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BIBLIOTECÁRIOS COMO AGENTES SECRETOS NA II GUERRA

Na consulta ao AACR2, há o capítulo 11 referente às microformas. Contém regras para a descrição de materiais microfilmados. Inclui microfilmes, microfichas, micro opacos e cartões-janela.

Esses suportes contemplam reproduções de materiais textuais ou gráficos. Para a catalogação descritiva de microfilmes, as regras estipulam como fonte principal de informação, o fotograma do título indicado no início do item e que contenha outros detalhes da publicação. No caso do cartão-janela, é o próprio suporte ou se for um conjunto de cartões, o cartão do título. As microfichas e micro opacos têm a fonte extraída também do fotograma do título. Se a indicação for insuficiente, utilizar os dados legíveis “a olho nu”, impressos no documento.

Essa abordagem inicial é para salientar que este suporte tecnológico, pouco destacado atualmente, no ensino da catalogação, e mesmo em bibliotecas, foi um recurso estratégico na coleta de informação, em décadas passadas. Foi muito utilizado na atividade de inteligência durante a Segunda Guerra Mundial.

Na guerra, como na paz, informação e conhecimento é poder. Para os países aliados, na Segunda Guerra, uma das últimas batalhas da era analógica, travada não só no uso de soldados, armas e bombas, mas na obtenção e transmissão de informações úteis ao desenvolvimento de novas tecnologias, armas e estratégias militares.

Nesta guerra, a participação bibliotecária deu-se através da convocação pelo governo dos Estados Unidos (presidente Franklin Roosevelt), para o esforço de guerra. Ressalte-se que, nos meses que antecederam a entrada do país na guerra (1941), havia um atraso na coleta de informações. Para tanto, foi criado o Escritório de Serviços Estratégicos (Office of Strategic Services – OSS), precursor da Agência Central de Inteligência (CIA). O seu primeiro diretor, William “Wild Bill” Donovan colega de Archibald MacLeish (bibliotecário do Congresso), viu o potencial dos bibliotecários de servirem como ativos valiosos.  Entendia que a luta também envolvia o controle informacional, e esse dependia da capacidade de transportar e classificar informações. Sob coordenação do Comitê Interdepartamental para Aquisição de Publicações Estrangeiras (Interdepartmental Committee for the Acquisition of Foreign Publications – IDC), alistou-se a ajuda de bibliotecários, entre outros.

Foram, portanto, recrutados pela competência em pesquisa e organização da informação; além do conhecimento no uso de dispositivos tecnológicos aplicados na coleta e compartilhamento de informações, com as forças militares. Desta forma, bibliotecários colaboraram na luta para derrotar os nazistas.

A missão desses profissionais requeria microfilmar documentos, inclusive os raros e/ou de arquivo; além de manuais tecnológicos, levantamentos fundiários e relatórios econômicos disponíveis, relativos aos países do Eixo. Posteriormente, desenvolviam meios de enviá-los entre os continentes.

O microfilme era uma alternativa importante aos bibliotecários, pois revolucionava as bibliotecas universitárias norte-americanas. Sendo um produto da redução de textos ou gráficos em miniatura possibilitava agilizar o processo de coletar volumosa quantidade de documentos impressos e os enviar para qualquer lugar, em formato miniaturizado, ampliando o alcance do acesso à informação. Havendo como requisito necessário um dispositivo de leitura, no destino, para recepcionar e ampliar o microfilme até o ponto de legibilidade.

Ao longo da guerra, o IDC desenvolveu extensa operação no fornecimento de fontes impressas para fins de inteligência. À medida que editores e livreiros contribuíam na atividade de inteligência, os procedimentos comuns à biblioteconomia como: aquisição, catalogação e reprodução, tornaram-se repletas de aventura, suspense e risco.

Atualmente, o tema é tratado como ação de inteligência e contrainteligência, que objetiva prevenir, detectar, obstruir e neutralizar a atividade de inteligência adversa que ameacem a salvaguarda de dados, conhecimentos, pessoas, áreas e instalações de interesse da sociedade e do Estado.

Kathy Peiss, em livro e artigo sobre a participação bibliotecária na Segunda Guerra, destaca que na primavera de 1942, os primeiros agentes bibliotecários (homens e mulheres) foram enviados para a cidade de Estocolmo, Lisboa e outras localidades de países neutros. No caso da cidade de Lisboa, Portugal, em tempos de guerra, era um lugar importante para se estar. O ditador Antônio de Oliveira Salazar havia declarado a neutralidade de Portugal, na expectativa de evitar alguma invasão e, desta forma, manter o que restava do império lusitano.

Apesar de simpatizar com o fascismo, Salazar estava vinculado por um tratado com a Grã-Bretanha, ficando posicionado entre os Aliados e o Eixo. A neutralidade portuguesa, tornou o país uma encruzilhada da Europa e das Américas, um ímã para exilados e refugiados, diplomatas, correspondentes estrangeiros e aventureiros.

Em Lisboa, os cafés, bancas de jornal e livrarias tinham assídua frequência. Da mesma forma que os salões de festas e cassinos. Não por acaso, a cidade se tornou o destino de viagem para espiões de ambos os lados. As possibilidades clássicas da modernidade urbana – o anonimato, o disfarce, a remodelação da identidade – foram todas aumentadas na Lisboa do tempo da guerra. Cartões de apresentação de magnatas, empresários, artistas, cineastas e adidos consulares escondiam vidas clandestinas. Até mesmo simples leitores de livros ou os citados bibliotecários podiam ser agentes infiltrados.

A cidade havia desenvolvido uma economia própria da informação – um mercado subterrâneo onde se negociavam fofocas e se espalhavam boatos. Agentes alemães, britânicos, americanos e japoneses se misturaram, ouvindo informações e espalhando desinformação. Boatos eram moeda corrente em um lugar no qual a censura à imprensa e a atuação da polícia secreta prevaleciam; e a guerra na Europa alimentava os boatos.

Neste contexto, o OSS encaminhou memorandos à sua representação, em Lisboa, com orientações baseadas em estratégias de marketing, para propagação de rumores. Destacava que a forma ideal de espalhar um boato não é contá-lo ao maior número de pessoas em lugares possível, mas colocá-lo na boca de uma pessoa que soubesse ser fofoqueira.

Os próprios agentes podiam inventar rumores, tão devastadores quanto quisessem, exceto sobre três assuntos que eram expressamente proibidos: planos militares futuros, atividades dos países neutros e o Papa.

Nesse ambiente de intrigas, os americanos mostraram-se em desvantagem na coleta e avaliação de informações e de sua plausibilidade e utilidade, superados pelos veteranos agentes de operações clandestinas britânicas e alemãs. Os primeiros agentes da OSS não tinham formação em assuntos militares ou políticos e, principalmente, não falavam português. Uma significativa desvantagem tática.

Na efervescente caldeira simbolizada pela cidade de Lisboa, estavam aqueles em busca de um tipo diferente de informação, na forma da palavra impressa. Apesar da repressiva ditadura Salazarista, esta não impediu o crescente negócio editorial: livros, jornais e revistas, entre a população da cidade.

As bancas e livrarias comercializavam de tudo, do Daily Express ao Das Reich. Jornais de todos os principais países da Europa, exceto a Rússia. Lisboa tinha muitos livreiros, desde a Livraria Bertrand (segundo o Guiness Book, a mais antiga do mundo, fundada em 1732), até a então recém-inaugurada Livraria Portugal, cujos proprietários eram simpáticos à causa aliada.

Até as papelarias comercializavam obras úteis, sendo algumas especializadas em assuntos militares, outras em livros e instrumentos de engenharia. E, apesar, da atuação de censores do governo, restrições alfandegárias e ventos políticos cambiantes, esses comerciantes encontraram maneiras de importar publicações e manter suas prateleiras abastecidas.

Portanto entre todos que buscavam informações, estavam os bibliotecários do IDC. Agentes que se apresentavam como funcionários americanos que recolhiam materiais para a Biblioteca do Congresso e outras bibliotecas governamentais, naturalmente interessadas em preservar os registros da então crise civilizatória.

Os bibliotecários realizavam rondas sistemáticas em editoras, livrarias e papelarias; além de adquirir assinaturas com agregadores de notícias. Pela forma de atuação, angariavam a simpatia de moradores locais, incluindo acadêmicos, editores, jornalistas e funcionários públicos que ajudavam, encomendando livros e jornais em seus próprios nomes, como uma fachada para os agentes da informação.

Esse público colaborador não pedia dinheiro, mas desejava, em troca, livros atuais e publicações como: LIFE e TIME. Entre os agentes do IDC havia o consenso de que os contatos mais valiosos em Lisboa se deviam à capacidade bibliotecária de lhes fornecer material escrito, que de outra forma seria impossível obter devido à censura imposta pelo governo português.

Em 1943, com a operação em pleno vapor, surge outro fato. As fontes de informação e o fluxo das publicações começam a variar com os movimentos da guerra. Os alemães reforçaram os controles fronteiriços e as fontes na Suíça começaram a ser fechadas. O IDC então providencia uma grande remessa de materiais de uma livraria suíça para um endereço comercial em Lisboa.

A crescente resistência francesa e italiana também estimulou a constituição de uma coleção de publicações clandestinas. O posto avançado do IDC tentou atender os pedidos urgentes de agências de guerra em Washington, de embaixadas e agentes de fora de Lisboa.

Agentes da IDC contataram editores de jornais húngaros, livreiros em busca de diretórios ferroviários e de guias de viagem pré-guerra publicada pela editora alemã Karl Baedeker. Tudo para ajudar no planejamento militar.

Um telegrama destacou a grande demanda por cerca de 250 edições originais de jornais diários, incluindo duplicatas, a serem obtidas com a máxima rapidez. Durante a Operação Tocha, a invasão aliada do norte da África, o posto avançado da OSS, em Argel, pediu a IDC o envio de jornais alemães atuais. Tendo sido obtido dez diários, enviados por uma rota tortuosa através do Tânger e que levou quatro dias.

Peiss, ao comentar sobre o valor dessas aquisições, salienta que, no mundo sombrio da inteligência, a palavra impressa era esclarecedora, ou assim parecia. A materialidade das publicações as tornava mensuráveis — número de livros enviados e bobinas de microfilme filmadas. Periódicos científicos, manuais técnicos e diretórios industriais diretamente do Eixo e dos países ocupados foram estudados em busca de evidências sobre a força das tropas inimigas, novos armamentos e produção econômica.

Até itens triviais podiam ser significativos: colunas sociais podiam revelar a localização de um regimento, e colunas de fofoca forneciam pistas que um agente secreto poderia explorar.

A disposição em privilegiar as palavras impressas, em detrimento das faladas, fez com que tais fontes parecessem mais confiáveis. Em Lisboa, com a sua rica produção de rumores e especulações, a OSS divulgou apreciados resumos de imprensa.

Outros ramos secretos de inteligência que buscavam assediar informantes humanos, consideravam que o material informativo publicado em jornais estrangeiros, era de grande valor. As agências de guerra norte-americanas consideraram esses materiais úteis. Mas havia mais nessa percepção do que o simples ato de leitura dos textos. Os bibliotecários do IDC transformaram a coleta e tratamento das formas bibliográficas de livros e folhetos em um gênero de inteligência.

Ressalte-se que, no período haviam os Monuments Men. Uma unidade militar de especialistas em museus, dedicados ao salvamento da arte e cultura ameaçadas pela guerra. A Segunda Guerra Mundial exigiu a mobilização de conhecimentos para combater o inimigo, e livros e documentos chamaram a atenção de muitos tomadores de decisão, civil e militar. Como mencionado, as publicações estrangeiras eram vistas como uma poderosa fonte de inteligência. Entretanto, com o tempo surgiram questões sobre a preservação das bibliotecas, restituição de coleções saqueadas e reconstrução de bibliotecas, arquivos e museus. 

Após o fim da II Guerra, a Alemanha foi ocupada pelas forças aliadas (1945 a 1949) e dividida em quatro setores sob controle da Grã-Bretanha, França, União Soviética e Estados Unidos. No setor controlado pelos Estados Unidos, instalou-se a Library of Congress European Mission.

Essa Missão era composta de bibliotecários, arquivistas e outros especialistas em documentação. Tiveram a incumbência de formularem acordos com editores e livreiros para a compra de livros e materiais bibliográficos destinados às bibliotecas americanas. Desta forma, ajudaram o departamento de guerra norte-americano na coleta e triagem de documentos, produzidos pelo regime nazista.

 

Indicações de leitura:

Peiss, K. Why the U.S. Sent Librarians Undercover to Gather Intelligence During World War II. Time, January 3, 2020. https://time.com/5752115/world-war-ii-librarians/

Peiss, K. Information Hunters: When Librarians, Soldiers, and Spies Banded Together in World War II Europe. New York, NY: Oxford University Press, © 2020. https://global.oup.com/academic/product/information-hunters-9780190944612?cc=us&lang=en&

Moench, K. M. How American Librarians Helped Defeat the Nazis. JSTOR Daily, November 29, 2023. https://daily.jstor.org/how-american-librarians-helped-defeat-the-nazis/


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.