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O REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO DOS REQUISITOS FUNCIONAIS

Há sessenta e cinco anos, a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas e Instituições (IFLA) deu início à uma importante revisão dos fundamentos e práticas catalográficas em âmbito mundial. Um primeiro resultado desta ação foi o acordo sobre o conjunto de princípios da catalogação, acertados na Conferência Internacional, realizada em Paris, no ano de 1961, conhecida como “Princípios de Paris”. Na sequência, houve a Reunião Internacional de Especialistas em Catalogação, identificada pela sigla RIEC, ocorrida em Copenhague, no ano de 1969. No evento estabeleceu-se normas internacionais referentes à forma de organização dos dados em um registro bibliográfico, o que resultou na normativa: International Standard Bibliographic Description for Monographic Publications – ISBD/M, editada em 1971.

Os eventos citados, constituíram as bases da catalogação bibliográfica, refletidas em uma miríade de códigos de uso nacional ou internacional. Entretanto, ao longo do tempo desta, hoje denominada catalogação tradicional, seguiu abordado o item bibliográfico como um item físico individual ou unidade bibliográfica, a exemplo do livro, uma partitura ou um mapa (ou cada conjunto óbvio de itens físicos, como enciclopédia em dois ou mais volumes, ou uma série em vários volumes) como um recurso único de informação. Isso, com pouca ou nenhuma suposição, por parte do bibliotecário de catalogação, quanto a natureza dos itens e de suas relações.

No entanto, também ao longo deste percurso histórico até os dias atuais, o ambiente catalográfico tem mudado radicalmente, com efeitos sobre o desenvolvimento de sistemas automatizados aplicados à criação e processamento dos dados bibliográficos; e de bases de dados contendo registros compartilháveis por milhares de bibliotecas. Tudo isso com efeitos econômicos sobre os processos da catalogação, em especial de produção e/ou duplicação de registros bibliográficos.

Entretanto, nas últimas três décadas (talvez um pouco mais ou pouco menos), emerge na literatura profissional a terminologia dos “modelos conceituais”, com consequente desenvolvimento de reflexões teóricas inovadoras e relacionadas com a caracterização do universo bibliográfico e da funcionalidade dos dados bibliográficos. Aspectos com os quais as bibliotecas passaram a prospectar, e mesmo elaborar protótipos, com os instrumentos de organização e controle da representação dos recursos de informação, que possibilitassem aos usuários poderem explorá-los e acessá-los.

O ponto de ignição, pode-se considerar, foram com os estudos dos requisitos funcionais que decorrem do reconhecimento das evidentes limitações dos catálogos bibliográficos, desde os modelados em fichas impressas, aos eletrônicos e/ou de acesso público online, todos baseados nas diretrizes da ISBD/AACR2. Neste sentido, emergem experimentações e projetos exploratórios de aplicação dos modelos conceituais. Cenário no qual se promovem revisão de princípios e conceitos que progressivamente foram sendo absorvidos no desenvolvimento de normativas e protocolos catalográficos.

O seminário sobre Registros Bibliográficos, organizado pelo Universal Bibliographic Control and Internacional MARC Programm (UBCIM) e a Divisão para Controle Bibliográfico da IFLA, realizado em Estocolmo, Suécia, no ano de 1990, representa a citada “ignição” para exame dos objetivos e natureza dos registros bibliográficos. Inicialmente, sem pretensão explicita de ser o ponto de partida para a revisão das normas de catalogação, como aconteceu posteriormente.

Pacheco e Ortega (2015), em estudo de revisão bibliográfica, abordam a “Origem do modelo FRBR”, oportunidade em que ressaltam o conceito de “modelo” e de “modelo conceitual”. Em relação ao último termo, denominado no ambiente de sistema, como modelo abstrato utilizado para automatizar e organizar processos que o envolvem, visando a compreensão detalhada de suas características. Aplicado em um sistema de informação documental, expressa seus elementos essenciais, permitindo abstrações de detalhes específicos das várias ocorrências dos sistemas reais existentes. Ressaltam que o uso dos termos entidade, atributos e relacionamento não eram usuais na teoria tradicional da catalogação. Decorrem do referencial teórico baseado nos estudos de:

  • James Martin, “Strategic Data-Planning Methodologies”, de 1982;

Sendo que os elementos básicos do modelo para estudo das entidades, atributos e relações derivaram da análise dos registros bibliográficos, tendo como fonte, segundo o relatório final do FRBR, as ISBDs; as Guidelines for Authority and Reference Entries (GARE); as Guidelines for Subject Authority and reference Entries (GSARE) e o UNIMARC Manual. Outras fontes também foram utilizadas, como as AITF Categories for the Description of Works of Art, além de especialistas da área.

Porém, no âmbito dos estudos basilares, que subsidiaram o movimento de constituição dos modelos conceituais, há o texto clássico de Peter CheinThe Entity-Relationship Model-Toward a Unified View of Data”. O texto que serviu à composição dos requisitos fundamentais, é bibliografia básica nos cursos de banco de dados. Aborda um método para a modelagem de dados, denominado modelo entidade-relacionamento (E/R).

O modelo incorpora informações semânticas importantes sobre o mundo real. Sendo uma técnica de diagramação, que introduz procedimento para projeto de banco de dados. Ressalte-se, ainda, que anterior, há os estudos de esquemas de diagramas de esquema foram formalizados na década de 1960, por Charles Bachman (1924 – 2017), e utilizados por Chen.

Entretanto, desde a década de 1970, o modelo E/R se destacou dentre três outros métodos de modelagem do período: network model (modelo de rede), relational model (modelo relacional), entity set model (modelo de conjunto de entidades). O destaque do E/R decorria de suas vantagens, como adotar uma interpretação natural de que o mundo real estava composto de entidades e relacionamentos; e por incorporar informações semânticas importantes deste mundo real. Desta forma, servir como base para uma visão unificada dos dados.

A Figura 01, extraída do texto de Chen, ilustra o conceito de entidade e relacionamento sob aplicação da metodologia. Cada conjunto de entidades é representado por uma caixa retangular e cada conjunto de relacionamentos é representado por uma caixa em forma de losango. O fato do conjunto de relacionamentos definido entre conjuntos de entidades (Trabalhador e Projeto) é representado pelas linhas que conectam as caixas retangulares. Os papéis das entidades no relacionamento são declarados.

 

 

O diagrama do modelo E/R é um tipo de fluxograma, no qual as entidades se relacionam entre si dentro de um sistema. O modelo é, portanto, definido de símbolos, como: retângulos, losangos e linhas de conexão para representar a interconectividade de entidades, relacionamentos e seus atributos.

Ressalte-se, que modelos de diagrama são utilizados em vários campos de atividade, desde as engenharias até modelagem de jogos. São muitos os contextos de modelagem que o próprio termo pode ser definido em diferentes significados. Uma definição apontada por Carlyle (2006), e adaptada aos propósitos catalográficos é o de descrição simplificada de entidades do universo bibliográfico. Uma modelagem com o objetivo principal de melhorar registros de catalogação (produto), a catalogação (processo), e o catálogo (tecnologia).

Na abordagem da bibliografia básica utilizada pelos estudos de concepção dos requisitos funcionais, o FRBR é um modelo de modelo, baseado em modelo, se considerado que o registro bibliográfico é a representação de um recurso informacional e, portanto, à sua maneira, um modelo de dados, porém bibliográfico.

Neste sentido, Fusco (2010) salienta que a análise lógica dos dados contidos em um registro bibliográfico possibilita elaborar a descrição dos elementos básicos baseados no modelo proposto por Peter Chen, e que define a representação das informações para modelagem de banco de dados baseada em entidades, atributos e relacionamentos entre entidades.

Neste sentido, o percurso histórico por meio da análise bibliográfica, buscou reconstruir as bases que nortearam a formulação dos modelos catalográficos atuais, e que influenciam o perfil do bibliotecário de catalogação no desempenho de sua atividade e na elaboração dos catálogos bibliográficos baseados agora no modelo E/R, com enfoque nas necessidades de pesquisa dos usuários.

Indicação de leitura:

Carlyle, A. Understanding FRBR as a conceptual model: FRBR and the bibliografia universe. Library Resources and Technical Service, v. 50, n. 4, p.264-272, Oct. 2006.

Fusco, E. Modelos conceituais de dados como parte do processo da catalogação: perspectiva de uso dos FRBR no desenvolvimento de catálogo bibliográficos digitais. Marília, 2010. Tese (Doutorado em Ciência da Informação), UNESP.

Pacheco, K. L.; Ortega, C. D. Origem do modelo FRBR. Biblios, n.60, 2015.


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.