A DECLARAÇÃO PROFISSIONAL SOBRE O CONTROLE BIBLIOGRÁFICO UNIVERSAL: JULHO DE 2025
O controle bibliográfico evolui, no atual ambiente informacional, porque o universo bibliográfico está mudando radicalmente devido aos recursos, atores, tecnologias, padrões e práticas. O ritmo, apesar de irregular, é contínuo, pois o preço da inatividade é muito alto, no contexto do ambiente.
Conceitualmente, o “controle bibliográfico” é um termo amplo, que abrange as atividades envolvidas na criação, organização, gestão, manutenção e recuperação de dados bibliográficos. Dados que representam itens mantidos em uma biblioteca para facilitar o acesso às informações. Bibliotecários de catalogação produzem os meios necessários para a representação, recuperação e o funcionamento do controle bibliográfico.
Já, o “universo bibliográfico” pode ser compreendido como as entidades e os relacionamentos bibliográficos representados em catálogos de bibliotecas. A definição abrange as entidades bibliográficas e suas relações, sendo uma obra, manifestação ou parte de uma obra a entidade bibliográfica objeto de interesse do usuário da biblioteca. Além de tudo mais que possa ser encontrado em coleções bibliográficas e representado em catálogos bibliográficos.
Neste contexto, o controle bibliográfico envolve a descrição bibliográfica padronizada e o acesso temático, ambos aplicados aos vários recursos informacionais. Procedimentos realizados por meio de códigos de catalogação e sistemas de classificação. A catalogação desses recursos é essencial à organização e recuperação da informação.
Entretanto, na contemporaneidade da produção de conteúdos digitais e de metadados é destacado os novos protagonistas do controle bibliográfico: editores, autores — em especial, no âmbito das publicações em acesso aberto e dados de pesquisa científica — e as organizações culturais, por vezes envolvidas em projetos de cooperação e de criação não só de conteúdos e metadados; mas, também, de padrões e sistemas compatíveis com a web semântica e os dados vinculados.
No cenário desta abrangência, encontram-se vários desenvolvimentos em curso ou evidência, por exemplo: Schema.org, vocabulário estruturado para a web semântica e utilizado por mecanismos de pesquisa, capaz de incluir dados bibliográficos; experiências com inteligências artificiais que classificam e atribuem assuntos às obras; projeto VIAF para gerenciar entidades de forma compatível com dados vinculados, permitindo que usuários pesquisem as mesmas entidades no contexto local; e o serviço Wikidata que identifica e descreve entidades, eliminando a distinção tradicional entre dados bibliográficos e de autoridade.
Assim, entre as bibliotecas e os novos protagonistas citados, estabelece-se uma relação de intercâmbio e reutilização de metadados, que enriquece e sintetiza a promoção da acessibilidade aos recursos informacionais.
Portanto, nesta fase da transição do controle bibliográfico que envolve a gestão compartilhada de entidades bibliográficas, e da variedade de formatos MARC para novos modelos como o BIBFRAME, as bibliotecas e demais instituições de patrimônio e memória passam a desempenhar um papel fundamental de garantir a qualidade dos dados e a preservação de conteúdos digitais nativos, desde que se relacionem com os múltiplos atores; promovam padrões internacionais e interoperabilidade; e assegurem o acesso à conteúdos e dados em nível local, multicultural e multilíngue.
Os caminhos, neste cenário, são múltiplos, porém os desafios ainda estão em aberto. E, é neste sentido, que a IFLA’s Governing Board, em julho de 2025, anunciou o lançamento da nova Declaração Profissional sobre Controle Bibliográfico Universal (UBC) [Professional Statement on Universal Bibliographic Control], reafirmando o compromisso institucional da IFLA com a coordenação bibliográfica global.
Essa Declaração atualiza e substitui a versão de 2012. Reforça a sua importância, como um princípio fundamental, no ecossistema de bibliotecas e serviços de informação, em apoiar o acesso a informações confiáveis para todos.
É solicitado que, profissionais bibliotecários, agências e instituições bibliográficas, em todo o mundo, se envolvam com o documento e o apliquem aos seus princípios. A íntegra da Declaração é apresentada a seguir, em tradução literal.
Declaração Profissional sobre o Controle Bibliográfico Universal (2025)
Definição e Contexto:
O Controle Bibliográfico Universal (UBC) é um conceito para alcançar a coordenação e o acesso globais aos metadados bibliográficos e de autoridade por meio da criação e do compartilhamento oportunos de informações bibliográficas essenciais orientadas ao usuário.
O conceito de UBC foi moldado ao longo de uma série de conferências e iniciativas internacionais iniciadas na década de 1960, culminando na criação do Escritório Internacional para o UBC da IFLA em 1974. A IFLA manteve unidades com foco no UBC até que a responsabilidade foi atribuída à Seção de Bibliografia, que desenvolveu a declaração anterior de 2012.
Com esta declaração, a IFLA reafirma a importância e a centralidade contínuas do UBC no ecossistema mais amplo dos metadados.
Objetivos do UBC:
- Garantir que os metadados autoritativos representando a produção publicada de cada região sejam distribuídos e estejam disponíveis;
- Aumentar a eficiência, reduzir os custos e reunir esforços ao distribuir a responsabilidade pela criação e disseminação de metadados;
- Facilitar o trabalho das bibliotecas na gestão de suas coleções;
- Oferecer acesso livre e aberto a informações confiáveis aos usuários de bibliotecas, para atender às suas necessidades informacionais, utilizando tecnologias adequadas e atuais.
Princípios do UBC:
- Distribuir a responsabilidade globalmente, sendo que cada agência bibliográfica nacional deve ser responsável pelos metadados que descrevem a produção publicada de seu país;
- Criar e manter metadados na fonte, no território de origem;
- Garantir a produção e a distribuição oportunas de metadados de qualidade;
- Tornar os metadados amplos e abertamente disponíveis para reutilização;
- Utilizar normas internacionais acordadas para tornar os metadados consistentes e interoperáveis.
Benefícios do UBC:
O UBC garante acesso livre e aberto a informações confiáveis para usuários de bibliotecas no mundo inteiro. Ele agrega valor aos metadados bibliográficos e de autoridade globalmente e promove a interoperabilidade entre sistemas e idiomas. Para as Agências Bibliográficas Nacionais, o UBC é uma via de compartilhamento da produção criativa e cultural de seus territórios com o mundo.
No âmbito da IFLA, o UBC estrutura a aplicação de outros padrões bibliográficos e facilita a apresentação consistente dos dados. Também beneficia a indústria editorial, autores e criadores, ao prover e distribuir informações precisas sobre publicações disponíveis. Para os usuários, o UBC economiza tempo ao integrar dados em um único local e reduzir a complexidade na recuperação da informação. Além disso, minimiza as exigências de armazenamento de dados, gerando economia de espaço.
Partes Interessadas e seus Papéis no UBC:
IFLA: Como principal órgão internacional de normas no domínio biblioteconômico, a IFLA é responsável por desenvolver, manter, publicar em acesso aberto e promover um conjunto coeso de normas e diretrizes para a gestão e o compartilhamento de metadados bibliográficos e de autoridade. Essas normas incluem princípios, modelos conceituais, regras de descrição de recursos e esquemas de codificação de dados. A IFLA também representa a comunidade bibliotecária e atua junto a organismos equivalentes de outras comunidades do patrimônio, como o setor de galerias, bibliotecas, arquivos e museus (Galleries, Libraries, Archives, and Museums – GLAM), além de outros órgãos internacionais de normalização, promovendo a interoperabilidade e relevância intercomunitárias.
Agências Bibliográficas Nacionais (National Bibliographic Agencies – NBAs): São entidades oficialmente encarregadas, em cada território, de criar e manter metadados bibliográficos e de autoridade sobre a produção publicada de seu território — incluindo obras, criadores e locais. A NBA pode ser uma unidade da biblioteca nacional ou de outra entidade territorial. Ela é responsável por produzir e distribuir metadados autoritativos de forma oportuna, assegurando sua qualidade e integridade e garantindo que estejam disponíveis para uso acessível e interoperável no mundo todo.
Bibliotecas: Bibliotecas, centros de informação e outras organizações documentais são os principais usuários dos metadados distribuídos pelas NBAs. A integração desses metadados com o setor GLAM amplia o acesso e beneficia mutuamente essas instituições.
Indústria Editorial: Editoras e distribuidoras fornecem o conteúdo principal e metadados na fonte. Sua colaboração com NBAs e bibliotecas, seguindo normas bibliográficas internacionais, contribui para economia de tempo e redução de custos no ecossistema bibliográfico.
Fornecedores de tecnologia e sistemas: O UBC depende da participação de todas as organizações que desenvolvem sistemas que suportem as normas necessárias para alcançar a interoperabilidade dos metadados, seu compartilhamento e reutilização.
Usuários finais: Usuários de bibliotecas, pesquisadores, estudantes e o público em geral são os beneficiários finais do UBC. Atender às suas necessidades guia o desenvolvimento e o uso dos metadados bibliográficos e de autoridade, assegurando que o acesso permaneça centrado no usuário.
Chamado à Ação:
Alcançar o UBC exige colaboração entre todas as partes interessadas do ecossistema documental, incluindo o setor GLAM em sentido amplo. Tecnologias modernas oferecem ferramentas poderosas que devem ser ativamente utilizadas para ampliar o intercâmbio, a integração e o acesso global aos metadados bibliográficos e de autoridade.
Essa visão de acesso global a metadados autoritativos continua sendo essencial na atualidade, à medida que a tecnologia transforma a criação e o compartilhamento da informação. A rápida mudança tecnológica e a proliferação de conteúdos digitais exigem informações confiáveis e padronizadas para assegurar o acesso confiável ao conhecimento global — vital para o avanço do saber e para o funcionamento de sociedades informadas.
Na declaração do UBC, um dos objetivos centrais é garantir o acesso livre e aberto a informações confiáveis para os usuários de bibliotecas, além de metadados bibliográficos também confiáveis.
O texto reafirma que cabe às Agências Bibliográficas Nacionais (NBAs), no contexto do UBC, assumirem a responsabilidade de criar e manter metadados bibliográficos sobre a produção publicada de sua região, incluindo obras, autores e locais do seu território.
Na Declaração são apresentadas as entidades que compõem o setor conhecido pela sigla GLAM (Galleries, Libraries, Archives, and Museums) que é usada para se referir coletivamente às quatro instituições culturais, mencionadas no documento
Observa-se que, os novos protagonistas do controle bibliográfico, destacados no texto, incluem editores, autores (especialmente em publicações de acesso aberto), empresas culturais (com ou sem fins lucrativos) e projetos colaborativos que produzem conteúdos, metadados, padrões e sistemas compatíveis com a web semântica.
Também a transição dos formatos MARC para modelos como o BIBFRAME é destacada. Nessa fase de transição, agências bibliográficas e bibliotecas devem garantir a qualidade dos dados e a preservação de conteúdos digitais, promovendo padrões internacionais, interoperabilidade e acesso local, multicultural e multilíngue.
Ao fim e ao cabo, compreende-se que o universo bibliográfico segue como um conceito-chave na catalogação bibliográfica. Originário da década de 1970, resulta de um esforço visionário para garantir a padronização e o compartilhamento bibliográfico internacional.
O UBC é um conceito materializado em documento e ações que estabelecem os princípios fundamentais para as iniciativas atuais de acesso aberto e compartilhamento de dados. Tem influência na cooperação internacional entre bibliotecas e sua relevância para a interoperabilidade de metadados e equidade informacional global.
Apesar de o termo não ser usado por editores ou livreiros, nem por arquivistas ou pelo público em geral, todos esses grupos se envolvem com o fenômeno de diversas maneiras. Embora os bibliógrafos estudem os livros como objetos físicos (bibliografia descritiva) e compilem listas deles por assunto (bibliografia enumerativa), eles não parecem fazer muito uso do termo “universo bibliográfico”. Entretanto o documento da IFLA reforça a importância do conceito na era da informação online.
Para os bibliotecários de catalogação é importante ter clareza do que é o universo bibliográfico que responde às mudanças em suas próprias práticas profissionais e domínios conceituais.
Indicação de leitura:
IFLA Bibliography Section. Statement on Universal Bibliographic Control. IFLA Publications, 2025-07. Disponível em: https://repository.ifla.org/items/a4cf734c-00ea-4d01-bd39-3bc30ff62fbb
Just Released: IFLA’s 2025 Professional Statement on Universal Bibliographic Control – A Strategic Vision for Reliable Metadata. IFLA, 28 July 2025. Disponível em: https://www.ifla.org/news/just-released-iflas-2025-professional-statement-on-universal-bibliographic-control-a-strategic-vision-for-reliable-metadata/