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RECURSOS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA POTENCIALIZAR A BIBLIOTECA ESCOLAR

Com o despontar desta nova era, marcada pelas disseminações de múltiplas inteligências artificiais (IA) e dos serviços baseados em dados e informação, os bibliotecários precisam equilibrar suas habilidades técnicas de curadoria de metadados, análise de sistemas ou integração de IA, com as habilidades interpessoais cruciais que promovam um serviço inclusivo, responsivo e altamente especializado.

As bibliotecas estão em um ponto evolucionário histórico, onde a IA emerge como ferramenta transformadora que redefine a forma de operarem e se envolverem com as comunidades de usuários.

Da automação de tarefas repetitivas, como a catalogação, à personalização da experiência dos usuários com serviços informacionais personalizados, a IA oferece às bibliotecas uma oportunidade de melhorarem a eficiência, criatividade e acessibilidade. Enquanto agências confiáveis da disseminação do conhecimento, o momento exige uma abordagem estratégica para aproveitar o potencial da IA preservando os valores fundamentais de equidade, acesso e liberdade intelectual.

No entanto, a integração da IA não é isenta de desafios. Desafios como as preocupações éticas com o preconceito e privacidade; barreiras técnicas como a compatibilidade com sistemas legados; e os obstáculos organizacionais que envolvem o treinamento da equipe e da própria resistência à mudança no âmbito bibliotecário. Mas, como mencionado, a IA proporciona a oportunidade de transformar a maneira de trabalhar, aprender e servir ao público.

Neste contexto, destaca-se a perspectiva para a biblioteca escolar de não ser considerada apenas como um assunto interno da instituição escolar. Que em tempos de crise econômica ou escassez financeira, sempre tem o risco de sua existência ou instalação ser vista como "opcional".

Para a bibliotecária Marquardt, em muitos países, bibliotecas e bibliotecários escolares sofrem do preconceito da "subalternidade", no ambiente educacional. Portanto, o preconceito profissional não é fato que ocorre apenas no Brasil.

Entretanto, tais percepções podem mudar quando a biblioteca e/ou bibliotecário(a) escolar consegue demonstrar a sua função transformadora, gerador de um ambiente de aprendizagem estimulante e basilar para a pesquisa, criatividade e inovação.

No Brasil, as bibliotecas escolares precisam constantemente provar valor, mostrar importância ativa para a comunidade escolar e política. E, buscar além do reconhecimento, também o apoio social no desenvolvimento de programas eficazes à própria comunidade educacional. Tanto esforço, apesar de existir legislação para a sua constituição na estrutura educacional.

Ressalte-se, ainda, o cenário informado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) Educação 2024, divulgada recentemente,  e que escancarou a defasagem brasileira no cumprimento das metas estabelecidas de dez anos pelo Plano Nacional de Educação (PNE) – e que revela o nosso atraso educacional. Aspecto que reforça a importância e necessidade de bibliotecas na educação.

A biblioteca escolar pode ser vista como interseção frutífera entre Educação e Ciência da Informação, onde essas áreas, suas disciplinas, teorias, metodologias e práticas se encontram e são colocadas em ação. Por meio de serviços, programas e atividades, bibliotecas e bibliotecários escolares promovem a transformação da busca e uso da informação, insights profundos e novas habilidades.

O futurista Thomas Frey afirma que "O futuro é onde as crianças vivem". Como moldar esse futuro se elas crescem em ambientes carentes, com baixa alfabetização ou imersas no digital sem capacidade crítica? Como promover uma sociedade justa e cidadã sem educação, cultura e serviços bibliotecários plenos?

Para as pesquisadoras Kuhlthau, Maniotes e Caspari é necessário estimular um "bibliotecário escolar inovador". Um profissional que se integre a equipe pedagógica, envolva a comunidade escolar, reflita criticamente sobre sua profissão e gerencie as mudanças necessárias. Que faça da biblioteca escolar, um "terceiro espaço" onde conhecimentos universais, pessoais e conteúdos curriculares se encontrem para uma aprendizagem autêntica.

Como observou Ranganathan, a biblioteca escolar deve ser um lugar onde os alunos tragam suas experiências e questões, encontrando sabedoria acumulada e novas perspectivas. E, este é um lugar que agora encontra-se potencializado pelas tecnologias digitais e recursos de IA gerenciáveis pelo bibliotecário escolar.

Desta forma, investir em bibliotecas escolares como ferramentas vitais para o aprendizado e desenvolvimento sociocultural, além de valorizar a formação e reconhecimento dos bibliotecários escolares é essencial.

Potencializando essa perspectiva de valoração da biblioteca escolar, salientam-se alguns recursos de IA, destacadas pela bibliotecária Malespina, como importantes ao trabalho dos bibliotecários escolares.

Recursos considerados inspiradores à criatividade, a otimização dos fluxos de trabalho e a possibilidade de envolver e estimular os estudantes. Para os docentes que gerenciam uma sala de aula, ou ao bibliotecário que conduz um programa da biblioteca de suporte ao aprendizado, as ferramentas de IA podem contribuir inovadoramente com a educação. Desta forma, experimente com atenção e critérios avaliativos, não a cegas. Lembre-se de compartilhar com os pares, os recursos que funcionam e os que não funcionam. A área da Biblioteconomia precisa de relatos de sucesso e fracassos.

  • Ferramenta Brisk: https://www.briskteaching.com/pt-br, é uma IA que avalia textos escritos quanto à originalidade, estrutura e nuances estilísticas. É útil para educadores na avaliação de textos ou projetos de escrita criativa, e para bibliotecários que auxiliam os usuários com trabalhos de pesquisa ou elaboração de manuscritos. A ferramenta vai além da gramática ao oferecer feedback aos escritores para aprimorarem suas habilidades. Exemplo: o professor pode usar o Brisk para fornecer aos alunos orientações sobre redações, enquanto um bibliotecário pode apoiar os alunos na elaboração de trabalhos de pesquisa com melhorias no estilo.
  • Most Likely Machine: https://www.artefactgroup.com/resources/most-likely-machine/, é um protótipo de aprendizagem interativo, focado em auxiliar pré-adolescentes no desenvolvimento da literacia algorítmica através de processo lúdico. O recurso, gratuito, permite que as crianças explorem conceitos de programação de forma lúdica e envolvente, incentivando o pensamento computacional e a resolução de problemas. O projeto foi concebido pela Artefact, com o objetivo de tornar a aprendizagem sobre algoritmos acessível e divertida para um público jovem. Bibliotecários podem usar a ferramenta para realizar workshops interativos sobre computação ou tópicos de STEM.
  • AI Pedagogy: https://aipedagogy.org, é uma central de recursos abrangente que oferece estudos de caso, planos de aula e ferramentas para integrar a IA à prática educacional. Fornece estratégias para ensinar ética de IA, entender o impacto da IA e usar suas ferramentas de forma eficaz em salas de aula e biblioteca. Exemplo: o bibliotecário pode realizar um programa de literacia em IA para alunos, enquanto os docentes usam para integrar considerações éticas em aulas.
  • Magic-Write: https://www.canva.com/magic-write, parte das ferramentas do Canvas que aproveitam a IA para simplificar o processo de design. O recurso gera textos para apresentações. O Magic Design fornece modelos visuais, e o Magic Resize adapta designs para diferentes formatos. É ideal para educadores criarem materiais de aula e para bibliotecários que promovem eventos. Exemplo: um professor de ciências pode projetar infográficos para a sala de aula, enquanto o bibliotecário usa as ferramentas para criar folders dos encontros de leitura ou clube do livro.
  • Diffit: https://app.diffit.me/, tem a finalidade de criar um ensino diferenciado, gerando tarefas adaptadas a diversos níveis de aprendizado. Se os alunos precisam de desafios mais avançados ou atividades mais simples, a ferramenta garante que cada um seja apoiado de forma eficaz. O bibliotecário pode fazer uso para criar guias acessíveis ou recursos personalizados para os usuários. Exemplo: docentes podem usar o Diffit para criar passagens de leitura para alunos em diferentes níveis de proficiência, enquanto o bibliotecário pode gerar guias de estudo para diferentes faixas etárias.
  • School AI: https://schoolai.com, é uma plataforma para gerenciar aula e biblioteca. Os recursos da ferramenta ajudam os educadores a acompanharem o progresso dos alunos, gerenciar tarefas e criar conteúdo. O bibliotecário pode usar para monitorar padrões de uso, melhorar a programação e otimizar as tarefas administrativas. Exemplo: professores podem identificar os alunos que precisam de ajuda extra com insights baseados em dados, enquanto o bibliotecário pode rastrear livros populares e criar programas em torno de tópicos de interesse do público.
  • NotebookLM: https://notebooklm.google/, recurso de pesquisa da Google que usa IA para resumir e tomar notas. Possibilita carregar documentos, gerar resumos e realizar perguntas específicas, auxiliando a sintetizar informações sem esforço. A capacidade de interagir com os documentos economiza tempo e torna os projetos complexos mais gerenciáveis. Exemplo: educadores podem usar a ferramenta para extrair pontos relevantes de textos e artigos para planos de aula, enquanto o bibliotecário pode resumir textos ou artigos densos para recomendar recursos de forma eficaz.
  • MagicSchool: https://magicschool.ai, uma plataforma projetada para educadores de ensino fundamental e médio. Fornece recursos para o planejamento e gerencialmente de aulas. O bibliotecário pode adaptar os recursos para criar programas colaborativos com os professores ou realizar eventos interativos na biblioteca. Exemplo: professores podem criar planos de aula personalizados, enquanto o bibliotecário pode usar para organizar programas como caças ao tesouro interativas, alinhados aos temas da sala de aula.
  • Khanmigo: https://www.khanmigo.ai/, é um assistente de ensino com tecnologia de IA desenvolvido sem fins lucrativos, pela organização educacional Khan Academy. Fornece aos alunos aulas interativas adaptadas às suas necessidades e auxilia os educadores a acompanharem o progresso discente. O bibliotecário escolar pode incorporar o recurso em sessões de tutoria ou workshops promovidos pela biblioteca.  Exemplo: professores podem usar o Khanmigo para personalizar o ensino de matemática, enquanto o bibliotecário o integra em workshops de STEM extracurriculares (programas, atividades, competições e projetos que complementam o aprendizado tradicional de sala de aula).
  • Curipod: https://curipod.com, recurso para educadores criarem aulas e atividades interativas. Sua abordagem de aprendizado, baseada em jogos, promove a colaboração e a criatividade, tornando as aulas mais envolventes. O bibliotecário pode aproveitar a ferramenta para promoção de eventos como noites de trivia (encontros sociais onde grupos competem respondendo a perguntas sobre diversos temas), ou sessões de pesquisa colaborativa. Exemplo: professores usam o Curipod para criar jogos de revisão competitivos antes dos testes, enquanto o bibliotecário organiza competições de conhecimento baseadas em temas literários.
  • ChatGPT: https://openai.com/chatgpt, uma ferramenta popular, preferida para tarefas diversas, como: responder perguntas complexas ou fazer brainstorming de ideias. Apresenta-se como um assistente confiável aos educadores e bibliotecários de inúmeras maneiras. O ChatGPT é aplicável na redação de e-mails, planejamento de aulas ou geração de ideias criativas. Exemplo: bibliotecário pode utilizá-lo em brainstorming de ideias inovadoras para a biblioteca ou na redação de comunicados informativos para professores, alunos e pais. É, ainda, perfeito para responder perguntas rápidas sobre "como fazer".

Matéria recente sobre este tema, publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, pelo articulista Fajardo, destaca outras duas plataformas de IA adotadas por escolas particulares e que personalizam o ensino e ajudam no acompanhamento da evolução da aprendizagem.

  • Flint: https://www.flintk12.com/, auxilia na avaliação do processo de aprendizagem e implementação de atividades pedagógicas personalizadas. Professores podem criar aulas sobre determinados temas, acompanhados de informações complementares e orientados a objetivos de aprendizagem. Analisa o desempenho do estudante, avaliando o nível de interação e de curiosidade manifestada pelo tema tratado. Professor ou bibliotecário pode agregar outras funções complementares de aprendizado como um glossário de termos e conceitos e/ou um assistente virtual gerado para esclarecer dúvidas de forma didática e compatível com a faixa etária estudantil.
  • Plurall IA: https://www.plurall.net/ia.html, recurso composto de um conjunto de soluções de IA desenvolvido pela Somos Educação. Possibilita desenvolver uma avaliação discente com conteúdos baseados nas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), visando identificar déficits de aprendizagem. Desta forma, tende a ajudar professores a encontrar estudantes carentes de maior auxílio e garantir uma melhor homogeneidade e equidade educacional. A plataforma opera como assistente virtual de apoio na elaboração de planos de aula.

Além destas plataformas relacionadas, é ressaltada para o ambiente educacional a IA:

  • Ithy (I Think Why): https://ithy.com/, também conhecido como DeepSeek, e apesar de renomeado, segue como poderoso modelo de IA de código aberto e que tem se popularizado no ambiente educacional. A popularidade também decorre da gratuidade (sem assinatura e login), performance na geração de respostas, aplicabilidade educacional – desde planejamento de aula ao suporte de tutorias. Entretanto, é alertado sobre a sua fragilidade nas questões de privacidade, censura e ética de dados. Para professores é atrativo pela geração de planos de aula, elaboração de questionários e sugestão de escrita. Para bibliotecários escolares é um recurso de aplicação nos resumos de fontes e prospecção de fontes de pesquisa.

À medida que se explora o potencial transformador da IA entender como usá-la de forma responsável torna-se essencial. As ferramentas elencadas ilustram o  potencial transformador,  inovativo e criativo para o espaço das salas e biblioteca.

Entretanto, é crucial garantir que as ferramentas de IA sejam justas, transparentes e responsáveis, evitando vieses e discriminação. Bibliotecários escolares ao buscar estratégias de implementação das ferramentas, devem preceder a aplicação com ética no uso IA em ambientes educacionais desde o início, em vez de tentar adaptação posteriormente. A ênfase deve estar na criação de um ambiente de aprendizado e acesso à informação que promova o uso ético e responsável da IA.

Ademais, o bibliotecário moderno evolui para um profissional dinâmico e adaptável, impulsionado pela revolução digital. Na atualidade, começa a não estar mais limitado ou restrito ao trabalho tradicional. É um profissional que navega por um ambiente no qual capacidades avançadas de pesquisa, fluência em tecnologia e valores centrados na comunidade se cruzam e delineiam o seu perfil.

Assim, deve se educar cada vez mais para aplicar um uso crítico destas ferramentas. Portanto, deve investir em sua formação adequada, e não apenas aguardar que a instituição resolva isto pelo bibliotecário, principalmente se sofrer da síndrome de subalternidade institucional.  E se posicionar pela sua valorização enquanto ser pensante da organização e tratamento da informação.

Por fim, lembrar-se que esses recursos de IA, em suas versões atuais, precisam de muita supervisão para produzir algo consistente. E, para que o bibliotecário escolar desempenhe o seu perfil de gestor na exploração e aplicação da tecnologia, precisa além da competência técnica, saber o que observar na operação e uso da IA.

E manter suas principais habilidades bibliotecárias alinhadas à pedagogia, mesmo utilizando-se da IA. Não deixar que as ferramentas e os impulsos de admiração do entorno pela IA, substituam o pensamento crítico sobre biblioteca, ensino e a aprendizagem apoiada pela competência informacional.

 

Indicação de leitura:

Bonus Edition: The Double-Edge Sword of DeepSeek (oka ithy.com). The AI School Librarians Newsletter, jun. 26, 2025.

Fajardo, V. Como escolas particulares usam plataformas de IA e apps para melhorar as aulas. Jornal “O Estado de São Paulo”, 25/06/2025.

Kuhlthau, C. C.; Maniotes, L. K.; Caspari A. K. Guided inquiry: Learning in the 21st Century. Westport, CT: Libraries Unlimited, 2007.

Malespina, E. The AI School Librarian's Top 10 AI Tools: 2025 Edition. The AI School Librarians Newsletter, Feb 17, 2025.

Marquardt, L. School Libraries: Joint Efforts for a Key Role. In: Marquardt, L.; Oberg, D. Global Perspectives on School Libraries: projects and practices. Germany : IFLA Publications, c2011.

Ranganathan, S .R. New education and school library: Experience of half a century […]. Delhi: Vikas, 1973.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.