INFORMAÇÃO, UTOPIAS E DISTOPIAS


  • A coluna propõe reflexões sobre a informação no cotidiano e nas práticas profissionais em meio às utopias e às distopias da contemporaneidade, abordando temas em diálogo com diferentes áreas e linguagens.

QUANDO MEMÓRIA MATERIAL IMPORTA: IGREJA, ESQUADRÃO DA MORTE, REDEMOCRATIZAÇÃO DO BRASIL E INTENTONAS GOLPISTAS

 

"A vida não é como você vê no cinema. A vida é mais difícil."

“Não voltes. Não penses em nós. Não te vires. Não escrevas. Se não resistires e voltares, não me procures. Não te deixarei entrar em minha casa. Entendeste?”

Traduções livres de frases do personagem Alfredo, no filme Cinema Paradiso, dir. Giuseppe Tornatore, 1988. A última trata-se de um conselho doloroso, mas afetuoso, dirigido ao amigo Salvatore (Totó), para que siga seus sonhos e não permita que o peso da memória o imobilize.

 

As tentativas de golpe de Estado lideradas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (hoje encarcerado no complexo da Papuda), com respaldo de militares, políticos e outros segmentos da sociedade civil, ficaram evidenciadas nos resultados dos trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito dos Atos de 8 de Janeiro de 2023, instalada em 25 de maio e com o relatório aprovado em 18 de outubro de 2023. Esta Comissão investigou as ações antidemocráticas de bolsonaristas civis e militares, incluindo a depredação das sedes dos Três Poderes da República, em Brasília.

Tais intentonas despertaram um pensamento compartilhado por muitos e que não é novidade: a convicção de que falhamos, como sociedade, ao não expor, com o devido cuidado, as mazelas e horrores dos regimes de exceção, como os vivenciados recentemente no Brasil durante a Ditadura Civil-Militar (1964-85), ao não punir os agentes repressores do Estado, bem como não trabalhar com a sensibilização da população acerca do perigo do retorno da extrema direita ao poder.

Nossa inércia tem se manifestado de diversas formas, e nossa relação com a memória material exemplifica esse fenômeno. Parte dessa paralisia se torna evidente quando deixamos de reconhecer monumentos que nos auxiliam a rememorar o passado. Historiadores têm trabalhado com essa questão há pelo menos um século. Gostaria de pontuar, a seguir, de forma breve, elementos que considero relevantes: a distinção entre monumentos voluntários e involuntários, a importância da cultura material e como essa perspectiva abriu caminho para considerar, entre outros aspectos, a biografia dos objetos, das edificações e dos lugares.

 

MEMÓRIA MATERIAL E HISTÓRIA

 

O historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014) (1) ressalta que os monumentos voluntários, como estátuas, bustos, obeliscos e arcos edificados, são criados intencionalmente para recordar pessoas ou eventos específicos. Outra perspectiva emerge quando locais, edifícios e objetos adquirem significância no cotidiano ao testemunharem eventos. Nessa circunstância, testemunhos materiais se tornam monumentos involuntários, cuja preservação é justificada independentemente de terem sido concebidos, originalmente, como monumentos.

Seguindo os indícios e os rastros da materialidade, com ou sem a significação prévia, historiadores têm utilizado os vestígios da cultura material como fontes históricas desde pelo menos a primeira metade do século XX. Por exemplo, para realizar a análise da história das crenças, Marc Bloch (1886-1944) (2) observa que as expressões tangíveis, como igrejas e seus artefatos, fornecem informações tão ou mais precisas do que os registros escritos sobre as crenças. Outro importante historiador francês, Pierre Nora (1931-), (3) desenvolveu o conceito de lugares de memória, que abrange não apenas o aspecto material, mas também a imaginação, os rituais e a aura simbólica associada a lugares, coisas e pessoas.

Conforme nos ensinam, ainda, os historiadores, para além do significado particular, evocativo de emoções ao indivíduo, determinados objetos e lugares assumem uma dimensão simbólica com alcances mais amplos. O conhecimento da biografia cultural das coisas, (4) dos objetos, dos lugares pode nos auxiliar a recordar e a elucidar, por exemplo, os abusos perpetrados pelo arbítrio do poder, contribuindo para evitar que tais violências se repitam, tanto contra a humanidade quanto contra outros seres e ao meio ambiente.

Com a menção a alguns proeminentes historiadores do século XX tento esclarecer que a reflexão sobre o momento em que a memória material se torna relevante para a sociedade é um tema longamente explorado. É importante ressaltar que não tenho a pretensão de assumir o papel de historiador, profissional que admiro. Eu gostaria apenas de chamar a atenção para a nossa relação, no dia a dia, com os objetos, com as edificações, com os lugares. Os rumos que seguimos como sociedade pode ser um indício de como nos relacionamos com tais elementos. Estar ou não alheios a essa materialidade pode ter implicações na coletividade. Institucionalizar a memória material significativa, em termos de patrimônio cultural, tem sido um desafio que continua a ser perseguido.

 

MEMÓRIA MATERIAL E PATRIMÔNIO

 

A destruição de objetos e edifícios, ou a descaracterização de lugares que foram testemunhas do passado, é uma realidade conhecida no Brasil. O horizonte de se tornar “o país do futuro” para se “viver em berço esplêndido” frequentemente faz com que o país negligencie sua memória em nome do progresso. Um olhar atento sobre essa perda pode representar uma oportunidade para a criação de espaços memorialísticos. Esses espaços podem ser estratégicos diante do que parece ser um destino inevitável. Em uma realidade a qual a memória é seletiva e sua preservação tem implicações políticas, espaços de memória podem se tornar locais para a expressão e promoção de uma cultura democrática.

A presença de testemunhos materiais, quando considerada um bem relevante para a humanidade, pode ser incorporada ao processo de patrimônio cultural ou natural. Essa incorporação é, por vezes, reconhecida a partir da fundamentação em investigações realizadas em universidades, em institutos de pesquisa e de patrimônio. O reconhecimento formal ocorre com a atuação do Estado, como no caso do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Brasil, ou por meio de organizações supranacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O website do Iphan (portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/24) resgata a classificação da Unesco, a partir da qual países signatários da Convenção do Patrimônio Mundial Cultural e Natural de 1972, incluindo o Brasil desde 1978, encontram referência para conceber valores universais excepcionais – dentre os quais, o valor histórico – de meios materiais que podem se manifestar em e como edifícios, instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais. Existe, ainda, a possibilidade de reconhecimento patrimonial de manifestações culturais imateriais, tais como saberes, práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas reconhecidos por comunidades, grupos e indivíduos. Já o reconhecimento do patrimônio natural pode incluir itens físicos, biológicos e geológicos, habitats de espécies animais e vegetais, e áreas que tenham valor científico, de conservação ou estético excepcional.

A partir dessa classificação da Unesco surge uma pergunta: E quando os responsáveis formais por uma edificação, ou setores ou membros da comunidade onde a construção se insere, aparentemente não reconhecem os valores históricos e culturais de tal edifício, apesar de haver potenciais testemunhas orais e documentais para fundamentar a solicitação de tombamento patrimonial? O edifício da paróquia Nossa Senhora de Fátima – conhecida com igreja da Vila Fátima – situado na cidade de Guarulhos-SP, parece se enquadrar nessa complexa situação.

 

CAMADAS MATERIAIS DA MEMÓRIA

 

A reflexão sobre a importância da memória coletiva – no caso, do que aqui pretendo destacar, expressa em edifícios – surgiu durante uma excursão a cidades históricas de Minas Gerais, quando participava como ouvinte de uma disciplina de graduação na área de artes, focada no Barroco brasileiro. Esse curso foi ministrado em 2008 pelo professor Percival Tirapeli, da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), do campus da cidade de São Paulo. Na época, minha namorada (atual esposa) e eu conseguimos participar dessa excursão, apesar de sermos egressos de outro campus da instituição.

Vivenciamos uma imersão no universo do Barroco brasileiro, explorando obras criadas por artistas, como o extraordinário Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em cidades como Ouro Preto, Ouro Branco, Congonhas, Sabará, Tiradentes, São João Del-Rei, Catas Altas, Mariana, entre outras. A cidade de Mariana se tornou nossa base, e tivemos a oportunidade e a sorte de presenciar, naquela semana, um espetáculo de artistas mineiros – Beto Guedes, Lô Borges e Flávio Venturini – que fizeram parte do movimento musical Clube da Esquina. O cenário foi o pelourinho de Mariana, diante de duas igrejas barrocas dispostas perpendicularmente como em um diálogo, que outrora testemunharam o horror do flagelo de pessoas pretas escravizadas e que, naquele momento, estavam testemunhando a beleza daquela apresentação musical.

A igreja barroca em Catas Altas permanece inacabada em virtude do seu tombamento pelo Iphan em 1937. Durante a visita neste templo, o professor Tirapeli chamou a atenção para uma parede com camadas de tintas e acabamentos expostos, bem como para distintas intervenções arquitetônicas. Sua análise revelou que cada camada correspondia a um período histórico, refletindo uma disputa entre irmandades religiosas, algo que evidenciava a responsabilidade de cada irmandade em diferentes momentos da igreja. As camadas representavam intervenções estéticas e vestígios de uma disputa político-religiosa.

Essa noção de camadas do tempo tomou, para mim, outro sentido em virtude de uma experiência que acabara de vivenciar. No mesmo ano da minha excursão às cidades históricas de Minas Gerais, a igreja da Vila Fátima estava passando por uma “reforma”. Durante uma visita à família, em Guarulhos-SP, observei que aquela igreja estava em ruínas devido à reconstrução do prédio e do campanário. Isso me causou consternação, pois o local trazia boas recordações e eu sabia que aquele prédio tinha importância histórica. (5) Minha mãe demonstrou certo entusiasmo com as melhorias em andamento na igreja.

Parti para a excursão a Minas com aquele registro inicial da “reforma” da igreja da Vila, embora naquele momento não tenha me atentado completamente para outras possíveis implicações ou para significados mais amplos. A visita à igreja em Catas Altas ampliou a sensação de impotência assim que me lembrei, com mais detalhes, da paróquia da Vila Fátima e do que sabia sobre sua história. Esta igreja foi testemunha de acontecimentos relevantes da história recente do Brasil, especialmente durante uma fase mais truculenta da Ditadura Civil-Militar e, posteriormente, durante o processo de redemocratização do país, no final dos anos 1970 e primeira metade da década de 1980.

 

ESQUADRÃO DA MORTE NO QUINTAL DA IGREJA

 

Depois de apenas quatro anos da sua fundação, em 1964, a paróquia da Vila Fátima e seus arredores foi palco, no ano de 1968, da ação de policiais criminosos. Entrava em cena justiceiros autodenominados Esquadrão da Morte, liderados por Sérgio Fernando Paranhos Fleury, o famigerado delegado Fleury. Ele era conhecido por suas ações sádicas, por vezes mediante o emprego de métodos de tortura e execução. O ano de 1968 também marcou o recrudescimento da violência durante a Ditadura Civil-Militar no país, oficialmente empoderada pelo decreto do Ato Institucional Número 5, também conhecido como AI-5, que ampliou o cerceamento de direitos e o arbítrio para prender ou eliminar opositores políticos ou aqueles considerados perigosos à sociedade.

Em 23 de novembro de 1968, membros do Esquadrão da Morte se dirigiram à Vila Fátima em busca de Antonio de Souza Campos, conhecido como Nego Sete, supostamente membro de um grupo criminoso e acusado, pelo Esquadrão, de participar da execução do investigador David Romero Paré. Dias depois de erroneamente prenderem outro Antonio, com o apelido de Sabiá, os justiceiros armaram uma armadilha para Nego Sete, que foi executado ao chegar em casa. A íntegra do relato e parte do processo judicial consta no livro Meu depoimento sobre o esquadrão da morte, (6) publicado em 1976 e escrito pelo então Procurador de Justiça do estado de São Paulo, o doutor Hélio Pereira Bicudo.

Parte relevante da descrição sobre a execução do Nego Sete foi fornecida pelo padre canadense Geraldo Mauzeroll, então responsável pela paróquia da Vila Fátima. O padre relatou o acontecimento em uma carta entregue a Bicudo. Nela consta a prisão equivocada de Sabiá, confundido com Nego Sete, a menção sobre ter escutado os tiros que mataram Nego Sete, bem como presenciado a partida dos carros utilizados. O padre fotografou, de dentro da igreja, a casa onde ocorreu o crime, permitindo a identificação de testemunhas. Ademais, ele forneceu à Justiça anotações das placas dos veículos e sua impressão sobre o perfil de alguns policiais envolvidos, dentre eles, o delegado Fleury. Todos os agentes envolvidos negaram a participação, apesar de seus álibis não se sustentarem. Logo depois do depoimento epistolar do padre, e realizadas audiências e investigações, o Esquadrão da Morte foi desmantelado e parte de seus membros presos. (7)

Em 1971, o padre Mauzeroll caiu de um andaime enquanto inspecionava a obra no campanário da igreja. Havia indícios para atribuir a queda a um atentado, embora a dúvida permanecesse naquele momento. Somente posteriormente, um dos membros do grupo de extermínio, Ademar Augusto de Oliveira, mais conhecido como Fininho, admitiu a tentativa de homicídio em entrevista concedida ao jornalista Percival de Souza. (8). Ao retornar ao Canadá para se tratar, o padre ficou durante um longo período com suas faculdades mentais comprometidas. Apesar das sequelas visíveis em sua postura corporal e da ausência de memória sobre o que ocorreu no dia da queda, ele conseguiu se recuperar.

Figura 1 – Prédio original da paróquia Nossa Senhora de Fátima com o campanário e novo prédio

 

Prédio original da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, com campanário, onde o padre Geraldo Mauzeroll sofreu atentado em 1971.
Fonte: Fonte: Paróquia Nossa Senhora de Fátima, [2024].

  

Novo prédio, concluído em outubro de 2010 após a demolição do original.
Fonte: Fonte: Paróquia Nossa Senhora de Fátima, [2024].

 

Em gentil depoimento concedido a mim em 17 de fevereiro de 2024, o advogado, ex-vereador de Guarulhos e ex-deputado federal por São Paulo, Orlando Fantazzine Neto, relata aspectos da sua parceria com o padre Mauzeroll. Ele menciona que o padre retornou a Guarulhos entre a primeira e a segunda metade da década de 1970 e assumiu atividades na paróquia da Vila Fátima, onde residia com outros padres canadenses. Foi o principal incentivador, juntamente com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e outros padres e religiosos, da Pastoral Carcerária na cidade. Na Vila Fátima, criou e coordenou um movimento ecumênico dentro dessa Pastoral, envolvendo representantes de outras religiões.

 

Depois que uma criança foi assassinada brutalmente pelo dono de uma quitanda na Vila Fátima por furtar uma fruta, durante a Campanha da Fraternidade intitulada “Fraternidade, sim, violência, não”, o padre Mauzeroll sugeriu a criação de uma Pastoral de Direitos Humanos, que foi estabelecida em 1983, sendo a primeira e possivelmente a única pastoral desse tipo criada na diocese de Guarulhos naquela época. No entanto, a Pastoral de Direitos Humanos, inicialmente sediada apenas na Vila Fátima, expandiu suas preocupações para além daquelas abordadas na localidade. Surgiram preocupações relacionadas aos movimentos de favela, a pedidos de despejo, ao transporte público e a questões relacionadas à proteção dos direitos das crianças e adolescentes, ainda não abordadas, nesses termos, pelo código da época, que os tratava como “menores”.

Em 1984, durante a assembleia diocesana para tomada de decisões, surgiu a necessidade de expandir as atividades da Pastoral de Direitos Humanos para outros bairros. Diante desse desafio, o bispo dom João Berguese propôs que o grupo da Pastoral, liderado pelo padre Mauzeroll, com a participação de Fantazzine, considerasse a ideia de transformá-la em um Centro de Direitos Humanos da diocese. Embora a proposta do grupo, inicialmente apresentada por Fantazzine, tenha enfrentado contestações por parte de alguns religiosos e leigos durante a assembleia, o apoio decisivo do bispo e, posteriormente, a adesão da maioria dos presentes levaram à sua aprovação. Este momento consolidou o compromisso da diocese com os direitos humanos.

Após a fase de formalização legal da entidade e o início das articulações com organizações de outros países, como a Alemanha, para obtenção de financiamento, o Centro de Direitos Humanos de Guarulhos (Cddh-Guarulhos) foi oficialmente inaugurado em 1985. O evento contou com a presença do doutor Bicudo e do bispo auxiliar de São Paulo, dom Luciano Mendes de Almeida, jesuíta que posteriormente se tornou arcebispo de Mariana, em Minas Gerais. Dom Almeida representou a denominação religiosa à qual também pertencia o padre João Bosco Burnier, em cuja homenagem o Cddh-Guarulhos foi nomeado. O padre Burnier foi assassinado por engano pela polícia, já que o alvo era o bispo da prelazia, Dom Pedro Casaldáliga, em São Félix do Araguaia, no estado do Mato Grosso, enquanto ambos intercediam junto aos policiais e à justiça para acabar com a tortura infligida aos posseiros pobres da região.

Pouco antes de seu falecimento em 1999, o padre Mauzeroll foi agraciado com o primeiro Prêmio Estadual de Direitos Humanos do Estado de São Paulo em 1998, entregue pelo então governador Mário Covas. Este momento foi simbólico, como observado por Fantazzine, já que tanto o padre quanto o governador estavam enfrentando a batalha contra o câncer, uma doença que os levaria pouco tempo depois daquele encontro. Em homenagem, o Cddh-Guarulhos incorporou o nome “Pe. Geraldo Mauzeroll” à sua denominação em 2002. Além disso, uma rua no bairro Jardim Santa Emília, em Guarulhos, foi dedicada à sua memória, perenizando assim o legado de um homem cuja vida foi dedicada à defesa dos direitos humanos e ao serviço à comunidade.

Tive a oportunidade de conhecer o padre Mauzeroll em 1998, durante a campanha política que resultou na primeira vitória como deputado federal, pelo Partido dos Trabalhadores, do então vereador de Guarulhos, Fantazzine. Após minha participação ativa na campanha, comecei a trabalhar no Cddh-Guarulhos, fornecendo apoio secretarial em reuniões do Fórum Municipal da Criança e do Adolescente, entre outras atividades. Além disso, participei das ações da entidade em conselhos municipais e estaduais relacionados aos direitos humanos. Uma das minhas responsabilidades centrais era gerenciar a biblioteca popular do Cddh-Guarulhos e coletar documentação sobre e de interesse da entidade em jornais da cidade. Esse trabalho me inspirou a prestar vestibular e ingressar, em 2001, no curso de biblioteconomia na Unesp, campus de Marília, no interior do estado de São Paulo. No entanto, o Cddh-Guarulhos encerrou oficialmente suas atividades em 2022, devido a dificuldades de financiamento de projetos voltados para receber refugiados e estrangeiros em situação de vulnerabilidade na época.

 

TESTEMUNHAS DA REDEMOCRATIZAÇÃO

A igreja da Vila Fátima não apenas testemunhou a atuação e a dissolução do Esquadrão da Morte, mas também esteve ativa durante o movimento de reação democrática no final da década de 1970 e na primeira metade da década de 1980, período que marcou o início do fim da Ditadura Civil-Militar no país. Esse movimento foi influenciado, em parte, pelas ideias de intelectuais como o filósofo e educador Paulo Freire (1921-97), conhecido por seu método de alfabetização, e o teólogo Leonardo Boff (1938-), um dos principais idealizadores da Teologia da Libertação, influente para as CEBs da Igreja Católica. Tais ações, tanto evangelizadoras quanto políticas, focavam na superação da pobreza e na organização da sociedade civil para a busca de direitos. Nesse contexto, a paróquia da Vila Fátima se destaca como um exemplo.

Em 2012, a Revista Educação, (9) publicação da Prefeitura de Guarulhos, dedicou espaço para destacar iniciativas que surgiram na comunidade da paróquia da Vila Fátima. Para esclarecer aspectos gerais das ações realizadas naquela comunidade, a Revista contou com o auxílio de uma testemunha protagonista, o professor Hélio de Sousa Reis. Os detalhes deste protagonismo e de demais membros da comunidade constam em dois manuscritos de autoria do professor: o primeiro, apresentado na Universidade Federal do Mato Grosso, em 10 de setembro de 2013 (10), e o segundo previsto para ser publicado como um capítulo de livro. (11)

Nesses documentos, Reis relata sua passagem pelo curso de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, no estado de São Paulo, e sua atuação no movimento estudantil, seu contato com o Método Paulo Freire, bem como sua expulsão do seminário em 1969, junto com outros 17 seminaristas claretianos. Eles buscavam colocar em prática, em plena vigência do AI-5, os pressupostos do Concílio Vaticano II (12), incluindo o compromisso com os pobres e a transformação social. Após essa expulsão, Reis foi convidado pelo então padre Pedro Casaldália para atuar na alfabetização de adultos na prelazia de São Félix do Araguaia, no estado do Mato Grosso, de 1970 a 1972. Com a repressão da Ditadura, em 1973, a estrutura montada na prelazia foi desmontada, espaços de atuação foram fechados e alguns participantes foram presos. Com o retorno a Guarulhos, no começo de 1973, Reis finalizou o curso de letras.

Essa trajetória foi fundamental para que a irmã Mônica (Monique Laroche) e o padre Raimundo (Raymond Forget), da igreja da Vila Fátima, convidassem Reis para participar da formação de uma turma de alfabetização de adultos. Na época, foi criado o Círculo de Cultura da Vila Fátima, liderado pela irmã Margarida (Bibiane Lavictoire) e pelos professores Reis e Robson Grizilli. Esse Círculo estava envolvido em iniciativas de alfabetização de adultos para atender aos anseios dos moradores da região do bairro da Bela Vista, em Guarulhos. Na primeira fase do projeto de alfabetização da igreja da Vila Fátima, que compreendeu os anos de 1977 a 1979, foram realizadas atividades nas favelas guarulhenses da Vila Flórida, Bela Vista e Vila Fátima. Os cursos, com duração de cinco meses, eram ministrados em barracões e em casas de membros das CEBs.

Dentro desse contexto de educação popular, outros nomes foram destacados, além dos já mencionados irmã Margarida, padre Raimundo, Reis e Grizilli. Tiveram participação ativa os educadores populares Fábio Roberto Ferreira, Nair de Oliveira, João Bosco de Oliveira, Paulo Germano de Albuquerque, Josefina Rosa de Oliveira e José Carlos Dalan. A partir desse grupo, surgiram outras ações comunitárias, como a Pastoral Escolar, Grupo Fé e Política (com a elaboração de cartilhas), Constituinte Popular Municipal, Pastoral Carcerária e Pastoral de Direitos Humanos, sendo esta última, como mencionado anteriormente, a fagulha inicial para a criação do Cddh-Guarulhos. O grupo de educação popular contou com a orientação e com o ilustre apoio de Paulo Freire. Além de suas outras atividades acadêmicas e políticas, o pedagogo promovia cursos de formação para educadores voluntários.

Figura 2 – Encontros de formação de educadores populares com Paulo Freire

 

 

  

Fonte: Acervo pessoal de Hélio Reis, novembro de 1980.

Paulo Freire com o grupo da Vila Fátima, em um dos quatro encontros de formação de educadores populares que ocorriam uma vez por mês em seu apartamento, no bairro das Perdizes, na cidade de São Paulo.

Em depoimento de Reis, realizado em 12 de janeiro de 2024, ele comenta: “Era uma Igreja popular, engajada. Pôs em prática as decisões do Concílio Vaticano II, fez a opção preferencial pelos pobres, criando e fortalecendo as Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) que se engajaram nas mobilizações, reivindicando novas linhas de ônibus, água encanada, asfalto, educação, saneamento básico, moradia, regulamentação dos terrenos, urbanização das favelas, além de creches e postos de saúde.”

A partir da presença testemunhal do edifício original da igreja da Vila Fátima nos acontecimentos recentes da história do país, permaneceu a dúvida sobre se, na época que antecedia a sua demolição, o prédio poderia ser passível de tombamento, seja pelo município de Guarulhos, pelo estado de São Paulo, ou pelo Iphan. No entanto, o prédio original já havia sido demolido quando essa questão surgiu, para mim, lá em Catas Altas.

Diante do aparente silêncio sobre a demolição dessa testemunha material, surgem algumas perguntas, às quais não pretendo responder, mas que se apresentam como possibilidades: A destruição foi resultado do desconhecimento sobre o valor histórico e memorialístico do edifício? Ou foi conhecido esse valor, porém faltou sensibilidade e visão para antecipar as possíveis implicações históricas, políticas e culturais decorrentes da demolição? Ou ainda, foi uma ação deliberada, seja para apagar a memória ou em nome do “progresso”, visando, por exemplo, a eficiência do novo espaço para fins religiosos?

Outra pergunta – talvez a mais relevante, pois indica que o estrago da eliminação do testemunho material se impõe como uma realidade – é a seguinte: Como proceder quando já não há o que fazer? Essa dúvida pode surgir quando o lugar, o edifício ou os objetos da memória já não existem em virtude de ações moralmente arbitrárias e às vezes até ilegais e/ou criminosas. Nesse contexto, entra em cena, como alternativa, a possibilidade de criar monumentos voluntários em espaços memorialísticos. Tais espaços podem ser provisórios, permanentes ou itinerantes.

 

CICATRIZES GOLPISTAS, CURATIVOS DEMOCRÁTICOS

 

Os bolsonaristas que participaram da manifestação antidemocrática em 8 de janeiro de 2023 clamavam pela volta de um regime que proibia manifestações, com Jair Bolsonaro sendo alçado como ditador. Essas pessoas, com a cumplicidade das forças militares, permaneceram acampadas por meses em frente ao Quartel General do Exército em Brasília e, também, em outras sedes do Exército em todo o país. No dia da tentativa de golpe de Estado, a horda marchou dos acampamentos em direção às sedes dos Três Poderes da República, onde ocorreram atos de vandalismo e cenas chocantes, inclusive escatológicas, transmitidas para o mundo inteiro.

A intentona golpista não prosperou, mas deixou cicatrizes. As instituições democráticas tiveram que decidir se, nos prédios vandalizados, iriam remover as cicatrizes, substituindo os objetos danificados ou restaurando-os, ou se as deixariam visíveis, expondo suas marcas nos objetos danificados. A opção, neste último caso, coincide com a possibilidade de se valorizar monumentos involuntários criando, para abriga-los, espaços memorialísticos.

A Agência Gov, (13) da Empresa Brasil de Comunicação, noticiou o ato Democracia Inabalada, no dia 8 de janeiro de 2024, com abertura realizada no Congresso Nacional. Passado um ano da tentativa de golpe, o evento contou com a presença de autoridades como o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luís Roberto Barroso. A tônica do ato foi de reafirmação do compromisso das instituições junto à Constituição Federal e à democracia.

Exposições foram realizadas com os resultados do trabalho das equipes de limpeza, de arquitetura, de conservação e de restauração de objetos, de obras de arte e de mobiliários. A Câmara dos Deputados realizou a mostra denominada 8 de Janeiro, no Salão Verde, que esteve aberta a visitação de oito de janeiro a vinte e nove de março de 2024, com o objetivo de fomentar o diálogo entre os divergentes.

Figura 3 – Objetos na exposição 08 de Janeiro

 

 

  

 

  

Fonte: Acervo pessoal do autor, 2024

Objetos na exposição 08 de Janeiro, realizada no Salão Verde da Câmara dos Deputados, Brasília-DF, em 2024.

No Congresso Nacional, foi realizada uma cerimônia simbólica de reintegração ao patrimônio público do Senado de uma tapeçaria projetada por Burle Marx. Esta tapeçaria foi alvo de vandalismo, sendo arrancada da parede, rasgada, contaminada com urina e pó de extintor. Posteriormente, passou por um processo de restauração e, conforme afirmou Maria Cristina Monteiro, coordenadora do Museu Histórico do Senado, estará em destaque para representar a restauração e o retorno de dezenove das vinte e uma peças danificadas.

No STF, até 2024, foram restaurados cento e dezesseis itens do acervo da instituição. Outros itens ainda estão em avaliação, mas cento e seis itens históricos, de valor inestimável, foram perdidos sem possibilidade de restauração. Entre os objetos restaurados, estão itens relevantes da coleção, como a estátua em bronze intitulada A Justiça, esculpida por Alfredo Ceschiatti, e a obra Os Pioneiros de Ontem e de Hoje, pintada pelo artista plástico Massanori Uragami.

Estão expostos, no STF, objetos que não serão restaurados intencionalmente e formarão uma coleção em espaços denominados Pontos de Memória. Neles, os objetos compõem a mostra daqueles que não podem ser recuperados devido à gravidade da destruição e daqueles que, mesmo que possam ser recuperados, também servirão como exemplo. Este é o caso do busto do jurista, advogado e diplomata Rui Barbosa. A peça foi retornada ao local de onde foi arremessada, mas o busto continua com um amassado na cabeça. O presidente do STF, ministro Barroso, destaca que as marcas da violência nesses objetos documentarão e permitirão a reflexão sobre a gravidade do atentado à democracia. Conforme enfatiza Barroso, esses testemunhos se tornarão parte integrante da história da Corte e da sociedade brasileira.

Estão atualmente em curso exposições temporárias e permanentes de objetos restaurados que foram devolvidos aos seus locais de origem ou estão sendo integrados a novas coleções. Por fazerem parte do acervo das sedes dos Três Poderes – edificações arquitetonicamente relevantes como exemplos do modernismo do século XX, projetadas pelos traços de Oscar Niemeyer –, esses objetos, obras de arte e mobiliário danificados já faziam parte do patrimônio público, e alguns deles eram considerados monumentos voluntários mesmo antes dos atos de vandalismo. Esse é o caso, por exemplo, do Brasão da República do STF, inicialmente concebido como um monumento voluntário devido à sua natureza de representar a República Federativa do Brasil. Agora, ele também adquire o papel de monumento involuntário, tendo testemunhado e sido afetado pelos atos golpistas.

 

EDIFÍCIOS COMO ESPAÇOS MEMORIALÍSTICOS

 

Apesar da adesão de certos setores da Igreja Católica ao golpe Civil-Militar no Brasil de 1964, exemplificada pela mobilização da Marcha da Família com Deus pela Liberdade em São Paulo, que antecedeu o golpe, contando com a presença de representantes da elite paulistana, algumas autoridades eclesiásticas representaram resistência e luta durante o período ditatorial. Entre essas figuras proeminentes estão dom Helder Câmara (1909-99), nomeado arcebispo de Olinda e Recife em 1964; dom Pedro Casaldàliga (1928-2020), designado administrador apostólico em 1970 e, no ano seguinte, nomeado bispo prelado de São Félix do Araguaia; e dom Paulo Evaristo Arns (1921-2016), que foi nomeado Arcebispo Metropolitano de São Paulo em 1970 e em 1998 recebeu o título de arcebispo-emérito de São Paulo. (14)

Como arcebispo, em 1973, dom Arns presidiu a Celebração da Esperança em memória de Alexandre Vannucchi Leme, um estudante universitário cuja vida foi ceifada pela ditadura. No ano seguinte, em 1974, ele solidarizou-se com os familiares de presos políticos ao apresentar ao general Golbery do Couto e Silva um dossiê detalhado contendo informações sobre os casos de vinte e dois desaparecidos. Em 1975, na Catedral Metropolitana de São Paulo, também conhecida como Catedral da Sé, dom Arns conduziu um histórico culto ecumênico em homenagem a Vladimir Herzog, um jornalista assassinado pelo regime. (15)

A Catedral da Sé, localizada na Praça da Sé, no coração do município de São Paulo, se destaca com sua cúpula de estilo renascentista e é considerada um dos mais notáveis exemplares do estilo neogótico. Ainda assim, o edifício transcende sua importância como templo religioso e como marco arquitetônico. Além de sua imponente presença física, a Catedral é um testemunho de eventos históricos recentes no país. Desde os acontecimentos mencionados até o memorável comício das Diretas-Já, em 1984, tanto a Catedral quanto a Praça da Sé se tornaram símbolos da luta pela redemocratização do Brasil. Com a atuação de dom Arns, a Catedral da Sé passou a ser também reconhecida como um lugar que serviu de refúgio e apoio para os perseguidos políticos durante a Ditadura Civil-Militar.

Figura 4 – Catedral da Sé, Praça da Sé, São Paulo-SP

Fonte: Wilfredor, CC0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=35195051, 2014.

Catedral da Sé, localizada na Praça da Sé, no Centro da cidade de São Paulo-SP, imagem de 2014.

Outros edifícios, como a igreja da Vila Fátima, em Guarulhos, não possuem a mesma imponência monumental quando comparados ao complexo das sedes dos Três Poderes da República, em Brasília, ou à Catedral da Sé, em São Paulo. Tais sedes e a mencionada Catedral agregam peso e densidade simbólica significativos, seja pelas primeiras, em relação ao funcionamento do estado democrático de direito, seja no caso do templo, devido ao seu valor relacionado à sua importância para a escala da Igreja Católica no Brasil. Essa denominação religiosa ainda mantém a maior quantidade de fiéis no país, conforme dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (16) Além de suas funções primárias, monumentos dessa magnitude têm alcance nacional e internacional devido à sua relevância como patrimônio arquitetônico e cultural.

Ainda assim, edifícios, como a igreja da Vila Fátima, são parte do acervo memorial das comunidades locais, com alcance que ultrapassa os limites geográficos. Eles representam elementos-chave que, quando analisados em conjunto, ajudam a reconstruir ou compreender o panorama cultural nacional. Apesar de o prédio original da igreja da Vila Fátima não ter sido tombado, como patrimônio, e tampouco preservado, a nova edificação mantém sua relevância como templo religioso para a comunidade católica. A questão central é: como esta nova estrutura pode permitir o acesso a outras camadas materiais da memória? Em outras palavras, como a nova edificação pode fornecer meios para, por exemplo, o resgate do papel da igreja no desmantelamento do Esquadrão da Morte e na articulação de ações comunitárias durante o processo de redemocratização do Brasil?

Iniciativas – como a do STF, de expor objetos danificados que foram alvo da ação criminosa de vandalismo e que não puderam ser restaurados – apontam para possíveis direções a serem seguidas. Tais ações destacam a importância da memória material ao ressaltar monumentos não intencionais como lugares de memória. O espaço da nova sede da igreja da Vila Fátima pode alternativamente expor, por meio de uma curadoria cuidadosa, fotografias, documentos e objetos que auxiliem os membros da comunidade e outros interessados a recordarem a importância histórica daquele local. Isso vai além de sua função primordial como templo religioso e, se concebido à luz da Teologia da Libertação, adquire também relevância política, contribuindo para resgatar e promover uma cultura democrática.

QUASE POSFÁCIO

 

Não é preciso ressaltar que o Esquadrão da Morte não deixou de existir. Ele continua em ação, embora sob diferentes denominações ou configurações, em pleno estado democrático de direito, como evidenciado pela atuação das milícias no estado do Rio de Janeiro, que surgem e operam como um braço corrupto do Estado. A igreja que esteve presente tanto no início quanto no término da ditadura Civil-Militar não representa uma única religião ou um único testemunho. A reflexão crítica sobre a memória material está abalada devido à liquidez da ideia de comunidade e das implicações decorrentes disso. Este abalo acompanha, por exemplo, a financeirização da vida, a teologia da prosperidade, o fundamentalismo religioso e as ameaças golpistas. Contudo, mesmo diante dessa instabilidade profunda, os lugares de memória têm suas vantagens e se apresentam como alternativa. Neles, não há uma única resposta. Assim como na arte, na filosofia e na ciência, eles não suscitam apenas uma pergunta. Eles não são neutros. Sua capacidade de provocar novas dúvidas e promover projeções ou reflexões, idealmente sobre um futuro diferente permeado por uma cultura democrática, faz desses espaços potenciais lugares de mediação, naquilo que, a partir, por exemplo, da intervenção de profissionais de informação e de educação, se pode extrair o que há de melhor desta palavra.

 

Agradecimentos

 

Gostaria de agradecer ao meu querido e saudoso tio, Hélio de Sousa Reis (in memoriam), pelos detalhes sobre a atuação de movimentos populares na Vila Fátima e pelo fornecimento de fotografias do seu acervo pessoal, e a Orlando Fantazzine Neto, pelas informações sobre o padre Geraldo Mauzeroll e acerca da criação do Cddh-Guarulhos. Ao diretor Giuseppe Tornatore, pelo belíssimo filme Cinema Paradiso, e ao maestro Ennio Morricone (in memoriam), pela comovente trilha sonora, sem os quais este texto não teria sido escrito.

 

NOTAS

[1] (1) LE GOFF, Jacques. História e memória. 7. Ed. Campinas: Editora Unicamp, 2013.

[1] (2) BLOCH, Marc. Apologie pour l’histoire, ou métier d’historien. Paris: Librairie Armand Colin, 1952.

[1] (3) NORA, Pierre. Entre história e memória: a problemática dos lugares. Revista Projeto História. São Paulo, v. 10, p. 7-28, 1993.

[1] (4) KOPYTOFF, Igor. La biografía cultural de las cosas: la mercantilización. In: APPADURAI, Arjun. (Ed.). La vida social de las cosas: perspectiva cultural de las mercancías. México: Grijalbo, 1991. p.89-122.

[1] (5) Nasci e cresci na Vila Fátima. Meus pais (in memoriam) vieram da zona rural. Ele, Juvêncio Rabello, era natural de Macaraí, no interior do estado de São Paulo, e ela, Hildete Reis, era de Paulistana, no estado do Piauí. Quando meu pai chegou à Região Metropolitana de São Paulo, ele trabalhou como chacareiro, metalúrgico e depois se tornou comerciante. Minha mãe trabalhava como costureira e cuidava da casa. Eles foram uns dos primeiros moradores da Vila, após se casarem em 1967. Inicialmente moravam de aluguel e, em 1971, compraram um imóvel, onde criaram seus filhos. Somos cinco irmãos, eu e quatro mulheres. Nossa vida era simples, mas não enfrentávamos grandes dificuldades.

[1] (6) BICUDO, Hélio Pereira. Meu depoimento sobre o esquadrão da morte. São Paulo: Pontifícia Comissão de Justiça e Paz de São Paulo, 1976.

[1] (7) GUERRA, Tiago. Vila Fátima e a Ditadura Militar – Caso Nego Sete. Associação de Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico (AAPAH), 14 abr. 2025. Disponível em: https://aapah.org.br/vila-fatima-e-a-ditadura-militar-caso-nego-sete/. Acesso em: 29 mar. 2026.

[1] (8) SOUZA, Percival de. Fininho, o matador com sangue nos olhos. R7: Arquivo Vivo, 6 ago. 2020. Disponível em: noticias.r7.com/prisma/arquivo-vivo/fininho-o-matador-com-sangue-nos-olhos-06082020

[1] (9) GUARULHOS. Secretaria Municipal de Educação. Revista Educação, [Educação Patrimonial: Guarulhos: história, cultura e meio ambiente], Ano 1, n. 5, n. 2012.

[1] (10) REIS, Hélio de Sousa. Experiência do Ginásio Estadual Araguaia – GEA: alfabetização de adultos [manuscrito de depoimento]. In: RODADA DE DIÁLOGOS SOBRE EDUCAÇÃO NO ARAGUAIA: caminho de luta e resistência, 1., Cuiabá: UFMT, 2013. [Mesa Seminário Educação no Araguaia].

[1] (11) REIS, Hélio de Sousa. Educação popular - alfabetização de adultos. [manuscrito de depoimento]. In: FRIZZO, Antônio Carlos (Org.). Missionários canadenses em Guarulhos. Guarulhos: [s.n.], [2026?]. [no prelo?].

[1] (12) Foi uma assembleia ecumênica da Igreja Católica Romana realizada entre 1962 e 1965, convocada pelo papa João XXIII e, após sua morte, continuada pelo papa Paulo VI. Suas principais deliberações incluíram: renovação litúrgica, ecumenismo, renovação da vida religiosa, a declaração sobre a liberdade religiosa (dignitatis humanae), colegialidade episcopal e relações com o mundo moderno. Este último item previa uma abordagem mais aberta a questões sociais, políticas e científicas.

[1] (13) AGÊNCIA GOV. Exposições mostram acervo artístico e histórico restaurado após ataques de 8 de janeiro [website]. Brasília: EBC, 8 jan. 2024. Disponível em: agenciagov.ebc.com.br/noticias/202401/exposicoes-mostram-acervo-artistico-e-historico-restaurado-apos-ataques-de-8-de-janeiro

[1] (14) MEMÓRIAS DA DITATURA: 9 ANOS. Justiça social e direitos humanos [website]. São Paulo: Instituto Vladimir Herzog, [20--]. Disponível em: memoriasdaditadura.org.br/justica-social-e-direitos-humanos/

[1] (15) MEMÓRIAS DA DITATURA: 9 ANOS. Dom Paulo Evaristo Arns [website]. São Paulo: Instituto Vladimir Herzog, [20--]. Disponível em: memoriasdaditadura.org.br/personagens/dom-paulo-evaristo-arns/

[1] (16) VIANA, Diego. Registros na Receita Federal ajudam a mapear expansão evangélica no país. Pesquisa FAPESP, São Paulo, n. 332, out. 2023. Disponível em:  revistapesquisa.fapesp.br/registros-na-receita-federal-ajudam-a-mapear-expansao-evangelica-no-pais/

 

Texto adaptado de: RABELLO, Rodrigo. Quando memória material e documentação popular importam: esquadrão da morte na ditatura, testemunho de uma igreja na redemocratização do Brasil e intentonas golpistas. Encontros Bibli: Revista Eletrônica de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Florianópolis/SC, v. 29, p. 1-47, 2024. DOI: 10.5007/1518-2924.2024.e99284. https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article/view/99284

 


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RODRIGO RABELLO

Professor da UnB. Formado em Biblioteconomia e doutor em Ciência da Informação pela UNESP, com pós-doutorados na mesma área pelo IBICT e pela UnB. Publicou recentemente, em co-organização com a Profa. Dra. Maria Nélida González de Gómez, o livro “Informação: agentes e intermediação” (http://livroaberto.ibict.br/handle/123456789/1068), coletânea editada pelo IBICT e que conta com a colaboração de autores brasileiros e espanhóis.