SEYMOUR LUBETZKY E A FUNÇÃO DO CATÁLOGO BIBLIOGRÁFICO
Os catálogos bibliográficos modernos não são mais simples índices de acervos. Caracterizam-se em ferramentas estratégicas, que as bibliotecas podem dispor, para o acesso e a descoberta de informações, integrando-se a sistemas bibliográficos em rede e a ambientes de dados conectados. O catálogo bibliográfico, na atualidade, é pensado para interoperar com outros sistemas e bancos de dados, promovendo maior visibilidade das coleções nas plataformas digitais da Web Semântica.
Entretanto, a questão sobre “qual a função do catálogo?”, é um questionamento que percorre o contexto histórico da catalogação bibliográfica nos últimos 80 anos. No relatório final da Conferência Internacional sobre Princípios de Catalogação (Paris, outubro de 1961), a função do catálogo foi apresentada como um instrumento eficiente para determinar: (1) se a biblioteca contém determinado livro caracterizado por: a) seu autor e título, ou b) se o autor não figura no livro, somente o seu título, ou c) um substituto apropriado quando tanto o autor como o título são inadequados ou insuficientes para identificação. (2), a) obras de um determinado autor existem e, b) edições de uma determinada obra que exista na biblioteca. Uma revisão do modelo conceitual de Charles Ami Cutter (1837-1903).
Entretanto, já em meados dos anos de 1950, Seymour Lubetzky (1898 – 2003) um dos atuantes articuladores dos Princípios de Paris, abordou em artigo, a questão da função do catálogo o que há muito afligia nas discussões sobre catalogação tanto em conferências, quanto na literatura profissional da época e período anterior.
Neste sentido, elabora-se a coluna deste mês de maio, a partir da leitura e análise do artigo de Lubetzky, que em tradução livre desenvolve algumas das reflexões do autor. Ao iniciar os seus comentários sobre a função do catálogo, Lubetzky destaca:
“Sempre que nosso método de catalogação era seriamente questionado, a crítica era rebatida com a pergunta: ‘Mas qual é a função do catálogo — servir como uma lista de localização ou como uma ferramenta de referência?’. E, assim, a discussão estagnava. Parecia inútil continuar debatendo regras e práticas de catalogação antes de decidir quais objetivos ou propósitos o catálogo deveria servir”.
Para ele era natural que a consideração dada à revisão prospectiva das regras de catalogação trouxesse à tona, como tema fundamental, a discussão sobre se a revisão da catalogação deveria contemplar o catálogo bibliográfico como "lista de localização" ou como "ferramenta de referência". Neste aspecto, para ele:
“Essa questão é de especial interesse e importância para o bibliotecário, pois é ele, responsável pela política da biblioteca, quem deve decidir qual deve ser a função do catálogo como instrumento de gestão e serviço bibliotecário. E agora é o momento em que ele pode definir isso. Se não agir agora, enquanto as regras de catalogação estão em revisão, abdicará de sua responsabilidade pelo catálogo e perdendo o direito de criticar as regras revisadas posteriormente, caso descubra que elas atenderam a objetivos que considera irrelevantes ou injustificados, ou que deixaram de atender a objetivos que considera essenciais”.
No atual contexto dos novos princípios e das ontologias dos requisitos funcionais, assimilados pelo RDA e ISBD consolidada, e a atribuição catalográfica ao julgamento do bibliotecário de catalogação, as manifestações de Lubetzky seguem atualíssimas. Ainda no tema, ele destaca que:
“Se é responsabilidade do bibliotecário decidir qual função o catálogo da biblioteca deve servir, é dever do catalogador esclarecer para ele as questões envolvidas, de forma a permitir uma decisão racional. E se o bibliotecário tem demonstrado relutância em decidir, talvez seja porque lhe foi apresentada uma escolha não entre objetivos tangíveis, mas entre concepções ilusórias e fugidias de "lista de localização" e "ferramenta de referência" — verdadeiras miragens ideológicas — que ele não conseguiu compreender, examinar e avaliar”.
Em sua análise da questão, ele define o que é uma lista de localização, tabulando os seguintes questionamentos:
“É uma lista de entradas que deve permitir a um usuário encontrar um livro específico sob o nome do autor e o título. Deveria permitir encontrar uma obra mesmo que buscada sob um nome anterior ou posterior do autor, ou sob o título de uma edição diferente? Deveria permitir ao usuário localizar a edição mais antiga ou mais recente da obra desejada? Deveria ajudar a identificar quais edições a biblioteca possui de uma determinada obra, ou quais obras de um determinado autor estão disponíveis? Obviamente, todos os catálogos são destinados a servir como listas de localização, mas podem diferir significativamente no que diz respeito ao que pode ser encontrado neles. Então, o que é um catálogo como lista de localização?”.
Ele também define e contrasta, o que é um catálogo como ferramenta de referência, e questiona:
“Uma ferramenta de referência é, claro, uma fonte de certas informações. Como registro dos materiais de uma biblioteca, todo catálogo contém algumas informações sobre os autores e as obras nele registradas; isso não faz de todo catálogo uma ferramenta de referência? A questão sobre se o catálogo deveria servir como ferramenta de referência, em contraste com uma lista de localização, implica que ele poderia ser projetado para fornecer certas informações além daquelas que deve incluir como registro dos materiais da biblioteca. Se for assim, quais informações o catálogo deveria fornecer? Deveria ser ilimitado em escopo e servir como uma fonte universal de informações em fichas?”.
Lubetzky justifica a análise e as indagações, ao observar e questionar, por exemplo:
“[...] que o catálogo pode frequentemente ser utilizado como uma fonte de informações biográficas; isso significa que ele deveria ser projetado para servir, entre outras coisas, como uma fonte de informações biográficas? Se sim, por que incluir apenas os nomes de pessoas representadas como autores ou assuntos, e não também outros nomes? E por que as informações biográficas, no catálogo, deveriam se limitar a nomes, datas e certos títulos das pessoas registradas, e não incluir também dados sobre ocupação, interesses, estado civil, residência etc., como fazem outras obras de referência biográfica?”.
Assim, ressalta que não era claro a ideia de que o catálogo bibliográfico pudesse ser projetado como uma “ferramenta de referência” representando um equívoco, nascido de uma confusão entre as potencialidades do catálogo e os seus propósitos. Também, que a questão sobre a função do catálogo não poderia ser decidida em termos ambíguos: "lista de localização" ou "ferramenta de referência"; mas sim em termos dos objetivos específicos que o catálogo devesse cumprir como um guia para os recursos da biblioteca. Desta forma, comenta que:
“[...] como um guia para os recursos da biblioteca, os objetivos específicos do catálogo podem ser definidos de forma concreta, seus méritos avaliados e o problema da função do catálogo resolvido. O primeiro e principal objetivo do catálogo é, sem dúvida, permitir que seus usuários localizem nele, da forma mais fácil possível, um determinado autor e título. Esse é um objetivo elementar, sem o qual uma biblioteca deixaria de funcionar. Antes de adquirir e processar um item, a biblioteca deve determinar se ele já não está em seu acervo, e antes que o item possa ser disponibilizado a um leitor, ele deve ser encontrado no catálogo pelo leitor ou por outra pessoa”.
Para os bibliotecários que defendiam e tinham em mente o catálogo como lista de localização, considerava-se como objetivo um mínimo de catalogação. Tal argumento se resumia da seguinte forma:
- O propósito de um catálogo é indicar se a biblioteca possui ou não um determinado livro;
- Um livro é identificado pelo autor e título apresentados na página de rosto;
- Se o autor e o título forem copiados da página de rosto para uma ficha, que é então arquivada no catálogo, o livro será facilmente encontrado pelo leitor, e a catalogação será uma operação simples, rápida e econômica.
Para Lubetzky, esse era um argumento plausível, e algumas bibliotecas, em especial as pequenas, adotavam esse caminho, com ou sem suporte do código de catalogação em vigor. Se os bibliotecários de catalogação universitários considerassem esse método adequado para seus propósitos, os processos catalográficos seriam simplificados e os problemas de custos e atrasos desapareceriam. Ainda, segundo o autor, o argumento não teve amplitude suficiente:
“Pois quem busca um livro muitas vezes não está interessado na forma física do livro, mas na obra intelectual que ele contém, e a catalogação de uma obra é mais complexa e exigente do que a catalogação de um livro. Enquanto o livro é facilmente identificado pelo autor e título na página de rosto, a obra nele contida pode ser publicada simultaneamente sob títulos diferentes (como um título britânico e um título americano) ou sucessivamente sob títulos distintos e, também, sob nomes diferentes do autor, caso ele não tenha sempre usado seu nome real ou tenha mudado de nome ao longo do tempo”.
Lubetzky observa que a questão que o bibliotecário de catalogação universitário deveria decidir, portanto, era:
“[...] se consideraria o catálogo adequado caso um estudante ou membro do corpo docente, ao buscar uma obra sob um determinado nome e título citado em alguma fonte, não descobrisse que a biblioteca possui essa obra (ou outra edição dela) sob um nome diferente do autor ou sob um título alternativo. Ele consideraria o catálogo adequado se ele não indicasse quais edições e traduções a biblioteca possui de uma determinada obra, ou quais obras de um determinado autor estão disponíveis? Consideraria o catálogo adequado se ele não ajudasse um usuário a encontrar uma obra na biblioteca porque ele tinha uma citação imprecisa do título ou se esqueceu da redação exata, embora soubesse bem o nome do autor.”
Se a resposta a todas essas indagações fosse afirmativa, o bibliotecário deveria agir de acordo e exigir que o objetivo do catálogo fosse limitado a auxiliar o usuário a encontrar um determinado autor e título — e nada mais. O bibliotecário também iria assumir a responsabilidade pelas falhas consequentes de estudantes e professores em localizar, no catálogo, as obras que pudessem necessitar e que estivessem na biblioteca.
No entanto, se a resposta fosse negativa, então o bibliotecário deveria exigir que o catálogo servisse também a um segundo objetivo: relacionar as edições de uma obra e as obras de um autor.
Nesse caso, seguiria o falecido Lee Pierce Butler (1884 – 1953), que chamou a atenção para:
- A “função bibliográfica da biblioteca”: manter registros precisos dos recursos disponíveis. Isso inclui acompanhar novas informações, examinar seus componentes e agrupá-las de forma organizada, e
- Caracterizou o catálogo como uma “bibliografia dos livros” em uma coleção específica: registro detalhado que inclui título, autor(es), informações de publicação e outros detalhes relevantes. Em essência, um catálogo que documenta os livros de uma coleção.
Lubetzky considerava que, o método de relacionar edições de uma obra e obras de um autor era uma questão auxiliar e desnecessária de ser discutida em seu texto. O ponto principal era saber se o bibliotecário desejava ou não assumir a função bibliográfica e torná-la um objetivo do catálogo. Se fosse essa a intenção, as regras catalográficas teriam que ser adaptadas, e a catalogação ficaria mais complexa e cara do que seria exigido pelo primeiro objetivo. Entretanto, o catálogo também seria um guia mais eficaz e confiável para os recursos da biblioteca. Neste sentido, ele destacou que:
“Esses são objetivos concretos, cuja utilidade para as operações e serviços da biblioteca pode ser ponderada e avaliada. Os dois objetivos considerados — facilitar a localização de um determinado autor e título e relacionar as edições de uma obra e as obras de um autor — não resolverão todas as questões de catalogação, e deixam de lado as regras de descrição e de catalogação de assuntos, que não estão incluídas na revisão proposta. Mas eles são essenciais para um desenvolvimento racional e sistemático das regras de entrada, que determinam as características básicas do catálogo e que estão agora em revisão”.
Lubetzky concluí o seu texto ressaltando que:
“Se as questões envolvidas nesses objetivos forem plenamente consideradas e uma decisão sábia for tomada, poderemos ter uma prática de catalogação guiada pelos objetivos reconhecidos do catálogo bibliográfico, e não por quaisquer miragens ilusórias”.
Em resumo, o texto de Lubetzky discute a necessidade de definir com clareza os objetivos do catálogo bibliográfico, evitando concepções vagas como: "lista de localização" ou "ferramenta de referência". Argumenta que o catálogo deve ser um guia eficiente para os recursos da biblioteca, com objetivos concretos. O primeiro objetivo: permitir que os usuários encontrem um livro pelo autor e título (função básica de localização). Já, o segundo objetivo: relacionar edições de uma mesma obra e obras de um mesmo autor, superando variações de nomes ou títulos (função bibliográfica). Caberia ao bibliotecário de catalogação a decisão, ou seja, escolher entre um catálogo simplificado (apenas busca por autor/título) ou maior complexidade (com relações entre obras e autores). Posicionou-se de forma crítica às definições vagas. Para ele, conceitos como "ferramenta de referência" eram ambíguos e desviavam o foco do propósito principal do catálogo bibliográfico.
É relevante, no texto de Lubetzky, a ênfase na importância de o bibliotecário de catalogação tomar decisões fundamentadas, evitando abstrações, e destaca o catálogo como um instrumento dinâmico que reflete as necessidades da biblioteca e dos seus usuários. Aspectos enfatizados atualmente pelos novos processos de catalogação.
Aos estudantes de biblioteconomia, na leitura do texto de Lubetzky, se oferece algumas indagações, com respectivas respostas, para reflexão na disciplina de catalogação descritiva:
- Qual é a principal crítica de Lubetzky em relação aos debates sobre a função do catálogo? Ele critica a falta de clareza nos debates, que se limitavam a discutir se o catálogo deve ser uma "lista de localização" ou uma "ferramenta de referência", sem definir objetivos específicos e mensuráveis. Ele argumenta que essas noções são vagas e impedem uma tomada de decisão racional por parte do bibliotecário.
- Quais são os dois objetivos principais que o autor propõe para o catálogo? Resposta: (1) Facilitar a localização de um livro pelo autor e título exatos (função básica de busca). (2) Relacionar diferentes edições de uma mesma obra e obras de um mesmo autor, mesmo que haja variações de nomes ou títulos (função bibliográfica).
- Por que Lubetzky defende que o segundo objetivo tornaria o catálogo mais complexo? Porque exige que o catálogo bibliográfico identifique e vincule obras sob diferentes títulos ou nomes de autores (ex.: pseudônimos, traduções, edições alternativas), o que demanda mais tempo, conhecimento bibliográfico e recursos financeiros.
- Qual é o papel do bibliotecário na definição da função do catálogo bibliográfico? Ele deve decidir se o catálogo será apenas um instrumento de localização simples (focado no primeiro objetivo) ou se incluirá relações bibliográficas (segundo objetivo). Essa escolha teria impacto na eficácia do catálogo e nos custos de catalogação. Se o bibliotecário não se posicionar durante a revisão das regras, perderá a chance de influenciar o modelo adotado.
Coloque tais questões no contexto atual da catalogação e da função do bibliotecário catalogador, mediada pelas normas e tecnologias. Onde ele interpreta e aplica normas como RDA, ISBD consolidada, MARC21 e princípios do FRBR/LRM para criar registros consistentes e interoperáveis.
Indicação de leitura:
Lubetzky, Seymour. The Function of the Catalog. College & Research Libraries, vol. 17, no. 3, 1956. DOI: https://doi.org/10.5860/crl_17_03_213