MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

EU, A LEITURA E O LIVRO

Sempre tive, desde menino, uma relação muito forte com a leitura e com o livro. Vivia com um livro na mão, embora com menos intensidade do que hoje. Havia os amigos de escola e da “rua” com os quais eu passava boa parte das tardes e início das noites. Os programas de televisão eram escolhidos por meus pais e aprendi a ler enquanto os assistia, dividindo os olhos e os interesses.

Com o pouco dinheiro que tinha, pegava emprestado livros de uma prima e, mais tarde, de algumas bibliotecas. A que era mantida pela escola onde estudei, apenas possuía livros didáticos e enciclopédias. Nada podia ser emprestado.

Confesso que gostava de ler enciclopédias. Meu pai tinha uma enciclopédia portuguesa chamada Lello. Eram poucos volumes e eu os li todos. Anualmente a editora dessa enciclopédia lançava o Livro do Ano (não me recordo o nome correto), com atualizações e acontecimentos do ano anterior. Era uma festa (minha, ao menos) quando meu pai chegava em casa trazendo uma nova edição. Passava horas lendo os verbetes.

Outro tipo de publicação que eu adorava eram os almanaques. Não sei como eles chegavam em casa – sempre trazidos por meu pai -, mas eu quase que os arrancava das mãos dele, ainda na sala e buscava meu canto preferido da casa para leitura.

Quantas vezes minha mãe brigou comigo por dormir tarde por causa de um capítulo que eu insistia em terminar. No dia seguinte o bocejo era constante, mas eu estava contente por conhecer um pouco mais da história que estava me fascinando.

Vivi muitas das histórias dos livros que li, me envolvendo com os personagens, sentindo um pouco do que eles sentiam e, muitas vezes, querendo estar no lugar deles. Ou sentindo inveja do autor, desejando ter escrito aquela história. Eu queria que o livro fosse meu, não o livro físico, mas a ideia, ter sido o autor da história.

Fui sócio de várias bibliotecas, incluindo a do SESI (ou SENAI, já não me lembro mais) da rua Catumbi, em São Paulo e, em especial, a Mário de Andrade, na época em que a entrada para o setor de circulação (de empréstimo de livro) ficava na Av. São Luis.

Na biblioteca do SESI (ou SENAI) li toda a coleção do Edgar Rice Burroughs, criador do personagem Tarzan. Eu o segui nas suas várias aventuras e fiquei triste quando havia lido todos os livros. Na circulante da Mário de Andrade eu conheci romancistas e contistas internacionais, como Guy de Maupassant e Edgar Allan Poe.

Com um pouco de dinheiro no bolso comprava livros de bolso vendidos em bancas de jornais. Todos em casa líamos e gostávamos de revistas. Meu pai comprava O Cruzeiro e Manchete e pequenas revistas com coleção de piadas para ele; Grande Hotel e outras revistas de fotonovelas para minha mãe e histórias em quadrinhos para mim e para meu irmão. Eu gostava dos Sobrinhos do Capitão, Mandrake, o Fantasma e alguns da turma da Luluzinha. Lembro do meu irmão criando histórias em quadrinhos com histórias do “velho oeste” dos Estados Unidos (muito mais provocado por filmes do que pelos quadrinhos). Ele tinha uma preocupação muito grande com os chapéus tanto do bandido como do mocinho, quando eles, por algum motivo, se desprendiam das cabeças e voavam ou caiam no chão.

Além de pequenos livros sobre espionagem, “bang-bang”, guerra e outros, lançaram uma coleção chamada “Avec”. Publicados uma vez por mês, cada livro trazia um compilado de contos de grandes autores. Conheci muitos dos autores que gosto hoje lendo contos naqueles livros. Eram publicados autores brasileiros e internacionais, incluindo latino-americanos.

Quando jovem impus a mim mesmo uma regra: ler uma quantidade de páginas por dia. Cheguei até mesmo a registrar em um caderno a obediência a essa norma. A princípio o número era pequeno: 10 páginas. A quantidade determinada se referia ao número mínimo e não para o máximo. Registrando, percebi que eu lia muito mais do que as 10 páginas de “piso”. Aumentei gradativamente até chegar a 50. Era um número que entendi razoável e factível. Como em alguns dias, por uma série de razões, eu não conseguia ler esse mínimo, o que faltava para ele ser atingido era acrescido aos 50 do dia seguinte.

É uma boa estratégia para lidar com a leitura? Sim e não. Se apenas tivermos esse mínimo como parâmetro, a ideia pode ser, sim, boa. Mas, a ânsia em alcançar o limite pode nos levar a considerar mais a leitura em si e desconsiderarmos o conteúdo do que lemos. Mais: não importa a quantidade do que lemos, mas a nossa relação com o conteúdo do que foi lido. Não basta para textos de ficção, acompanhar a história, mas é preciso saboreá-la, buscar o motivo para o emprego de uma determinada palavra, entender a construção de uma frase, sentir a história.

Meus pais liam, mas não livros. Eu, ao contrário, não os segui, pois leio muitos livros, embora também leia revistas, textos impressos ou virtuais e tudo o que “cai” nas minhas mãos. Ler para mim é vida. Eu preciso da leitura, em especial da ficção. Participo de muitas vidas, convivo com muitos personagens; rio com eles, choro com eles, sofro com cada um deles. Amo passar horas na relação com desconhecidos, mas que passo a conhecer a cada virada de página. Quando a história termina, os personagens, como muitos dos que passaram por minha vida, fictícios ou não, deixam de existir para se fixar em minha memória. No entanto, ao contrário dos da minha vida real, eles estão nas minhas estantes, nem tão fechados, encerrados, pois eles voltam à vida a cada vez que olho para a lombada da morada deles.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.