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COMENTANDO A ONTOLOGIA DO FABIO

Nas disciplinas de ou relacionadas à catalogação, há um termo recorrente, “ontologia”. Sendo ramo da filosofia, o termo surgiu em 1613, expressado por dois filósofos: 1) Rudolph Göckel der Ältere, latinizado como Rudolf Goclenius, em português Rodolfo Goclenio (1547–1628), em seu Lexicon philosophicum (1631); e 2) Jacob Lorhard (1561–1609), em seu Theatrum philosophicum.

Já, sua definição, em inglês, é dada por Nathan Bailey, no seu "Dicionário Etimológico Universal" (1721), como “um relato abstrato do ser”. A ontologia é um conceito que busca fornecer classificação definitiva e exaustiva de entidades em todas as esferas do ser.

No âmbito da ciência da informação, a ontologia é usada para definir representações, categorias, propriedades e as relações entre conceitos, dados e entidades que substanciam um, muitos ou todos os domínios do saber. Em resumo, é uma forma de mostrar as propriedades de um campo temático, suas relações e definições vinculadas.

Cada disciplina ou campo de conhecimento cria ontologias para delimitar a complexidade e organização dos seus dados em informações e conhecimentos. Ressalte-se que as ontologias da ciência da informação e da filosofia têm em comum a tentativa de representar entidades, ideias e eventos, com todas as suas propriedades e relações interdependentes, de acordo com um sistema de categorias.

Nesse contexto, no âmbito catalográfico, em 1998, a divisão de catalogação da Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA), publicou a proposta de um novo modelo conceitual para definir as entradas em catálogos bibliográficos. O modelo tornou-se conhecido por seu acrônimo FRBR (Requisitos Funcionais para Registros Bibliográficos), e inovou ao estabelecer entidades e relacionamentos nos padrões de criação de metadados adotados ??para catálogos bibliográficos. O modelo fixou três grupos de entidades, denominados como grupos 1, 2 e 3.

O grupo 2 consistia em pessoas e organizações corporativas (grupos de pessoas) que têm alguma responsabilidade sobre as obras catalogadas (como criadores e editores). O grupo 3 (Conceitos, Objetos, Eventos, Lugar) tinha as entidades que representavam aspectos atuais do recurso. O Grupo 1 foi o mais inovador, ao separar a descrição do recurso criado em quatro níveis de abstração: Obra, Expressão, Manifestação e Item, consagrados pela sigla em inglês: WEMI (Work, Expression, Manifestation, Item).

É este último conjunto de entidades, que encontrou aderência para além do ambiente de uso da biblioteca. Embora o grupo de catalogação da IFLA, responsável pelo modelo FRBR trabalhasse orientado à descrição de dados bibliográficos, o resultado do trabalho revelou um conceito ausente na descrição de obras criadas, muito além do contexto da biblioteca.

Os níveis de abstração da Obra para o Item foram considerados úteis para diversos recursos, como versões de conjuntos de dados, rastreamento de documentos e até design de moda. Embora esses segmentos não tivessem relação direta com a biblioteca, tinham interesse em utilizar das entidades WEMI. Apesar dessas entidades refletirem o ambiente catalográfico da biblioteca e das suas regras específicas.

Segundo Coyle, há evidências de que os designers de metadados, de fora do âmbito bibliotecário, são atraídos pelos conceitos introduzidos pelo FRBR, em especial, pelas entidades WEMI. Essas entidades fornecem um modelo definido de “coisas” criadas que reconhecem os planos abstratos com os quais interagimos separadamente das formas de realização físicas.

Este preâmbulo, com os parágrafos anteriores, é necessário para mostrar como o desenvolvimento de uma ontologia foi beneficiada com a inovação do FRBR, o que favoreceu, por extensão, a reutilização em situações distintas do uso original pretendido pelo modelo, para as bibliotecas.

Para os usuários, o catálogo bibliográfico é o meio de comunicação com o acervo da biblioteca, no qual pode descobrir e localizar recursos, no nível de especificidade, que atenda às suas necessidades. A descrição multinível preconizada no WEMI do FRBR foi derivada das relações bibliográficas que podem ser de interesse para esse público da biblioteca.

Por exemplo, uma obra criada pode existir em várias edições, traduções ou arranjos (expressão); uma expressão pode ser publicada em muitos livros ou mídias (manifestação); e o resultado final de uma pesquisa pode ser a obtenção de um exemplar individual de propriedade da biblioteca (item).

O modelo FRBR obedeceu a critérios gerais de banco de dados, com o objetivo de eliminar duplicação de elementos de dados entre as entidades. Entretanto, o modelo foi revisado e substituído por outro, chamado Library Reference Model (LRM). Modelo que fornece mudanças significativas no design e nomenclatura, apesar dos conceitos básicos do WEMI permanecerem. Assim, elas são definidas no LRM como:

  • Obra: o conteúdo intelectual ou artístico de uma criação específica.
  • Expressão: a combinação específica de sinais que transmitem conteúdo intelectual ou artístico.
  • Manifestação: um conjunto de todos os suportes que supostamente compartilham as mesmas características do conteúdo intelectual ou artístico, e aspectos da forma física. Esse conjunto é definido pelo conteúdo geral e pelo plano de produção de suporte ou suportes.
  • Item: um ou vários objetos que carregam sinais destinados a transmitir o conteúdo intelectual ou artístico.

Ressalte-se que a maior parte das abordagens se refere ao modelo FRBR, pois alguns dos conceitos introduzidos pelo LRM, ainda carecem de mais discussão. No modelo FRBR são necessários todos os intervenientes: o único caminho da manifestação à obra ou vice-versa, é através da ligação entre manifestação e expressão e entre expressão e obra. Assim, os relacionamentos são imutáveis ??e todas as entidades “superiores” devem estar presentes para que uma entidade “inferior” seja descrita, caso da manifestação/item.

Um dos usos do FRBR é no conjunto de ontologias Semantic Publishing and Referencing Ontologies (SPAR). Essas ontologias definem metadados para descrever documentos e o fluxo editorial de publicação no domínio da produção acadêmica; além de fornecer um rico vocabulário para citações e referências. É nesse conjunto que se encontra a Ontologia Bibliográfica alinhada ao FRBR, FaBiO (FRBR – aligned Bibliographic Ontology), que define subclasses das entidades do FRBR, denominado: núcleo FRBR (FRBR Core).

Ressalte-se que o núcleo FRBR é “core” (núcleo/essência), por consistir apenas das entidades FRBR e os relacionamentos entre elas. Não inclui propriedades para os atributos definidos no modelo, para as entidades, como: título da obra ou editor da manifestação. Propicia espaço para que outros desenvolvedores de vocabulário descrevam as entidades por meio de atributos mais adequados às suas necessidades de uso, em contextos informacionais. A ontologia do núcleo FRBR, fornece definições com semântica de publicação acadêmica. Por exemplo, FaBiO:Work é definido como:

Fabio:work – subclasse de Obra FRBR, restrita a obras publicadas ou potencialmente publicáveis, e que contêm ou são citadas por referências bibliográficas, ou entidades usadas para definir referências bibliográficas. Fabio:Work e suas expressões e manifestações, são em principalmente publicações textuais como: livros, revistas, jornais e periódicos, e itens de seu conteúdo. Também incluem conjuntos de dados, algoritmos de computador, protocolos experimentais, especificações formais e vocabulários, registros legais, documentos governamentais, relatórios técnicos e comerciais, além de publicações semelhantes, bibliografias, listas de referências, catálogos bibliográficos e semelhantes.

A definição da superclasse para obra no FaBiO e no núcleo FRBR é: “Uma noção abstrata de uma criação artística ou intelectual”. As classes do FaBiO são uma reutilização dos conceitos FRBR com semântica mais restrita.

As classes WEMI são, ainda, subclasses no FaBiO, para descrever a natureza da entidade, como:

  • Subclasses de Obra: biografia, ensaio crítico, conjunto de dados (dataset);
  • Subclasses de Expressão: artigo, pôster de eventos, manual de instruções;
  • Subclasses de Manifestação: manifestação analógica, manifestação digital;
  • Subclasses de Itens: item analógico, item digital.

Ao declarar uma determinada entidade como sendo da classe Fabio:Biography (Biografia) usam-se as facilidades dos relacionamentos de classe RDF, para também se declarar essa entidade como sendo Fabio:Work (Obra), e um FRBRCORE:Work por meio dos relacionamentos de classes.

O FaBiO também expande o modelo FRBR fornecido pelo seu núcleo, permitindo relacionamentos adicionais entre as entidades WEMI, como da Obra diretamente para o Item, sem passar pelas entidades intermediárias da Expressão e Manifestação. Na Figura 01, apresenta-se um diagrama de relacionamento das entidades FRBR e FaBiO.

Figura 01 – Diagrama de Relacionamento no FaBiO

 

Fonte: adaptado de Shotton & Peroni, 2019, https://encurtador.com.br/fzO03

Ressalte-se que as classes FaBiO são estruturadas de acordo com o esquema FRBR para Obra, Expressão, Manifestação e Item. Propriedades adicionais foram acrescentadas para estender o modelo de dados FRBR ao vincular Obra e Manifestação (FABIO:TemManifestação e FABIO:éManifestaçãoDE), Obra e Item (FABIO:TemTudoRepresentado e FABIO:éTudoRepresentadoDE) e Expressão e Item (FABIO:TemRepresentação e FABIO: éRepresentadoPor).

Observa-se que uma Ontologia Bibliográfica serve para descrever coisas bibliográficas em RDF (Resource Description Framework), na Web semântica. A ontologia pode ser usada como uma ontologia de citação, de classificação de documentos ou simplesmente como uma forma de descrever qualquer tipo de documento, em RDF.

Tem inspiração nos vários formatos de metadados para descrição de documentos. Ademais, pode ser usado como um terreno comum para converter outras fontes de dados bibliográficos. Desta forma, amplia o campo de ação do bibliotecário de catalogação; bem como, sua capacidade de interagir ou dialogar com outras comunidades de conhecimento, informação e dados.

Portanto, a ontologia bibliográfica alinhada com FRBR (FaBiO) é um modelo para descrever entidades que são publicadas ou potencialmente publicáveis ??(por exemplo, artigos de periódicos, artigos de eventos, capítulos de livros) e que contêm ou são referenciados por referências bibliográficas.

Indicação de leitura:

IFLA Study Group on the Functional Requirements for Bibliographic Records. Functional Requirements for Bibliographic Records. Den Haag, 2009. http://archive.ifla.org/VII/s13/frbr/frbr_2008.pdf.

International Federation of Library Associations and Institutions. Functional requirements for bibliographic records: Final report. München: Saur, 1998. https://repository.ifla.org/bitstream/123456789/830/1/ifla-functional-requirements-for-bibliographic-records-frbr-en-1998.pdf

Coyle, K. Works, Expressions, Manifestations, Items: An Ontology. Journal code {4} lib, n.53, 2022. https://journal.code4lib.org/articles/16491

Shotton, D.; Peroni, S. FaBiO, the FRBR-aligned Bibliographic Ontology. Sparontologies, 19/02/2019. https://encurtador.com.br/fzO03  


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FERNANDO MODESTO

Bibliotecário e Mestre pela PUC-Campinas, Doutor em Comunicações pela ECA/USP e Professor do departamento de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP.