PRÁTICA PROFISSIONAL E ÉTICA


  • A prática profissional e a ética voltadas para a área da Ciência da Informação.

PRÁTICA PROFISSIONAL E ÉTICA: O QUE E QUEM FALA OU FALOU COM OS CANDIDATOS A PRESIDENTE DA REPÚBLICA DO BRASIL – 2015-2018 – EM NOME DOS BIBLIOTECÁRIOS?

De 2015 a 2018 o Brasil, aliás, nós como nação brasileira, contaremos com nov(x) Chefe de Estado e de Governo. Nos programas de campanha dess(x)s que se apresentam na disputa de tão alto posto/função fala-se aqui e ali sobre bibliotecas. Mas o que falam?

 

(X)s especialistas no tema, que constituiriam um grupo de interesse social –  bibliotecári(x)s – foram representados por quem ou quais entidades e em quais momentos para propor, se o foram? Eu, por exemplo, como professor de Cursos de graduação em Biblioteconomia e Arquivologia e de mestrado e Doutorado em Ciência da Informação, não ouvi e nem soube que nossas sábias opiniões tenham sido reunidas por quaisquer das entidades brasileiras que dizem representar bibliotecários, arquivistas, cientistas da informação e docentes e pesquisadores dessas áreas a fim de compor um arrazoado representativo de nossos estudos sobre a realidade brasileira na matéria, capaz de servir de subsídio para que as equipes de assessoramento desses postulantes ao maior cargo público do país pudessem: 1 – ter clara noção de que existimos; 2 – saber que pesquisamos e formamos um elevado volume de conhecimento sobre a realidade brasileira referente às necessidades públicas e empresariais de informação; 3 – que a partir do conhecimento que produzimos somos capazes de ultrapassar os limites acadêmicos de apreensão dessa realidade; 4 – somos capazes de propor soluções para tornar muito melhor o armazenamento, recuperação e acesso a toda a informação de interesse social; 5 – temos também a capacidade de articular e formular as demandas políticas apropriadas ao desenvolvimento dessa área.

 

Há aproximadamente cinco anos, no interior do ENANCIB (Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação), surgiu uma ideia depois transformada em FORUM EBCIB (Entidades de Biblioteconomia e Ciência da Informação brasileiras) que ao longo de 3 a 4 anos buscou consolidar algum esforço visando, pelo funcionamento como um parlamento que reunia essas entidades, formular proposições em nome dos bibliotecários, arquivistas e cientistas da informação, com ampla participação dos profissionais, pesquisadores, docentes e estudantes, gerando densidade de análise e manifestação. Entretanto, não foi possível se avançar o suficiente. Motivos há para a lentidão.  Um fato concreto é que o FORUM não teve fôlego para o pretendido.

 

Evidentemente, não é novidade essa inapetência das categorias mencionadas quanto à aproximação coletivamente empoderada e não subordinada com a política partidária e seus militantes. Essa atitude de subordinação que tem sua origem na noção predominante nos anos de 1930 a 1950 do bibliotecário designado como servus servorum scientiae, precisaria ser superada com debate, discussão e atitudes apropriadas, cuja tomada de consciência virá ainda (sou otimista). Uma nova atitude decorreria da ampliação dessa área com a implantação em sua vizinhança dos Cursos de Arquivologia e a dominação da Ciência da Informação como campo de pesquisa pois isso há de servir para alguma coisa em benefício da sociedade brasileira. Esse conjunto de esforços deverá ser capaz de construir pensamento e demonstrar com um discurso político suficiente o que os estudos realizados e o conhecimento aí produzido exibem como necessário para o desenvolvimento humano da nação.

 

Durante muitos anos, o Congresso Brasileiro de Biblioteconomia (e Documentação) – CBB/D foi a expressão de uma academia que ainda estava em formação e ali muitas proposições relevantes foram feitas para serem encaminhadas a vários setores. Se foram encaminhadas, de fato, não tenho o registro, que talvez possa ser objeto de averiguação junto aos documentos da FEBAB. Apenas, para lembrar, dentre as recomendações registradas nas atas finais das edições desse Congresso (*) realizadas antes da tomada do poder pelos mandões civis e militares em abril de 1964, tivemos:

 

- No I CBB (1954 - Recife)

“AO GOVERNO:

- Que facilite por todos os meios possíveis a entrada no país, ou aquisição, por parte dos interessados, de todo o material necessário à impressão e disseminação de livros;

- Que facilite a construção e manutenção de bibliotecas públicas, em número cada vez maior, em todos os recantos de todo o território nacional;

- Que facilite ao máximo, com apoio certo e ajuda efetiva, o intercâmbio com as bibliotecas nacionais, e destas com as estrangeiras;

- Que impeça que as nossas bibliotecas sejam devassadas, expurgadas ou de alguma maneira fiquem sujeitas à ação policial;

- Que impeça que se estabeleça, em tempo algum, em nome de quem ou do que quer seja, sob não importa que pretexto, qualquer forma de censura, por mais leve que seja, do que pode ser adquirido por bibliotecas brasileiras e nelas conservado para leitura e consulta dos interessados;

- Que seja banida para sempre – para todo o sempre – qualquer ideia de discriminação ou intolerância, para com os que escrevem ou leem os livros que constituem o acervo de nossas bibliotecas. Todos os homens são iguais perante Deus. E o pensamento vem de Deus;

- Que seja oferecida aos nossos bibliotecários – servos dos servos da cultura nacional – a mais completa garantia, no exercício de sua função, na integridade de seus cargos, e em tudo que de alguma maneira concorra para formar a sua personalidade perante os colegas nacionais e estrangeiros, e manter incólume a sua dignidade, de tal modo que cargo e ocupante representem dignamente o nosso povo e sua cultura no concerto mundial  das coisas;

- Que se assegure aos bibliotecários nacionais, tanto quanto possível, uma subsistência alheia aos azares da sorte, para o bom andamento e continuidade do movimento, amparando as suas organizações, e apoiando-as toda a vez que precisarem de apoio;

- Quem deem aos nossos bibliotecários voz ativa nas coisas que se referem à cultura geral, na medida em que saibam compreender a importância das suas funções e a grandeza da sua missão.”

 

- No II CBBD (1959 - Salvador)

 

“AOS GOVERNOS MUNICIPAIS, ESTADUAIS E FEDERAIS (sic):

- Que todos os Municípios mantenham uma Biblioteca Pública, com o mesmo interesse que põe na alfabetização;

- Que tais bibliotecas sejam confiadas à organização e orientação de portadores de diploma de Curso de Biblioteconomia ou de cursos que incluam esta Cadeira no seu currículo; (grifei)

- Que os Estados, nas capitais e nos Municípios, considerem a oportunidade de criação de Bibliotecas Circulantes, como serviço de extensão de suas Bibliotecas Públicas Enciclopédicas;

- Que as Bibliotecas Infantis das grandes unidades escolares, mantenham uma seção para os pais dos alunos, orientada por elemento especializado,”

- No III CBBD (1961 - Curitiba) não houve recomendações com foco na população dirigida ao Governo.

 

- No IV CBBD (1963 - Fortaleza)

“AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA:

- Que seja dada maior atenção para o problema das Bibliotecas brasileiras de modo geral e para o ensino da Biblioteconomia nas Universidades brasileiras de modo especial”.

 

Em que pese à expressão da servidão dos bibliotecários aos servidores da cultura, mencionada nas deliberações finais do I CBB, os bibliotecários brasileiros ao final das I, III e IV edições do CBB/D estavam atentos às questões nacionais que repercutiam na profissão e, todas permanecem aí hoje como problemas, merecendo ser reafirmadas.

 

Destaque-se também que, conforme grifei do II CBBD, os bibliotecários tinham uma posição socialmente avançada em 1959, se compararmos com o que dizem nos dias atuais, em relação à presença na Biblioteca Pública de egressos de outros cursos que oferecessem cadeira de Biblioteconomia, quanto a assumirem as funções de organização e orientação. Hoje os bibliotecários formados e registrados nos Conselhos parecem que não aceitam nem mesmo discutir esta ideia em relação à Biblioteca na Escola. Quanto atraso!

 

Ao fim e ao cabo, parece que antes de 1964 estávamos, com e pelo povo, construindo uma prática profissional bibliotecária que foi enterrada; até mesmo a capacidade de formular um documento nacionalmente consensuado para um momento como o atual, que se esperaria como corolário daquelas recomendações produzidas nos primeiros CBB/D, desapareceu do horizonte imediato do bibliotecário brasileiro. Acho que a dominação da Ciência da Informação no espaço de ensino e pesquisa da Biblioteconomia no Brasil, no que toca a isso, poderia ser objeto de pesquisas para dissertações, teses...

 

(*)  FERREIRA, Carminda N. de C.; TOLEDO, Maria do R. de C. F; FERREIRA, Ruthe H. C. 1954-1979; Jubileu dos Congressos de Biblioteconomia e Docmentação. Curitiba, 1979. 


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FRANCISCO DAS CHAGAS DE SOUZA

Docente nos Cursos: de Graduação em Biblioteconomia; Arquivologia; Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação da UFSC; Coordenador do Grupo de Pesquisa: Informação, Tecnologia e Sociedade e do NIPEEB