MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

TECNOLOGIA, NECESSIDADES E USOS: O CASO DO CELULAR

Não me recordo quando decidi comprar um celular. Lembro, no entanto, que apesar de muita gente utilizá-lo com frequência, para mim era algo inútil, pois ninguém me ligava e eu também quase não ligava; quando o fazia, sempre me valia de telefone fixo, tanto residencial quanto do trabalho. Isso bastava para atender às exigências de comunicação pessoais e profissionais.

 

Próximo ao final de um determinado ano ou já no início de janeiro, não sei precisar, viajei alguns dias para descansar e achei que um telefone celular seria útil para contatar familiares ou para alguma emergência. Londrina, cidade em que morava na época, possui uma Companhia Telefônica própria da cidade, a Sercomtel. De todas as companhas telefônicas cujos serviços utilizei, a Sercomtel foi, de longe, a melhor. Atendimento rápido, ágil solução dos problemas, lojas em lugares estratégicos da cidade, etc. O alcance do sinal, no entanto, fora da cidade ou do Paraná, dependia de parcerias com outras companhias e isso muitas vezes trazia prejuízo para a qualidade do uso do celular.

 

Comprei o celular em uma loja próxima de casa. Pedi para a atendente explicações sobre os recursos do aparelho (uma espécie de tutorial in loco e oral). Os mais velhos vão se recordar da época em que celular tinha uma única e exclusiva funcionalidade: telefonar. Acho que tinha um ou outro joguinho (não muito diferente do Tetris ou do Paciência), uma agenda de endereços (provavelmente limitada a uma quantidade máxima de contatos) e, talvez, um histórico de ligações. É verdade, os celulares já serviram apenas para telefonar.

 

De posse de meu celular – com uma ou duas chamadas apenas para testá-lo – fui viajar. Não sabia se o carregava no bolso, se na mão ou no banco traseiro do carro, enfim, optei por guardar a preciosidade (o aparelho que comprei era o mais barato, mas o preço em média, relacionado aos serviços que oferecia, era muito alto) dentro da mala. Mesmo porque ninguém iria ligar.

 

Na casa da praia o celular ficou esquecido. Só fui lembrar de sua existência quando pensei em ligar para alguns parentes. Como não tinha o hábito de usar aquele aparelho, também não lembrei da necessidade de carregar sua bateria. Próxima do fim, fui obrigado a carregá-la e esperar para fazer a ligação. Com a bateria cheia descobri que não havia sinal dentro da casa. Da sala fui ao quarto, ao banheiro, à cozinha, à sacada. Nada. A alternativa era a calçada, a rua, sei lá. Estava em um lugar afastado do centro e mesmo na rua não conseguia sinal. A rua terminava na praia e só nela o sinal apareceu, embora intermitente. Consegui, feliz, fazer a ligação. Enquanto falava ao telefone, uns dois pequenos siris de praia me olhavam curiosos.

 

Qual foi o conteúdo da minha primeira conversa por celular? Algo como:

 

- E aí, tudo bem?

- Tudo bem. E vocês?

- Tudo bem.

- Ótimo.

 

Não me recordo se a conversa foi além disso. Se foi, talvez tenha incluído alguma coisa sobre a minha viagem, a deles, a festa de final de ano (ou os preparativos ou as lembranças), abraços, beijos e não mais que isso.

 

De volta das pequenas férias, achei que deveria carregar o celular comigo. Passou ele a ser mais um apetrecho entre tantos que a gente carrega: chaves de casa, chave do carro, documento do carro, carteira com dinheiro e documentos, agenda, lapiseira, caneta, livros, alguns papeis de trabalho, óculos, óculos de sol, lenço de papel, remédios, pastilhas, balas, doces, guarda chuva e outras inúteis quinquilharias.

 

Por anos – e até hoje – o celular passou a ser um objeto que carrego para todos os lugares.

 

Apesar de trazê-lo sempre comigo, no período em que morei em Londrina ele praticamente foi desnecessário. Recebia e fazia uma ou outra ligação, mas as exigências dele eram constantes: carregar bateria, não esquecê-lo em casa ou em outros lugares, cuidado para que ele não caísse, cuidado para que ele não molhasse, desligar o som em reuniões ou em espetáculos artísticos, preocupação em não tornar a bateria viciada (crença da época e que perdura até hoje – ainda não sei se verdadeira) e outras tantas.

 

Quando me mudei para Marília, durante alguns anos vivi uma dupla “cidadania”: durante a semana em Londrina e finais de semana em Marília. Dois Estados diferentes e um roaming pairando sobre a cabeça e, principalmente, o bolso. Fui aconselhado a ter um celular para cada cidade. Comprei um novo aparelho e um chip da Claro. O constante deslocamento também me obrigou a ter um modem móvel para meu notebook. Também ele precisava de um chip e de uma operadora. Optei pela Vivo.

 

As ligações entre celulares de uma mesma operadora eram – e ainda são – mais baratas. Para contatar alguns familiares, comprei um outro celular e um chip, desta vez da Tim.

 

Carregar celulares passou a ser um desafio: coloco todos em bolsos separados?; compro uma necessarie específica para leva-los?; envolvo os aparelhos em um elástico?; e os cabos para carregar baterias?

 

Além de todos os badulaques que levava comigo a todos os lugares, se acrescentaram os aparelhos celulares e o notebook.

 

As coisas poderiam ter melhorado quando passei a viver definitivamente em Marília – e só em Marília. Cancelei o celular da Sercomtel. Um a menos. Também comprei um celular dual chip e resolvi não mais usar o modem “itinerante”, pois wi-fi é algo comum e em muitos lugares nas viagens que faço, o acesso é fácil.

 

Desejoso em passar do celular para o computador algumas imagens que fotografei e tendo dificuldades em fazê-lo, liguei para a fabricante do celular e disse para a atendente que eu não conseguia localizar no site o modelo do meu celular. Pretendia fazer um download do soft apropriado para o meu aparelho. A atendente solicitou os dados do modelo e, depois de um tempo, retornou dizendo que meu celular era antigo e não havia mais softs disponíveis para ele. - Velho? Eu o comprei faz dois anos ou dois anos e meio, no máximo. – Pois então – disse ela –, modelo antigo.

 

A fidelidade a uma das operadoras, com plano pós-pago, permitiu que eu comprasse um novo aparelho com preço reduzido. Além de telefonar (- Ah! Ele também serve pra isso) o celular é multitarefa, multiuso, multitudo. Você fotografa (incluindo selfies), pode jogar (incluindo Pokemon), pode ter agenda, caderno de contatos, internet, redes sociais, GPS, Youtube, WhatsApp, Messenger, muitos apps, Instagram, pode filmar, iluminar com lanterna, ler livros (fala baixo), calculadora, calendário, acessar mapas, ouvir música. Você pode pedir, oralmente, para que o celular faça muitas dessas coisas sem que você tenha que digitar. Em alguns celulares (incluindo o IPad) essa função é feita pelo SIRI. Só que este é bem diferente daqueles pequenos siris que me observavam, à noite, na praia, em uma das minhas primeiras experiências com a telefonia celular.

 

Os recursos do celular são inúmeros e, sim, eu os utilizo quando conheço e sei manipulá-los. Um amigo me respondeu quando perguntei como ele aprendeu a usar um determinado recurso do celular que eu desconhecia: - Eu leio os manuais.

 

Hoje tenho três números de celulares em dois aparelhos. Decidi manter um só e vou implementar essa decisão muito em breve.

 

Quando possuía apenas um celular, ninguém me ligava e eu tampouco ligava para outros. Atualmente, com três celulares, tudo permanece como antes: ninguém me liga e eu pouco ligo (nos dois sentidos). Não é a quantidade que gera o uso; não é o uso que gera a necessidade. Ao menos em relação aos celulares.

 

Como P.S.: relendo o texto me espantei com a quantidade de palavras ou em inglês ou marcas que designam a mercadoria.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.