POR NORMAS DE CATALOGAÇÃO COMPREENSÍVEIS, GRATUÍTAS E DE ACESSO ABERTO
Recentemente, tomei conhecimento do projeto de regras abertas para catalogação (Open Rules for Cataloging Project – ORC). Lançada em 2019, essa iniciativa visa estabelecer normas baseadas nos princípios de gratuidade e acesso aberto, oferecendo exemplos práticos e compreensíveis, desenvolvidos por bibliotecários especializados em catalogação e metadados.
É ação proposta por Amber Billey, do Bard College, com a justificativa decorrente de consenso da comunidade profissional e de especialistas em catalogação e metadados, que entendem ser a RDA (Resource Description and Access) uma ferramenta de difícil compreensão, além de um modelo de negócio baseado em assinatura de acesso, com um preço fora do alcance de muitos profissionais e bibliotecas.
Saliente-se que a iniciativa não é nova. Em artigo, nesta coluna: “RDA: o modelo de negócio que inflaciona a catalogação brasileira”, comentamos sobre o movimento então nascente, contra a estrutura comercial da RDA. A alternativa denominada: Cooperative Cataloging Rules Blog, lançada em 2009, era estruturada para a comunidade de catalogação, de forma a permitir que as regras de catalogação fossem mantidas e atualizadas, pela comunidade optante em não adotar a RDA.
Firma-se, assim, que a questão econômica, aqui realçada, é uma opinião compartilhada, até mesmo, entre vários bibliotecários de catalogação brasileiros.
De certa forma, constata-se um significativo óbice financeiro para muitas bibliotecas brasileiras, quanto do exterior, no acesso ao RDA. Mesma consideração, na perspectiva dos cursos de Biblioteconomia e Ciência da Informação.
Nos Estados Unidos, líderes do movimento, consideram que a comunidade bibliotecária precisa de alternativas aplicáveis e abertamente disponível.
Neste sentido, o movimento teve uma interrupção em 2020, sendo redivivo em 2021, por Denise Soufi (University of North Carolina), junto com Faye Leibowitz (University of Pittsburgh).
Atualmente, o ORC organiza-se em Coordenação Executiva, que supervisiona o desenvolvimento das regras. As regras são efetivamente elaboradas por um comitê de regras (Rules Committee). A organização é regida por estatuto (Open Rules for Cataloging Bylaws), que fornece as diretrizes legais e operacionais do processo. Ressalte-se, que o envolvimento e trabalho é voluntário.
É acrescentado, neste contexto, que a colaboração voluntária e o conceito do acesso aberto, são um estímulo à busca por um código de catalogação de acesso aberto. O incentivo ao cooperativismo ao estimular participação, ajuda a promover a inclusão catalográfica de várias maneiras.
Primeiro, elimina-se o acesso pago, que serve de barreira para muitas agências bibliográficas, carentes de recursos financeiros; e promove, pela necessidade, a rápida adoção das regras.
Segundo, favorece a transparência, ao considerar as necessidades de diferentes perfis de usuários e de bibliotecas.
Terceiro, possibilita uma cooperação bibliotecária para além das estruturas institucionais.
Por fim, as regras, sob a diretriz do acesso aberto, auxiliam na facilitação da interoperabilidade dos dados. Por serem de livre acesso, podem ser adotadas por provedores de conteúdo ou outras comunidades de informação, promovendo uma melhor integração dos diferentes serviços de dados, com o catálogo bibliográfico.
A concepção do projeto é baseada no modelo do RBMS RDA Editorial Group, que permitiu clonar o seu repositório GitHub, contendo diretrizes para a catalogação descritiva de materiais raros (Descriptive Cataloging of Rare Materials – DCRMR). Atualmente, o DCRMR opera catalogação de livros raros em conformidade com o RDA. Para uma abordagem sobre a norma, ver o artigo publicado nesta coluna: “Bibliotecários e a semântica para obras raras”.
O ORC está embasado por outras iniciativas abertas de catalogação, e de melhores práticas catalográficas, como:
- CONSER (Cooperative Serials Program) Cataloging Manual CCM. Serials: programa para registros bibliográficos, documentação e materiais de treinamento, orientados à catalogação de seriados. Padrões e procedimentos catalográficos são encontrados no Manual de Catalogação CONSER (CCM) e no Guia de Editoração CONSER (CEG), disponíveis gratuitamente.
- DCRMR: Descriptive Cataloging of Rare Materials (RDA Edition): é um, dentre vários manuais, que fornecem regras especializadas para diversos formatos de materiais raros, normalmente encontrados em repositórios de livros raros, manuscritos e coleções especiais.
- Visual Resources Association (VRA) Cataloging Cultural Objects (CCO): manual para catalogação de artefatos culturais (como arte e arquitetura) e mídias visuais.
- Art Libraries Society of North America (ARLIS/NA) Cataloging Exhibition Publications, melhores práticas: fornece orientação para bibliotecários de catalogação que trabalham com publicações de exposições de arte. Suas diretrizes são usadas em conjunto com outros códigos, como: AACR2r, RDA, Library of Congress Rule Interpretations (LCRI) e MARC21.
- Atla Cataloging Best Practices in Religion: programa no campo da religião, com finalidade de criar recursos de melhores práticas para registros de autoridade. É uma atividade cooperativa, entre Catholic Library Association (CLA) e a Association of Christian Librarians (ACL). Essa ação conjunta atuou em dois projetos: Best Practices for Authority Records in the Field of Religion e Thesaurus of Religious Occupational Terms (TROT).
- Music Library Association (MLA) Cataloging Resources: é uma associação da área da música, que agrega bibliotecários, músicos, acadêmicos, educadores e membros do mercado editorial de livros e fonográfico. Desenvolve e mantêm vocabulários para catalogação musical, auxílio na aplicação do padrão MARC para materiais musicais, além de desenvolver documentos específicos para música, como suplemento ao RDA.
- On-line Audiovisual Cataloger (OLAC) Best Practices & Guidelines: instituição orientada aos bibliotecários de catalogação preocupados com os tipos de materiais não impressos, incluindo a diversidade de recursos digitais; bem como, os formatos "tradicionais" de gravações de vídeo e som; além de sites, mapas, multimídia, materiais gráficos e realia.
O ORC também se utiliza, em termos bibliográficos, de recursos catalográficos sem direitos autorais, e de acesso aberto, como base para desenvolver as suas regras. São recursos:
- ALA 1908 rules = Catalog Rules: Author and Title Entries. Chicago: ALA, 1908.
- Bibliographic Framework Initiative: BIBFRAME 2.2.0 vocabulary: apresenta o vocabulário, em lista ordenada de classes e propriedades, seguida de informações detalhadas do protocolo.
- IFLA Element Sets: contempla o registro de classes e propriedades da International Standard Bibliographic Description (ISBD), edição consolidada.
- LC 1949 rules = Rules for Descriptive Cataloging in the Library of Congress. Washington: Library of Congress, Descriptive Cataloging Division, 1949.
- LCRI = Library of Congress Rule Interpretations.
As indicações, ilustram o quanto de normativas e diretrizes catalográficas existem disponíveis em acesso aberto, e com ampla possibilidade de fornecer suporte para formulação de políticas de catalogação; bem como, apoiar a análise e o julgamento dos bibliotecários de catalogação, nas deliberações de procedimentos técnicos aplicados.
Ainda, em relação a finalidade do ORC, em artigo publicado (Leibowitz, 2022), é destacado que o Projeto, além de ser uma alternativa ao RDA, como um código de catalogação simples e menos abstrato; apresenta a premissa de estabelecer conceitos universais de catalogação, em conjuntos de regras preexistentes, que subsidiem um código moderno.
O ORC tem três objetivos: reduzir custos, promover a inclusão e facilitar a interoperabilidade de dados. Os esforços procuram tornar os resultados compatíveis com uma variedade de ambientes de metadados. Essa compatibilidade permitirá o intercâmbio e a reutilização de dados; bem como a adaptação.
Leibowitz (2022), observa a aderência do projeto à Declaração dos Princípios Internacionais de Catalogação da IFLA, o que legitima sua abrangência e o resultado de sua política catalográfica. Neste aspecto, é salientado alguns dos princípios da IFLA, como:
- Uso comum: um dos desafios do RDA, refere-se ao uso de terminologia que não reflete o uso comum e, nem mesmo, a tradição catalográfica. A terminologia tradicional, em geral, deve ser mantida no ORC, em especial, para os elementos de dados considerados importantes para os não bibliotecários.
- Representação: princípio modificado no ORC. As formas controladas de nomes são reconhecidas como importantes e apoiada pelo projeto. A expectativa não é criar regras para o controle de autoridade, mas endossar quaisquer padrões atuais e futuros.
- Precisão: importante para conectar os usuários aos recursos. O ORC acredita na transcrição para registrar dados, a menos que uma representação diferente seja mais útil para os usuários.
- Economia: princípio motriz no desenvolvimento do ORC. As regras serão formuladas para serem práticas e de fácil aplicação. Para cumprir esse princípio, serão fornecidos exemplos, acompanhados de codificação em MARC.
- Suficiência e necessidade: incluir elementos dos dados requeridos para facilitar o acesso aos usuários. O ORC inclui elementos que facilitam o acesso, contribuem para o funcionamento do catálogo, além de descrever e identificar, adequadamente, os recursos. Esses elementos são escolhidos com base em sua relevância e capacidade de identificação de uma entidade de forma exclusiva.
- Coerência e normalização: o ORC respeita e apoia o princípio das regras atuais para autoridade. Permanecerá focado na descrição bibliográfica e se baseará na tradição da catalogação compartilhada, para criar suas regras.
- Integração: o foco do ORC está nos recursos bibliográficos, em geral, encontrados em bibliotecas públicas e universitárias. O projeto iniciará com as regras de catalogação para monografias não raras, e desenvolverá regras para outros formatos, se necessário para a comunidade.
- Racionalidade: o princípio da IFLA será seguido no ORC, na medida do possível. Há situações em que haverá desvio para atender a outros de maior prioridade. Esses desvios, pouco frequentes, serão racionais e não arbitrários.
Um esboço inicial da catalogação, no ORC, apresenta a seguinte estrutura descritiva dos elementos, visualizados no quadro a seguir:
![]() |
Um aspecto significativo no Open Rules for Cataloging é o seu potencial de revolucionar os processos catalográficos, por meio da simplificação, de ser acessível aos bibliotecários, agências bibliográficas e usuários.
Entretanto, o seu êxito depende do apoio e participação dos bibliotecários de catalogação norte-americanos. Quanto maior a aderência, melhor o resultado. Aliás, o desenho do projeto até poderia ser replicado, no Brasil. Afinal, temos entidades profissionais e grupos de bibliotecários de catalogação estabelecidos, que poderiam somar esforços, tendo como eixo catalográfico, a edição consolidada da ISBD, embasada nas proposições do ORC.
Nota-se que o Open Rules for Cataloging está suportado em mais de 100 anos de história e documentação catalográfica, para identificar os principais conceitos comuns aos padrões descritivos. Os padrões filosóficos e éticos atuais, também estão incorporados ao desenvolvimento do ORC. Para os coordenadores, no futuro, é desejo desenvolver um sistema interativo que permita à própria comunidade de catalogação, complementar o modelo.
Indicação de leitura:
Leibowitz, F.; Soufi, D.; Billey, A.; Theimer, S. Open Rules for Cataloging. Serials Review, May 2022.
