu projeto para minha mãe, ela perguntou o por quê do meu receio, e eu expliquei para ela que é porque mudanças paradigmáticas nem sempre são bem vistas e ela disse não entender. Então pensei como poderia explicar para ela o que seria essa mudança de paradigma em uma área do conhecimento, e tivemos o seguinte diálogo:

- Mãe, lembra quando o Martinho Lutero publicou suas 95 teses?

- Sim.

- Lembra que por conta disso ele foi expulso da igreja católica e a partir dele se iniciou a Reforma Protestante e temos a igreja (no caso a que ela frequenta) como é hoje?

- Sim, eu lembro.

- Então, eu sou o Martinho Lutero. A Biblioteconomia tem um paradigma hoje, a minha proposta de tese é que esse paradigma mude. Quando se estabelece um novo paradigma, estruturas são modificadas, e bom, nem todo mundo gosta de mudanças, assim com a igreja católica não gostou das mudanças sugeridas por Martinho Lutero. Por isso o meu receio.

- Ah, entendi minha filha. Mas sabe, com o tempo as pessoas entenderam que o que Martinho Lutero fez foi uma coisa boa, então vai ser assim com a tua tese também.

Ela entendeu, a minha mãe entendeu!

A título de contextualização: Martinho Lutero (1483 – 1546) foi um teólogo alemão que rompeu com a Igreja Católica ao publicar suas 95 teses, em 1517, que ia de encontro ao que era pregado pela Igreja Católica, principalmente sobre a venda de um documento chamado indulgência, que segundo a igreja garantiria salvação aos pobres após a morte, um lugar no céu. Lutero não concordava com essa crença, sua desvinculação da Igreja Católica deu início à Reforma Protestante e originou as muitas denominações evangélicas que conhecemos hoje.

Voltando… quando a minha mãe fez a afirmativa citada eu fiquei muito feliz, porque foi mais um dia comum em que eu vi a mediação da informação na prática, e amo esses momentos simplórios em que a ciência se faz presente.

A forma como escolhi explicar para a minha mãe o que se passava não foi ao acaso, foi mediação da informação na sua essência. Para mediar a informação da qual minha mãe precisava eu pensei nela enquanto sujeito informacional, isso quer dizer que eu não exemplifiquei para ela a informação da forma que era mais fácil para eu comunicar, e sim da forma que faria sentido para ela compreender.

Visto que minha mãe é uma mulher evangélica a Reforma Protestante faz parte do repertório de informações que ela já tinha, logo pude usar essa base para conectar com novas informações, ou seja, fiz a leitura do contexto ao qual ela pertence e utilizei ele como um facilitador para realizar essa mediação da informação, muito melhor do que tentar explicar para ela o que é paradigma a partir da Epstemologia da Ciência da Informação, venhamos e convenhamos. (Risos).

Para a mediação da informação, compreender o sujeito informacional em sua complexidade é o caminho para a apropriação da informação, e nesta afirmativa por si só se confrontam diversas crenças limitantes, como a de que o mediador da informação, e aqui vou citar o bibliotecário, já que a minha tese é voltada para a Biblioteconomia, é neutro e sem papel social e, portanto, não podemos interferir no processo informacional do sujeito.

Mas sem a interferência do mediador o sujeito corre o risco de não compreender o processo informacional e desistir da iniciativa de se informar, caindo em um limbo onde não consegue se apropriar de informação nova, porque não consegue estabelecer conexões com o conhecimento que já tem.

Com minha história eu afirmo que podemos interferir sim, nossa contribuição para a apropriação da informação do sujeito pode ser o que o levará a ter autoconfiança na compreensão de novas informações, isto configura uma grande participação social. Na minha concepção, somos bibliotecários e mediadores da informação que, às vezes, emprestam livros e nem de longe isto explica o nosso trabalho.


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