PRÁTICAS PROFISSIONAIS EM AMBIENTES DE INFORMAÇÃO


DIMENSÕES TIPIFICADORAS DO MERCADO INFORMACIONAL

O chamado “campo da informação” interfere desde a formação de disciplinas, campos do conhecimento e setores de pesquisa em comum até às práticas de atuação profissional (incluindo a construção de mercados) e representação ético-político-institucional. De maneira mais sintética o campo da informação pode ser compreendido a partir da aproximação dialógica e pragmática entre a Biblioteconomia, Arquivologia e Museologia (BAM) e, de maneira mais ampla, pode empreender às relações entre os campos da Ciência da Informação, Comunicação, Computação, Administração, entre outros.

 

Independente do conceito que se estabeleça acerca do campo da informação e das disciplinas que o constituem vale destacar que o mercado informacional é composto por um conjunto de características plurais e transversais que permitem ao profissional da informação ou do profissional que atua com informação transitar por vários contextos cotidianos.

 

Diante das características do mercado informacional e suas ramificações o quadro que segue concebe uma síntese a fim de promover uma discussão e compreensão sobre este mercado:

 

Quadro 1 – Características do mercado informacional

ORGANIZACIONAL

INSTITUCIONAL

TEMÁTICA

Convencional

Não convencional

 

Bibliotecas públicas, universitárias, escolares, especializadas

Organizações de saúde

Público

Gestor

Organizações jurídicas

Empresas

Arquivos

Indústrias

Privado

Organizador

Museus

Bancos

Público-privado

Mediador

Centros de cultura e documentação

Meios de comunicação

Terceiro setor

Tecnologias

 

Editoras, livrarias

Autônomo

Políticas (programas, projetos etc.)

 

Ambientes virtuais de aprendizagem

 

 

Fonte: elaborado pelo autor

 

Em primeira instância, o quadro revela sobre as características do mercado informacional:

 

a)    superar a percepção discursiva do senso comum de que “o profissional da informação não atua apenas em bibliotecas, arquivos e museus”, visto que mercado convencional e não convencional não são excludentes, mas, ao contrário, devem coexistir primando pela ampliação pragmática de atuação. Por exemplo, é possível que um profissional atue com bibliotecas e/ou arquivos em uma empresa, indústria, banco ou meio de comunicação ou que atue com práticas de informação por meio de bibliotecas (digitais) em ambientes virtuais de aprendizagem. Por isso é pertinente valorizar o convencional e o não convencional como fenômenos interdependentes de atuação sem relegar a um plano inferior a relevância de cada característica organizacional para o profissional da informação;

b)    a divisão convencional e não convencional não tem o objetivo de segregar, mas de estabelecer a dinâmica historicista daquilo que é dominante (tradicional) no campo da informação que é o mercado convencional e o que é emergente no caso do mercado não convencional;

c)     o quadro não busca estabelecer o nicho totalizador de atuação no mercado informacional, mas apenas indicar uma base geral de atuação no sentido de que as características apontadas formam práticas complementares e elementares de atuação;

d)    quanto a característica institucional o mercado informacional vem se alargando, sobretudo, para redimensionar o campo da autonomia do mercado informacional incentivando profissionais da informação na construção de seus próprios negócios como a formação de empresas vinculadas à organização e estruturação de ambientes de informação, editorias (científicas ou não), qualificação continuada de profissionais, normalização etc.;

e)    com relação a característica temática esta é , talvez, a mais complexa, pois é o que norteia as características organizacional e institucional e merece uma atenção mais detida.

 

Em segunda instância a característica temática perpassa por toda e qualquer dimensão do mercado informacional, visto que está inserida nas práticas organizacionais e institucionais do profissional da informação.

 

Iniciando pelo gestor: é a dimensão mais estratégica de atuação no mercado informacional. É o gestor que indica e trabalha na construção de fenômenos de atuação no contexto da organização, tecnologias, serviços, acervos, políticas, pessoas e outras práticas informacionais por meio de estruturação de modelos gerenciais e planejamentos estratégicos. O gestor no mercado informacional é aquele capaz de fomentar o estímulo à liderança, espírito de coletividade e sincronização da equipe promovendo perspectivas para ampliação e qualificação do mercado informacional. O gestor é ainda o profissional responsável por promover a ideia de eficiência e eficácia no mercado informacional, sendo a primeira entendida como “fazer certo a coisa” e a segunda como “fazer a coisa certa”. Logo, o gestor precisa ser eficiente dentro da eficácia, isto é, precisa fazer a coisa certa de modo certo.

 

O organizador, no mercado informacional, é o profissional que vai lidar com o tratamento de todo o acervo/documento/artefato (informação) disponível no ambiente. Por isso, a eficácia gerencial depende, sobretudo, das formas de organização para disseminação, mediação, recuperação e apropriação da informação. Para tanto é fundamental que haja uma estrutura tecnológica digital adequada de trabalho que permita ao profissional envidar às melhores formas de representação descritiva e temática de informação, assim como a criação de linguagens específicas para satisfazer desejos, demandas e necessidades de informação. O organizador, como profissional técnico, não deve ter sua função desvalorizada, mas ao contrário, é o profissional que dinamiza processos de informação (organização, armazenamento, disseminação) para se atingir resultados (recuperação, uso e apropriação da informação). Por isso, toda prática gerencial depende do organizador e toda prática de mediação depende de um sistema de informação organizado.

 

O mediador é o profissional mais pedagógico e ao mesmo mais transversal, pois atua na perspectiva de pensar, promover e aplicar serviços para construção de competências. Logo, o mediador atua no mercado informacional com três grandes indicativos: o pedagógico em que se situa na prática de estímulo a aprendizagem e construção/aplicação de conhecimentos; o técnico em que atua no âmbito da mediação implícita em diálogo direto com o organizador (aliás, o mediador também pode ser um organizador e vice-versa) e institucional em que o mediador assume uma postura gerenciadora com o intuito de verificar como é possível mediar, quais as causas que levam a determinada prática de mediação, procedimentos para o desenvolvimento estratégico da mediação e finalidades para que a mediação seja eficaz/eficiente (fazer a coisa certa de modo certo).

 

As tecnologias valem uma ressalva prévia. Não foi inserido o termo “tecnólogo” em virtude de que o profissional da informação que comumente atua no mercado informacional não é um tecnólogo, mas um aplicador de tecnologias. Isso não significa que não existam profissionais da informação tecnólogos, mas o intuito é atuar na aplicação de tecnologias no conhecimento de bases de dados, repositórios, práticas de inclusão digital, uso dinâmico dos ambientes virtuais etc. Por isso, quando se fala em tecnologias implica que toda prática gerencial, de organização, mediacional e política demanda o uso de tecnologias, seja física, seja virtual/digital. Aqui a tecnologia tem dois sentidos: o primeiro é de suporte físico/digital/virtual às demandas do mercado informacional (gerencial, organização, mediacional, política e outras); o segundo é de auxílio para dinamizar acesso e uso da informação em escala mais ampla compreendendo a máxima de que “o usuário da informação pode e deve ser usuário em qualquer lugar”; as tecnologias têm papel preponderante como meio para subsidiar a multiplicidade territorial/espacial do acesso à informação para além do espaço físico ocupado pelo mercado informacional. Por exemplo, em bibliotecas, arquivos e museus as tecnologias podem contribuir concretamente para que o usuário tenha direito a serviços em seu ambiente domiciliar estendendo à concepção de acesso e uso da informação.

 

Finalmente, a política é o aparato mais intelectivo do profissional no mercado informacional. O profissional que atua na elaboração de programas, projetos, eventos, cursos etc., está contribuindo para o desenvolvimento de sua atividade como um todo, pois delibera um espírito criativo de gestão, fomenta o caráter lógico da organização, dinamiza o fundamento pedagógico da mediação e otimiza o uso de tecnologias.

 

Diante de tantos perfis temáticos é possível encontrar um profissional da informação que possua todos os perfis? A priori, a formação acadêmica no campo da informação é generalista, o que significa que a ideia é fomentar no profissional conhecimentos gerais sobre os perfis temáticos com especialidades mais aguçadas em algum perfil. Por exemplo, o profissional pode reunir várias habilidades, mas com especialidade mais focalizada na gestão ou reunir várias habilidades, mas com foco mais preciso em mediação e política ou ainda reunir várias habilidades com perfil de organizador e tecnologias ou simplesmente pode ser um profissional multi dinâmico que atue com todos os perfis temáticos dependendo das necessidades organizacionais e institucionais.

 

Desse modo, as dimensões tipificadoras do mercado informacional demonstram a complexidade e potencialidade deste tipo de mercado, assim como os profissionais formados no campo da informação precisam de múltiplas habilidades para atuar nas características organizacionais, institucionais e temáticas do mercado informacional. É interessante que este profissional possua um conjunto de conhecimentos gerais que promovam fácil e profícua adaptação ao meio em que atua mesclada com um conjunto de conhecimentos temáticos especializados que destaquem o perfil do profissional no mercado informacional.


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JONATHAS LUIZ CARVALHO SILVA

Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal do Cariri (UFCA).