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POR TRÁS DA PORTA, A BIBLIOTECA QUE NÃO SE ESCONDE

Cíntia Gomes Pacheco

Quantas vezes somos surpreendidos com o simples? Nossos dias, muitas vezes tumultuados por compromissos e responsabilidades, nos fazem ignorar pequenas maravilhas ao nosso redor. Entretanto, em dias mais leves, nos permitimos observar e apreciar momentos especiais. É sobre um desses dias que quero compartilhar meu relato: uma bela tarde ensolarada em novembro de 2024, durante uma visita a Vila Velha, Espírito Santo.

Entre os vários lugares que conheci na cidade, um deles me marcou: uma biblioteca escolar. Fui acompanhada por uma amiga querida que, sabendo da minha visita, organizou previamente esse encontro. Com essa perspectiva em mente, embarquei em uma experiência que se revelaria especial.

Ao chegarmos à escola, fomos calorosamente recepcionadas. A bibliotecária veio até ao nosso encontro na recepção. Enquanto caminhávamos pelos corredores e subíamos os lances de escada, a curiosidade tomava conta. Ela nos conduziu até a biblioteca, localizada ao final do corredor. De início, pensei que o espaço estivesse um pouco isolado, mas a minha impressão inicial mudaria.

Ao adentrar o espaço, fui imediatamente envolvida pela atmosfera que mesclava conhecimento e acolhimento. Na entrada, um cantinho aconchegante para leitura com tatames, almofadas, uma estante com livros e um mural decorado com indicações de livros feitas pelos próprios alunos. Mais adiante, uma estante com obras de referência.

Contornando, à esquerda, mais estantes organizadas, identificadas por assunto e os números de classificação, formando pequenos corredores em forma de “L”.

 No centro, grandes mesas redondas com cadeiras; à direita, janelas que iluminavam o ambiente, uma estante baixa com gibis e outros materiais, além de dois computadores à disposição de alunos e professores.

A mesa da bibliotecária ficava estrategicamente posicionada, permitindo uma visão ampla do espaço. O ambiente era colorido, limpo, organizado e cheio de vida. As paredes, decoradas com desenhos feitos pelos alunos, em papel sulfite e lápis de cor, retratavam os principais pontos turísticos de Vila Velha: o Convento da Penha, o Farol Santa Luzia, a Igreja Nossa Senhora do Rosário, entre outros. A riqueza de detalhes e o uso vibrante dos traços e das cores nas obras me impressionaram.

Ao fundo da biblioteca, um mural chamativo exibia os leitores em destaque, adornados com imagens de livros abertos que pareciam flutuar no ar, convidando à leitura. Cada detalhe parecia ter sido cuidadosamente planejado para criar um ambiente que estimulasse à curiosidade e o prazer de explorar o universo das palavras, revelando um espaço preparado com zelo e atenção às necessidades de seu público.

Mais do que espaço físico planejado, a biblioteca refletia a visão da bibliotecária, por meio do desenvolvimento de projetos que contribuíam para a realização de conexões e apropriações por meio de atividades atrativas. A bibliotecária nos apresentou dois projetos encantadores.

O primeiro, a “pizza literária”, uma maneira criativa de promover a leitura compartilhada. Cada turma escolhia um livro, e os alunos representavam a história em “fatias” de pizza feitas em papel. Cada caixa de pizza continha a representação da história lida, cuidadosamente montada pelas mãos dos alunos. O segundo projeto, inspirado por uma formação do Programa de Competência em Informação, envolvia a criação de livros. Os alunos elaboraram capas e histórias, explorando temas como amor, amizade e terror. Um dos livros, com tantas páginas quanto um caderno brochura, mostrava o engajamento da autora.

Enquanto conversávamos, um grupo de alunos entrou na biblioteca para realizar uma pesquisa no computador. A organização entre eles chamou minha atenção: enquanto um pesquisava, os demais anotavam os resultados. Outro grupo explorava as estantes, demonstrando familiaridade com a organização do acervo. Um deles se aproximou e, com entusiasmo, perguntou se eu era a nova professora. A curiosidade e a alegria deles em explorarem o ambiente e compartilharem suas leituras favoritas comigo me encantaram.

Ao final, notei que aquele espaço, inicialmente “escondido”, era, na verdade, um ponto de encontro vibrante para os alunos. Eles se sentem acolhidos, pertencentes, e encontravam ali um ambiente propício para aprender, criar e se divertir.

Foi uma visita breve, mas repleta de detalhes e afetos. Adorei estar lá e vivenciar um pouco da rotina daquela biblioteca.

Agradeço à minha amiga Eliana Terra Barbosa e à bibliotecária Ana Beatriz por esta experiência tão significativa. Que dias assim continuem a enriquecer a rotina de todos que se dedicam a este espaço. O cotidiano pode revelar momentos especiais, fortalecendo laços de pertencimento e inspirando transformações por meio de ações significativas e encantadoras.

Cíntia Gomes Pacheco 
Doutoranda e Mestre em Ciência da Informação (PPGCI/ UNESP/Marília); Bacharel em Biblioteconomia (UNESP/Marília); Bolsista pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES); cintiapacheco@unesp.br


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