SEM TÍTULO
Peço licença para deixar o leitor com a curiosidade suspensa. Se colocasse título já perderia a liberdade interpretativa.
Desde a década de 1980 tenho lido, pesquisado e colecionado livros infantis, em especial, uma categoria que por muito tempo foi discriminada. Quando conheci essa categoria os livros eram denominados - livros de imagem e livros sem texto. No entanto, considero que imagem também é texto, então prefiro chamá-lo de livros sem palavras. Ops! acho que já falei isso outro dia no Infohome.
Mediar os livros sem palavras é diferente da mediação feita utilizando os livros com palavras. A diferença está na postura do mediador que deve ser cautelosa. O mediador precisa de paciência, pois no momento de mudar as página não pode antecipar a interpretação do leitor, deve sim fazer perguntas, apontar uma imagem em tamanho menor, colaborar com o leitor para entender uma onomatopeia, indicar uma mudança fisionômica sempre visando que ele descubra sozinho. Em alguns casos é interessante omitir o título do livro. Exatamente o que estou fazendo nessa Coluna escondendo o título dela para não apressar o leitor quanto ao assunto a ser abordado.
Hoje quero apresentar uma descoberta recente e fascinante: o livro do Graciliano Ramos intitulado... ops! quase falo. Não posso! O livro foi publicado pela Editora Baião em 2024. Ele ainda está com aquele cheirinho de tinta fresca que tanto gosto.
Antes, porém quero lembrar que Graciliano Ramos é um escritor brasileiro integrante do Regionalismo. “[...] nasceu em Quebrangulo (Alagoas) em 1892 e morreu no Rio de Janeiro, em 1953. Foi uma das figuras mais importantes na renovação da ficção no Brasil [...]. Participante ativo das transformações políticas que marcaram o cenário brasileiro dos anos 1930-1940.” (Coelho, 2006, p.307). Esteve preso 10 meses na Colônia Correcional e quando saiu iniciou a escrita do livro infantil A terra dos meninos pelados. Obra que irei abordar em outro momento, mas que desde já recomendo a leitura.
Voltando ao livro recém descoberto preciso dizer que é um livro sem palavras um pouco diferente do que estou acostumada a comprar. Ele tem um encarte bem no meio da obra num papel em tamanho menor num tom amarelo ouro onde está impresso “[...] com data de 5 de setembro de 1923 e assinado por um tal de J. Calisto.” J. Calisto foi um dos pseudônimos utilizado por Graciliano Ramos no início da carreira. Trata-se de um texto inédito inspirado na fábula A águia e o mocho do escritor francês La Fontaine.
Na primeira capa há a indicação: Pinturas – Gustavo Magalhães e na quarta capa Pesquisa e Organização – Thiago Mio Salla. Preciso acrescentar, com certo bairrismo, que Gustavo Magalhães nasceu no interior do Paraná (Goioerê) e atualmente mora em Curitiba.
Imagino que não devo acrescentar mais nada. Só me resta dizer:
1º.) um autor de qualidade, um pintor/ilustrador de qualidade e um pesquisador/organizador de qualidade reunidos em um livro só poderia resultar em uma grande obra. Uma coruja linda, um gavião altivo, um céu azul em uma tonalidade deslumbrante reforça em mim a crença de que a literatura infantil brasileira é fenomenal!
2º.) o título que colocaria na Coluna é: Quem ama o feio, bonito lhe parece.
A dedução da temática deixo para você leitor.
Sugestões de leitura:
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.
RAMOS, Graciliano. Os filhos da coruja. São Paulo: Editora Baião, 2024.