MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

REFERÊNCIAS OU BIBLIOGRAFIA?

Sempre gostei – e continuo gostando – da ideia de incluir ao final de trabalhos científicos um rol de textos que contribuíram para a construção e elaboração deles e não apenas dos trabalhos dos quais extraímos citações. Estou falando de “referências” e de “bibliografia” e defendendo esta última. A concepção de bibliografia vai além do mero uso de textos que, por alguma razão, foram citados com trechos no corpo do trabalho, mas deve incluir os materiais, bibliográficos ou não, que de alguma maneira influenciaram as discussões e reflexões parcialmente expostos no trabalho. As discussões e reflexões são parcialmente expostas, pois, quando sentimos necessidade de partilhar com nossos colegas de academia ou com o público mais geral, algo que entendemos importante, o fazemos considerando segmentos do nosso conhecimento que estão estruturalmente aptos para serem divulgados. Boa parte, se não a maioria, do nosso conhecimento ainda está por se consolidar, por se organizar de maneira a nos sentirmos seguros para disseminá-la.

As reflexões e discussões que nos parecem apropriadas para serem partilhadas são frutos, necessariamente, da nossa relação com o mundo, com os outros. O nosso conhecimento é construído individualmente, mas sempre, obrigatoriamente, na relação.

Isso é importante na medida em que ressalta a nossa dependência dos outros, o nosso inacabamento – na concepção de Paulo Freire. Podemos afirmar que, apesar de ser construído individualmente, o conhecimento é uma trama coletiva, interdependente e que envolve os seres humanos e a natureza.

O conhecimento é construído por um ser humano desde que nasce. Seu envolvimento com o mundo pressupõe conhecer as relações explícitas entre os viventes – e os não viventes também, uma vez que deixaram legados durante a vida – e, principalmente, as tácitas. Nessas relações estão presentes, em especial, as linguagens, quer em forma oral, gestual, registrada etc. Vamos nos apropriando desses conhecimentos e os articulando individualmente, mas sempre a partir do coletivo.

Grandes inventores, quer de algo físico ou de ideias, podem ser considerados aqueles que conseguiram aglutinar propostas que circularam anteriormente e circulavam em sua época. A grande contribuição deles foi ter organizado e estruturado adequadamente tudo o que ainda estava embrionário e disperso.

Acho que me empolguei e acabei me desviando um pouco daquilo em que deveria ter me centrado.

Como dizia, sempre gostei da ideia de Bibliografia, pois ela é muito mais abrangente do que Referências – que foi, a partir de um determinado momento, a opção das normas oficiais. Quando do emprego indicado – exigido – pelas normas era a Bibliografia, ela abrangia também os textos citados.

Alguns podem ponderar que, acompanhando a ideia de que nosso conhecimento é construído por nós desde a infância, não é possível incluir todas as bases que interferiram na elaboração de um texto. É verdade, não podemos incluir todos os materiais lidos ou analisados a partir de fenômenos e sensações com os quais nos defrontamos durante a vida. Mas, também é verdade que nem todos eles contribuíram especificamente para as reflexões e conclusões do tema objeto do estudo que elaboramos e disseminamos.

Um pequeno parêntese para lembrar que nos apropriamos de informações – que podem gerar conhecimentos – sempre a partir da leitura. Nosso entendimento do mundo e dos outros se dá com base em leituras. Mas, deixando claro, não apenas da leitura do texto escrito, como também das imagens fixas, das imagens em movimento e do som. No som, incluímos, além da música, do ruído, também a oralidade, a fala. Na imagem em movimento, também lemos as pessoas, o que é não verbal. Dentro desse contexto, lemos, com muita intensidade e constantemente, o mundo.

Utilizarmos apenas as referências, ou seja, os materiais e documentos dos quais extraímos alguns trechos e os citamos, significa, implicitamente, tornar circunscrita nossas bases teóricas a um pequeno grupo de autores e de concepções. Parece, se não estiverem claramente expostas, que não há oposições e considerações diferenciadas nas ideias discutidas e que o tema segue concepções únicas ou próximas e semelhantes.

É claro, também, que a Bibliografia deve se ater àquilo que realmente contribuiu para as reflexões do autor. Toda escrita tem um ponto de nascença, algo motivador que leva alguém a desejar partilhar o que o impressionou. Pode ser um trecho de um livro, a fala de algum palestrante ou de uma pessoa em uma conversa informal, a música que ouvimos na rua, objetos em um museu, documentos em arquivos etc. Até esse início motivador do texto, quando trabalhamos com a ideia de Referências, pode ficar ausente do produto final pois não necessariamente se tornará em um trecho a ser citado. Aliás, fazendo um contraponto com o que disse na linha anterior, não há “produto final”, pois é ele, sempre, um produto parcial que vai sendo repensado, reelaborado, reconstruído, refeito, acrescentado.

Vi outro dia um trabalho (não consigo me lembrar de quem nem onde tive contato com ele) em que o autor, autora ou mais de um deles ou delas, ao final do texto, incluiu as Referências e, sem seguida, a Bibliografia. Gostei dessa ideia e pretendo, na medida do possível, utilizá-la nos meus textos e propor seu uso aos meus orientandos que quiserem e a vocês, leitores, se acharem oportuno


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.