MEDIAÇÃO DA INFORMAÇÃO


  • Reflexões sobre a Mediação da Informação, englobando aspectos teóricos e práticos.

MEDIAÇÃO DA LEITURA?

Viajando, outro dia, de São Paulo para Marília, de ônibus, sentei em uma poltrona do lado interno, ou seja, o do corredor. A poltrona vizinha estava ocupada por um senhor.

Sempre dou preferência pela poltrona do lado do corredor, pois, como viajo muito, já me defrontei com situações não muito agradáveis e muitas delas não puderam ser resolvidas ou amenizadas porque me encontrava na poltrona “da janela”. Uso o corredor do ônibus como “fuga” para minhas pernas ou como refúgio para o qual volto meu rosto e, não poucas vezes, parte de meu tronco.

 

Usualmente, quando a viagem ocorre durante o dia ou início da noite, aproveito o percurso para ler. Em uma determinada época, lia quase todas as 14 horas (7 de ida e 7 de vinda) entre São Paulo e Londrina que, quinzenalmente, suportava. Não existiam, então, os mp3, mp4, mp5 e que tais. Isso me levou a conhecer, de maneira compulsória, sem o desejar e, pior, odiando, histórias de vida de muitos passageiros que o acaso nos reunia nessas viagens. Hoje, esses aparelhos são meus companheiros indispensáveis e enfeitam (ou enfeiam) minhas orelhas em todo o trajeto das viagens que faço.

 

Mesmo em aviões (que detesto, mas sou obrigado a utilizar – e em grande quantidade para meu gosto) um “egoistinha” (chamo esses aparelhos de egoistinhas pois permitem o prazer das músicas, vídeos, etc., apenas a seus donos) está em minhas orelhas, em alguns momentos, ou em um dos meus bolsos, em outros.

 

Os assentos “das janelas” são disputados e considerados objetos de desejo nas viagens, tanto de ônibus como de avião. Muitas são as explicações para a escolha desses lugares: parte delas coerentes, outras nem tanto. Entre elas, “para ver os verde das pranta”, como dizia minha sogra referindo-se a um passageiro que viajou ao seu lado e pediu a ela para se sentar no lugar junto à janela, lugar que ela ocupava. A justificativa que ele deu ao ser indagado por ela sobre o motivo pelo qual queria a troca de lugar (“ver os verde das pranta”) era constantemente lembrado por ela, sempre com um sorriso, pois a viagem era noturna.

 

O “egoistinha”, além do prazer das músicas, também me permite escapar dos assédios dos tagarelas, aqueles que adoram conversar com os passageiros do lado, de preferência durante toda a viagem. Se antes mesmo de se ajeitar na poltrona a pessoa que o destino (no qual não acredito) lhe reservou como companheiro de viagem lhe perguntar: “Você é daqui mesmo?”, responda de maneira mais monossilábica possível, acomode os fones em seus ouvidos (ou ao menos no que está mais próximo de seu vizinho), abra um livro, se a viagem for diurna, e mostre-se interessado e compenetrado na leitura, mesmo que ela seja maçante e chata.

 

Lógico que essas dicas são para aqueles que, como eu, gostam do silêncio e da oportunidade de leitura. Não são válidas para os também tagarelas, a exemplo do fictício personagem (será mesmo fictício?) que apresentei acima.

 

Voltando à viagem: após a saída do ônibus, reparei que dois assentos contíguos (janela e corredor) estavam vagos pouco à frente do lugar em que eu estava. Esperei que deixássemos a Marginal Tietê, entrássemos na Rodovia Castelo Branco para, depois do trecho mais movimentado do início da estrada, juntar minhas coisas e tomar posse das duas poltronas.

 

Refestelei-me. Coloquei o cinto de segurança, levantei o braço divisório das poltronas, coloquei um pé em cada um dos suportes próprios para eles, ajeitei os fones de ouvido. Larguei na poltrona do lado, o livro que acabara de ler. Dentro dele, inseri o bloco de papel rascunho que sempre carrego comigo. Peguei o novo livro (na mala, mais dois ainda virgens de minha leitura foram preteridos por aquele) e apreciei a capa.

 

Esse é um hábito que tenho: antes de iniciar a leitura de um livro, gosto de olhar a capa, a contracapa, alisá-las, sentir a textura do papel ou, em alguns casos, o relevo do título ou de imagens. Essas coisas. Tento analisar os desenhos, gravuras, imagens, o formato das letras, as cores: o que têm elas a ver com o tema, com o assunto do livro? Há vezes em que não entendo e só vou consegui-lo após a leitura de parte do texto; outras, nem depois de, leitura feita, ter colocado o livro para descansar na estante a ele destinado.

 

Depois disso, gosto de ler a contracapa e as orelhas. Diz meu amigo Túlio, dono da Editora Polis, que livro sem orelha não é livro. Na verdade, livro sem orelha dá orelha. A frase é óbvia, mas parece que muitas editoras não se aperceberam dessa obviedade.

 

Também leio as dedicatórias, epígrafes, página de rosto e até o sumário. Mais: vou sempre à cata do colofão. Só depois disso é que começo a ler o livro, propriamente. Propriamente? Isso significa que as ações anteriores não eram leitura? Esquece o propriamente. Para mim, a leitura começa na capa, ou melhor, começa na escolha do que irei ler. Há sempre, no ato da escolha da próxima leitura, uma relação com os meus interesses de momento, com minhas atuais reflexões, minhas angústias pessoais e intelectuais. As escolhas não são dissociadas do que somos e do que vivemos. Há uma pré-leitura na escolha. Muitas vezes erramos: escolhemos um livro que não nos interessa, que nada nos fala e só descobrimos isso, lendo. No entanto, tal situação em nada altera a pré-leitura existente na opção por livro em meio a infinitos deles (infinitos porque nossa capacidade de leitura é ínfima frente ao universo das publicações).

 

O livro escolhido para leitura naquele momento era de autoria de Alberto Manguel.

 

Não sei se o livro foi de fato escolhido por mim ou se ele “se escolheu”.

 

Pode parecer estranha essa afirmação, mas há muito do acaso nas escolhas, nas opções. Nem sempre o livro certo, como queria Ranganathan, se apresenta, está disponível. Aliás, qual é o livro certo? Quem determina qual o livro certo? O bibliotecário? O usuário? As editoras? Os pais? Os professores? Nossos gostos são “puros” ou são estimulados, ou são impostos, ou são uma mescla disso? Essa é uma discussão para outro momento, mas vale a pena rediscutirmos as 5 leis de Ranganathan: elas parecem dizer muito, embora, talvez, não digam tanto assim. Não tenho nada contra ele. Tanto nada tenho contra que propus Shiyali Ramamrita Ranganathan como nome de um dos meus cachorros. Minha mulher, mesmo sendo bibliotecária, não gostou: “Vamos chamá-lo de quê? Ranga?”. Ela estava certa. Utilizar Ranganathan para batizar meu cachorro seria como uma homenagem. Tanto é assim que ele iria conviver com o Sig, nosso cocker spaniel. Como Ranganathan foi descartado, nosso novo cachorro, um boxer, passou a se chamar Jung. Infelizmente, em setembro passado, de velhice, nosso Jung morreu – e sem saber que quase homenageou um grande nome da biblioteconomia. Em tempo: Jung deixou viúva a Klein, uma labradora.

 

Voltando mais uma vez: o livro do Manguel que comecei a ler chama-se “A cidade das palavras”. Ajudando – de bom grado – a uma colega do programa de pós da UNESP a escolher livros para presente, deparei-me, sem querer, com ele. Não sabia de sua existência. O copyright é de 2007, mas publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2008. Havia lido três livros do Manguel (Uma história da Leitura; Lendo imagens; A biblioteca à noite) e gostado. Eu o encontrei por acaso. Minha atual leitura é fruto de um encontro casual,

 

Ritual da pré-leitura concluído, comecei a leitura na página 11 – Introdução – quando percebo, de “rabo de olho” (minha mãe diria “de esguelha”) uma garota na poltrona da fileira anterior à minha, me olhando com atenção. Eu estava na poltrona do corredor, do lado direito do ônibus e ela também na poltrona do corredor, mas do lado esquerdo, uma fileira à frente. Separava-nos apenas o corredor e o espaço entre as fileiras.

 

Lembrei-me que quando entrei no ônibus, muitos passageiros já estavam acomodados, inclusive ela. Um problema causado por algum parente de passageiro mais idoso que o havia acompanhado até o assento e, no contrafluxo, tentava deixar o interior do ônibus, deixou-nos, retardatários, em pé esperando o fim do problema. Parei do lado dessa menina, de aproximadamente 3 anos. Ela perguntou onde eu sentaria. Respondi que mais atrás e ela me disse que a poltrona onde estava era o seu lugar.

 

Sentado, com o livro na mão, sentindo o olhar da menina, pensei em deslocar meus olhos do livro para ela. Percebi, no entanto, que ela estava com um travesseiro sob a cabeça, enrolada em seu próprio corpo, de forma a caber “de través” na poltrona – torci para que essa posição fosse confortável –, uma chupeta na boca, cara de sono e os dedos apertando a ponta do travesseiro, cujo estado denunciava um uso freqüente – e acho que indispensável – para a hora de dormir.

 

Se conversasse com ela, certamente impediria seu sono e a mãe não ficaria nada satisfeita com isso.

 

Li o primeiro parágrafo, mas me dei conta de que nada havia apreendido: estava pensando no olhar da menina. Ela continuava com a cabeça voltada para mim.

 

O que estaria pensando aquela menina enquanto me olhava? Não sou bonito (ninguém vai retrucar?), nunca fui, mas espero que um dia a tecnologia possa mudar isso. O problema é que as tecnologias nunca resolvem o que de fato queremos. Há um Procon para se reclamar da falta de invenções?

 

Algumas crianças choram quando me veem – espero que por causa de minha barba. Com outras, faço sucesso, provavelmente porque gosto de crianças. O que pensaria aquela menina?

 

Antes, como faço frequentemente, procurei por leitores no ônibus. Não consegui ver todos, mas até onde meu olhar permitia e obstáculos não o obstruíam, ninguém estava lendo. Nem mesmo um livrinho qualquer de autoajuda. Ficaria contente até mesmo com um Lair Ribeiro. Ninguém. Uma revistinha de R$ 1,99, com fofocas de artistas de novela? Nada. Palavras cruzadas, Caça palavras, Sudoku, Coquetel? Nem sinal. Meu reino por alguém com um Paulo Coelho.

 

Não tenho nada contra determinadas leituras (mesmo aquelas que não conseguimos ir além de relacioná-las com passatempo). Amo palavras cruzadas e, agora, Sudoku. Já li vários livros de Paulo Coelho. Recentemente, a Aparecida, aluna do curso de Biblioteconomia da UEL e minha orientanda de TCC, me emprestou “Verônica decide morrer”. Li. Até gostei, mas não a ponto de chamá-la de boa literatura. Tudo tem limites.

 

Em estava lendo em um ônibus em que muitos dormiam; outros olhavam, sem ver, pela janela;  outros buscavam algo no teto e outros mexiam em seus celulares. Uma garota, adolescente, passou toda a viagem com o celular na mão, obcecada. Fazendo o quê? Não tenho ideia.

 

Talvez a menina estivesse olhando para mim, exatamente porque eu estava com um livro na mão, ao contrário dos outros. Esse era o diferencial. Eu, leitor (já vi isso em algum lugar). Será que ela tem parentes, pessoas próximas que leem? Acabei me sentindo um mediador de leitura “de través”, ou seja, um mediador da idéia de leitor. Aquela menina talvez estivesse olhando para um leitor pela primeira vez. Há muitos leitores nas novelas, nos desenhos animados, no Cartoon, no BBB, nos programas do Faustão, do Silvio Santos, do Gugu e outros iguais? Há personagens de videogame que leem?

 

Que responsabilidade! Preciso mostrar para essa menina, pensei, que ler é bem gostoso, agradável. Preciso trazê-la para o clube dos leitores, para a tribo dos que gostam de livros. Embora não tão pequena, nossa tribo precisa de mais adeptos e eu, membro, sou responsável por captá-los, laçá-los, caçá-los.

 

Ela continuava olhando. Achei que deveria evidenciar o prazer que a leitura me dá. Como fazer isso? Rindo. E como rir? Desbragadamente? Não. Boca aberta, fazendo barulho? Não. Apenas erguendo os cantos da boca? É, talvez seja o mais apropriado. O problema é que não estava com vontade de rir e, assim, o riso sairia forçado, quase um esgar. Vou ficar mais feio do que já sou. Ler torna as pessoas feias? Resolvi não rir.

 

Quem sabe demonstrar surpresa? Trouxe à tona meus 15 anos de teatro amador e pensei em uma expressão de surpresa. A ensaiei mentalmente. E se não saísse correta? E se ao invés de surpresa minha expressão passasse a ideia de dor? Ler causa dor? Causa, mas não precisamos dizer isso a ela agora. Ela descobrirá depois que se tornar uma efetiva e contumaz leitora.

 

Se não surpresa, que tal assombro? Não, ela ficaria com medo.

 

Interesse? Dúvida? Angústia? Choro? Alívio? Apreensão? Ódio? Alegria? Tristeza? Reflexão?

 

Enquanto decidia, esqueci-me dela. Quando recuperei minha atenção, ela havia mudado de lugar – com a cabeça voltada para a mãe – e dormia.

 

O que ela vai pensar do leitor e, principalmente, da leitura? O que passei a ela?

 

Durante todo esse tempo, permaneci na mesma página 11 e nada li, nem uma linha sequer.

 

Retomei/comecei a leitura, mas meus pensamentos insistiam na questão de como deveria ter passado para aquela menina a relação leitor/livro/leitura, para que ela também possa se tornar uma leitora.

 

Torci para que a criança, em seus sonhos, lembrasse daquele cara com um livro na mão e sentisse nele algo diferente, que valesse a pena ser copiado; que o cara com o livro tivesse passado alguma coisa, algo que mostrasse a leitura como agradável, gostosa.

 

O ônibus chegou à rodoviária de Marília, embora seguisse para Tupi Paulista.

 

Em meu mp3, Mercedes Sosa deu lugar a Fagner e, enquanto recolhia minhas coisas, o ouvia cantando “Fanatismo”, poema de Florbela Espanca musicado por ele. O CD era a gravação de um show ao vivo, em Fortaleza e, ao fundo e nos momentos em que Fagner solicitava ou instigava, milhares de vozes cantavam – declamavam com música? – um poema de Florbela Espanca. Lindo. Algumas músicas à frente seria a vez de um poema de Cecília Meireles, também musicado por ele.

 

Deixando o ônibus, no corredor, passei pela poltrona onde estava a menina. Para ela a viagem continuava. Olhando para mim, sorriu. Passei a mão em sua cabeça e retribuí o sorriso. Senti pureza, simpatia, alegria, sei lá o que mais. Ela me passou isso em um sorriso, mas foi um sorriso espontâneo, não forçado. Ela não estava buscando adeptos, seguidores, forçando algo que não sentia; não queria que eu fizesse parte da tribo dela. Não fingiu atenção ao vídeo que terminava. Simplesmente, ela foi ela.

 

Desci do ônibus com minha mala, minhas bugigangas eletrônicas, meus livros e a esperança de encontrar, em outras viagens, crianças como ela. Acho que agora sei como reagir a um olhar questionador, curioso, e a lidar com uma mediação de leitura “de través”.

 

Ah! Vale contar: quando descia do ônibus, vi um livro sobre uma poltrona. O passageiro, provavelmente, havia aproveitado a breve parada para ir até o banheiro. Não consegui ver o título do livro, pois ele estava com a capa virada para baixo. Sei apenas que era um pocket da L&PM. Importa qual livro? Alguém mais lia.


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OSWALDO FRANCISCO DE ALMEIDA JÚNIOR

Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.