MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

O FUTURO – OU FUTUROS – DA BIBLIOTECA

Entre os temas que marcaram os interesses da área nos últimos meses, o futuro da biblioteca foi o que mais chamou minha atenção. Esse é um assunto recorrente na história da área e sempre retorna ao campo de discussão quando uma determinada situação o exige. A pergunta é: qual a situação que enfrentamos hoje que invoca esse debate?

 

Em meados dos anos 1990 discutíamos a mudança, na Biblioteconomia, do paradigma do acervo para o paradigma da informação. Antes, na década de 1960, surgem as propostas básicas da Ciência da Informação e a responsabilidade informacional das bibliotecas públicas. Apesar disso, as bibliotecas, ao que parece, não assumiram, de fato, a informação como seu objeto de trabalho, como seu objeto de interesse e ações. Vivem em uma espécie de limbo, equilibrando-se entre a tentativa de assumir o que os tempos atuais determinam e o apego a uma tradição importante, mas que não pode mais ser o cerne do fazer e da existência das bibliotecas. Acervo e informação se digladiam nos embates pela hegemonia do objetivo das bibliotecas e do objeto da Biblioteconomia.

 

Outro problema que é angustiante para os profissionais da área é a crescente tendência pelo fim da reserva de mercado (não exclusiva dos bibliotecários), uma vez que há uma outra orientação em relação às especializações, ou seja, de crescente criação de segmentos nas áreas do conhecimento para aglutinação, união entre partes delas. A formação de profissionais que ocupam esses novos espaços tende a ser mais holística, mais abrangente e os segmentos especializados perdem força. O profissional da informação, por exemplo, tem uma difícil conceituação. Quais são os profissionais que fazem parte desse grupo? Apenas os arquivistas, bibliotecários, museólogos? Com que tipo de informação ele trabalha? Qual a abrangência dos equipamentos informacionais?

 

Mais um item para compor o quadro que gera, na minha opinião, o recrudescimento ou o retorno das discussões sobre o futuro das bibliotecas: a matéria prima do fazer bibliotecário não é mais o suporte informacional, algo concreto, objetivo, tangível, ao contrário, o suporte sustenta algo imaterial, intangível, subjetivo. As informações não são mais passíveis de recuperação fácil. A informação não é passível do mesmo controle que ocorria antes. Os acervos imutáveis, fixos, dão lugar a informações de vida curta, a informações efêmeras, que nascem hoje e podem desaparecer em segundos. Como controlar a informação visando a sua recuperação nessa nova situação? Isso obriga o bibliotecário a repensar seu fazer, além de, obrigatoriamente, recorrer a bases teóricas e a ações de outras áreas.

 

Essas e outras questões se impõem aos profissionais, aos pesquisadores, estudiosos e interessados na área. Elas abrem as perspectivas da Biblioteconomia e das bibliotecas e tornam o futuro incerto e não muito claro.

 

Como eu não acredito em destino, sina, coisas assim, também não acredito em um futuro imutável, inexorável. O futuro está em aberto e o acaso nele interfere a cada momento. Assim, não há um futuro, mas futuros. A biblioteca de 2030 será a mesma da biblioteca de 2050? Claro que não. As mudanças são rápidas e acontecem a cada momento.

 

Para pensar o futuro das bibliotecas, mesmo sabendo que o acaso pode levar a uma mudança brusca ou a saltos inesperados, preciso pensar na informação, mas não apenas na informação científica e tecnológica, não apenas na informação que se utiliza de aparatos tecnológicos; a informação com a qual a biblioteca deve pensar e lidar será também a informação pública, a informação social, a informação para a cidadania. A documentação de interesse das bibliotecas e da Biblioteconomia, deve incluir também a documentação popular.

 

A informação de interesse das bibliotecas não pode ser apenas a informação registrada, existente em suportes documentários, mas também a informação efêmera. Esta pode ser apenas veiculada em um momento, em um átimo. Por exemplo: são informações efêmeras as que ocorrem durante a exibição de um show, de uma exposição, da apresentação de uma peça teatral, de uma contação de histórias, de uma palestra, de um debate, de uma oficina artística ou profissional, enfim, de exteriorizações informacionais que não podem ser presas em suportes, sob pena de se transformarem em outras coisas.

 

São também informações efêmeras as disseminadas eletronicamente, virtualmente, através das redes. Na internet, por exemplo, a maior parte das informações se transformam em pouco tempo ou desaparecem. A organização e a recuperação delas exigem novas técnicas utilizadas pelas bibliotecas. Os instrumentos e ferramentas hoje existentes não são mais adequados para se trabalhar com essas informações.

 

O futuro das bibliotecas, desse modo, é fruto de debates e discussões que considerem o que acima foi exposto.

 

Defendo já de algum tempo a necessidade de alterarmos o objeto da Biblioteconomia da concepção de Informação Registrada para a de Mediação da Informação. Só dessa forma podemos incluir a informação efêmera entre os interesses e atribuições do fazer do bibliotecário. Isso altera, e muito, toda a concepção que se tem hoje da Biblioteconomia e do fazer das bibliotecas.

 

No futuro, as coisas serão mais rápidas do que já são hoje e o trabalho com a informação também deverá ser rápido.

 

Outra coisa que me parece importante nessa discussão: acessar informação, atualmente, mesmo considerando uma série de problemas, pode se dar sem, necessariamente, o acervo de uma biblioteca. A facilidade com que acesso informações fatuais ou informações básicas, nos dias de hoje, é inegável. A internet, por exemplo, com seus “googles”, faz as vezes das enciclopédias em papel. Como estas, os “googles” também se prestam a embasar início de pesquisa. Os espaços das bibliotecas devem ser ampliados, além dos físicos. Precisamos alterar nossa concepção de ambiente informacional para ambiência informacional. O que isso significa? Provavelmente, os espaços físicos, sensoriais da biblioteca serão menos procurados, caso se mantenha a configuração que têm eles hoje. As propostas de bibliotecas chamadas de inovadoras apontam para espaços mais abrangentes, integrando ações artísticas e culturais. Além disso, estão preocupadas em atrair o público também pelo aspecto da beleza, da estética, mesmo que a isso não corresponda mudanças de concepção, mudanças paradigmáticas. Por sua vez, a ambiência informacional vai além dos espaços físicos, ou seja, considero ambiência informacional tudo que engloba os lugares de interferência da biblioteca, podendo incluir a residência do usuário, as escolas, os movimentos organizados da população, os shoppings, calçadões, igrejas, centros comunitários, espaços de lazer, etc.

 

O tema não pode ser abordado em um único texto, pois aborda vários aspectos que, por sua vez, demandam espaço para ser desenvolvidos. Dessa forma, elenco abaixo itens que tratarei com mais vagar em outros textos.

 

Para discutirmos possíveis futuros da biblioteca devemos considerar:

 

- Um espaço que não esteja voltado apenas para o ambiente físico, as quatro paredes, mas para uma ambiência, ou seja, o espaço em que a biblioteca interfere na vida informacional de seus usuários.

 

- Trabalhando com informação, o acervo não deve estar contido apenas no ambiente de acesso físico dos usuários.  Além do ambiente virtual (e seus bancos de dados, repositórios, bibliotecas eletrônicas, bibliotecas digitais, etc.), próprio de cada biblioteca, os bibliotecários devem atender demandas se valendo de acervos disponíveis eletronicamente.

 

- O acervo das bibliotecas deve abranger vários suportes, além dos que, tradicionalmente, abarca.

 

- O armazenamento também será diferenciado, incluindo outros suportes de informação.

 

- Entre as preocupações da biblioteca estará a oralidade. O acervo deverá contemplar a escrita e a fala de todos da comunidade (pensando localmente) e do mundo (pensando globalmente).

 

- A organização da informação deve se valer de instrumentos e ferramentas que possibilitem atender não só as exigências oriundas dos atuais suportes e das características de informação – que devem se manter no futuro com algumas transformações –, como também das exigências provenientes das informações efêmeras.

 

- Os conteúdos dos materiais do acervo ou dos repositórios terão outra ou outras dimensões.

 

- Os suportes terão mais de uma mídia ao mesmo tempo.

 

- As bibliotecas não serão mais espaços isolados, mas se juntarão a outros espaços, sejam culturais, sejam tecnocientíficos, etc.

 

- Os serviços oferecidos devem atingir os usuários se valendo de todos os recursos tecnológicos disponíveis. Neste momento, por exemplo, não podem prescindir dos telefones móveis e de todas as possibilidades que estão envolvidas em seus usos.

 

- A disseminação da informação deverá considerar as tecnologias móveis e todas as que evidentemente surgirão.

 

- O tempo será também uma exigência dos usuários para o acesso a informações e deve ser considerado pelo atendimento, pela disponibilização de informações e de suportes, e pelo próprio tipo de informação oferecida.

 

- Pensando ainda nos serviços oferecidos, estes devem considerar a mudança de objeto da área, voltando-se para a mediação da informação e não apenas para a oferta de acesso a suportes informacionais.

 

- O acesso à informação não deverá ser o fim último dos trabalhos desenvolvidos no âmbito do Serviço de Referência e Informação (que deverá se chamar tão somente Serviço de Informação), ao contrário, o objetivo desse serviço deve ser a apropriação da informação por parte do usuário.

 

- As necessidades, interesses, desejos e demandas dos usuários devem ser considerados em seus aspectos objetivos (exteriorizados, correspondente à questão inicial) e subjetivos (correspondente à questão real) ou em seus aspectos conscientes e inconscientes.

 

- As demandas dos usuários da comunidade atendida pela biblioteca deve ser satisfeita (sempre em caráter momentâneo). O atendimento é local, mas a compreensão e estudo dos interesses, necessidades e desejos desses usuários, devem ser buscados em um âmbito global (globalizadas para as informações científicas e tecnológicas, e mundializadas para as informações públicas).

 

- As mídias tradicionais também sofrerão transformações. As mídias digitais terão mais espaços.

 

- As informações, cada vez com mais intensidade e contundência, estarão nas mãos de grandes conglomerados midiáticos. Até mesmo as informações que circulam nas redes virtuais (o controle das informações dá-se hoje no âmbito do alcance das informações que são veiculadas do que na censura e proibição da disseminação delas) já fazem parte dos interesses desses grupos. Assim, as bibliotecas deverão se constituir em espaços de informação alternativa, ou seja, a informação não comercial, informação não veiculada por essa mídia tradicional.

 

- Isso vale também para as informações científicas e tecnológicas, cada vez mais dominada por grupos com interesses comerciais e que, por força de seu poder econômico, ditam caminhos e destinos das pesquisas científicas no mundo. Autores são financiados, assim como suas pesquisas, por grandes indústrias que tentam fazer com que seus interesses sejam validados pela ciência. As bibliotecas devem ser espaço de resistência a isso.

 

- A biblioteca do futuro deve se voltar para os interesses, necessidades e desejos dos excluídos, das classes trabalhadoras, dos que estão alijados da apropriação da informação, dos que apenas têm acesso a informações oriundas das mídias dominantes. A biblioteca deve se transformar em uma alternativa à biblioteca pública hoje existente; deve ter seu interesse direcionado para as classes trabalhadoras; transformar-se em uma biblioteca guerrilheira. A Biblioteconomia deve se transformar em uma Biblioteconomia Guerrilheira, em uma Biblioteconomia da Libertação. Enfim, ser um espaço de resistência informacional.

 

Cada um desses itens, como outros que a eles devem se juntar, merece e pede análises e questionamentos mais amplos. O apresentado neste texto é apenas o início das discussões sobre o futuro, ou futuros, das bibliotecas.

 


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.